Essência do viver

Publicação: 15/04/18
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A percepção do mundo e da vida se amplia com o passar dos anos. George Bernard Shaw identificava na mocidade a predominância de sentimentos, emoções, ideais, deslumbramentos, sonhos, enfim, preferências subjetivas reveladoras do estado de espírito ou de circunstâncias psicológicas. Mas ressaltava que nada no comportamento humano é absoluto, definitivo, irreversível, imutável. Pois um dos traços da condição humana é ser imprevisível, original, surpreendente, indomável e inovador. Mas também exaltava a maturidade e a velhice, distinguindo-as da senilidade ou decrepitude. A maturidade é o tempo em que a pessoa se despoja e se liberta de uma série de condicionamentos: legítimos ou ilegítimos, egoístas, emocionais, susceptíveis de afetar a compreensão dos rumos da existência. De certo modo, a maturidade proporciona ao ser humano a possibilidade de submeter a influências das circunstâncias. Seria uma espécie de inversão do axioma de Ortega y Gasset: "eu sou eu e a minha circunstância". Como desfrutar do espírito da Criação? Como vivenciar o sentido de eternidade? Como assumir, em caráter pessoal e em âmbito social, um papel agregador, conciliador, pacificador? Germinar laços que aprimorem a condição humana. Cultivar novos vínculos com a vida e o viver. Interminavelmente. Saber buscar rumos com o coração. Tornar-se alguém alem de si mesmo pela prática da humildade, da simplicidade, do respeito invariável à condição humana.  Grandes homens, como Francisco de Assis, o Cura D'Ars e Gandhi, engrandeceram o viver. Opulentaram as relações humanas na vertente dos tempos. Exorcizaram o mal com sua fé, suas ações, gestos e percepções, que transcendem às motivações pessoais e existenciais. Identificaram as vias de acesso ao infinito. Souberam revelar bondade, paz, humildade, solidariedade, caridade e perdão como faces do amor. Cada um em seu tempo tipificou a misericórdia como um dom de Deus. O Papa Francisco vem exortando a humanidade, em qualquer país ou cultura, a entender, assimilar e praticar a misericórdia, a tolerância, o perdão, o banimento do mal e a planetização do bem. A parábola do "Filho pródigo" desobstrui tudo quanto se opõe à compreensão, à busca e à restauração da paz interior. O arrependimento precede ao perdão. A humildade conduz à harmonia.      

O homem é a medida de todas as coisas. Concepção que antecedeu ao Cristo. Mas Sua vida e Seus ensinamentos revelaram a dimensão e o real sentido da vida. Viver é amar, compartilhar, juntar, compreender, ascender, reunir, crescer, renunciar, criar, sonhar, acreditar. Desprender-se. Essas verdades eternas são reprimidas, confrontadas e desafiadas nos tempos atuais. É preciso erguer, no espírito de cada um a morada de Deus. Não se pode duvidar do papel da caridade entre os homens. Exercício da verdadeira e plena solidariedade. É um estado de dádiva recíproca entre o que serve e o que é servido ("Eu não vim para ser servido, mas para servir").  Pois a grandeza do homem é transcendental e renovável. Antoine de Saint-Exupéry  dimensionou assim prática e os limites da caridade: "O que salva é dar  um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça". Caminho sem fim. Por quê? Porque esse é o rumo das estrelas. Da eternidade: partilha com Deus.

A aurora é momento de poesia. Instante de êxtase. As madrugadas induzem aos sonhos e às reflexões. James Joyce, em um dos seus mais notáveis contos, "Os mortos" (filme genial de John Huston), reafirma que os atos de amizade não morrem. Eternizam-se por seu peso e seu sentido. A amizade não passa. É presença na alma, nos sentimentos e na saudade. É intemporal: vínculos ilimitados.

Há uma circunstância, em qualquer parte do mundo, no Brasil, na China, no Canadá, na Rússia, nos fiordes da Escandinávia, na África, nos picos do Tibet, na placidez de riachos margeados por cerejeiras no Japão, nos pampas, na cordilheira dos Andes, na longínqua Islândia e nos paradisíacos Mares do Sul, quando o tempo parece parar. Enfim, em toda parte. É aquele instante que precede ao entardecer e à dissipação da luz do dia, irrompendo então o domínio do manto da noite.  Há uma espécie de sensação de paz, de êxtase, de desprendimento das pessoas em relação aos problemas do

mundo. Seria essa a ocasião propícia à reflexão e ao despojamento interior? Eliminando-se tudo quanto avilta a condição humana. A sabedoria perene do Eclesiastes proclama que "há tempo para tudo". Pois nada há de novo debaixo do sol.   

