Lições da Tailândia

Publicação: 19/07/18
Cristovam Buarque
Senador pelo PPS-DF

Nesta Copa, cada povo torceu pela seleção de seu país até que, em 2 de julho, o mundo inteiro passou a torcer pelos Javalis Selvagens. Doze jogadores mirins e seu técnico, prisioneiros dentro de uma caverna no norte da Tailândia, passaram a atrair a atenção tanto quanto as seleções nacionais nos estádios da Rússia. Desde então, esse pequeno país asiático deu algumas lições ao mundo.

Mostrou capacidade de gestão para mobilizar recursos, com a solidariedade e heroísmo de voluntários, realizando uma operação que parecia impossível. Venceram desafios quase insuperáveis: localizar os meninos nos labirintos das grutas, alimentá-los a três quilômetros da entrada da caverna e a um quilômetro de profundidade.

Entre os meninos e o mundo externo havia despenhadeiros, rios e lagos, trechos inundados do chão ao teto. A primeira lição é que o salvamento seria impossível sem conhecimento técnico de diversas áreas, sem capacidade de gestão e de coordenação de profissionais de diversas especialidades e nacionalidades.

Outra lição é que a operação só foi possível graças à decisão política dos governantes tailandeses. Sem ela, os recursos disponíveis não seriam utilizados. A desmoralização da política que, muitas vezes, beneficia os próprios políticos, faz esquecer que sem ela as decisões não são tomadas, os recursos não são utilizados ou servem a causas erradas. A bem-sucedida operação nos ensinou também que os países não aplicam recursos para resgatar milhões de pobres que há em cada um deles, porque as decisões políticas são tomadas com base na moral prevalecente na sociedade.

O salvamento dos meninos na Tailândia exigiu técnicas mais complexas do que as necessárias para educar, alimentar, construir moradias, levar água potável para milhões de pobres. As sociedades não usam a política para mobilizar recursos que salvem os milhões sem-teto, sem comida, sem educação, porque não há um imperativo moral para isso.

A ética induz a política ao resgate de meninos presos em uma caverna, mas tolera a omissão diante da condenação de milhões de outras crianças e adultos à pobreza. A moral criou um imperativo que leva à mobilização para trazer de volta o Javalis Selvagens e força uma pessoa que sabe nadar,  heroicamente saltar na água para salvar um náufrago que se afoga, mas não a alfabetizar quem não sabe ler.

Todos se empenham para evitar que uma pessoa morra por falta de oxigênio em uma caverna, mas toleram a morte por falta de oxigênio em um hospital. Todos sofremos, diante do risco dos meninos com fome, frio, asfixia na caverna, mas aceitamos a fome endêmica, o frio e a negação de escola e saúde para milhões de meninos que caminham livres em nossos países. Viver na pobreza implica a mesma escassez de uma caverna.

Ainda outra lição é de que o imperativo moral que impele as decisões políticas trata tão diferentemente os condenados na caverna geológica e os condenados na caverna social da pobreza, porque a linguagem passou a defini-los diferentemente. Não se considera como afogado quem fica sem oxigênio por falta de atendimento médico; não se usa resgate para retirar alguém da rua; não se chama escuridão o mundo onde vive um analfabeto, não se considera genocídio a morte de milhões por inanição.

A política decide como e para quem usar a técnica; a moral induz a escolha das decisões políticas; a linguagem é formada e cria a moral de como as pessoas se indignam e lutam bravamente ou se acostumam e caem na omissão. Felizmente, a moral prevalecente salvou os meninos da caverna; mas infelizmente, ela não empurra a política para resgatar os milhões de pobres nas cavernas sociais: do analfabetismo e da deseducação; da desnutrição crônica; da falta de água potável, coleta de lixo e esgoto; da falta de atendimento médico e de acesso à cultura. Talvez, as lições da Tailândia nos levem a mudar a linguagem, a moral e, em consequência, o uso da política a serviço da justiça social. Que o mundo inteiro ou pelo menos os políticos aprendam as lições da Tailândia.


