As quaresmeiras

Publicação: 18/02/18
Francisco Habermann [Médico e prof. da Faculdade de Medicina da Unesp]

Sei que a festa nem acabou ainda em alguns lugares do Brasil enquanto a realidade retorna crua para a maioria sobrevivente nos caminhos da existência. Nesse cotidiano mais real eis que o pensamento é despertado para as belezas mais profundas da vida.

Venho observando quaresmeiras floridas na cidade já há algum tempo. É um brilho surpreendente, todo especial.  Seus arbustos simples, até rústicos, são acostumados às terras fracas, quais dos corações humanos enganados ou desenganados com as ilusões do mundo. Suas flores buscam o brilho da simplicidade. Esta lembrança me vem com uma história real.

Nunca mais me esqueci da cena alertada pela minha ilustre professora quando me deu carona de retorno para casa, após as tarefas hospitalares. Ao passar por rua pela qual eu trafegava diariamente, mostrou-me o canteiro de flores que eu nunca havia reparado antes. Fiquei surpreso com minha cegueira ou desatenção diante daquelas belezas. O diagnóstico não era de visão defeituosa mas de sensibilidade pobre, qual terra fraca. Isso me marcou para sempre.

Hoje presto atenção no trajeto que faço, independente do destino. Chego a me perder, mas quero apreciar o caminho. E fico feliz com as sensações colhidas nessa jornada, qualquer que seja, podendo mesmo ser a da própria vida. Aliás, dizem os entendidos que felicidade não é mesmo o destino, é o próprio caminho. Acho que estou aprendendo, caminhando. Seguirei em frente.

As flores roxas do caminho já me levaram a confundi-las. Outro dia mesmo imaginei, ao longe, estar vendo uma daquelas conhecidas quaresmeiras, mas eis que estava diante de um manacá da serra. Para distingui-las é necessário observação de detalhes botânicos.

São duas belezas trazidas da Mata Atlântica para o nosso convívio. Leio que o manacá diferencia-se das quaresmeiras principalmente pela coloração das flores, que ao se abrirem são brancas, no dia seguinte ficam de cor lilás e no terceiro dia tornam-se roxo-violáceas. Já as quaresmeiras têm o centro da flor branco e este fica avermelhado depois de visitada pelo inseto que a poliniza. A quaresmeira roxa é comum, a de coloração rosa foi conseguida através mutação gênica. Entre quaresmeiras e manacás, fico com todas as flores.

O importante mesmo é que foram as pequeninas e multicoloridas maria-sem-vergonha ( beijinhos ) que despertaram tudo isso em mim, aquelas do canteiro extenso que eu nunca reparara antes, mesmo passando tantas vezes naquela rua da vida. Agradeço à gentil e sábia professora.

E nem era tempo da quaresma. Beijinhos florescem o ano todo!

O Caminho

Publicação: 18/02/18
Cláudio Emerenciano [Professor da UFRN]

As marcas perenes de uma civilização não se revelam pelas aparências nem pelo fausto de coisas efêmeras, as quais não explicitam nem se ajustam ao verdadeiro sentido da vida. As civilizações antigas legaram à humanidade uma percepção de grandiosidade em função das superações de obstáculos e adversidades por homens que nutriam fé e esperança. Napoleão, diante das pirâmides egípcias, sentenciou aos seus soldados que, ali, quarenta séculos os contemplavam. Mas o historiador Taine, seu amigo e admirador, advertiu que a monumentalidade dessas construções revelava, sobretudo, a coragem, a arte, a paciência e a obstinação dos seus obreiros. E acrescentou: a arte em si mesma dessas pirâmides, da Acrópole, do Coliseu, do Pantheon e até de Versalhes, tudo isso é expressão do dom de criação dos homens. Há – proclamou por sua vez Arnold Toynbee – um enigma paradoxal entre a fragilidade física dos homens e a substância e o conteúdo de suas ações no âmbito da cultura, da ciência e das coisas do espírito. Eis quando o sopro do Espírito sobre a argila faz nascer o Homem...  

