Qualidade de vida de mães de crianças com câncer

Publicação: 14/10/18
Lady Kelly Farias da Silva
Terapeuta Ocupacional

A ocorrência de câncer tem aumentado de forma significativa nos últimos anos e vem se apresentando como um dos maiores problemas de saúde pública mundial. De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), tem crescido a taxa de mortalidade como consequência dessa patologia.

O câncer diagnosticado no período da infância reflete em comprometimentos que interferem no funcionamento do corpo da criança. Nesse momento, entram em cena os profissionais da área da saúde que devem prestar uma assistência integral a fim de minimizarem os efeitos da doença, que pode interferir significativamente no crescimento e desenvolvimento infantil. O impacto que o câncer causa é muito forte e afeta o fisiológico da criança, assim como, as questões psicológicas e sociais, pois devido à doença, na maioria das vezes, o paciente fica limitado quanto aos momentos de lazer, frequência escolar, dentre outras restrições.

Nesse caso, é percebido que receber o diagnóstico de câncer na infância favorece significativamente as reações emocionais na criança e em seus familiares, proporcionando inúmeros comportamentos, tais como: insegurança, medo, sentimento de culpa, desequilíbrios emocionais, que interferem diretamente em vários aspectos da vida. Nesse momento, os pais se sentem desolados diante dessa nova realidade. Sendo assim, é imprescindível a inserção de uma equipe profissional que auxilie adequadamente os familiares, oferecendo o devido suporte e proporcionando um espaço para que se sintam acolhidos, informados sobre o processo terapêutico e motivados a enfrentar essa situação para que seja menos dolorosa possível.

Na maioria dos casos, são as mães que acompanham o processo de tratamento do filho e sua participação é fundamental para recuperação da criança, desta forma, pode-se verificar que essa mãe também precisa dos cuidados profissionais de saúde, com o intuito de auxiliar na diminuição do estresse que sofrem por causa do processo da hospitalização.

Devido ao excessivo cansaço e mudanças vividas no dia a dia, muitas mães buscam mecanismos para enfrentar esse período, como a fé, o apoio dos profissionais e a troca de experiências compartilhadas por outras mães, encontrando forças para continuar apesar do transtorno que vivenciam. Essa experiência é vivida pelas mães no setor de terapia ocupacional da Casa de Apoio Durval Paiva, onde encontram acolhimento adequado e desenvolvem juntas estratégias funcionais que auxiliam no enfrentamento de situações estressoras, englobando os aspectos fisiológicos, assim como, dimensões sociopsicológicas, a fim de alcançar equilíbrio entre estes fatores e contribuir para um aumento da qualidade de vida, de forma que essas mães possam sentir-se preparadas para dar continuidade ao processo adverso que seus filhos enfrentam.

As mães ainda merecem atenção especial do ponto de vista biológico e psicológico, mas também do ponto de vista social, onde os parentes, amigos e também os profissionais de saúde envolvidos nesse processo dão suporte para que estas enfrentem o impacto do diagnóstico, bem como, o período de tratamento. 

Através de relatos, elas citam que para alcançar a qualidade de vida, o apoio dos familiares e dos amigos é fundamental o suporte prestado pela instituição, sendo o diferencial, contribuindo consideravelmente na diminuição da ansiedade frente ao processo de adoecimento, além de oportunizar a convivência com outras mães na mesma situação, permitindo assim a troca de experiências e a divisão das dores umas com as outras, criando vínculos de confiança, de maneira que a mãe seja capaz de passar por este período sem comprometimentos físicos, sociais e psicológicos que interferem diretamente na sua qualidade de vida.