O céu, quando não se encobre de nuvens, ou melhor, quando, durante o dia, mostra-se totalmente azul, reveste-se, no crepúsculo, de lilás e violeta.  Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo e Érico Veríssimo captaram essas manifestações de eternidade na caatinga, no agreste nordestino e nos pampas. Luiz Gonzaga, gênio, misto de poeta, compositor e cantor, decifrou essa linguagem universal de harmonia, ternura e beleza, que concita a humanidade a entender e a partilhar da Criação. Revela-se naquele instante um desafio: cada pessoa ser Homem e não decair para a simples condição de indivíduo. Cada um distinguir o que é universal, em contraposição ao particular. Cada um ver na vida um ato de amor. Sua forma indissolúvel é a paz.  Todos perceberem que a violência aniquila a consciência do bem. Submete o homem à selvageria. Isso, em escala planetária, seria o fim da civilização.  Thomas Merton, em "A montanha dos sete patamares", diz que nada suplanta o silêncio no diálogo do homem com Deus: desfrutar a infinitude de amor e paz. É a linguagem do universo. Mas para os incrédulos  nessa grandeza do homem, apesar de tudo, eu lhes diria como Roger Martin du Gard (Nobel da literatura): "Tudo se explica pelo sentido".


Parto sublime!

Publicação: 15/04/18
Marcos Lima de Freitas
Pres. Cremern

O momento do parto continua sendo o mais sublime da vida humana. Representa a inauguração da maternidade e paternidade, associada ao surgimento de uma nova existência. Trata-se de um ato com grande significado e que deve ser mantido num patamar superior de discussão e aprimoramento.

A história da evolução da assistência ao parto nos revela momentos marcantes ao longo do tempo, com especial atenção para os séculos XVII e XVIII quando, na Europa, a “Arte Obstétrica” passou a ser incorporada como atribuição da Medicina. Até então os partos eram realizados exclusivamente por mulheres conhecidas popularmente como “aparadeiras”, “comadres” ou “parteiras”, que se valiam do saber empírico e assistiam às mulheres durante a gestação, o parto e o puerpério em seus domicílios.

Com a incorporação à Medicina, a figura masculina, que predominava no exercício médico daquela época, foi introduzida na assistência ao parto. Apenas em 1887, formou-se a primeira médica no Brasil, a Dra. Rita Lobato Velho Lopes, pela Faculdade da Bahia. No ano seguinte formou-se a segunda médica, a Dra. Ermelinda de Vasconcelos, no Rio de Janeiro. Coincidentemente, foi nesta época, no final do século XIX e início do século XX que ocorreram as maiores transformações referentes ao ensino médico obstétrico no Brasil com a construção da primeira maternidade anexa a Faculdade de Medicina da Bahia.

A evolução dos tempos mostrou que a intervenção médica com os seus conhecimentos científicos de anatomia, fisiologia e patologia, junto com a hospitalização do parto, provocaram um importante avanço na assistência, com redução significativa dos maus resultados, em especial no que se refere à mortalidade materna e/ou fetal. Os conhecimentos evoluíram e as práticas foram aperfeiçoadas, tornando o parto cada vez mais seguro e confortável para o binômio mãe/feto.

A contemporaneidade trouxe novas terminologias para o momento da concepção, como “violência obstétrica”, “parto humanizado”, “de risco habitual”. Nada durante este momento poderá ser considerado ou realizado de forma desumana ou violenta. No entanto, consideramos ato desumano e violento, a exposição materno/fetal ao risco, pela falta de acesso aos ambientes adequados e seguros, com a assistência de uma equipe multidisciplinar, preparada para intervir nas diversas fases do processo do parto que será considerado de risco habitual apenas quando chegue ao seu final.

