Robin Hood às avessas

Publicação: 22/10/17
Frei Betto
Escritor


Reforma da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!

Este o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a determinados setores da economia, como a indústria automobilística. Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.

Na opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa “eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos (legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções fiscais para vários setores.”

O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.

O Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018 seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.

A cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12 vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$ 43,3 bilhões.

O estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.

Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da máquina pública.

Grajew acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”, mas faz uma ponderação: “Isso tem que ser acompanhado de justa distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma distribuição, você não muda o quadro das desigualdades (sociais).”

A Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica: “Uma revisão das alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A nossa tabela está congelada há 8 anos.”

A distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha 320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco salários mínimos (R$ 4.685).


O labirinto de nossos erros

Publicação: 22/10/17
Cristovam Buarque
Senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).


O jornalista Roberto D’Ávila me perguntou como chegamos à situação em que nos encontramos e na qual parecemos aprisionados.

A sensação é de que fomos cometendo erros, como se dobrássemos esquinas caminhando por um labirinto, sem saber o caminho de volta, ainda menos de ida: para fora das amarras que nos impedem de progredir civilizada e sustentavelmente.

O labirinto se inicia com a escravidão e o latifúndio, mas não temos desculpas para os erros dos caminhos tomados nas últimas décadas, que foram contaminando o Estado, a economia e a sociedade por erros na política.

Dobramos uma esquina do labirinto ao conquistarmos a democracia e fazermos uma Constituição para apagar o passado autoritário, mas sem usá-la para construir o futuro da nação. Garantimos direitos sem determinar deveres, sem definir sentimento de coesão nacional.

Ficamos presos ao imediato de cada grupo sem instrumentos nem vontade para formular e construir o rumo para todos no longo prazo.

Nos aprofundamos no labirinto por causa do endividamento público e privado, sem responsabilidade, de acordo com nossos recursos; derrubamos florestas, secamos rios; transformamos nossas cidades em “monstrópoles” divididas por “mediterrâneos invisíveis”. Protegemos com subsídios empresas ineficientes, sem buscar aumentar produtividade, competência, inovação.

Elegemos governos progressistas, mas eles não fizeram as reformas necessárias; dobramos uma esquina do labirinto usando o Estado para financiar campanhas eleitorais com propinas e dando emprego a afilhados dos políticos e a filiados dos partidos, sem respeito à competência dos nomeados.

Depois do impeachment, no lugar de recuperar a credibilidade na política, pedida por milhões nas ruas, embrenhamo-nos no labirinto, com o vice-presidente aparecendo sob suspeita de conivência com a corrupção.

O mergulho no labirinto foi aprofundado por parlamentares que aprovam leis sem o necessário rigor, olhando o imediato e seus próprios interesses eleitorais; cortamos verba para setores prioritários e liberamos recursos públicos para financiar campanhas eleitorais.

Os tribunais, que trazem a esperança do enfrentamento da corrupção, agravam o caminho labiríntico ao se viciarem em privilégios e ao criarem instabilidade jurídica.

A injustiça social, a impunidade legal, o incentivo obsessivo ao consumo, a falta de bons exemplos vindos dos quadros dirigentes, aprofundaram a marcha adentro no labirinto. Para sair dele, seria fundamental dispor de interpretações atualizadas sobre a crise da modernidade e o futuro do Brasil, mas nossas universidades parecem aceitar passivamente o contínuo caminhar no labirinto, sem inovação ou ineditismo e até sem respeito ao mérito.

O labirinto é o resultado de sucessivas escolhas erradas ao longo da história, mas a principal foi o descuido com a educação de nossas crianças, do nascimento até a vida adulta.


Repercussões do tratamento oncológico

Publicação: 22/10/17
Laíse Santos Cabral de Oliveira
Psicóloga - Casa Durval Paiva

Durante as internações hospitalares para realizar o tratamento do câncer, quando o paciente é uma criança/adolescente, devemos lembrar que além de cuidar do enfermo, deve-se ter uma atenção importante aos familiares. Danos causados pela doença também são capazes de afetar os pais de modo intenso, pois pode haver uma mudança na rotina doméstica, no aspecto financeiro e profissional dos cuidadores, tendo potencial até de afetar a vida conjugal dos pares, o que algumas vezes causa certa desestruturação na família. Em geral, as famílias se envolvem com tudo o que acontece, do momento do diagnóstico até as intercorrências do tratamento, tudo gira ao redor do doente, de seu estado físico e psíquico. Assim, há angústia quando o paciente passa mal, sustos caso algo diferente aconteça e superproteção no cotidiano familiar.

É importante ter um cuidado especial com os acompanhantes que passam por um momento de crise, dada a ocorrência de um desequilíbrio entre a quantidade de ajustamento necessário de uma única vez e os recursos psíquicos imediatamente disponíveis para lidar com ele. O desequilíbrio na dinâmica familiar é muito comum em situações em que o paciente mora em um município diferente daquele que realiza o tratamento e tem internações recorrentes, pois diante da necessidade da criança/adolescente ter uma atenção integral de pelo menos um familiar, na maioria das vezes, a mãe, essa acompanhante se ausenta do trabalho, das atividades domésticas, dos grupos sociais que frequentava e até mesmo fica distante do marido e dos outros filhos.

Em alguns casos, que são acompanhados pela Casa Durval Paiva, após o diagnóstico de câncer de um dos filhos, a família passa por uma nova configuração familiar. Geralmente, o pai fica responsável pela manutenção financeira da família, aumentando a cobrança pessoal, pois, se antes a família tinha a renda do pai e da mãe, agora ele será o único responsável pela aquisição dos recursos. Os outros filhos precisam ter uma pessoa de referência que assuma os cuidados. Comumente são as avós ou tias que ocupam esse lugar, enquanto a mãe está acompanhando o filho doente. E, por vezes, surgem conflitos conjugais, principalmente pelo casal estar passando por um momento de fragilidade emocional e ter dificuldade de solucioná-los.

Por vezes, o familiar que acompanha o paciente (geralmente, a mãe) quer poupar aquele outro que está distante (comumente, o pai), por imaginar que vai minimizar o sofrimento do outro se ele não tiver acesso às informações. Nessas situações, pode vir à tona sentimentos de culpa por omitir ou por imaginar que tais notícias causarão sofrimento. O familiar que não vivencia a rotina do tratamento tem o direito violado de ter acesso às informações clínicas do paciente, dificultando que ele entre em contato com o sistema de crenças – com a sua visão diante da doença e da vida - possibilitando mudanças nos estigmas relacionados ao câncer.

É importante que o psico-oncologista trabalhe o fortalecimento dos vínculos afetivos entre família e paciente, tendo como objetivo facilitar o diálogo verdadeiro, capacitando-os a compartilhar experiências e emoções, como também a participação dos familiares nas decisões junto ao paciente. É pensar que através de relações e vínculos saudáveis, eles podem ter mais facilidade para seguir juntos, formando uma grande parceria. No momento em que se atende o filho, eles podem compartilhar as dores, medos e angústias para que estas possam ser amenizadas.

As perdas, fantasias e medos são aspectos que podem ser trabalhados pela equipe multidisciplinar através da clarificação e comunicação. A sociedade silencia a dor da alma porque é ameaçadora. O psico-oncologista deve trabalhar com as crenças individuais que cada um delas apresenta. Para compreender como uma pessoa lida com o adoecimento de alguém muito querido é necessário entender como ela interpreta a doença.



Atividade física, eficiência mental

Publicação: 22/10/17
Jorge Boucinhas
Médico  e  Professor

Pensa-se muito em manter o cérebro ativo empregando exercícios mentais, mas a revisão dos estudos pertinentes revela que se precisa ainda mais.  Nos últimos decênios pesquisas mostraram que adultos mais velhos podem melhorar seu desempenho além do até há pouco tempo julgado possível.   Isso se conseguiria com a prática de exercícios físicos, com bom relacionamento social e com posicionamento positivo perante os fatos da vida quotidiana.