A vida e a sátira

Publicação: 14/10/18
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A sátira. Gênero de crítica aos homens e à sociedade. Especialmente injustiças, hipocrisias e contradições humanas. As fábulas de Esopo (fabulista grego do séc. VII a.C.) e de Jean de La Fontaine (poeta francês do séc. XVII) ridicularizaram  imposturas com as quais a humanidade, aqui e ali, ontem e hoje, avilta-se e interrompe sua ascensão espiritual, moral e cultural. Degrada-se, corrompe-se e perde o senso de dignidade. Ignora a essência do SER e busca ilimitadamente o TER. Maquiavel, no sempre lembrado “O Príncipe”, preconizou que a volúpia e o abuso de poder (modernamente autoritarismo) podem emascular as resistências morais da sociedade. William Shakespeare, em suas tragédias, dramas históricos e comédias (como “Júlio César”, “Timon de Atenas” e “Muito barulho por nada”) satirizou vaidades, ambições, ódios, ressentimentos e perfídias. Não foi em vão que Sigmund Freud o considerou o maior conhecedor da condição humana, com suas complexas contradições, valores, sentimentos, ideais e medos. Ernest Hemingway e F. Scott Fitzigerald, na expressão de Gertrude Stein expoentes da “geração perdida”, satirizaram, em seus primeiros livros, escritos na Europa, os falsos valores oriundos da “belle époque”. Entre os europeus, a obra de Marcel Proust (“Em busca do tempo perdido”), além de genial, ainda hoje é incomparável: mergulha com ironia no pensar e no agir das gerações dessa época. Sucederam-lhe Roger Martin du Gard com o antológico “Os Thibault”, e André Maurois, com o magnífico “Terra da Promissão”, “mosaicos” atuais por enveredar em aspectos de relações humanas instigantes e desafiadoras até nesses tempos de globalização. No Brasil Nelson Rodrigues não perdeu atualidade. Sobretudo ao satirizar a classe média, suas “comédias e tragédias”. Uma de suas crônicas, “Bonitinha, mas ordinária”, ele mesmo converteu em sátira teatral de sucesso, depois filme, que fez o Brasil  explodir em gargalhadas. Não se esqueça o inimitável Antônio Maria. Tampouco Fernando Sabino, que também satirizou a classe média dos anos 50 e 60, sobretudo no Rio de Janeiro e São Paulo. O livro “O homem nu” foi peça teatral e, depois, filme. 

 O teatro grego tipificou em comédias satíricas a mediocridade, a mesquinharia e as misérias dos homens. Molière influencia essa arte até nossos dias. Seu teatro promoveu interação entre atores e espectadores. Seus textos exibem a inutilidade e a efemeridade das ambições, dos egoísmos, das vaidades. Escarnecem a transitoriedade das paixões. Também a mentira e do que Balzac chamou de “ilusões perdidas”. Peças como “Tartufo” e o “Avarento”  encantaram gerações brasileiras com interpretações geniais de Procópio Ferreira.  O irlandês George Bernard Shaw e o norte-americano Eugene O’Neill sucederam a Molière. Acrescentaram outra circunstância, não menos importante que as fraquezas, as leviandades e as misérias individuais: a falsa cultura gerada por detentores do poder. Que deforma, pelo exemplo, crenças e valores do cidadão comum. Charles Chaplin, gênio, universalizou no cinema a sátira política. Seu filme “O grande ditador” foi soberbo. Denunciou com deboche e sarcasmo os malefícios da propaganda nos regimes totalitários. Mais tarde, no Tribunal de Nuremberg (1946/47), Albert Speer, ministro de Adolf Hitler, denunciou o uso sem ética dos meios de comunicação. Na época, a televisão, em caráter experimental nos Estados Unidos, não era um meio de comunicação de massa. Quanto mais – avaliem – agora, com o alcance planetário e incontrolável das redes sociais.

Perguntaram a Winston Churchill qual era o seu autor preferido. A resposta veio incontinente: “são dois. Shakespeare e Voltaire. O primeiro me revelou, em complexidade e particularidade, as variáveis da condição humana. O outro desvendou, com humor inimitável, satírico, as hipocrisias”. Daí a atualidade do gênio de Voltaire. Ajuda a entender a conjuntura brasileira. Que reúne ridículo, hipocrisia, mediocridade, despreparo, mentira, desfaçatez, felonia e estupidez. Há no Brasil um estado de perplexidade. Semelhante àquele que acometeu “Micrômegas”, personagem de um dos “contos filosóficos” de Voltaire. Visitante planetário que se escandaliza com a mesquinharia e a insanidade de governantes. Micrômegas vê na ineficácia governamental a pior das injustiças cometidas contra seus cidadãos: “se o governo não funciona, como é possível distribuir e praticar a justiça?”. A realidade brasileira nos remonta às advertências de Aldous Huxley (“Admirável mundo novo”) e George Orwell (“A revolução dos bichos”). O Brasil, infelizmente, compõe seu cotidiano numa sucessão de mentiras, decorrentes da ridícula e boçal postura de grupos e personagens políticos, que ousam descaradamente mentir e tentar expungir  malfeitos da memória social. É como se o passado fosse reescrito ao sabor de interesses infames e indignos. Certamente Anatole France (Nobel da literatura), também inspirado por Voltaire em “Crainquebille”, satirizou o funcionamento do sistema jurídico e judiciário do Estado,  sua ineficiência e, por consequência, a exclusão dos que “têm fome e sede de justiça”. Eis uma nódoa nacional. Erros e abusos do Judiciário geram danos estupendos na credibilidade das instituições.  A magistratura deve primar por sobriedade e isenção.

A ineficiência e o arbítrio são inaceitáveis em qualquer governo. Germinam, por sua vez, corrupção e impunidade. Convém uma reflexão sobre o assunto. De cada um e de todos. Pelo menos para identificar o ridículo e o grotesco de tantas contradições. Que nos remetem ao Eclesiastes: “Tudo é vaidade. Vaidade das vaidades. Não há nada de novo debaixo do sol”. Lição renovada da vida e da História.




Professores: o estresse adquirido em sala de aula

Publicação: 14/10/18
Aline Tayná de Carvalho
psicóloga e psicopedagoga

Sabemos a importância do professor na vida de cada um de nós, reconhecemos as “marcas” que podem deixar em nossa vida. Sabemos que seu trabalho não para na sala de aula, mas mesmo assim, vemos o quanto são desvalorizados em sua missão em diversos aspectos.

Vivemos um momento em que muitos valores estão invertidos, onde a formação humana e a educação básica são vistas como “obrigação” da escola e não como um dever familiar. E essa falta de parceria escola/família tem prejudicado nossos professores em sala de aula, pois em muitos momentos precisam parar a aula, a explicação, para solucionar situações de conflitos relacionados à falta de educação, de interesse dos alunos, e até mesmo, algum tipo de atrito físico ou verbal. E quando solicitada a presença dos pais, esses apontam como um dever do professor mediar esses conflitos, sem incomodá-los, e ainda tiram de seus filhos a responsabilidade diante da falta de respeito com a autoridade do professor.

Diante dessa realidade, o desgaste físico e mental é inevitável no dia a dia dos professores que, aos poucos, acabam adoecendo, somatizando e, consequentemente, se afastando da sala de aula.

O estresse e o desgaste emocional passam a prejudicar o desempenho e o envolvimento do professor nas suas tarefas diárias e, com isso, pouco a pouco a qualidade do ensino vai sendo prejudicada e a cobrança sobre a capacidade do professor é posta à prova.

Contudo, nós, enquanto sociedade, precisamos valorizar nossos mestres e ensinar nossas crianças a respeitar o professor, porque ele não é apenas transmissor de conteúdo, mas formador referência para o senso crítico, o respeito mútuo e o desejo de fazer a diferença na sociedade.

O mesmo deve acontecer com os gestores, que precisam caminhar junto com seus professores e fazer com que se sintam fortes o bastante para enfrentar esses desafios e seguros de sua atuação, sendo valorizados, mesmo que tenham recursos limitados para desenvolver sua função.

Não existe motivo isolado para que os professores se estressem com a dinâmica de uma sala de aula, mas sim, uma somatória de situações que fazem com que eles se sintam incapazes, indiferentes, desmotivados, cansados, entre outros sentimentos que talvez seja muito difícil para eles descreverem.

Porém, o que não podemos esquecer é que a educação se constrói com amor, companheirismo, dedicação e, principalmente, valorização. Assim como o aluno precisa de reconhecimento para avançar no processo de ensino e aprendizagem, o professor precisa de motivação para não desistir nunca de sua bela vocação: transmitir conhecimento e formar cidadãos conscientes do seu papel na sociedade.




Rachel, a pioneira

Publicação: 14/10/18
Diógenes da Cunha Lima 
Escritor e presidente da ANL

Rachel de Queiroz (1910 – 2003) nasceu para ser primeira. Causou impacto o seu romance “O Quinze”, que retrata com fidelidade o drama da seca de 1915. É obra-prima escrita por uma mocinha de 18 anos. Estabelece o pioneirismo da mulher no Ciclo Nordestino da Literatura e na adoção das diretrizes culturais da Semana de Arte Moderna.

A ficção, de tão inovadora, acarretou a dúvida sobre a autoria de grandes mestres da nossa literatura. Augusto Frederico Schimdt disse que seria pseudônimo, haveria um homem escondido, um sujeito barbado. Já Graciliano Ramos, por quem ela tinha grande admiração e fora influenciada, afirmou tratar-se de uma pilhéria de algum escritor. Contudo, no ano seguinte à publicação, ela foi agraciada nacionalmente com o Prêmio Graça Aranha.

Depois, a então machista Academia Brasileira de Letras (ABL) concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de obras e a União Brasileira de Escritores o prêmio Juca Pato. Ademais, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Camões de Literatura.