 O elo infinito entre os homens emerge do amor, da paz e da busca de felicidade. Há uma melancolia inesgotável em viver deserdado da paz. Paz interior. Paz social. Paz espiritual, que não exclui ninguém por ser universal. A paz é o estado de espírito do universo. Obra da manifestação infinita de Deus. Eis por que é impossível, nas pequenas e grandes coisas, excluir a ligação e a presença do sentido da vida. A violência, a injustiça, as vaidades, a maldade, enfim, os egoísmos, não são nada. Perdem-se na poeira do tempo. Desaparecem, esfumam-se, excluem-se como algo inútil por não se identificar com a ordem e o curso natural da vida. Fonte de harmonia sem fim. O Papa Francisco, repetidas vezes, invoca as palavras de Cristo quando disse que veio trazer misericórdia. Seu último diálogo com o Pai, na Cruz, foi pelo perdão ao gênero humano: “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem”. Até Albert Camus, em “A inteligência e o cadafalso”, foi de certa forma premonitório em relação aos novos tempos: “Martin du Gard (Nobel da literatura, autor de “O drama de Jean Barrois” e “Os Thibault”) partilha com Tolstoi o gosto pelos seres, a arte de retratá-los em sua natureza carnal e a ciência do perdão, virtudes que estão hoje fora de moda”. Eis percepções que não se chocam, mas revelam convergências indiscutíveis. O surto de terror, fanatismo e violência dos nossos dias é a negação da existência humana. O futuro da humanidade se delimita entre a possibilidade de paz interior e paz coletiva dos homens, em contraposição às trevas que renegam a luz, a paz e a verdade. Desafios que infelizmente nos acometemapós percursos luminosos da humanidade. Não é possível que os povos se submetam, aqui e ali, à destruição do legado dos que acreditaram e o sofreamento da busca dos que acreditam numa vida fundada na liberdade, na razão, na justiça e na paz

A crise brasileira germina miopia e confusão na identificação dos nossos valores permanentes. Estamos perdendo, gradativamente, a visibilidade do que nos é essencial como civilização. A crise nos arrasta e nos leva a um tipo de sociedade incompatível com a nossa fé cristã. Fruto do testemunho de amor e paz de Jesus Cristo. A nossa civilização, tolerante e pacífica, consagrada por homens como Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, AfonsoArinos, Joaquim Nabuco, Oliveira Viana, Ronald de Carvalho, San Thiago Dantas, Paulo Prado, Oswaldo Aranha, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Darcy Ribeiro, funda-se no ideal da partilha de bens e sentimentos entre todos os brasileiros. O que não está mais acontecendo. Talvez convenha relembrar que Jesus Cristo, após Sua Crucificação, Morte e Ressurreição, foi identificado por discípulos em Emaús pela maneira como abençoou e partiu o pão. O alimento é um instrumentode doação e solidariedade entre os homens. Eis alicerces de uma comunidade cristã. Princípios espirituais, éticos e morais. Em certo momento de sua vida, Jesus comentou que o Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça. Ele e seus discípulos dormiam ao relento. Sua cama era o chão e seu lençol as estrelas. Mas o Brasil de hoje, atormentado por questões que chamaríamos genericamente de viscerais, não pode, apesar de tudo, sucumbir à sanha dos que destilam fanatismo, ódio, intolerância, ressentimentos, preconceitos, ambições, maniqueísmos, estupidez, cinismo, hipocrisia, mentiras e felonias. Nada disso germina futuro, Só infelicidade.

A palavra “caminho” se investe de vários sentidos para os cristãos. O “caminho” é o próprio Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (João 14,6). Mas os Atos dos Apóstolos, escritos provavelmente por São Lucas, referem-se ao Caminho como o nome da primeira comunidade cristã em Jerusalém. Repetidas vezes. O próprio São Paulo também designou “Caminho” o lugar onde São Pedro residia e assistia aos pobres, doentes e desvalidos de Jerusalém. O Padre Anchieta, ao iniciar sua catequese entre os indígenas em São Paulo, enviou carta aos superiores, informando que, finalmente, realizaria sua missão e perseguiria o Caminho. Caminho sem fim...

O Caminho do Brasil se chama Paz. Paz que Jesus conferiu à humanidade: “Eu vos deixo a Paz, Eu vos dou a minha Paz”. Paz que o Papa Paulo VI identificou também ser desenvolvimento integral para todos os homens e todos os povos.  Ainda agora, limiar do ano, peçamos a Deus Paz para o Brasil e a humanidade.

O redator porreta e o publicitário abestado

Publicação: 18/02/18
Marcius Cortez [Escritor]

O potiguar Renato vivia no luxo em São Paulo. Estava trabalhando em uma das agências mais criativas do país. Porém subitamente ocorreu um fato desagradável: ele e o dono da agência brigaram feio. 

Num tom arrogante, o patrão vomitou o detestável “tudo que é nordestino é burro”. Renato que já tinha ouvido isso milhões de vezes em São Paulo, dessa vez não segurou. Foi duro demais porque de um patrão como aquele não podia vir uma baixaria dessas. Homem preparado, aluno brilhante na FGV, diversos cursos no exterior, conferencista notável, currículo impecável. 