Governar não é arriscar palpites

Publicação: 19/07/18
Alcyr Veras
Economista e professor universitário

Um “comandante” impostor, após ludibriar a tripulação durante a viagem, assumiu o posto mais alto do comando do navio. Desconfiados da real identidade daquele impostor, os  Oficiais militares, ao  chegarem ao porto de destino, fizeram-lhe uma pergunta, de ordem técnica, sobre quantas amarras deveriam colocar para  a correta atracagem  do navio ao cais. Ele que, obviamente, não tinha conhecimento técnico do assunto, resolveu então arriscar e respondeu: - “todas as amarras”. Durante a noite caiu uma devastadora tempestade, e, na manhã seguinte, aquele navio permanecia seguro e preso ao caís, enquanto que as demais embarcações (com poucas amarras) foram arrastadas pela tempestade e desapareceram.

Em se tratando de política econômica, não há lugar para arriscar palpites, nem tampouco apelar para os “deuses” da sorte. Ou seja, não é simplesmente o fato de “colocar ou retirar amarras” sobre o conjunto de medidas econômicas a serem tomadas pelo governo de um país. O engessamento da economia é tão nocivo porque castra a livre iniciativa, quanto sua liberalidade desmedida pode levar ao estado acéfalo do Laissez-Faire.

Na verdade, o alcance da política econômica está relacionado com a natureza do regime social. Em síntese, a política econômica depende da própria visão que os governantes têm do papel do Estado no conjunto da sociedade.

Dependendo da situação em que se encontra, o país poderá optar por uma das seguintes alternativas: pela estabilização conjuntural, visando a superação de desequilíbrios ocasionais, regulando o funcionamento do mercado e a distribuição de renda; ou adotar a estratégia expansionista que tem por objetivo a manutenção e aceleração do crescimento econômico.

O premiado economista britânico, Martin Wolf, formado pela Universidade de Oxford, e ex-consultor sênior do Banco Mundial, conhecido por combater governos populistas, afirma que governar um país, é, antes de tudo, dispor de capital político para fazer, de verdade, as reformas necessárias. Na sua opinião, os maiores problemas do Brasil são: a falta de credibilidade no governo, a permanente instabilidade política; e a endêmica e recorrente corrupção generalizada. Segundo ele, no Brasil não existe uma política econômica definida, porque os governantes confundiram, demagogicamente, políticas públicas com assistencialismo. Por isso, não houve real melhoria nas condições de vida e bem-estar da população.

Referindo-se aos pré-candidatos a Presidente da República, Martin Wolf diz que não vê nenhum deles com perfil inovador para mudar os rumos da economia brasileira. Alguém capaz de oferecer segurança jurídica aos investidores (internos e externos), com respaldo político e autoridade para por em prática as reformas, sem aumentar impostos que já são um fardo tão grande para a população. Continuando em suas observações, diz também que há uma grande distância entre o discurso e a prática. E que o futuro do país passa pela imperiosa necessidade de ingressar no caminho da inovação tecnológica para aumentar o poder de competitividade, mas precisa reduzir sua dependência às exportações de commodities. Por fim, lamenta que o brasileiro tenha perdido a confiança nos políticos, porque essa percepção abre espaço para dirigentes outsiders e neófitos, cuja incompetência é danosa - concluiu.


Agora, a “Copa do voto” no RN

Publicação: 18/07/18
Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado – nl@neylopes.com.br

No futebol terminou a Copa do Mundo. A partir de sexta feira, 20 de julho começa a Copa do voto”, com o início do prazo para realização das convenções partidárias e definição das candidaturas, que terminará em cinco de agosto.

Sobre os jogos de Moscou, difícil responder as razões da nossa desclassificação. Um fato incontestável é explicado por Luís Fernando Veríssimo: “Crepúsculo dos Deuses seria um título adequadamente wagneriano para essa Copa. Divindades caíram dos seus pedestais”.

Em principio, total injustiça atribuir o insucesso a incompetência de Tite e dos jogadores. Os números mostram que a seleção dominou o jogo final com a Bélgica. Perdeu no mínimo 10 gols, acertou bola na trave e teve um pênalti claro e incontroverso não marcado. No placar, dois gols do Brasil (um contra), contra um marcado pela Bélgica.

