Forças federais no Rio

Publicação: 24/05/17
Lydia Medeiros

O governo fará uma intervenção na área de Segurança no Rio de Janeiro. A decisão, tomada antes do terremoto político desencadeado com as denúncias do empresário Joesley Batista, prevê, ainda neste semestre, um esforço coordenado para enfrentar a insegurança e a violência no estado. O governo concluiu que a situação é alarmante e que o Rio, em grave crise econômica, está se desintegrando. Participarão dessa "força-tarefa" os ministérios da Justiça, da Defesa e do Desenvolvimento Social.

Oposição sem bússola
A oposição perdeu o rumo (e os modos) nos últimos dias. Briga por eleições diretas, mas tem emissários nas discussões para a definição de um substituto para Michel Temer numa eleição indireta. No Senado, em nome dos trabalhadores, interrompeu aos gritos e com truculência a sessão de uma comissão que tratava da reforma trabalhista. Não adiantou. Já na Câmara, para tentar impedir qualquer vitória do agonizante governo Temer, obstruiu, sem sucesso, a votação de medida provisória que permite o saque das contas de FGTS - o dinheiro dos trabalhadores. E, um dia depois de Lula ser alvo da sexta denúncia por lavagem de dinheiro e corrupção, Renato Duque, o ex-diretor da Petrobras, divulgou fotos que comprovam encontros com o ex-presidente.

Dois caminhos
A OAB deve apresentar até amanhã à Câmara pedido de impeachment do presidente Temer. No entanto, diante da possibilidade cada vez mais forte de Rodrigo Maia (foto) barrar este e outros pedidos já protocolados, a entidade estuda judicializar a questão ou buscar a adesão das ruas.

Apoio do agronegócio
Michel Temer está articulando a divulgação de uma nota de apoio a seu governo assinada pela Frente Parlamentar da Agricultura. Se conseguir, será um sinal positivo do setor produtivo.

Palco para a vingança
Duas CPIs prometem incomodar a JBS. Uma delas, mista, investigará possíveis danos do grupo ao mercado financeiro. Outra, no Senado, que já conta com 35 assinaturas para sua criação, vai apurar irregularidades em empréstimos do BNDES, em especial à JBS. Parlamentares citados nas delações de Joesley Batista já disputam vagas. Na empresa, há expectativa que as comissões sirvam como instrumento de retaliação. Os depoimentos de Joesley atingem 1.829 políticos.

Poder das palavras
Dois advogados de Aécio Neves procuraram o gabinete do relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, para pedir acesso integral aos áudios que pesam contra o senador. À chefe de gabinete, Paula Boeng, reclamaram, em tom enfático, que o pedido de prisão de Aécio será julgado no plenário, e os defensores estavam "vendidos", no sentido de não ter informações.
- As informações às vezes demoram para serem divulgadas, mas acho que esse não é um bom termo - explicou Paula.
- Que termo?
- Vendidos.
Sem graça, os advogados concordaram que, em tempos de delações, melhor escolher as palavras.

Cantinho do Moreno
O presidente do Senado, Eunício Oliveira, retornou do tratamento médico a que foi submetido em SP, direto para o Alvorada, no meio do furacão. Lá, contou que, durante sua ausência, recebeu pelo menos uns 17 recados do delator Ricardo Saud querendo conversar com ele sobre "assuntos altamente relevantes para o país, relacionados à produção de proteína". E padeceu-se de Temer: "Escapei!". Saud, acrescentou, sempre circulou pelo Senado, às vezes, em excelentes companhias.


Força Temer

Publicação: 24/05/17
Luiz Alfredo Raposo

Justiça se faça: Temer vinha trabalhando certo. Tinha agenda e sabia negociá-la com o Congresso, como nunca se vira. Resultado, o temporal aos poucos ia embora: a produção ensaiava uma recuperação, a inflação e os juros caiam, as demissões pararam. Faltava, para dar força à recuperação, controlar o déficit orçamentário que levou à crise econômica.

A solução era uma reforma previdenciária, que atenuasse o crescimento da despesa-mãe do déficit. Na Previdência pública, a aposentadoria média é de sete vezes a do INSS. Havia que rebaixá-la e o governo, corajosamente, propôs para o funcionalismo o mesmo teto do INSS.  Isso, é claro, mexe com o alto escalão, apesar da previsão de regras de transição. E veio a grita pelos “direitos dos trabalhadores”. Embora a reforma quase só vá atingir essa camada, esclarecida e em luta contra as desigualdades sociais...

Era preciso ainda favorecer o emprego, modernizando a legislação velha, que facilita o peleguismo e dificulta o emprego. Tanto que no momento a produção se recupera, mas as contratações, não. O governo apresentou duas propostas, e o Congresso as “abrandou” bastante. Estavam, neste mês de maio, prontas para serem votadas, quando se desfere o golpe que põe o governo e o país em knock down. Estranho timing.

Como foi? Um empresário e conhecido financiador de políticos (são 1.900 em sua lista) resolve, em março, fazer uma delação premiada. Assinado o contrato, consegue de um juiz do STF autorização para ESPIONAR o presidente da República! Não bastasse, ainda lhe foram dados pela PGR e PF treinamento e meios para realizar a operação. Coisa de novela de TV. