Edificar a concórdia no mundo
Atualizado: 23:48:10 20/05/2022
José de Paiva Netto 
Jornalista, radialista e escritor

Na revista Globalização do Amor Fraterno (em português, inglês, francês, esperanto, alemão, espanhol e italiano) — entregue pela Legião da Boa Vontade a chefes de Estado e às delegações presentes ao High-Level Segment 2007, na sede da ONU em Genebra, na Suíça —, apresento, de meu livro Reflexões da Alma (2003), notável trecho extraído do preâmbulo da Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), aprovada em 16 de novembro de 1945, por considerar que outro caminho para a humanidade será o da destruição: “Se as guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que devem ser construídos os baluartes da Paz”.

É essencial destacar as propostas e ações de real entendimento. Diferente rota para os povos será a do remédio amargo. Por isso mesmo, não percamos a Esperança. Perseveremos trabalhando “por um Brasil melhor e por uma humanidade mais feliz”. E não se trata de argumento simplório, mas, sim, da direção efetiva da vitória.

Ecumenismo — poderoso instrumento de pacificação dos povos

A Paz entre as nações, conforme registrei em Jesus e a Cidadania do Espírito (2001), é ainda sinônimo de astúcia e suspeição. Só haverá a pacificação do ser humano quando a Solidariedade e a Fraternidade — o último e esquecido baluarte da Revolução Francesa — habitarem os corações.

Urgente se faz que ele, até mesmo por questão iminente de sobrevivência, não apenas pregue a Paz, mas se transmude nela própria. Ao vivenciar esse estado natural de Cidadão do Espírito, poderemos dizer com Jesus: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais Paz em mim. No mundo, tereis tribulações. Tende, porém, bom ânimo, pois Eu venci o mundo” (Evangelho, segundo João, 16:33).

Daí ser o Ecumenismo verdadeiramente poderoso instrumento de Paz num planeta em que qualquer diletante promove a guerra.

Ensinou Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Evangelho, segundo Mateus, 5:9).

Abro parênteses para transcrever uma observação esclarecedora que integra meu artigo “O dinamismo da Paz”, o qual dediquei, em agosto de 2000, aos participantes da Conferência da Cúpula da Paz Mundial para o Milênio, realizada na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, EUA:

Sempre que você ler em meus escritos ou ouvir em meus improvisos a palavra “Ecumenismo”, por favor, considere o aspecto original do termo. De acordo com sua etimologia, “ecumênico” (do grego oikoumenikós) significa “toda a Terra habitada” e “de escopo ou aplicabilidade mundial; universal”. Utilizamos esse vocábulo sobejamente porque não haverá verdadeira Paz entre as nações enquanto ela não for estendida a todos os habitantes da Terra, a despeito de religião, visão particular ideológica, de ciência, política, filosofia, arte, esporte e assim por diante. Agora mais do que nunca, nestes tempos globais, a paz restrita é permanente convocação para novos conflitos.

* Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor
A dona da chave do cofre
Atualizado: 23:43:14 20/05/2022
Tomislav R. Femenick 
Jornalista e historiador

Meus bisavôs maternos se chamavam Vicente e minhas bisavós, também maternas, chamavam-se Philomena. Deles somente conheci um, o coronel (da Guarda Nacional) Vicente Ferreira da Mota, pai de minha avó, Maria da Mota Lima. 

Quando meu pai faleceu no Rio de Janeiro, onde morávamos, eu, com sete anos de idade, e minha mãe viemos morar na casa de meus avós, em Mossoró. Era um mundo bastante desconhecido, se não estranho, para mim. 

Meu avô, o coronel (também da Guarda Nacional) José Rodrigues de Lima, era bastante conhecido na região e no Estado. Era proprietário de salinas, comerciante, dono de empresa de navegação de pequeno curso, industrial, agricultor, sócio do Banco Mossoró e proprietário de imóveis localizados em Mossoró, Rio de Janeiro, Natal e Apodi. Foi pioneiro no cultivo de frutas irrigadas e na indústria têxtil. Homem bastante prático e simples, que usava camisas feitas de sacos de açúcar (eram mais resistentes e frescas para enfrentar o calor), calças de zuarte e chinelos de dedo, feitos por ele mesmo com couro de boi. Para evitar cinturão, usava duas arreatas nas calças que, laçadas, substituíam-no. Usava, de vez em quando, um chapéu de palha, daqueles feitos aqui mesmo. De pouca instrução formal, era um leitor ávido de livros espiritas e dos que explicavam as teorias de Einstein. Detestava política.