A classe médica representada pelo CREMERN evitou o fechamento da maternidade Almeida Castro na cidade de Mossoró, através de uma Ação Civil Pública na esfera Federal. Atualmente essa maternidade funciona com 180 leitos incluindo UTI neonatal e de adulto, tendo realizado no ano de 2017 uma média de 17,3 procedimentos por dia. Trata-se de uma Ação Judicial de benefício coletivo, fruto da atuação fiscalizadora do CREMERN, que conta com o apoio do Ministério Público e com a sensibilidade do Poder Judiciário que determinou a formação de uma junta interventora para administrar a maternidade. Essa é uma das providências tomadas com o objetivo de manter a disponibilidade de ambientes adequados e seguros para a realização do parto.

O futuro prevê que as Escolas Médicas e a Sociedade de Especialidade da Obstetrícia em conjunto com a evolução científica, seguirão contribuindo para a evolução na assistência e o CREMERN seguirá na busca pela boa prática da Medicina.

No último dia 12 de abril foi comemorado o Dia do Médico Obstetra, especialista responsável por coordenar a equipe multiprofissional. Parabéns aos obstetras e às obstetras que trabalham no sentido de propiciar acolhimento, carinho e principalmente segurança às mães e seus conceptos nesse momento tão sublime.


Acaso ou destino

Publicação: 15/04/18
Diógenes da Cunha Lima
Escritor

Nosso destino é determinado? Em que os acasos interferem?

Quem acreditaria que João, nascido e vivido nas Rocas e sem ser formado, exerceu a advocacia e receberia o título de Doutor Honoris Causa em Direito da Universidade de Coimbra. Mereceu, ainda em Portugal, as honras de hospedar-se no Palácio de Queluz, privilégio de reis, príncipes e infantes. Quem esperaria que um goleiro do Alecrim fosse, por duas vezes, eleito Deputado Federal? E que esse deputado, pioneiro em defesa do divórcio, presbiteriano, seria eleito vice-presidente da República de um país essencialmente católico? E, por um acaso e ocaso de sangue, exerceria a Presidência da República? Sem dúvida, Café Filho mudou o seu previsível destino.

Um mau aluno, considerado “inútil” por professor, provou estar errado o mestre: tornou-se o maior cientista do século XX. Albert Einstein explicou o êxito pela persistência: “Eu tentei 99 vezes e falhei, mas consegui na centésima tentativa”.

Há pessoas que controlam o seu próprio destino, não aceitam o que aparentemente lhe está reservado. Isso é conquista cada vez maior do nosso tempo.

Antes de Cristo, o mundo já se regia por profetas, oráculos, magos, supostos conhecedores do futuro. O Oráculo de Delfos, na Grécia, predizia a vitória ou o insucesso das guerras, a esperança e o desespero, o acontecimento fatídico e a felicidade. Eram sacerdotes e pitonisas que, como em transe mediúnico, adivinhavam o que haveria de vir. Falavam em poemas com a mesma métrica de Homero e de Hesíodo.

Na mitologia, as moiras gregas e parcas romanas eram três irmãs que estabeleciam o destino dos deuses e dos homens. Eram retratadas como belas mulheres nas artes plásticas e feias e perigosas na literatura. Fabricavam teares e teciam toda a vida dos homens a partir do útero das mães até a sua morte.

A vida é um mistério, sabe-se. As coisas simplesmente acontecem, nunca saberemos se foi por acaso feliz ou desafortunado. Não é sem razão que os espanhóis chamam de azar.

Acontecimentos nem sempre são entendidos e explicados pela lógica humana. Quando surpreendem, totalmente inexplicáveis, são considerados milagres pelos religiosos.

A cristandade acredita no livre arbítrio, capacidade humana de agir. No pensamento muçulmano, maktub, o que está escrito necessariamente acontecerá.

Há coincidências tão coincidentes que levam a pensar que é força do destino quando é apenas um conjunto de interações. Muitas são deuscência, determinadas por Deus.

O homem dá interpretações dos fatos baseado nos seus desejos, na sua fantasia, nos seus sonhos.

Calderón de la Barca (1600 - 1681) define: “Toda vida é sonho e os sonhos, sonhos são”. Pablo Neruda fala do seu destino dizendo que tem compromisso com o acaso. O fato é que, neste assunto, não se tem uma posição monolítica. Deveremos refletir sobre o tema, ainda que, para perguntas existenciais, não haja resposta satisfatória. Entretanto, continuamos indagando. Questionar a vida faz parte da arte de pensar.


