Campanha da Fraternidade 2017

Publicação: 24/02/17
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo Metropolitano de Natal


Queridos irmãos e irmãs!

Há mais de 50 anos, a Igreja no Brasil vive a experiência da Campanha da Fraternidade (CF). Ela acontece durante o tempo da Quaresma. Este ano o tema é: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15). A CF 2017 tem como Objetivo Geral: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”. Durante a Quaresma, além dos encontros nas casas, temos a Via-sacra, encontros nas escolas, encontro para jovens, através de subsídios preparados com o tema da CF 2017.

A Campanha da Fraternidade está relacionada com a Quaresma por ser um tempo especial de conversão. “É um tempo em que fazemos caminho para a Páscoa, motivados pela Palavra e unidos aos sentimentos de Jesus Cristo, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade fraterna” (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2017. Texto Base. Brasília, Edições da CNBB, 2016, p. 16). A motivação para o tema da CF 2017 está expresso nessas palavras do Texto Base: “Uma pessoa de fé que faz sua caminhada quaresmal rumo à Páscoa, ao tomar consciência da realidade de como são tratados os biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente” (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2017. Idem, p. 19).

Bioma é “um conjunto de vida (animal e vegetal) que se constitui pelo agrupamento de tipos de vegetação identificáveis numa região, com condições geográficas e climáticas similares. Isso resulta em uma diversidade biológica própria. Dessa forma, um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, onde a vegetação é similar e contínua, o clima é mais ou menos uniforme e cuja formação tem uma história comum” (CNBB NE 2. Campanha da Fraternidade 2017. Equipe de Campanhas. Provisual Gráfica e Editora, João Pessoa, 2017, p. 24)

O mapa dos biomas brasileiros compreende: Bioma Amazônia, que é o maior bioma do Brasil, Bioma Caatinga, que abrange predominantemente território de oito estados do Nordeste, mais o norte de Minas Gerais, o Bioma Cerrado, o bioma brasileiro mais antigo, cuja vegetação é encontrada principalmente na região Centro-Oeste, Bioma Mata Atlântica, que abrangia uma área equivalente a 1.315.460 km², sendo uma das áreas mais ricas em biodiversidade e mais ameaçada do planeta, Bioma Pantanal, considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta, Bioma Pampa, cujo significado, de origem indígena, é “região plana”, presente nos Campos da Região Sul.

Diante da situação dos biomas brasileiros, a Igreja é chamada a julgar toda a situação a partir da Sagrada Escritura e do seu rico magistério. Embora a Sagrada Escritura não se preocupe diretamente com os biomas, contudo, “oferece elementos que iluminam a temática a partir do projeto de Deus nela apresentado” (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2017. Idem, p. 73). Desde a apresentação da harmonia original do mundo criado e querido por Deus, passando pela experiência dolorosa do rompimento da aliança e o pecado, aos tempos messiânicos da restauração de tudo em Cristo, a Palavra de Deus incita ao louvor e à responsabilidade pela terra, dom de Deus para o homem e a mulher. Também em seu Magistério a Igreja nos chama a um compromisso de cuidar da casa comum. Do Papa Beato Paulo VI, passando pelos pontificados de São João Paulo II e de Bento XVI, até chegar à Encíclica Laudato Sí, de Papa Francisco, temos uma trajetória de onde se conclui : a partir da fé cristã, é grande a contribuição que pode ser dada às questões da ecologia integral e, em particular, à convivência harmônica com os nossos biomas.


Em busca do tempo perdido

Publicação: 24/02/17
Nei Leandro de Castro
Escritor


Aos 19 anos, ganhei um prêmio literário nacional, com direito a uma viagem a qualquer país da América do Sul. Escolhi Argentina, passando pelo Rio de Janeiro. Minha paixão pelo Rio foi à primeira vista, com direito a conhecer Maria Lina, que foi minha namorada e a Madame Lage, uma viúva milionária. Se eu fosse esperto como o maior pensador de Lagoa Seca, eu seria hoje um milionário, herdeiro da viúva que não tinha filhos. Ela me levava para o apartamento de suas amigas, na Avenida Atlântica, e eu era olhado como um troféu. Nas despedidas, roçava os meus lábios com beijos e eu não entendia nada.