Já minha avó, Maria da Mota Lima, a Dona Mariquinha, tinha a política no sangue. Seu pai, Vicente Ferreira da Mota, dois irmãos, o padre Mota e Francisco Vicente Cunha da Mota, bem com dois sobrinhos foram prefeitos de Mossoró. Isso sem contar com o célebre Mota Neto, prefeito, deputado estadual e federal. Na época da campanha, a nossa casa virava um comitê eleitoral e no dia da eleição era ela que cuidava daquilo que hoje chamamos de logística: transporte, alimentação e abrigo para os eleitores.

Além dessa atuação, Dona Mariquinha tinha outras atribuições: cuidava da casa e dos jardins que a circundavam, cobrava os aluguéis dos imóveis, cuidava do dinheiro do dia a dia e tinha a chave do cofre que existia lá em casa. 

Estava escrevendo este artigo quando minha neta perguntou se eu não tenho saudades daquela época. Disse que tenho. Mas que prefiro viver o hoje. Saudades é para se guardar no coração.

Minha avó tinha outros predicados bem próprios dela. Um deles era a leitura de jornais, assinava todos da capital e de Mossoró. Quando sabia que alguém de seu circuito de amizade ir viajar, encomendava os jornais do lugar e de onde mais pudesse. O seu “ritual jornalístico” (como nós chamávamos) era simples: depois do café da manhã, arrumava os jornais por ordem de data para assim os ler; mais a Ordem, de Natal, sempre era o primeiro. Quando está nessa tarefa, não atendia a ninguém que não fosse o marido. 

Dona Maria da Mota Lima e o coronel José Rodrigues tiveram 21 (vinte e um) filhos. Só dez sobreviveram.

* Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor
Deives Rezende Filho
Especialista em ética, diversidade    e inclusão, e fundador e CEO da Condurú Consultoria

Quantas vezes você já viu memes que comparam pessoas brancas com pessoas negras como forma de humor? Normalmente, as características de pessoas negras são colocadas de forma pejorativa em prol da “piada”, que é qualificada como racismo recreativo. As maiores vítimas deste tipo de violência na internet são as mulheres negras, segundo os dados da tese de doutorado defendida na Universidade de Southampton, na Inglaterra, pelo pesquisador brasileiro e PHD em Sociologia Luiz Valério Trindade.

De acordo com o estudo, que teve mais de 109 páginas de Facebook e 16 mil perfis de usuários analisados, 81% das vítimas de discurso depreciativo nas redes sociais são mulheres negras entre 20 e 35 anos.

Contudo, o racismo recreativo não está presente apenas na internet. Sendo ele uma das ferramentas do racismo estrutural, sempre esteve presente em todas as facetas da nossa sociedade, seja por meio de piadas cotidianas, programas de televisão, filmes, séries e outros.
Um programa brasileiro de grande sucesso na televisão brasileira nos anos 80 foi Os Trapalhões, que tinha um de seus personagens centrais do quarteto o humorista Mussum, um alcoólatra que fazia piadas sobre sua condição de homem negro.

O humor racista é uma estratégia para manter as estruturas raciais de privilégio branco ao reproduzir sátiras que perpetuam violências contra a população negra. As piadas expressam diversos estereótipos negativos da população negra, fomentando a ideia de que as mesmas não podem ter respeito social.

Um episódio recente de racismo recreativo que aconteceu em um dos programas de maior audiência do Brasil, o Big Brother Brasil 2021, foi quando o ex-participante Rodolffo Matthaus comparou o cabelo black power de João Luiz com a peruca da fantasia do monstro de homem das cavernas.

O racismo recreativo carrega uma problemática ainda maior que, aos indivíduos serem acusados de racismo, tentam se afastar da culpa com o pressuposto do humor.

Num contexto global, uma das situações mais comentadas neste ano foi o caso da cerimônia de premiação do Oscar, quando o comediante Chris Rock fez uma piada sobre os cabelos de Jada Smith, que sofre de alopécia - doença que afeta majoritariamente mulheres negras.
A “brincadeira” reforça, além de um lugar de dor, estereótipos relacionados a mulheres negras. Uma pesquisa da Universidade Duke, nos Estados Unidos, mostra que mulheres pretas com cabelo natural são vistas como menos profissionais no ambiente de trabalho em relação àquelas que alisam os fios.