Afinal, o que faltou ao Brasil: competência ou sorte? Napoleão alinhava três fatores para ganhar a guerra: bons soldados, armamento eficiente e “sorte”. Seria mera coincidência, a semelhança desses conceitos napoleônicos com o futebol? Atribuir o sucesso a sorte gera polêmica. Não se nega ser fundamental fazer com eficiência o dever de casa. Mas, isso não basta. Competência é fruto do talento e do trabalho. Sorte é a oportunidade, que independe da competência. Muitas vezes, a oportunidade aleatória vence o talento e o trabalho. O importante será lutar, começar de novo, fazer escolhas profissionais acertadas, preservar valores humanos e acreditar sempre.

Sobre a “Copa do voto”, que começa no Rio Grande do Norte, muitas indagações pairam no ar. Dois fatores se sobressaem: o curtíssimo espaço de tempo para mostrar os candidatos e o elevadíssimo grau de indefinições sobre o comportamento do eleitor.

Pelas últimas pesquisas, aplicadas por institutos locais idôneos, só não enxerga quem não queira. São evidentes os reduzidos índices de apoio e os expressivos percentuais de ausência do eleitor nas urnas (favorece os aliados de Lula). Caso as pesquisas se confirmem será um preço elevadíssimo, a ser pago por aqueles que insistam e não entendam a voz prévia das ruas. Avaliações sobre as causas dessa realidade apontam várias hipóteses. Duas delas: o “enclausuramento” dos partidos, transformados em “casa grande de fazendas” e o fato das novas exigências do eleitor não serem levadas em conta pelas siglas, nas escolhas de candidatos. Usam-se critérios antigos para agregar aparentes e falsos apoios eleitorais, que o eleitor rejeita, pelo oportunismo revelado.

Na história política estadual, sempre prevaleceram verdadeiras armaduras em torno dos partidos, favorecendo “grupos” e “amigos” com interesses pontuais, regra geral pessoas sem vocação e sem o mínimo de espirito público. Tais fatores dificultaram o surgimento de propostas, realmente inovadoras. Percebe-se que a escassez não é do “novo”, mas de valorização da experiência política e competência no lançamento de candidatos, independente de terem ou não exercido mandatos eletivos, ou idade biológica.

Por outro lado, o momento nacional é de profundas mudanças. Ninguém se engane: o eleitor “abriu os olhos”. Nos distantes rincões do país, o what up, facebook, blogs e outros meios da Internet detalham informações instantâneas sobre os candidatos. No RN, praticamente não se conhecem propostas. Na disputa pelo executivo, o que existe de concreto para julgamento popular é a bem avaliada experiência administrativa de Carlos Eduardo na PMN e o desempenho de Robinson Faria no governo, além da impetuosidade ideológica da senadora Fátima Bezerra, agregando o lulismo.

Na escolha legislativa estadual (senador e deputados) a desertificação é maior. Nada de ideias, ou apresentação de obra legislativa de mandatos anteriores, a ser continuada. A esperteza é premiada, com o uso notório da máquina pública para “prometer” votos e apoios no “mercado eleitoral”, através de “pseudos” serviços prestados, “vitaminados” pelos “convênios” viciados e nutridos pelo dinheiro público. De outra parte, vê-se a notória manipulação de legendas, construindo “nominatas”, a serviço unicamente de interesses privados e chantagens de bastidores.

No futebol, o sonho do Brasil hexa está transferido para 2022. Afasta-se também o sonho do “novo Brasil” brotado das urnas de outubro, diante do crescimento da decisão do eleitor de “não votar”. Se essa tendência prevalecer, pela total e absoluta ausência de candidatos com vocação e espírito público, também na política o sonho será adiado para 2022. A dúvida é se as instituições resistirão até lá.


"Você não passa de uma Mulher"

Publicação: 18/07/18
Sâmela Gomes
Presidente da Universidade Potiguar e da Faculdade Internacional da Paraíba

A última vez em que fiz uma palestra que gosto particularmente de fazer, “Lugar de Mulher é onde Ela Quiser”, em um evento para administradores, escutei de uma jovem, na saída, que deveria ter por volta de seus 25 anos, depois de pedir uma selfie: “Queria muito que meu pai tivesse escutado esta palestra. Ele ainda é daqueles homens que pensam que uma mulher é somente uma mulher”. Na hora, o que me veio à mente foi a música de Martinho da Vila, que dá nome a este artigo.

