Magma

Publicação: 20/01/17
Dácio Galvão
[ daciogalvao@globo.com ]

O nome do cara é Tiganá Santana. Tem a tez preta, cabelo pixaim e desde cedo escreve poesia e fala vários idiomas. A mãe, pesquisadora de estudos afro-brasileiros ligada ao Centro de Culturas Populares e Identitárias, da Universidade Federal da Bahia, o estimulou a seguir a carreira diplomática. Preferiu estudar violão clássico optando para o cenário artístico. Em dada entrevista.diz: “No Ocidente (aqui entendido como cosmovisão), se você é negro, já se trata dum senão a priorii.”

Graduado em filosofia caminha com a crença descalça no terreiro de candomblé. É onde cumpre seu dever ritual exercitando a espiritualidade. Fala mais adiante consciente: “... há uma longa (talvez infindável) trilha pela frente, no que diz respeito ao combate efetivo ao racismo - e etnocentrismo  - que, sistematicamente, reduz ao nada as ontologias, culturas, pensares, sistemas e profundezas do outro (nesse caso, notadamente, o/a outro/a negro/a), donde se origina a marginalização e, mesmo, a criminalização do candomblé.” Recluso e avesso a consseções midiáticas passou a morar em Sampa depois de um período estudando no Senegal. Fixou residência saindo da zona de conforto ou do território criativo onde vivenciou a maioria das experiências.

Tiganá traduz o erudito sonoro sendo o primeiro compositor brasileiro autoral em dialetos kigongo e kimbundo. Células rítmicas e linguísticas ancestrais pipocando em mantras tecidos nas batidas do instrumento que construiu: o violão-tambor.

Quando leio alguma entrevista de Tiganá Santana tenho a estranha sensação de não querer prosseguir até o final, por certa preguiça e ou exigência de reflexão. Ao mesmo tempo percebo algo de impulsivo e irresistível seja por profundidade e propriedade de conteúdo. Então desemboca a pororoca da impossibilidade de não ir até o fim. 

Nascido na Bahia de todos os Santos ouviu João Gilberto, Dorival Caymmi  trazendo como todos artistas de lá o misturado caldeirão originário,  variados ritmos, toques e afins de diásporas de áfricas.       

Entre 2010 e 2015 trabalhou em Maçalê, The invention of Colour, Tempo & Magma títulos dos três CD’s que lançou em tempos de alta da indústria cultural. Segmento profuso e dominante que faz girar a roda do capital na economia da cultura, com frestas para surgir uma luminosidade negra, forte e consciente. Mais um  ingrediente na linguagem musical diversa que Mário de Andrade no século passado já vislumbrava como sendo a linguagem brasileira que mais mobiliza e sociabiliza. 

É de uma indescritível força estética ouvir Santana interpretar a canção “Sou eu”, de Moacir Santos e Nei Lopes, gravada por Djavan, no CD,  Ouro Negro. Quatro Negros Cavaleiros desbravando limites de fronteiras de humanização diante do apocalipse que se desdobra mundo afora nas atuações do estado islâmico, sindicato do crime, primeiro comando da capital, família do norte e comando vermelho.

Entre o mineral pastoso e rochas vulcânicas milenares pode pintar uma voz, quem sabe, uma voz-magma dizendo: “”Se uma estranha paz / te vestir de azul / não te espantes não sou eu.” O eu-Deus, eu-Vida!

Nesses tempos de barbáries nada mal ouvir, sonhar.com Tiganá!

Polêmicas e expectativas

Publicação: 20/01/17
SAUL SABBÁ
Diretor presidente do Banco Máxima


São Paulo - Donald Trump, o empresário americano que balançou a política mundial ao estrear - com vitória - nas urnas no ano passado, tomará posse como o novo presidente dos Estados Unidos nesta sexta-feira, 20. Candidato de declarações polêmicas, o presidente eleito tem mantido o estilo incendiário de campanha em suas declarações que antecedem a posse.