Antes deste episódio com Jada Smith, o próprio Chris Rock produziu um documentário em 2009, intitulado como “Good Hair”, sobre a importância do cabelo das mulheres pretas estadunidenses e a pressão para ter “cabelo bom”.

É importante destacar que, mesmo que a piada tenha vindo de um homem negro, é uma forma de reprodução do racismo recreativo. Entretanto, pessoas negras não são racistas e sim vítimas dessa estrutura social, assim como as mulheres não podem ser machistas e sim reproduzir o machismo.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
Visita Ad Limina Apostolorum
Atualizado: 23:47:16 19/05/2022
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo de Natal

Prezados leitores/as!
Desde o dia 16 de maio até hoje, eu e os outros Arcebispos e Bispos do Regional Nordeste 2 da CNBB, compreendendo os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, estivemos em Roma para a Visita Ad Limina. É uma visita dos bispos ao Papa, geralmente a cada 5 anos dentro do exercício do ministério episcopal à frente da Diocese.  

A Visita Ad Limina é prescrita no Código de Direito Canônico (cf. Cân. 399-400). São previstos apresentação de relatórios sobre a situação da Diocese ao Sumo Pontífice, como também a veneração dos sepulcros dos Apóstolos Pedro e Paulo. Na Constituição Apostólica sobre a reforma da Cúria Romana, Praedicate Evangelium (19 de março de 2022), no paragrafo 39 assim se exprime: “Esta visita tem uma importância peculiar para a unidade e a comunhão na vida da Igreja, enquanto constitui o momento mais alto das relações dos Pastores de cada Igreja Particular e de toda Conferencia Episcopal e de toda Estrutura hierárquica oriental com o Bispo de Roma”. De fato, essa unidade e comunhão, sentimos nesses dias. E, da parte do Papa, foi visível o sentimento apresentado no encontro com os bispos, sentimento que a própria Constituição Apostólica Praedicate Evangelium expressa: “Ele [o Papa], de fato, recebendo os seus irmãos no Episcopado, trata com eles das coisas que concernem o bem das Igrejas e a função pastoral dos Bispos, confirma-os e sustenta-os na fé e na caridade”.

No primeiro dia das atividades da Visita Ad Limina, dia 16, tive a graça de presidir a Celebração Eucarística, na Basílica de São Pedro, junto ao tumulo do Apostolo Pedro. A Celebração foi cerimoniada pelo Mons. Flávio Medeiros, presbítero de nosso Clero e cônego da Basílica.

Após a Missa visitamos as Congregações para a Educação Católica e da Causa dos Santos, como também o Pontifício Conselho para a Nova Evangelização. No segundo dia, 17, a Celebração Eucarística aconteceu na Basílica de São João de Latrão, a “Catedral” do Papa. Tivemos encontros na Congregação dos Bispos, na Secretaria de Estado, na Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e na Pontifica Comissão para a América Latina.

No dia 18, terceiro dia da Visita, a Celebração Eucarística aconteceu na Basílica de Santa Maria Maior. Visitamos as Congregações para o Clero, para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedade de Vida Apostólica, para a Doutrina da Fé. Nesse dia também visitamos o Pontifício Conselho para a Comunicação.

Ontem, dia 19, quarto dia da Visita, a Celebração Eucarística foi vivida na belíssima Basílica de São Paulo Fora dos Muros. As visitas aos Dicastérios continuaram: pela manhã, visitamos os Dicastérios para os Leigos, Família e Vida e o Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral; à tarde, tivemos encontros com uma importante instituição de justiça da Santa Sé: o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. E ainda, visitamos a Pontifica Comissão para a Tutela dos Menores.

Um momento significativo e bastante motivador foi o encontro que tive com o Prefeito da Congregação para o Clero, o Arcebispo coreano Dom Dom Lazzaro You Heung-sik. Na ocasião, ofereci-lhe o livro “Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros: um arauto da dignidade humana no sertão potiguar”, resultado do trabalho de conclusão do mestrado que fiz em Ciências da Religião. Quando falei de Mons.

Expedito e de outros sacerdotes de nossa Igreja Particular, como os santos mártires Pe. André de Soveral e Pe. Ambrósio Francisco Ferro e do testemunho de caridade vivido pelo Pe. João Maria, Dom Lazzaro ficou realmente encantado. E destacou que “esses testemunhos, unidos ao Evangelho, devem plasmar a vida de todo o clero da Arquidiocese de Natal e, sobretudo, dos novos sacerdotes”.