Havia uma inquietação nos meios intelectuais porque a ABL não permitia a presença feminina. Em 1930, a escritora Amélia Beviláqua, esposa do jurista Clóvis Beviláqua (autor do projeto do Código Civil brasileiro), teve recusada a sua inscrição sob o pretexto de que o Estatuto dizia “brasileiro”. Como se a expressão não se referisse a ambos os gêneros...

Na verdade, a Instituição seguia um modelo da Academia Francesa, criada pelo Cardeal Richelieu em 1635, que só admitia homens no seu quadro. Em 1977, Rachel assumiu a Cadeira nº 5 da Academia. Não fez discurso feminista como se especulava, mas a sua fala demonstra o interesse inclusivo. Ela destaca trecho de Castro Alves, celebração da beleza negra costumeiramente ignorada: “Lá nas areias infindas / das palmeiras do país / nasceram crianças lindas / viveram moças gentis”.

Guardo na lembrança duas oportunidades felizes, em que estive com Rachel de Queiroz. A primeira no Rio de Janeiro, ocasião em que ela me falou com entusiasmo sobre Oswaldo Lamartine e contou-me uma história deliciosa de jangadeiros cearenses. Marinheiros de um grande navio alemão, em alto mar, avistam uma jangada. Entenderam que seriam náufragos. Lançaram cordas salvadoras. Que é que eles estão querendo, compadre? Perguntou o jangadeiro. Acho que eles estão querendo é reboque, responde o outro.

Outra vez, estive com ela em jantar na Escola Doméstica de Natal, a convite da diretora Noilde Ramalho. Contei do projeto da nossa Academia de fazer, à semelhança da ABL, um mausoléu para os nossos imortais. No dia seguinte, recebo através de Noilde um recado dela: “Diga a Diogenes que não faça o mausoléu, porque ele será o primeiro a ser enterrado”. Coincidência ou não, a previsão de Rachel tem acontecido, segundo muitas pessoas me afirmaram. 

Claro que deixei o projeto pronto para decisão do próximo presidente.

Rachel foi também a primeira mulher a publicar crônicas na mais prestigiada revista brasileira “O Cruzeiro” e, posteriormente, em “O Estado de São Paulo”. Ao lado de sua atividade criativa, ela se tornou referência como tradutora. Alguns trechos traduzidos passaram a ser citados com frequência. Entre tantos, ela traduziu o livro de Crone, Erich Remarque; “As Memórias”, de Tolstói; “A Minha Vida”, de Chaplin; Dostoiévski em “Os Irmãos Karamazov”, verteu axiomática frase sempre repetida: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.




Viver, criar e lutar

Publicação: 07/10/18
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Nascer. Adquirir um sentido para viver. Sonhar. Idealizar. Lutar para realizar aspirações que se apresentam, aparentemente, como adversidades intransponíveis. A coragem de um Davi para vencer um Golias que, numa espécie de miríade, em inexplicável fenômeno, como Fênix, parece ressurgir de suas próprias cinzas. A têmpera para transformar o mundo. Originalmente aquele pequeno "universo" de sua terra natal e sua gente. A terra esturricada.  Possuída e dominada por intensa claridade, debruçando-se ante a ternura generosa, deslumbrante, romântica e viril do crepúsculo. As brisas do entardecer se sucedem e se fundem. Parecem ventanias suaves e suplicantes, que se misturam para germinar madrugadas orvalhadas, numa espécie de compensação pelo calor cáustico dos dias. Eis momentos  enigmáticos, em que a metamorfose fecunda sonhos e esperanças.

A pobreza do lugar não é miséria. A falta de erudição não é ignorância. Os sonhos, individuais e coletivos, substituem as deficiências do meio. O menino é síntese de um cosmo sentimental, telúrico, atávico. Enriquecido e renovado pelas superações de cada dia. As idéias fervilham e explodem em cataratas, que se sucederão interminavelmente enquanto viver. Desde então se estabelece em seu espírito uma convicção inamovível: não há na vida obstáculos insuperáveis. Cria um jornal original. Singular. Escrito por ele mesmo. De um único exemplar. Que, semanalmente, é avidamente lido por cada membro da comunidade. Há uma união de todos, que passam a vivenciar o sentido da partilha: de sentimentos, ideias e sonhos. O menino, precoce, não tem infância. Tem amor pela causa comum.