O presente Artigo foca a primeira dessas formas de agir, e, realmente, verificou-se que muitos trabalhos haviam subestimado a ligação entre lide corporal e capacidade de aquisição de conhecimento.

Começando a mudar a tendência, útil pesquisa publicada no começo do século a neuropsiquiatra Kristine Yaffe, da University of California San Francisco, EUA, investigou 5.925 mulheres com mais de 65 anos.  As participantes não tinham deficiências físicas, haviam sido testadas quanto à existência e grau de problemas cognitivos e tiveram suas performances físicas avaliadas.  Posteriormente se lhes solicitou o preenchimento de questionário sobre a prática de 33 atividades físicas.  Depois de período de tempo variando entre 6 e 8 anos se lhes reavaliou a aptidão cognitiva.  O grupo das mais ativas mostrou declínio médio 30% menor que o das mais sedentárias.  Mais ainda, dentre as que caminhavam, a cognição relacionava-se diretamente à distância andada, mas não havia relação com a velocidade de marcha, o que levou a se acreditar que mesmo níveis mais suaves de movimentação podem ser úteis no que tange à limitação do declínio intelectual. 

Em investigação posterior, executada na Harvard University, foi examinada a relação entre atividade física e mudanças cognitivas em 16.466 enfermeiras com mais de 70 anos.  Registrou-se que quanto tempo elas gastavam, semanalmente, em uma série de atividades físicas, especialmente tendo-se atentado para ritmo e tempo de caminhadas.  Como resultado, observou-se que houve relação positiva significativa entre a energia gasta nas práticas físicas e a conservação das faculdades mentais.

Em outros estudos começou-se a observar o que acontece em períodos de tempo mais dilatados.  Nos começos da presente centúria psiquiatras da London University, UK, estudaram 1.919 indivíduos de ambos sexos, tendo enfocado a atuação de exercícios corpóreos nas atividades de lazer, dos 36 aos 43 anos, sobre as mudanças de memória acontecidas dos 43 aos 53.  As análises evidenciaram que o envolvimento do corpo quando dos 36 anos estava associado a mais altas pontuações de memória em testes efetuados aos 43.  Também estava ligado a menor perda progressiva da memória dos 43 aos 53 anos.  Os resultados obtidos também sugeriram possibilidades de benefícios para aqueles que começaram a se exercitar empós essa idade.

Em estudo publicado há 1 década, Stanley Colcombe, psicólogo da Illinois University, coordenou equipe que investigou a influência da ginástica em mudanças na estrutura cerebral.  O experimento durou meio ano e abarcou 59 pessoas sedentárias mas saudáveis, idades de 60 a 79 anos.  As imagens cerebrais depois do treinamento com ginástica mostraram que mesmo exercícios relativamente breves restauravam algumas das perdas de volume cerebral associadas com o envelhecimento normal.

Importante deixar bem claro que já em trabalho anterior, de 1995, verificara-se que forçar o sistema cardiocirculatório com exercícios aeróbicos estrênuos poderia ser ruim para o encéfalo. Tendo trabalhado com idosos de 70 a 79 anos, neurocientistas cognitivos da Johns Hopkins University haviam avaliado a capacidade intelectual dos participantes com uma bateria de testes de linguagem, memória verbal e não verbal, habilidade de conceituação e coordenação espacial, tendo encontrado que um preditor seguro para queda cognitiva eram as atividades extenuantes.  Isso se constituiu em descoberta aclaradora e desmistificadora dos excessos.  Em outras palavras poder-se-ia dizer: mexer o corpo um pouco ou moderadamente melhora o raciocínio, já o exagero seria tão ruim quanto atividade corporal zero ou mínima.  Nem tanto nem  tão pouco!  De volta à paródia com o dito do Buda: o caminho correto é o caminho do meio!