Por fim, coroando esses momentos de graça vividos por nós, bispos do Regional Nordeste 2, tivemos a audiência com o Papa Francisco. Um verdadeiro sinal e unidade, de espiritualidade, de confirmação na fé. Papa Francisco nos exortou a sermos pastores que consolem o povo santo de Deus e lhes infunda esperança. Graças a Deus, uma visita que reconfortou nossos corações.

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Por que a inflação está aumentando?
Atualizado: 00:05:10 19/05/2022
Alcyr  Veras
Economista e professor universitário
            
Conta o anedotário popular que um trabalhador comerciário, todos os dias à tardinha, impreterivelmente, tomava um prato de sopa na pequena lanchonete de uma humilde senhora idosa, pelo qual pagava cinco reais.  Um certo dia, porém, a simpática velhinha lhe disse:  a partir de amanhã a sopa vai aumentar para seis reais.  O mencionado trabalhador, então, pediu explicações, e foi informado que o motivo havia sido o aumento do preço da gasolina. Perplexo, ele retrucou: “Oh!, minha senhora, há mais de dois anos eu, diariamente, frequento essa lanchonete e não sabia que a gasolina é um dos ingredientes utilizados na preparação da sua sopa!”

Prosas de humor à parte, a verdade é que há em torno da inflação diversas teorias econômicas, recheadas de extensa literatura, para explicar a formação do processo inflacionário.  Por esse motivo, surgiram, então, acentuadas divergências de opinião entre os economistas.  As maiores divergências, e as maiores polêmicas sobre políticas de combate e de controle da inflação, estão entre os chamados Monetaristas e os Estruturalistas.  Ou seja, a pergunta-chave é a seguinte: a inflação é provocada pela expansão da Oferta de moedas, ou ela ocorre como resposta ao crescimento acelerado da demanda (sem a necessária contrapartida do aumento da produção) ?
Devido a paralisação parcial das atividades produtivas durante a pandemia (Covid-19), aconteceu, como consequência, o que os economistas chamam de demanda reprimida.  A quebra do ritmo da grande cadeia produtiva (interrompida pela pandemia), atingiu a fabricação de automóveis, eletrodomésticos, componentes eletrônicos, alimentos e outros bens de consumo, levando ao superaquecimento da demanda e à elevação dos preços. Todos nós sabemos que quando a quantidade (ou o volume) da produção aumenta, o preço unitário diminui.

Atualmente, todos os países do mundo estão convivendo com taxas mais altas de inflação, e que tende a piorar em consequência da tirânica guerra da Rússia contra a Ucrânia, que está bloqueando o fluxo econômico europeu de petróleo e gás.

Os Estados Unidos, considerado o país de economia mais dinâmica e estável do planeta, está convivendo hoje com a inflação mais alta dos últimos quarenta anos.  No Brasil, o que mais contribui para a escalada da inflação é o aumento dos combustíveis, cujo preço do barril de petróleo está sujeito aos caprichos e vaidades dos países produtores do Oriente Médio. As rodovias brasileiras representam quase 80% da nossa malha de transporte terrestre, por onde circula o gigantesco comércio de mercadorias, de norte a sul do país.  Como forma de combate à inflação o governo federal zerou as alíquotas de importação de trigo, de insumos agrícolas e de uma parte dos produtos de alimentação. 

Apesar de tudo isso, a economia brasileira vem apresentando sinais de recuperação, ainda que parciais.  No primeiro trimestre deste ano (2022), o Superávit da Balança Comercial foi de 19.9 bilhões de dólares.  No Rio Grande do Norte, segundo o IBGE, o emprego cresceu 13,8% e as exportações somaram 254 milhões de dólares. 

É lamentável dizer isso.  Mas, os maiores inimigos do combate à inflação são os mercados financeiros especulativos, e empresas comerciais que se aproveitam das crises econômicas para explorar os consumidores, por meio da injustificada elevação dos preços.     

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A crise da nossa democracia
Atualizado: 00:04:32 19/05/2022
Garibaldi Filho
Ex-senador da República 

Continuo a ler com preocupação as notícias que dão conta de momentos conturbados da nossa democracia. Essas situações se mostram de maneira mais grave nos choques entre os Poderes da República. O presidente Jair Bolsonaro e membros da mais alta Corte do Judiciário têm repetido episódios de conflitos. A responsabilidade maior, sem dúvida, cabe ao presidente, que se mostra muitas vezes alheio às atribuições do cargo que ocupa e às consequências mais sérias de suas atitudes. 