Em uma entrevista concedida ao periódico alemão Bild, Donald Trump sugeriu que a montadora BMW deveria desistir da ideia de construir uma fábrica no México em 2019, e instalar a nova planta da empresa em solo americano. Se não o fizesse, o governo norte-americano taxaria em 35% a importação dos veículos produzidos do outro lado da fronteira. Não demorou para que o ministro da Economia alemão, Sigmar Gabriel, devolvesse o conselho ao empresário: alegou que se os Estados Unidos aprovarem essa taxa de 35%, quem sofreria com isso seriam os próprios americanos, já que as peças utilizadas na indústria automotiva do país são produzidas em outros países

Além da celeuma ter potencial para ser um equívoco econômico, também não foi o primeiro equívoco de política externa cometido pelo futuro presidente. Antes de desafiar a BMW, cuja maior fábrica em todo mundo está na Carolina do Sul, e não na Alemanha, Trump defendeu em entrevista ao The Times, um acordo bilateral entre americanos e ingleses para o livre comércio. Como o parlamento inglês ainda não referendou o Brexit, o acordo bilateral não só é impossível, por ora, como foi interpretado como uma descortesia aos membros do bloco comum europeu. Os episódios são vistos como movimentos agressivos em direção à Zona do Euro.

Desejosos de que a sucessão de declarações mais radicais poderia ser apenas parte de uma estratégia de marketing pessoal de Trump, e que o presidente real - aquele que se apresentaria para administrar o país, se mostraria a partir da formação do gabinete de governo - mercado e especialistas esperaram as nomeações dos secretários antes de fazer projeções. Esperava-se um gabinete de notáveis, que aquietasse os ânimos com seus currículos. Não é o que tem ocorrido. Muitos continuam com o pé atrás.

Quase todos os membros indicados por Trump para o seu gabinete apresentam algum tipo de controvérsia, aos olhos de quase todo mundo. Do secretário de proteção ambiental, que defende o uso de petróleo e gás e menos regulações nesse sentido, até ao secretário de comércio que defende redução de acordos de livre comércio e também o afastamento da China, atualmente um grande parceiro econômico dos Estados Unidos, Trump vem colecionando desconfianças justamente no momento que precisa construir musculatura política. Quando tomou posse, Obama tinha confiança de 84% da população, Clinton 67% e George W. Bush 61%. Donald Trump chega ao Salão Oval com 40%.

Recentemente a economia americana recuperou espaço e tomou fôlego. É um momento em que o mundo aguarda, entre curioso e desconfiado, para saber quem será de fato o presidente americano: o Trump do discurso contundente de campanha, ou aquele homem de negócios de sucesso, que poderá gerir o governo americano como uma empresa próspera, propiciando que os Estados Unidos saiam definitivamente da crise econômica iniciada em 2007.

A escolha é dos investigados

Publicação: 20/01/17
Com quase um terço dos senadores investigados na Lava-Jato, o Senado vai ditar o ritmo da nomeação do novo ministro do STF, que substituirá Teori Zavascki. Candidato mais cotado à presidência da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE) não quer ficar com a pecha de protelador do processo. Diz que, sob sua eventual gestão, o indicado pelo presidente será aprovado em 15 dias.

Contra aborto e drogas
Para além da Lava-Jato, aliados de Temer da ala conservadora estão preocupados com a posição do futuro ministro do STF em relação a questões como a legalização do aborto e de drogas, em análise na Corte. Querem que o escolhido seja alinhado ao que defende o grupo. Reclamam que a atual composição do Supremo tem maioria progressista. Atribuem a nomeações do PT. Um nome defendido por essa ala para o lugar de Teori é o do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Filho. Integrante do setor mais conservador da Igreja Católica, ele tem a simpatia de evangélicos por suas posições.

Busca das causas
Parlamentares da base levantam hipótese que ganhou as redes sobre a queda do avião em que estava Teori: "Nenhuma linha de investigação pode ser descartada, falhas ou sabotagem. Ele é potencial alvo de atentados, assim como todos que estão à frente da Lava-Jato", diz o tucano Cássio Cunha Lima, futuro vice-presidente do Senado.

"Todo mundo que a CCJ. Sou pré-candidato à presidência do Senado, vou ficar o mais distante possível desta decisão. A bancada do PMDB vai escolher”
Eunício Oliveira
candidato a presidente do Senado, sobre a disputa da CCJ, que sabatinará o ministro do STF.

Dá uma ajuda aí
A base aliada de Temer faz intensa pressão para que o governo anuncie correção do Imposto de Renda "considerável", acima do 0,5% estudado pela equipe econômica. Parlamentares dizem que precisam dar ao menos uma notícia boa aos eleitores.

Afasta de mim...
Se for reeleito à presidência da Câmara, Rodrigo Maia quer manter distância da polêmica sobre descriminalização das drogas. Há pedido, na Mesa Diretora, para formar comissão de projeto do PV sobre o tema. Maia deve sentar em cima.