Hoje já há um relativo consenso (relativo, graças a Deus, pois já se disse que toda unanimidade é burra!) de que treinar-se fisicamente estimula as funções intelectivas, embora ainda não estejam bem claros todos os mecanismos envolvidos.  Porém, se não existe (ainda) a solução definitiva para o declínio, mexer o corpo, sem exageros, está bem à mão como uma das formas de ajudar na manutenção da juventude cerebral!  É só por em prática!  Modos de agir não fazem falta!



O novo ano e o guerreiro da luz

Publicação: 22/10/17
Paulo Coelho
escritor
paulo@paulocoelho.com.br


Um guerreiro da luz nunca esquece a gratidão. O novo ano do guerreiro começa a cada amanhecer, e durante 365 dias passados, foi ajudado pelos anjos; as forças  celestiais colocaram  cada coisa em seu lugar, e permitiram que ele pudesse  dar o melhor de si. E foi ajudado por seus amigos, que estiveram do seu lado.

Os estranhos comentam, ao notar que o guerreiro consegue muito mais do que a maioria das pessoas: "como tem sorte!". 

Sim, mas a sorte é outro nome para Graça. Por isso,   quando o velho ano termina, ajoelha-se e agradece o Manto Protetor a sua volta.

Sua gratidão, porém, não se limita ao mundo espiritual; ele jamais esquece dos que estiveram juntos com ele no campo de batalha.

Um guerreiro não precisa que ninguém lhe recorde a ajuda dos outros; ele se lembra sozinho, divide com eles a recompensa e as decisões para o futuro.

Aprendendo a esperar
Um guerreiro da luz respeita o principal  ensinamento do I Ching: "a perseverança é favorável".

Mas sabe que perseverança nada tem a ver com  a insistência. Existem épocas que os combates se prolongam além do necessário, exaurindo suas forças e enfraquecendo seu entusiasmo.

Nestes momentos,o guerreiro reflete: "uma guerra  prolongada termina destruindo o próprio país vitorioso."

Então retira suas forças do campo de batalha, e dá uma trégua a si mesmo. Persevera em sua vontade, mas sabe esperar o melhor momento para um novo ataque.

Um guerreiro sempre  volta à luta. Mas nunca  faz  isto por teimosia - e sim porque nota a mudança no tempo.

Entendendo as próprias qualidades
Um  guerreiro da luz conhece seus defeitos. Mas conhece também suas qualidades.

Alguns companheiros queixam-se o tempo todo: "os  outros têm mais oportunidade que nós".

  Talvez tenham razão; mas um guerreiro não se deixa paralisar por isto; ele procura valorizar ao máximo as suas virtudes.

Sabe que o poder da gazela é a habilidade de suas pernas. O poder da gaivota é sua pontaria para atingir o peixe. Aprendeu que um tigre não tem medo da hiena, porque é consciente de sua força.

Um guerreiro procura saber se pode contar com estas três virtudes: habilidade, pontaria, e consciência de si mesmo. 

 Se as três estão presentes, ele não hesita em seguir adiante. Se não estão, adestra-se até que possa confiar em suas atitudes.

Aprendendo o objetivo
Um guerreiro da luz, antes de entrar num combate  importante, pergunta a si mesmo: "até que ponto desenvolvi minha habilidade?"

Ele sabe que as batalhas que travou no passado sempre  terminaram  por ensinar alguma coisa. Entretanto,  muitos  destes ensinamentos  fizeram o guerreiro sofrer além do  necessário.  Em mais de uma vez, ele  perdeu seu tempo, lutando por uma mentira.

Mas os vitoriosos  não  repetem  o mesmo erro.

Um  guerreiro não pode recusar a luta; mas sabe  também  que não deve arriscar sentimentos importantes, em  troca  de recompensas que não estão a altura do seu amor.

Por isso o guerreiro só arrisca seu coração por algo que vale a pena.