Confesso que tomar conhecimento de que o Chefe de Estado pediu para abrir um processo, por abuso de autoridade, contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, como se noticiou na noite de terça-feira (17), na notícia-crime apresentada por Jair Bolsonaro citando Alexandre de Moraes, me deixou, de certa maneira, perplexo. 

Também não podemos omitir, ao analisar esses episódios, que o ministro nem sempre se revela inteiramente atento à complexidade das implicações de cada uma de suas decisões para o nosso regime democrático. 

Na medida em que o período eleitoral se aproxima, esses acontecimentos poderão perturbar a escolha do eleitorado. 

Além disso, em vez de termos os problemas do país sendo discutidos, se oferece visibilidade, no debate público, a esse choque entre os Poderes. 

Creio que já é hora do Poder Legislativo participar desses fatos, não se omitindo de adotar uma postura que possa contribuir para superar impasses e apontar rumos para saídas institucionais aos momentos de crise.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, tem se pronunciado com mais frequência sobre esses assuntos. Com relação à ação judicial do presidente da República contra o ministro do STF, o senador afirmou que “se trata de uma anormalidade”. “Mais um episódio de anormalidade institucional que se busca corrigir. É muito importante que se corrija e que as instituições e seus membros possam se respeitar”, afirmou Rodrigo Pacheco.

Nesse aspecto, o senador acerta na avaliação. Mas precisaria coadunar a atuação com o que aponta na retórica. 
Se os interlocutores do Congresso Nacional conseguirem intermediar a superação para essa tensão entre o Executivo e Judiciário, poderemos ter um ambiente mais adequado a uma campanha eleitoral com a discussão dos temas que interessam aos brasileiros.

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Vini poética
Atualizado: 23:26:02 17/05/2022
Carlos Alberto Josuá Costa
Engenheiro Civil, escritor e membro da Academia Macaibense de Letras

Vinho e poesia, poesia e música, música e amor, amor e vinho, se misturam quando a conjunção de sentimentos nos aproximam de parcerias que proporcionam alegria e convívio salutar no degustar de bons momentos.

A poesia e um bom vinho são capazes de oferecer encantos, quando se harmonizam com nossos sentimentos e emoções. Essa harmonia desliza em dança suave pela parte interna do bojo da taça, ao tempo em que se mostra no visual de suas cores. Quando aliamos isso a uma companhia que sabe admirar o belo e o sensível de aromas e palavras, então está perfeito o casamento da arte com a vida. 

A poesia é cantada e decantada em versos que as palavras formam como moldagem, quase sempre, de algo que afetou, de alguma forma, a sensibilidade do poeta (e da poetisa), naquele momento de inspiração.

O vinho é decantado em termos que aparentemente nos deixam atônitos por traduzirem “conceitos” técnicos, mas de tamanha simplicidade, à medida que vamos nos tornando “familiares” ao uso de tais termos na experiência que vamos adquirindo com as degustações de seus aromas e sabores.  

A delicadeza de um Pinot Grigio, a aparente aspereza de um Tannat, a maleabilidade de um Shiraz, a beleza de um Chardonnay, a pureza de um Malbec, a sutileza de um Susumaniello, a firmeza de um Monastrell, por si, já trazem um belo poema.

Quer poesia melhor que a Merlot, ao se juntar com a Cabernet Sauvignon e com a Cabernet Franc, para, num amor profundo, expressar em um "blend'' denominado bordalês (de Bordeaux/França) o sentimento aprazível do entendimento?

Ah! Quanto amor se expressa quando a poesia chama o glamour dos vinhos para a sua companhia. Nem a poesia nem o vinho impõe condições ou limites para se compararem entre si, mas para o perfeito entendimento que não espera nada em troca.

Assim, por puro deleite, trago esse ‘Vini Poética’ realçando alguns termos do palavreado comum àqueles que gostam de compartilhar um bom vinho com uma boa amizade.
Nos “rótulos” teus me fiz “sedoso”
Busquei “intensidade de sabor”
Transformei-me em “gran reserva”
“Decantei” os meus desejos
Encontrei a “textura” dos teus lábios
No “visual” do teu “tinto” amor.