Algo parecido ocorreu comigo em Lisboa, onde passei oito meses, fazendo um curso de pós-graduação na Faculdade de Lisboa. Aluguei um quarto na Rua do Malpique, hoje Rua João Soares. Nas noites de frio, a dona do apartamento, dona Manuela, vinha ajeitar minha coberta e fazia carícias no jovem que aparecia estar em sono profundo.

Foi em Lisboa que conheci Esmeralda. Era véspera do Natal e eu gastei todo o dinheiro que tinha em passeios e restaurantes com ela. Véspera do Ano Novo, ela disse que ia para o interior, visitar parentes, e eu fiquei só e abandonado na cidade. Sem um centavo, eu me alimentei vários dias de Nescafé com muito açúcar. No primeiro dia útil, fui ao Restaurante Monte Castelo, onde costumava fazer refeições com Esmeralda. Expliquei minha situação ao garçom, que chamou o mâitre.

- Quando pagarás? – perguntou o mâitre.

Eu informei que pagaria no próximo dia 5 do mês, quando recebesse a mensalidade de minha bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

- Podes pedir o que quiseres – disse o mâitre.

Comi mais do que Volonté em festas de lançamentos de livro.

Também passei por problemas em Paris. Essa bela cidade é terrível quando não se tem dinheiro no bolso. Minha refeição diária era um sanduíche, até que descobri os restaurantes marroquinos, com seus pratos abundantes e preços bem baratos. James Joyce também teve problemas de falta de dinheiro em Paris. Mas ele era cara-de-pau. Pedia dinheiro aos amigos. E quando algum amigo atrasava na remessa do cheque, ele escrevia: “Por favor, não atrase na remessa do meu dinheiro.”

Aos 28 anos, com sete anos de um casamento que quase me destruiu, fugi de Natal para o Rio de Janeiro. Moacy Cirne já morava no Rio e me acolheu com amizade. Fique morando num apartamento da Rua Silveira Martins que ele dividia com amigos. Foram tempos  difíceis. Todos os dias, eu saía à procura de emprego e não conseguia nada. Até que o poeta Álvaro de Sá conseguiu para mim um emprego na Editora Bruguera, que ficava em Ramos. Depois fui transferido para uma filial da editora, na Rua México, e as cansativas viagens de ônibus tiveram seu fim.

Citação da semana:

 “Aí Deus criou o beijo exatamente pros casais pararem de falar tanta besteira.”

(Roberto Rodrigues Roque)

O primeiro embate de Serraglio

Publicação: 24/02/17
A escolha de Osmar Serraglio (PMDB) para o Ministério da Justiça incomodou a Funai, vinculada à pasta. Ele foi relator do projeto de emenda constitucional (PEC 215) que esvazia o órgão ao passar ao Congresso a palavra final na demarcação de terras indígenas. Nomeado em janeiro, o presidente da Funai, Antonio Castro, já confrontou a bancada ruralista ao condenar a emenda. Deputados prometem pedir sua demissão ao novo ministro.

No muro
A sucessão de José Serra no Itamaraty só deve ser decidida após o feriado de carnaval. Ontem à noite, dois nomes eram os mais fortes: o senador Aloysio Ferreira Nunes (SP) e o embaixador Sérgio Amaral, atualmente em Washington. Durante a tarde, também teve alta cotação o senador Tasso Jereissati (CE), mas ele fez chegar ao PSDB que não aceitaria o posto. Aloysio e Serra tiveram um encontro com o presidente Temer no Palácio da Alvorada. Se nomeado, Aloysio poderá ser um ministro transitório, pois planejava disputar o governo paulista em 2018. Teria de deixar o cargo para concorrer. E o PSDB perderia uma vaga no Senado - seu suplente, Airton Sandoval, é do PMDB.

Tchau, queridos

Durou pouco a passagem de Alberto Goldman (PSDB) pela Comissão de Anistia. Nomeado conselheiro em setembro, o ex-governador paulista entrou em confronto com colegas por divergir do pagamento de indenização a ex-perseguidos políticos. Deixou o cargo alegando ter outros afazeres. E disse que não imaginava o peso da carga de julgar os processos.

"O PMDB deveria entregar todos os ministérios que chefia hoje e ajudar o governo de outras formas”
João Arruda
Deputado e segundo vice-presidente do PMDB, em meio à insatisfação da bancada do partido  com os atuais espaços ocupados no governo.

Caixa de surpresas
A atuação do operador foragido Jorge Luz incluiu transações com ministros argentinos nos governos de Carlos Menem (1989-1999) e do casal Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015). Quando capturado, seu depoimento poderá revelar suas andanças pela Argentina como representante dos interesses do PMDB do Senado na Petrobras.