Não vou entrar aqui em uma discussão sobre o “politicamente correto” das músicas, pois atualmente muitos tendem a tomar posições extremas. Música é temporal, assim como todas as expressões artísticas e diz do contexto social de uma época, portanto, devemos ter sempre uma visão antropológica e sociológica sobre a arte.

Voltando ao tema, a luta das mulheres é antiga. Aqui no Brasil, durante o Império, a nossa Nísia Floresta (que é tida como a pioneira do feminismo no Brasil) foi fundadora da primeira escola para meninas e grande ativista pela emancipação feminina, e foi nesta época em que se passou a ser reconhecido o direito à educação da mulher. Desde esta época até a atualidade, muitos movimentos em nome dos direitos da mulher marcaram, década a década, a sociedade brasileira. Atualmente, os dados do Censo da Educação Superior de 2016, (que são os mais recentes), revelam que as mulheres representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de graduação. Em 2006, as mulheres representavam 56,4%. Ou seja, as mulheres continuam avançando, buscando a melhor preparação para suas carreiras e para suas vidas.

Mas nesta letra de Martinho de 1975, que ele mesmo reconhece que lhe deu dor-de-cabeça e que fez “para provocar” (??), se fala sobre a educação feminina: “Olha a moça inteligente, que tem no batente o trabalho mental, QI elevado e pós-graduada. Psicanalizada, intelectual. Vive à procura de um mito, pois não se adapta a um tipo qualquer. Já fiz seu retrato, apesar do estudo, Você não passa de uma mulher (viu, mulher?)”

Não há como não se sentir mal lendo isto, mas infelizmente, quase 50 anos depois, muitos ainda pensam assim. Apesar de toda uma história de mulheres fortes que se sobressaíram através de suas pesquisas, carreiras, artes, política, muitos reduzem estes fenômenos, tentando fazer-nos entender que “apesar de tudo, você não passa de uma mulher”, como se isso nos reduzisse a uma condição menor, sendo que esta é justo a nossa: a de sermos mulheres e isso nos inferiorizasse, independente do que fizermos. Na mente de alguns, ser inteligente demais “atrapalha” ser mulher; e de fato, atrapalha mesmo: atrapalha a tentativa de manter o mundo retrógrado, idiotizado, categorizando pessoas por gênero, cor, credo, orientação sexual. Atrapalha principalmente as mentes menos evoluídas, que categorizam e generalizam, pois, fazer isso é mais simples e exige menos da inteligência.

Precisamos, como mulheres, ocuparmos cada vez mais os lugares que não nos eram dados antes; sermos suficientemente competentes para que nos vejam por nossos méritos, independente se usamos saias, batons, perfume e saltos. Precisamos conter o machismo disfarçado de “bons conselhos”, que pedem para que uma mulher se destitua de sua condição e masculinize-se para ocupar cargos mais altos. Precisamos que os nossos novos compositores falem de uma nova mulher, por ser esta a que de fato a sociedade enxerga: a mulher que, em sendo ela mesma, não passa (aí sim) de um ser humano, com as mesmas possibilidades de conquistar seu lugar: aquele que ela quiser.  


Causos do velho João Medeiros

Publicação: 17/07/18
Valério Mesquita
Escritor

Quem conheceu João Medeiros, na pequena Jucurutu, sabe da sua bonomia e criatividade. Gozador de tudo e de todos. Se não fora o tino administrativo de sua querida esposa, Maria Aparecida Jácome, nada teria restado para a sua velhice. Seu filho, o padre João Medeiros conta com prazer seus casos, qualidade essa que também deixou de herança para o sacerdote, nosso amigo e colega na Academia.