Na dança “maleável” da taça
Embriaguei-me sem “reserva”
No “meio-seco” do teu “aroma”.

Escolhido pois o “vinho”
Aceito o “caráter” do teu convite
Irei “generoso” ao teu “château”
Sorver o “charmat” do teu “buquê”.

Espero que estejas “tanino” de paixão
Que realce a “acidez” dos teus beijos 
Que o teu “corpo” de “crianza”
Não se deixe enganar pelo “retrogosto”.

Que as “lágrimas” sejam breves
Pois na tua “acidez” quero dançar
Entre o teu e o meu “paladar”
No “límpido” e “suave” amar.

Faz-te intensa como uma "Sangiovese"
E farei-me “harmônico” como um “Zinfandel”.
Um brinde!

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Opinião: muda, mas continua como está
Atualizado: 23:24:52 17/05/2022
Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado

Uma questão de fundamental importância, para os eleitos no futuro Congresso Nacional é o debate sobre a permanência do atual presidencialismo de coalizão, ou a mudança para o regime de governo semipresidencialista, como meio de reduzir a instabilidade política. Tudo vem à tona, após dois impeachments - Fernando Collor e Dilma Rousseff -, 303 pedidos de destituição de presidentes da República encaminhados à Câmara dos Deputados, além de sucessivas crises políticas.

De saída, entendo que não se justifica falar em “semipresidencialismo”, sem antes modernizar a lei partidária. Seria “colocar a carroça na frente e dos bois”. Esse novo modelo de governança teria que ser precedido de uma urgente reforma partidária, para evitar as pressões sobre os governos eleitos, partindo dos “oportunistas e fisiológicos de plantão”, em busca de cargos, funções e emendas orçamentárias.
As mudanças devem começar pela democratização interna dos partidos, assegurando direitos aos filiados. Hoje são ditaduras, com os partidos transformados em “propriedades privadas” de cúpulas, que concentram poderes absurdos, para ratearem os bilhões do Fundo Eleitoral. Os Diretórios têm total autonomia de como e onde utilizar o dinheiro. O Fundo se torna uma espécie de moeda de troca, permitindo que se façam acordos “por fora” para que o dinheiro chegue até onde desejam chegar.

Constatam-se escândalos no jogo de “troca” de favores pessoais e de grupos. As prestações de contas são “genéricas”, constando “gastos” com “serviços técnico-profissionais”, “transferências com fins eleitorais”, “aluguel de bens móveis” e “alistamento”. Existe, inclusive, uma despesa chamada de “outras despesas eleitorais”, que pode servir para qualquer coisa. Além disso, os julgamentos das contas demoram e, com isso, grande parte prescreve. Assim sendo, como os partidos manipulados teriam legitimidade para formarem maioria parlamentar no semipresidencialismo?

No atual quadro nacional, o presidencialismo de coalizão, aprovado na Constituição de 1988, é “mitigado” e muito dependente do Congresso Nacional. A justificativa usada na formação de governo de coalizão é a formação de aliança política, visando facilitar a governabilidade. Na prática, a multiplicação de partidos faz com que essas “alianças” se transformem em nocivo arranjo político-institucional, pelo uso da “barganha” e do “toma lá me dá cá”. Regra geral, os partidos brasileiros são como os morcegos, que se nutrem do sangue alheio e só enxergam o próprio umbigo.

Como alternativa ao modelo do presidencialismo de coalizão, em 1978 o cientista político Maurice Duverger defendeu a Quinta República francesa (criada em 1958), como um sistema semipresidencial, que comportaria outros mecanismos, além do impeachment, para resolver crises entre Executivo e o Legislativo. O semipresidencialismo seria capaz de aperfeiçoar a separação de poderes, aplicando o princípio de freios e contrapesos (controle do poder pelo próprio poder). Finlândia e Portugal são exemplos atuais.

Note-se, que em nossa Constituinte de 1988 foi tentada solução parlamentarista, que chegou a ganhar na Comissão de sistematização. No final, venceu o presidencialismo. Derrotados, os parlamentaristas incluíram nas Disposições Transitórias da Constituição a realização de plebiscito, pelo qual, cinco anos mais tarde, a população decidiria se mudaria o sistema de governo. Na consulta em 1993, o presidencialismo foi mantido.