O jovem tem fé. Conheceu-a no milagre diário da resistência de cada homem, cada mulher, cada criança e cada ancião do lugar, testificando o amor ilimitado de Deus. É uma fé sem pieguice. Que será ternamente desvendada pelo Padre Monte. Que lhe testemunhará, como ninguém, por toda a vida, o sentido de servir. A dimensão infinita da doação de uns pelos outros. Ainda que submetida às contradições da condição humana.

José Augusto, Eloy de Souza, Juvenal Lamartine, Câmara Cascudo e Aldo Fernandes detectam sua vocação de jornalista e servidor do povo. Estimulam e apóiam o jovem lutador. Torna-se homem público. Rompe preconceitos e consegue mobilizar Natal em favor de milhares de irmãos flagelados da seca. Possui infatigável disposição para trabalhar. Sua curiosidade intelectual é incontida. A generosidade do proprietário da Livraria Internacional, Sr. Antonio Barbosa, dá-lhe acesso, por venda a crédito, ou empréstimo, de livros de literatura, filosofia, sociologia, história e política. Durante a 2ª. Guerra Eleanor Roosevelt visita Natal. Repórter de "A República", entrevista-a, tendo como intérprete Protásio Melo. Recebe convite para estudar em Universidade nos Estados Unidos com bolsa de estudos. Não consegue vencer a resistência dos pais. Seu destino estava aqui.

A derrubada de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. Deputado constituinte e, depois, federal. É o mais jovem. José Augusto o introduz no cenário nacional. Torna-se amigo de Otávio Mangabeira, Afonso Arinos, Milton Campos, Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, San Thiago Dantas, Apolônio Salles, Tancredo Neves, Gilberto Freyre, Jorge Amado e tantos outros. Alceu do Amoroso Lima, Fernando Veloso, bispos José Vicente Távora e Hélder Câmara também foram seus amigos. Assim como Odylo Costa,filho, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Villas Bôas Correia, José Aparecido, Prudente de Morais, neto, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, José Sarney, Samuel Wainer, Nelson Rodrigues, Hélio Fernandes, Luiz Lobo, Adolfo Bloch, Rubem Braga, Lêdo Ivo, Carlos Heitor Cony. Amizades que venceram o tempo e adquiriram o sentido de eternidade. A atividade parlamentar não o inibiu em atuar na imprensa do Rio de Janeiro. Militou no Diário de Notícias e no Correio da Manhã e, em seguida, na Tribuna da Imprensa, de cuja fundação participou com Carlos Lacerda e da qual foi seu primeiro redator-chefe (editor), também editorialista. Era, juntamente com Murilo Melo Filho e José Sarney,  uma espécie de "censor" (em termos jocosos) de Carlos Lacerda, cujos textos explicitavam seu temperamento incontido, emocional,  apesar de cultura e estilo geniais. Carlos o chamava de "meu departamento da sensatez". 

Sempre lutou e inovou como deputado. Governador, modernizou o Estado. Na crise decorrente da renúncia do presidente Jânio Quadros (1961), os governadores, por unanimidade, em reunião no Palácio Guanabara, escolheram-no para articular um governo parlamentarista como primeiro ministro. Recusou, alegando que a Constituição do Rio Grande do Norte não previa seu afastamento sem perda do mandato. Surpreendeu os presentes, em sua maioria da UDN, ao alegar que no sistema parlamentarista o chefe do governo pertenceria às fileiras do partido majoritário ou da coligação majoritária. Lembrou, então, o nome de Tancredo Neves, notoriamente qualificado em termos éticos, morais e intelectuais, além de possuir inquestionável espírito conciliador. Sua tese prevaleceu.  Foi recebido na Casa Branca (Washington) pelo presidente John Kennedy, tendo como intérprete o embaixador Roberto Campos. Sensibilizou o presidente ao propor várias alterações à versão original da "Aliança para o Progresso". Proscrito da vida política pelo regime autoritário, não se entibiou. Lutou e venceu na iniciativa privada. Conspirou pela redemocratização em 1984|85. Ministro de Estado por duas vezes. Seu último desafio, ciclópico como outros, foi a transposição das águas do rio S. Francisco. Tornar o Nordeste uma Canaã, foi um dos seus sonhos. Sem mandato, aos 82 anos, lutou, advertiu e propôs alterações à Reforma da Previdência em 2003, que esbulhou direitos de aposentados e pensionistas. Enquanto viveu lutou. A luta o  renovava. Era um dínamo a movê-lo sem cansaço ou recuos. Revigorava-se, assim, aquela índole, manifesta desde os tempos de criança. Exemplo e lição para todos nós. Aluízio Alves.