Com o passar do tempo, o mal-entendido se agravou. O patrão sempre que podia exagerava no ódio e no desprezo. ”Quer saber de uma coisa, sou capaz de dar todo o litoral norte para essa cambada de baianos desde que eles não apareçam mais na minha praia no Guarujá” e desandava a ostentar seu arsenal de preconceitos.

Não aguentando mais tanta humilhação, o nordestino porreta decidiu dar o troco. Por fim, a oportunidade surgiu. Um cliente da agência, um banco inglês pediu uma campanha publicitária para ressaltar sua experiência de quase dois séculos no país e seu imenso orgulho de ser também parte da história do Brasil. Foi o que bastou para Renato criar o seguinte slogan: “Onde tem história do Brasil, tem o Banco X de London.”

De um lado, o cliente adorou, de outro lado, o premiado redator pulava de alegria. Principalmente quando viu publicado na mais importante revista semanal do país o anúncio de página dupla estampando a foto de um grupo de cangaceiros do bando do temível Lampião.

Os coleguinhas publicitários detestaram o anúncio. Onde já se viu o respeitável Bank de London associar seu prestígio a uma quadrilha de cangaceiros psicopatas, matadores de velhos e de crianças, estupradores, ladrões safados, o terror dos comerciantes, dos fazendeiros e gente do bem. No entanto, para Renato, redator muito mais premiado do que todos eles juntos, esse anúncio foi motivo de orgulho. Se o banco se dizia parte da história do Brasil, nada mais coerente do que mostrar o cangaço, fenômeno social e histórico determinante para o entendimento do país e do seu destino de nação subdesenvolvida em franco voo emergente.

Porém, o fato prático mais importante de todo esse episódio aconteceu quando o anúncio saiu nos jornais e nas revistas de grande circulação. Todos os herdeiros dos cangaceiros que apareceram na foto exigiram indenização. A agência que não pagara cachê para ninguém teve que desembolsar uma bolada federal praquele bando de nordestinos burros e vagabundos.

Cansado das mazelas da profissão, Renato largou a propaganda. Hoje ganha a vida como tradutor e professor de grego. Quando perguntado sobre o que acha do seu ex-patrão, o redator porreta não titubeia. Reconhece que o seu patrão merece toda a fama e toda fortuna, mas como pessoa é um ser humano fracassado e desprezível.         

Um dia que mudou o Brasil

Publicação: 18/02/18
Diogenes da Cunha Lima  [advogado, escritor e presidente da ANL]

Há dias que são marcos na história. Ouso dizer que o dia 28 de janeiro de 1943 operou mudanças significativas em nosso País. Mudou as Forças Armadas, a economia, a diplomacia, os costumes do brasileiro.

Foi a chamada Conferência de Natal ou Conferência do Potengi, ocorrida entre os presidentes Franklin D. Roosevelt e Getúlio Vargas. Em Natal, eles estabeleceram acordo de cooperação sem limites entre os dois países. A síntese está na declaração presidencial conjunta: “A força está na unidade”. O presidente norte-americano veio de Casablanca, onde se encontrara com o primeiro ministro britânico Winston Churchill e Charles De Gaulle, o chefe da França Livre.

Pelo acordo, o Brasil facilitaria a implementação, em Natal, das bases aérea e naval, apoiaria a remessa de materiais estratégicos aos States, estimularia a produção de borracha na Amazônia.

Para o nosso lado, o acerto possibilitou o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional, Volta Redonda, implantação da primeira indústria de base do País. Ajustou a criação da Força Expedicionária Brasileira, com treinamento e equipamentos norte-americanos e posterior envio de tropas para o teatro da Guerra na Europa. Roosevelt assegurou a relevante participação brasileira na futura Organização das Nações Unidas. A abertura da Assembleia Geral da ONU, desde a inauguração, passou a ser feita com discurso do Presidente da República Brasileira. A nossa elite, que se espelhava na cultura europeia, notadamente da França, voltou os seus olhos para os Estados Unidos.

Natal era uma pequena cidade de cerca de 53 mil habitantes. Recebeu a presença americana com natural curiosidade e interesse. O admirável acadêmico Lenine Pinto, em “Natal, USA”, qualificou os soldados de Tio Sam: “Eram educados, alegres, limpos, pontuais, corteses”. O dólar, cigarros, chicletes, tênis e jeans americanos circulavam livremente. Encantavam o natalense a música e seus instrumentos de transmissão. As festas dos U.S.O. A United Service Organizations.

Artistas vinham para entretenimento e confraternização dos soldados aqui sediados, personalidades como Tayrone Power, Kay Francis, Joe Boca Larga, Humphrey Bogart, Charles Boyer e grandes orquestras como a de Tommy Dorsey.