Reforma
José Aníbal perdeu a vaga no Senado com a volta de José Serra, mas deve ser abrigado pelo governo paulista. Geraldo Alckmin pretende trocar os titulares de quatro secretarias depois do carnaval, e Aníbal ficará com uma das vagas.

Agrado ao curral eleitoral
Em meio à crise política e econômica, os líderes dos partidos fizeram um pedido especial ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia: querem que ele reclame no Senado melhor tratamento aos prefeitos que visitam a Casa. "É muita burocracia para entrar", dizem.

O conselheiro de Temer
A bancada do PMDB culpa Moreira Franco pela escolha de Osmar Serraglio para a Justiça. Diz que ele joga contra o partido e faz dupla com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, seu genro. Atribui a ele a notícia da nomeação de Aguinaldo Ribeiro (PP) como líder do governo, abrindo espaço ao centrão.

Know-how
Em Lima, o juiz Sérgio Moro elogiou empreiteiras que fizeram acordos de delação com a Lava-Jato e deu a magistrados peruanos sua receita para tratar empresas envolvidas em corrupção: estimular as que decidem ajudar a Justiça e reconhecer delitos, e não castigá-las mais do que aquelas que não colaboram.

O grito "Fora, Temer!" continua no carnaval, mas com uma atualização. Foliões acrescentaram ao ataque contra o presidente: "Mas obrigado pelo FGTS".


Um presídio sueco no Brasil

Publicação: 23/02/17
Edilson França
Professor e advogado


Vídeo que vem circulando nas redes sociais, revelando detalhes do eficiente e moderno sistema prisional sueco, tem deixado muitos brasileiros boquiabertos com a quase perfeição ali alcançada. Por outro lado, menos perplexos, estão aqueles que conhecem o nosso pouco divulgado método APAC e, por conhecê-lo, sabem que nesse Brasil da corrupção, da progressiva desigualdade social e da subsequente e generalizada violência, existe algo parecido com o modelo prisional escandinavo.

Evidente que esse nosso exemplo, tal como concebido e adotado pela Associação de Proteção e Assistência ao Condenado – APAC, não equipara-se, na sofisticação e magnificência, ao figurino nórdico. Não há, convenhamos, como se pretender igualar as duas estruturas prisionais, particularmente, no que tange ao uso de verbas, à administração carcerária, ao planejamento e à própria mentalidade do povo sueco.

          Entretanto, num aspecto significativo, os dois modelos se aproximam, ao ponto de revelar que a realidade escandinava, filosoficamente, não fica muito longe do nosso eficiente sistema apaquiano. Assim como ocorre na Suécia e noutros países, inclusive da América do Sul, o modelo mineiro, idealizado por Mário Ottobani, volta-se para a recuperação do homem, para sua profissionalização e subsequente reintegração social. Ambos os sistemas, repita-se, acreditam e proporcionam a reconstrução social e familiar do apenado.

Tanto na Suécia como na nossa APAC mineira, resta assimilada a ideia de que a pena privativa da liberdade não deve ir além da ínsita subtração desse precioso bem. Não pode e não deve desdobrar-se em tortura, maus tratos ou degradação moral e física. Estes históricos e vingativos gravames não integram a pena, inviabilizam a ressocialização e brutalizam o condenado. Melhorar o homem, humanizá-lo e nunca agravar seu perfil criminológico, constitui-se filosofia, realização e objetivo que vem sendo alcançados nos dois sistemas.

Da Europa, nos vem exemplos como o oferecido pelo presídio suíço de Witzwill, onde os apenados aproveitaram a retração do lago Neuchaltl,  drenaram o charco, plantaram e passaram a comercializar hortaliças e ainda construíram uma pequena destilaria. Em seguida, agora com o apoio do governo, foram adiante e, poucos anos depois, já tinham desenvolvido uma organização produtiva. Durante o verão, cuidavam da agricultura e, no inverno, trabalhavam nas oficinas e na produção leiteira, instalada numa elevação próxima, onde também construíram uma dependência destinada ao tratamento da saúde daqueles que adoecessem.