Atualmente, ressurge na Câmara Federal, com apoio do presidente Artur Lyra, a proposta do semipresidencialismo. Grupo de trabalho analisa a matéria.  A mudança ocorreria apenas em 2030. A ideia seria o presidente da República ser eleito por voto direto, com mandato fixo, poderes para dissolver o Parlamento, escolher o primeiro-ministro e o gabinete, desde que tenha apoio da maioria parlamentar. Em caso de crise, ele poderia convocar eleições. O Parlamento teria atribuições de destituir o primeiro ministro.

Caso o semipresidencialismo seja aprovado, antes de uma cirúrgica reforma partidária, política e eleitoral, se transformará em “engodo”, agravando as crises. Nesse caso, Tomasi di Lampedusa estará certo, ao ter dito, que as vezes “tudo muda para continuar como está”.

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Por André Moura - Fundador da Poti Ventures

Ao longo dos últimos dois anos, existiu uma movimentação massiva de empreendedores, investidores e mão de obra de tecnologia do Vale do Silício para outros polos de tecnologia americanos. Muitos para Miami, Austin ou Nova York. As mudanças que foram anunciadas por alguns, como a morte do Vale do Silício, vem se mostrando mais como uma saudável redistribuição de zonas de capital e poder, o que certamente envolve o surgimento de novos centros de tecnologia. Uma diferença é que agora a tendência aponta que não deverão surgir epicentros unânimes como o Val foi. Especialmente quando consideramos o número de empreendedores, a quantidade de capital e a qualidade da mão de obra espalhados por outras regiões. 

A conferência "Brazil at Silicon Valley" - que acontece esta semana - vem em boa hora para trazer essa nova faceta do Vale pós-pandemia, onde viceja a mistura de um ecossistema pujante como sempre foi junto ao reconhecimento de uma tendência de descentralização do momento.Este artigo tem o objetivo de amplificar o conteúdo do primeiro dia de conferência e discutir como ele nos ajuda a entender o atual momento do mercado.

Reprodução
Brazil at Silicon Valley discute, entre outros assuntos, o potencial de startups brasileiras

Brazil at Silicon Valley discute, entre outros assuntos, o potencial de startups brasileiras


O Brazil at Silicon Valley é um movimento liderado por estudantes de Stanford e Berkeley que visa melhorar a competitividade do nosso País por meio da inovação e tecnologia. O movimento organiza uma conferência anual com os mais influentes executivos, empresários, especialistas e formuladores de políticas brasileiros para discutir temas relevantes com atores do Vale líderes em desenvolvimento tecnológico. A conferência este ano acontece nos dias 16 e 17 de maio e os painéis do primeiro dia de conferência giraram em torno de Inteligência Artificial, Realidade Virtual, criando o futuro através de investimentos, escalando startups globais, aplicações da Web 3/criptomoedas e a discussão sobre mulheres em tecnologia.

Seria impossível explorar a fundo o que foi tratado em cada painel, mas alguns pontos impactantes e transversais em alguns painéis foram: 1. É possível ter um empreendimento com impacto e que obtém muito lucro (fireside chat entre Kevin Efrusy, Sócio na Accel, e Eduardo Mufarej, fundador da GK Ventures); 2. Para ser um grande líder, conheça primeiro a si mesmo: suas forças, fraquezas, "superpoderes" e valores (fireside chat entre Sukhinder Cassidy, ex-presidente da StubHub, e Antoine Colaço, fundador do Valor Capital Group); 3. Começar a desenvolver uma forma de pensar menos “tudo ou nada” e incorporar modelos que conciliem pensamentos aparentemente opostos é importante (fireside chat entre Jaron Lanier, cientista na Microsoft, e Mat Veloso, consultor do CEO da Microsoft); 4. Startups brasileiras tem muito potencial para ser globais. É importante pensar outros países como mercado (fireside chat entre Shernaz Daver, CMO na Khosla Ventures, e Mala Gaonkar, fundadora da Lone Pine Capital).

A conferência criou, neste primeiro dia, um conjunto de insights muito valiosos que pode ser a faísca para empreendimentos que vão resolver problemas enormes da economia e da sociedade brasileira.É algo semelhante à palestra de Doug Leone, em 2019,que acabou sendo a faísca para a Inteli nascer como uma escola líder em educação de tecnologia e empreendedorismo. Certamente, nos próximos anos, veremos se consolidadas ideias que nasceram agora, em meio às discussões desse primeiro dia do Brazil at Silicon Valley. 