A “ocupação” ianque era tão grande que o Governo do Brasil nomeou um cônsul para dirimir as controvérsias e estabelecer contato com os dignitários estrangeiros. Um cônsul brasileiro para exercer as funções dentro do Brasil! Nosso cônsul foi Manoel de Teffé, que teve atuação marcante. Ele conseguiu, inclusive, permissão para que os americanos frequentassem o cinema sem paletó e gravata. A nova moda generalizou-se e foi adotada por todos.

Os americanos influenciaram o comportamento, vestuário, a fala, inovando com comidas e bebidas, enlatados. E novos segmentos religiosos.

Jovens brasileiros foram levados a estudar nos EUA e voltaram trazendo aplicações profissionais inovadoras. Difundiu-se o inglês que já se tornava língua universal.

O Brasil absorveu as mudanças.

Em favor da leitura

Publicação: 11/02/18
Diógenes da Cunha Lima 
Advogado, escritor e presidente da ANL

O melhor amigo do homem é o livro. Ele transcende em muitas qualidades: dá conhecimento e conselhos úteis, está sempre disponível para ajudar, é companheiro na solidão, custa pouco e normalmente só dá despesa uma vez na vida, não trai e nem tem ciúmes de outros livros, revela toda a sua intimidade. E tem, sobretudo, vida mais longa que qualquer outro amigo.

Além do mais, ele serve à toda humanidade, não só lhe fornece cultura, mas foi e é, a força motriz da civilização.

A origem da palavra leitor, do latim legere, nos esclarece. O termo era aplicado na agricultura significando colher, recolher e também escolher. Ganhou novo sentido passando a significar a colheita pelo cérebro através dos olhos. Da mesma origem é a palavra inteligência – inter + legere – que seria ler internamente. A leitura é o maior estímulo da inteligência. Também cognato é eleger, eleição. Nos escolhe os amigos.

A leitura faz saber escolher, pode trazer emprego e renda, autoconhecimento, aumenta o poder de crítica para separar o falso do verdadeiro, pode dar prazer, encontrar razão da alegria e mesmo felicidade. A gente lê para humanizar-se.

O bom leitor privilegia os livros de excelência, fundacionais, fundamentais, os tornados clássicos, eleitos através do filtro do tempo. Num certo sentido, quase todo livro é de autoajuda. Os Evangelhos, há dois mil anos fornecem autoajuda. O leitor mais inteligente tira sempre novas vantagens nas releituras dos clássicos. 

É verdade que ler é uma experiência única, personalíssima. O texto lido ganha uma nova vida com as condições pessoais de cada leitor. O amor ao livro é também muito variável, de que temos exemplos admiráveis. 

Letícia Carvalho formou-se com grande dificuldade, lendo com dedicação e esforço tudo que podia. Sentia-se gratificada até com o tato nos livros, acariciando-os, identificando a melhor lição que eles lhe davam. Depois do doutorado, conquistou a função de professora universitária. Foi à São Paulo, depois de avisar ao marido que o primeiro salário destinar-se-ia todinho à compra de livros. E realizou o sonho.

O livro é essencial à aprendizagem e ao ensino. Estimula a criatividade e a imaginação, ajuda o controle emocional, liberta. É o único estudante que pode fazer até um prisioneiro sentir-se fora das grades.

A leitura pode amenizar o estresse da vida diária, tornar os seus momentos de ócio ou de espera necessária em algo produtivo, melhorar a capacidade de reflexão e de análise.

O hábito de leitura tem também função terapêutica, previne ou retarda o aparecimento do Mal de Alzheimer, já há muitos estudos universitário comprobatórios. 

Paulo Freire baseava o seu ensinamento ao estabelecer que a leitura do mundo precede à leitura da palavra. Tem toda a razão. Podemos acrescentar que a leitura de livros torna melhor a leitura do mundo, a leitura da própria vida.

Eu mesmo, tento entender a vida através da leitura. Reconheço que sou leitor compulsivo, não sirvo de exemplo para ninguém. Tenho verdadeira necessidade de ler, pelo menos, duas horas por dia. Acordo cedo e depois da higiene física, faço a higiene mental, lendo poemas selecionados.

Depois, busco encontrar nos jornais, pela internet, alguma coisa de útil e agradável. Tenho ainda a necessidade de aprender todo dia alguma coisa da ciência do Direito. Só então estou pronto para trabalhar. 

Quem não lê tem uma espécie de cegueira. Enxerga, mas não vê. Ler torna o homem mais capaz, em outras palavras, lhe dá poder.