Voltando-se para a similitude brasileira, agregue-se que esses exemplos, ricos e criativos, não se limitam à Suécia ou à Suíça. Aqui mesmo no Brasil, no presídio de Itaúna, administrado pela APAC, presenciei seu elegante cozinheiro-chefe confessar, antes mesmo de sair do presídio, certa dúvida quanto a escolha de uma das empresas que já disputavam seu concurso. Da mesma forma, reeducandos que cuidavam do horto, outros que se aperfeiçoavam no fabrico de petrechos automotivos, doceiros, queijeiros, padeiros, marceneiros, auxiliares de serviços gerais e até mesmo, um conhecido atleta, já tinham como certa a colocação no mercado de trabalho, graças a especialização propiciada ou adquirida no presídio que, adequadamente, denominam de Casa de Recuperação.

A propósito, na Suécia, dificilmente ouviremos um campeão mineiro de fugas declarar, com fé e convicção, que daquela casa (Itaúna), jamais tentará fugir, pois, segundo suas próprias palavras: “De Deus ninguém foge...” Quiçá, também não escapem de Deus, os letárgicos e incrédulos que não alcançam ou dificultam o caminho da ressocialização.


Um homem que amava livros

Publicação: 23/02/17
Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Na obra “Uma ilha chamada livro”, da escritora Heloísa Seixas, li uma passagem da vida da compositora Alma Mahler (1879-1964), que me inspirou para começar esta página sobre o professor Otto de Brito Guerra (l912-1996). Conta-se que Alma Mahler guardava na sala da sua casa um antigo berço que a embalou nos seus primeiros anos de vida. Porém, o berço mudara de função, pois já não servia para ninar uma criança, mas para acolher os livros preferidos de Alma Mahler, os quais, sempre ao alcance das mãos, eram por ela tratados como entes muito queridos e cobertos de cuidados, carinho e bem-querer. Heloísa Seixas assim conclui esse capítulo do livro acima citado: “São gestos de uma delicadeza comovente, cuja observação me fez refletir. E, cada vez mais, tenho diante dos livros uma atitude de reverência. Olho-os e vejo como eles são puros, íntegros – como as crianças e os cristais.”

Otto Guerra dedicou grande parte da sua vida à leitura e à escrita. Amava os livros, mas, com certeza, nunca os embalou em berços antigos, até porque, com uma prole de 13 filhos, tinha sempre uma criança por perto para cuidar. Seu amor aos livros era invulgar, próprio das pessoas que optam pelos valores do espírito, não obstante as pressões de um mundo dominado por forças opostas, que tentam limitar e aprisionar a alma humana. Na minha lembrança, guardo a figura do Dr. Otto quase sempre com um livro nas mãos. Seu acervo particular, com 18.000 volumes, no qual avultam obras de sociologia, da doutrina cristã e dos direitos humanos, escolhidas por quem muito prezava o saber, a cultura e as demandas por novas ideias, bem representa o perfil intelectual e humano do Professor Otto de Brito Guerra.

O Centro Universitário do Rio Grande do Norte – UNI-RN – incentiva e apoia edições de livros contendo alguns trabalhos de pesquisa e de extensão realizados por seus professores e alunos. Em breve, dentro desse projeto, uma obra focada nos escritos – livros, artigos e crônicas –  de Otto de Brito Guerra será lançada. Com ênfase, a pesquisa se concentrou nos livros Tragédia e Epopéia do Nordeste, A Batalha das Secas e Vida e Morte do Nordestino, e em centenas de textos publicados nos jornais Tribuna do Norte e A Ordem, além de consultas ao acervo do Instituto Otto Guerra – IOG. Os estudos dos professores e alunos tiveram como fio condutor a questão nordestina e a doutrina social da Igreja, temas que foram o leitmotiv dos estudos e das publicações de Otto de Brito Guerra. Ressalte-se que parte do atual estudo, transformado em livro por ação conjunta do UNI-RN e do IOG, faz uma correlação entre o pensamento de Otto Guerra e as mensagens contidas na Encíclica Laudato Si – Louvado Sejas, do Papa Francisco, lançada em 2015.

Os trabalhos acadêmicos que deram origem a esse livro foram gerados no seio do grupo Filosofia, Direito e Sociedade, composto pelos professores Ewerton Costa, Fábio Fidelis, Marcelo Maurício e Marcos Jordão, bem assim por pesquisadores/alunos do UNI-RN. Os resultados desses estudos e dessas pesquisas revelam um enfoque novo e profundo da obra e da grandeza humana de Otto de Brito Guerra, um nome que é símbolo do amor à família – em primeiro lugar –, mas também do amor à Igreja, à causa da justiça social, à educação e às letras.