Tapas e beijos
Atualizado: 23:39:53 16/05/2022
Valério Mesquita
Escritor

Tivemos a oportunidade de expor uma tese, em artigo publicado em jornal, que desde os anos 50, até hoje, via de regra, prevaleceu o triunfo eleitoral dos candidatos naturais ao governo do Estado. Do mesmo modo, outro tabu político sempre manteve a escrita: em todas as eleições para governo sucederam rupturas partidárias e rompimentos políticos. Nenhum pleito ocorreu sem que os partidos e alianças mantivessem os compromissos do presente ou do passado. Assim foi, primeiramente, em 1950, quando o PSD do governador José Varela cindiu-se para apoiar Manoel Varela. Em 1955, Jocelim Vilar e Jessé Freire candidatos do PSD contra Dinarte Mariz da UDN, não receberam o apoio do pessedista José Varela que havia migrado para outro partido. 

Já em 1960, a implosão do PSD foi vulcânica. Aluízio e Djalma Marinho dividiram as preferências do velho PSD, por causa do rompimento Alves x Mariz, ambos udenistas. O quadro da eleição de 1965, não foi diferente. Muitos que integraram a “Cruzada da Esperança” para eleger Aluízio, não ficaram com o monsenhor Walfredo Gurgel, seu candidato. Dentre prefeitos, líderes políticos do interior, podemos citar Odilon Ribeiro Coutinho, Grimaldi Ribeiro, Jessé Freire, além de deputados estaduais. Em 1970, 74 e 78, época dos governadores indiretos (Cortez, Tarcísio e Lavô), nem porisso, deixaram de acontecer estocadas, escaramuças, dentro dos partidões Arena (verde e vermelha) e PDS, verdadeiras Arcas de Noé, com a oposição (MDB) influindo por linhas tortas e invisíveis na sucessão dos governadores nomeados. 

Chega 1982, época do candidato naturalíssimo José Agripino. ajudado pelo voto vinculado, que somou todas as forças para derrotar o que sobrou da oposição: Aluízio Alves, ressuscitado dos direitos políticos cassados mas enfraquecido pelo acordão de 1978. Da derrota ficou a lição eterna: jamais Alves e Maia caberão no mesmo palanque. Mas em 1986, o então PDS mais o PFL, sofreram fraturas internas e expostas que imobilizaram João Faustino no leito de uma derrota surpreendente para Geraldo Melo. Entre tapas e beijos as tecituras de candidatos ao governo continuariam. Em 1990, Lavô e Vilma, entre outros, afastaram-se do sistema Maia e foram brigar com o primo José Agripino.

Este, na sucessão seguinte, em 1994, consegue reagrupar Lavoisier, invertendo-se o jogo. O PDT de Lavô rompe com os ex-aliados do PMDB que ganharam, de quebra, o então PPB do vice-governador Fernando Freire, saído do PFL.

Em 1998, dois nomes, para governador, já conhecidos, foram forçados à colisão, por força das circunstâncias: José Agripino Maia e Garibaldi Filho. Haviam deixado de ser, naturais para serem conjunturais. Compelidos em favor das legendas partidárias, para cada um, unificar o seu próprio sistema.

No novo milênio, as eleições foram cruentas, antropofágicas. Vale lembrar, certa vez, a definição que Dinarte Mariz havia deixado: “Política, meu filho, nunca deixou de ser, uns empurrando os outros”. No inicio do novo milênio, a candidatura natural se revelou em Vilma Maria de Faria, que, por dois mandatos, governou o Rio Grande do Norte. Foi sucedida por Rosalba Ciarlini, já senadora, com expressão política à nível estadual pelas repetidas vitórias como prefeita de Mossoró. Mas, não deixaram de ocorrer rupturas.

A eleição seguinte desmascarou a crendice da candidatura natural ao derrotar o deputado federal Henrique Eduardo Alves, superado pela zebra Robinson Faria. Chega 2018, finalmente, com outro resultado surpreendente: o pretenso candidato natural Carlos Eduardo Alves, que não reuniu conteúdo, consistência ou unidade partidária, foi derrotado pela candidata Fátima Bezerra. Teria sido ela a candidata natural, efetivamente? 

Este ano da graça de 2022, quem é o candidato natural? Pela oposição não existe. Além do mais, nunca se viu então tantas tapas e beijos como agora. Política é circunstância. A lua engravidou de marte e nasceram alianças confusas, complexas e contraditórias que logo se desfarão.

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