01) Nos dias de folga, o padre Joãozinho, como ainda é conhecido em Jucurutu e cercanias, ia até a sua cidade natal para passar o dia com os pais. Certa feita, se fazia acompanhar de um grande amigo da família: dom José de Medeiros Delgado. João Medeiros, o pai, aperreava muito sua sogra. Todos à mesa para o almoço farto, na mais bela tradição seridoense, quando recebia visitas ilustres. O velho João, durante a refeição, dirige-se aos visitantes, bastante compenetrado e lhes diz: “Senhor bispo, meu filho, tenho uma pergunta de cunho teológico para lhes fazer”. O filho fala: “O que é papai”? Ele continuou: “Você estudou muitos anos na Bélgica, quase seis, foram de teologia. Dom Delgado foi aluno brilhante da Universidade Gregoriana de Roma. Gostaria de saber por que São Pedro negou Cristo, três vezes”. O bispo conhecia bem o seu amigo e ficou calado. O filho padre toma a palavra e disse que não constava dos relatos evangélicos. O velho João olha bem dentro dos olhos da sogra e diz: “Senhor bispo, meu Filho, ensinem ao povo de Deus. O motivo foi porque Jesus curou a sogra de Pedro. Devia ter deixado a velha morrer”.

02) Como político – mas sobretudo um gozador que era – cuidava dos seus eleitores. À época, o analfabetismo grassava os sertões. Não existia ainda MEB, MOBRAL e outros movimentos de alfabetização de adultos. Procurava registrar os futuros eleitores, que não o foram quando crianças. Ele mesmo, antecipando o método de Paulo Freire, ensinava os adultos a assinar ou escrever o nome. Inúmeras pessoas foram registradas oficialmente com o nome de Jó Sá. E o velho João Medeiros ensinava: “a letra jota é uma bengala, o “Ó” é um melão; a letra “S” é uma cobra na areia quente; o “a” maiúscula é uma tamboeira (melancia pequena)”. O método era eficaz. Apareceu, um dia, o corregedor da justiça para fazer a famosa correição no cartório da cidade. O notário de então já com medo manda chamar o seu amigo João Medeiros. Este sempre tivera o cuidado de mandar o escrivão colocar após o nome Jó os números romanos I, II, III etc. O Corregedor irritado pergunta, “mas o que é isso, sr. Euclides”? O velho João saiu em defesa: “Doutor, nesta cidade quente e sofrida, todos são muito católicos. Devotos de Jó da Bíblia, com tantas provações e dores, adotam o nome do servo de Deus. E como são muito obedientes ao Papa acrescentam como os Pontífices: Pio X, Pio XI, Pio XII etc.”. Nesse ínterim, aparece uma senhora que queria o registro do filho que pretendia casar em São Rafael: “Sr. Euclides, queria o registro de meu filho Severino que tem aqui o nome de Jó IV”. O velho João Medeiros incontinenti completa: “Vejam que espírito bíblico e religioso desta terra. Imitam os nomes sagrados: Saulo mudou para Paulo; Pedro era Simão; Pio XII era Eugênio. E viva a tradição”. O corregedor não se conteve e sentenciou: “Diante de tanta criatividade, tenho que me curvar”. Depois foram todos comemorar e mandaram chamar o padre Estanislau para almoçar juntos. Levantou um brinde a todos e disse, apontando para o vigário: “Meus amigos, barriga de padre é cemitério de galinha”.

03) Dom José de Medeiros Delgado era muito amigo de João Medeiros, que por sua vez foi avalista da amizade com Stoessel de Brito, espírita convencido, seu compadre e padrinho de batismo de padre Joãozinho. Já arcebispo emérito, dom Delgado foi até Caicó para ouvir um dos padres, seu grande amigo e pessoa de grande valor, que estava pensando em deixar a vida sacerdotal e constituir família. A pretendente era uma moça de Jucurutu, educada, honesta, mas de poucos dotes femininos. O arcebispo resolve ir até Jucurutu para saber o veredito do seu grande amigo João Medeiros. Como de costume, jantar frugal, à moda de dom Delgado: coalhada com rapadura e fubá de pilão, um pedaço de carne assada e um pouco de arroz de leite. Depois na calçada da casa, cadeiras de balanço (espreguiçadeira), o cenário perfeito para a prosa. O arcebispo pergunta ao amigo: “Diga-me com honestidade, velho João, que tal a moça?”. João Medeiros, sério e fitando bem a sua visita tão amiga e querida, profere: “Senhor bispo, não sei se o padre é vegetariano. Mas a  moça não tem carne sequer para um pastel de criança. Como diz o poeta: ´a natureza foi com ela avara´. E para lhe ser bem sincero, dom Delgado, em termos de beleza, a moça não paga o pecado”.