As perspectivas da pequena irrigação

Publicação: 15/04/18
Antoir Mendes Santos
Economista

Para muitos nordestinos que convivem com as dificuldades da falta d”água para o plantio no Semi-árido, a perspectiva da pequena irrigação como alternativa para o cultivo de alimentos, e mesmo para a produção de culturas de maior valor comercial, ainda é um sonho distante. Muitas vezes a água está próxima do pequeno produtor, sem que este tenha acesso ao seu uso.

E esta realidade se torna mais premente, mesmo quando estamos saindo de um longo período de seca, quando a infraestrutura hídrica disponível, representada por barragens, açudes, canais, equipamentos e perímetros irrigados, não consegue fazer com que a água chegue à pequena propriedade, obrigando o homem do campo a continuar a depender das chuvas, para a sua subsistência.

Informações do Departamento Nacional de Obras Contras as Secas – DNOCS, órgão responsável pela gestão de boa parte desse acervo hídrico e, sobretudo, dos perímetros irrigados existentes nos estados nordestinos, infraestrutura “capaz de possibilitar a irrigação de cerca de 60 mil hectares que poderiam ser aproveitados para a produção de alimentos e outras matérias-primas”. Contudo, mais da metade dessa área em potencial está ociosa, e as razões são inúmeras: são açudes com pouca capacidade de reservação e/ou que estão no limite de sua capacidade de regularização; são perímetros e canais de irrigação com problemas; agricultores despreparados para encarar os riscos de uma atividade que exige um manejo mais eficiente, isto sem falar nas dificuldades de obtenção de crédito e nos problemas de gestão.

Nos anos de seca, esse quadro se torna mais desolador. No Ceará, que dispõe de 14 perímetros irrigados, constata-se uma significativa redução de área plantada nos perímetros, nos últimos anos. Em Russas, haviam 6.151 há em produção em 2014, área que foi reduzida para 1.500 há em 2016, enquanto que em Morada Nova, existiam 10.849 há irrigados em 2014 restando 4.500 há em 2016. Mesmo em áreas que não dependem de chuvas, como é o caso do perímetro de irrigação do Jaguaribe, dos 5.400 há previstos para serem irrigados, apenas 2.855 há estavam sendo cultivados em 2014, tendo encolhido para 1.028 há em 2016, o que não deixa de ser um contrassenso, haja vista que o rio Jaguaribe é perenizado pelo açude Orós, segundo maior do Estado. Ou seja, os pequenos produtores terminam por serem penalizados, em decorrência dos problemas já referidos.

No âmbito da CODEVASP - Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba estima-se que cerca de 340 mil hectares são irrigados em torno da bacia do S. Francisco, com destaque para o Polo Petrolina-Juazeiro, onde os pequenos irrigantes, com área entre 06 e 12 hectares, produzem e comercializam frutas para o mercado interno. No Semiárido, estima-se que 70 mil hectares são irrigados, todavia prevê-se que mais 150 mil hectares poderão ser beneficiados, sobretudo quando às águas da transposição chegarem às regiões mais secas. O sucesso desse polo fruticultor, está referido aos investimentos dos governos federal e estaduais, além dos incentivos para atração do capital privado.

No RN, a prática da pequena irrigação nos perímetros do DNOCS, também enfrenta às mesmas dificuldades que acontecem em outros estados. São 04 perímetros irrigados(com lotes com área média de 5 há), que ainda não estão emancipados, que funcionam precariamente e, que nesses últimos anos de seca, ficaram praticamente desativados. São 63 lotes no perímetro do açude Sabugi; 75 lotes no açude de Pau dos Ferros; 23 lotes no açude de Cruzeta e apenas 11 lotes no perímetro do açude Itans, totalizando uma área irrigável da ordem de 885,0 hectares. É possível que uma solução para a revitalização desses perímetros, esteja atrelada à conclusão da barragem de Oiticica (cujas obras ainda estão em andamento), localizada em Jucurutu, possibilitando uma derivação para levar água para os açudes que dão suporte a esses perímetros.