Romance de cavalaria
A insistência de Rogério Rosso em manter sua candidatura à presidência da Câmara levou dirigentes do PSD a compará-lo a Dom Quixote, o desajuizado personagem de Cervantes que, ignorando os fatos, cria suas próprias aventuras.

Sem recibo
Aliados de Michel Temer defendem que ele deve indicar para o STF um nome não evidentemente ligado ao governo. Acreditam que, se escolher alguém próximo demais, aparentará interferência na Lava-Jato e trará a crise para o Planalto.

Minoria e rachada
A esquerda não se entende. O PSOL aponta o dedo para o PCdoB. Diz estranhar a posição "pragmática" do partido de apoiar a reeleição de Rodrigo Maia ao comando da Câmara. Alega que Maia foi aliado de Eduardo Cunha até a última hora e que, ao se aliar a ele, o PCdoB, com 12 deputados, dificulta candidaturas progressistas.

Consulta pública do Senado sobre a legalização da maconha ganhou a internet. Resultado parcial até a noite de ontem: 34.125 a favor e 1.262, contra.


Mensagem de esperança para os jovens

Publicação: 20/01/17
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo Metropolitano de Natal

Queridos irmãos e irmãs!

No último dia 13, o Papa Francisco endereçou uma carta aos jovens por ocasião da apresentação do Documento Preparatório para a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que acontecerá em outubro de 2018, em Roma. O tema do Sínodo será: “Os jovens, a fé eu discernimento vocacional”.

Na carta, o Papa Francisco dirige aos jovens de forma afetuosa: “Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração”. A atenção do Papa Francisco aos jovens vem demonstrada desde os inícios de seu Pontificado, especialmente na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013, quando, dirigindo-se ao Episcopado Brasileiro, assim se expressou: “eu rezei por vocês, por suas Igrejas, por seus presbíteros, religiosos e religiosas, por seus seminaristas, pelos leigos e as suas famílias, em particular pelos jovens e os idosos, já que ambos constituem a esperança de um povo: os jovens, porque eles carregam a força, o sonho, a esperança do futuro, e os idosos, porque eles são a memória, a sabedoria de um povo”.

Com essa carta aos jovens, o Papa Francisco inicia um novo caminho sinodal para toda a Igreja e apresenta o Documento Preparatório como “bússola” ao longo deste caminho. Nele, apresentado na coletiva de imprensa, no Vaticano, no dia 13 de janeiro, encontramos três capítulos e o questionário a ser enviado ao Conselho das Igrejas Orientais Católicas, às Conferências Episcopais, aos Dicastérios da Cúria Romana e à União dos Superiores Gerais. Tal Documento dá início à fase de consulta de todo o Povo de Deus. O objetivo é coletar informações sobre a hodierna condição dos jovens nos mais variados contextos em que vivem, para poder discernir adequadamente em vista da elaboração do Instrumentum Laboris. Na apresentação aos jornalistas, o Secretário geral do Sínodo dos Bispos, o Cardeal Lorenzo Baldisseri, afirmou que o Documento é endereçado a todos os jovens do mundo, na mais ampla dimensão e compreensão e participação.

Na Introdução ao Documento, a imagem do “discípulo amado” foi escolhida para ser ícone do caminho sinodal: o Apóstolo São João “é tanto a figura exemplar do jovem que decide seguir Jesus, como ‘o discípulo a quem Jesus amava’ (Jo 13, 23; 19, 26; 21, 7)”. Seguir Jesus é a proposta que a Igreja deverá sempre colocar em pauta. “A figura de João pode ajudar-nos a compreender a experiência vocacional como um progressivo processo de discernimento interior e de amadurecimento da fé, que leva a descobrir a alegria do amor e a vida em plenitude no dom de si e na participação no anúncio da Boa Notícia” (SÍNODO DOS BISPOS. Documento preparatório para a XV Assembleia Geral Ordinária, 2017). O Documento se divide em três partes. Seguindo o método caro ao Papa Francisco, Ver-Julgar-Agir, na primeira parte coloca-se na escuta da realidade, como título “Os jovens do mundo de hoje”. Na segunda parte, “Fé, discernimento, vocação”, se evidencia a importância do discernimento à luz da fé para chegar às escolhas de vida que correspondem à vontade de Deus e ao bem da pessoa. Na terceira parte concentra a atenção sobre a ação pastoral da comunidade eclesial, com o título “A ação pastoral”.