Todavia, quando se fala em perspectiva de irrigação no Estado, vem à tona a ociosidade das barragens de Sta Cruz, em Apodi, e de Umari, em Upanema, que até hoje não dispõem de projetos de aproveitamento de suas águas. Juntos, esses reservatórios acumulam 900 milhões m3, que poderiam irrigar algo em torno de 9.400 hectares, viabilizando a pequena irrigação na produção de alimentos e na geração de ocupação, renda e tributos. Neste caso, o sonho da água já existe, faltando, apenas, a realidade da irrigação !.


A mente das crianças: Estimular X Respeitar o ritmo

Publicação: 08/04/18
Andreia Clara Galvão
Psicóloga

Ainda bem que muita gente se ocupa de pensar sobre a educação das crianças. Ainda bem, por que sem crianças o mundo humano fica ameaçado de extinguir-se e também por que, a bem da verdade, amanhã serão elas que estarão cuidando desse nosso mundo. E sem educação, que é do humano, que é da criança?

Muita gente boa já disse coisas fundamentais que não caberiam nestas poucas linhas. Mas dentre tantos tesouros, pinçaremos um que tenta dar algum norte para a difícil pergunta entre esperar que uma criança aprenda no seu próprio ritmo ou ensinar precocemente para que possa vir a formar um arsenal, um dispositivo cognitivo maior e mais profundo futuramente. Essa é uma questão polêmica. Talvez por que coloque-nos diante da situação paradoxal do cruzamento de duas verdades que estão dentro do processo educacional. Uma delas é respeitar as condições que uma criança tem para aprender. Não forçar se não está madura. A outra é, justamente, incita-la a avançar, a superar-se, a ir além do ponto em que ela já está. Dito de outro modo, preparar antecipadamente o amadurecimento, sem esperar que ele já tenha chegado.

O psicólogo russo Vitosky, criou um conceito muito interessante que talvez aponte para um norte nesta contradição que o educar nos coloca. Chama-se Zona de Desenvolvimento Proximal.

Por ela, educar é chamar a ir além, sendo que, quem ensina, quem transmite precisa criar um espaço de transição entre o que a criança já sabe e o que ela ainda deverá aprender. Isso para que a distancia entre o seu saber e a sua ignorância não venha a se tornar um abismo e sim, a possibilidade de uma ponte que permita a saída do primeiro para o segundo e assim, sucessivamente. Um psicanalista francês,  J-C Maleval, propõe o termo “doce  forçagem” em relação ao tratamento e educação de crianças com problemas do desenvolvimento, onde estímulo e espera se alternam e misturam.

Adiantar o aprendizado infantil, sem que exista uma conexão importante entre a vida prática, o mundo afetivo e concreto, pode até fazer existir uma criança que saiba de muitas coisas, mas provavelmente ela não saberá nem onde, nem quando usar esses conhecimentos. estudos mostram que algumas crianças muito estimuladas em relação ao ensino formal, por exemplo, tendem a reprimir a criatividade, a ser mais medrosa e a ter a uma postura mais negativa para com o que não se apresente dentro de seu campo de compreensão.

Por outro lado, algumas crianças pensam mais rápido, são mais ágeis do ponto vista cognitivo e certamente para elas seria negativo ter que esperar por um suposto nível de maturidade que supostamente elas teriam que atingir, com uma idade previamente fixada.

De todo modo, permanece a pergunta: como estimular a capacidade cognitiva dos pequeninos, para que de fato esse estímulo seja uma contribuição  a sua construção de conhecimento,  à formação da chaves léxicas que ela utilizará para ler o mundo e encontrar as soluções para as questões que a vida for lhe colocando? Estimular e respeitar o ritmo: isso pode andar junto, à medida em que a criança conta com um relacionamento seguro junto às pessoas que sirvam de referência, incluam-se família e professores. Que sua fala, sua capacidade de expressar emoções e autoconfiança sejam bem consideradas.

 Para isso, os adultos precisam dedicar tempo às crianças, encoraja-las a fazer perguntas e acolher essas perguntas com a atenção e as respostas possíveis. Asseguro que os próprios adultos podem aprender muito e ainda se divertir assim fazendo. Ganho, pois,  dos dois lados!

Somente quando é dado espaço para a fantasia e a criatividade é que os pequenos poderão fazer um bom uso de seus impulsos para os aprendizados, com os quais começam a compreender a si e as relações do mundo a sua volta.