O Documento preparatório se põe em continuidade com o caminho do pontificado de Papa Francisco. Assim resumiu o Secretário Geral do Sínodo dos Bispos: “Ele se põe em continuidade com o caminho que a Igreja está percorrendo sob a guia do Magistério do Papa Francisco. A centralidade da alegria e do amor, muitas vezes sublinhada no texto, faz referências claras à Evangelii Gaudium e à Amoris Laetitia. Não faltam referências, também, à Laudato si’ e ao ensinamento de Bento XVI.

    Faço votos de que, acolhendo esse Documento preparatório do próximo Sínodo, tenhamos luzes que ajudem no nosso trabalho pastoral junto aos jovens, dando-lhes esperança e uma mensagem de confiança, para que tenham de fato, um futuro cheio de realizações para o bem e para a paz.

Amor a Roma

Publicação: 20/01/17
Nei Leandro de Castro
escritor


Roma é uma exuberância de beleza e história. Como faz bem andar pelas ruína do Forum romano, onde os manda-chuvas do mundo deitavam e rolavam. Faz bem à alma saber que Virgílio, no primeiro século depois de Cristo, viver por ali seus 51 anos de poesia. Mais adiante, o Coliseu ainda guarda a sua majestade e a lembrança de gladiadores em grandes duelos. As praças exibem esculturas de Berlini e fontes cheias de luz. Na Fontana de Trevi, Anita Ekberg nos encharcou de sensualidade, no seu famoso banho em La Dolce Vita, obra-prima de Fellini, Às margens do Tibre, ergue-se o Castelo de Santo Ângelo, com construção iniciada no ano 139 d.C. Neste castelo, o florentino Benvenuto Cellini defendeu Roma de um ataque dos franceses e mostrou que era tão bom na espada quanto nas suas esculturas. Na Praça de Espanha, pequenas multidões repousam em suas escadarias, bem ao lado da casa onde morou o poeta Keats.

Em Roma, encontrei o jornalista Dino dell’Acunya, que hospedei algumas vezes no Rio de Janeiro. Nos anos 70, Dino era um jornalista do Corriere della Sera, com pouco dinheiro e apaixonado pelo Rio. Hoje, graças a uma herança, dell’Acunya continua jornalista por amor à profissão, mas não precisa de um centavo do jornal em que trabalha. Ele nos levou ao Da Mario, cujas paredes estão cobertas de fotos de celebridades abraçadas ao dono do restaurante. Parece uma advertência: só entra aqui quem tem o bolso forrado. Discretamente, passei os olhos na carta de vinhos e tomei um susto: havia um Brunello de Montalcino de 750 euros, ou seja, mais de 2.500 reais. Em meio a uma boa conversa, lembranças do Rio de Janeiro e de namoradas antigas, foi servido um verdadeiro banquete romano. O garçom não apresentou a conta. Dino fez um sinal discreto e com certeza a conta foi pendurada. Conversamos um pouco mais entre licores e café, e Dino quis saber da poesia feita no Rio Grande do Norte. Falei principalmente das poetas, todas elas, a partir de Zila Mamede. Ele se mostrou muito interessado. Atualmente, solteiro, 55 anos de idade, Dino dell’Acunya disse que vai programar uma viagem a Natal gostaria de ser apresentado às poetas potiguares, particularmente às belas seridoenses.

O amor a Roma pode sofrer abalos quando o turista se defronta com garçons e motoristas de táxi. Eita raçazinha desgraçada. Os garçons são grosseiros, querem mandar nos nossos pedidos. Os motoristas de táxi parecem sofrer da síndrome de Renan Calheiros: são arrogantes e marreteiros. E olhe que você está pagando muito caro por uma corrida pequena ou prato sem espalhafato. Mais: um hotelzinho duas estrelas, longe do centro histórico, sem café da manhã, custa em Roma o preço do mais luxuoso hotel da nossa Via Costeira. Durma-se com um barulho desses.

Mas é muito bom estar em Roma, andar a pé, caminhar pela sua história. Ou pegar um city tour, sem guia. Um desses ônibus me levou ao Vaticano, fez uma parada na Praça de São Pedro e... quem estava lá? O papa falando para uma multidão de encher três estádios do Maracanã.

Citação da semana:

“Sem você, Moreninha, eu não sou ninguém.” (Roberto Roque)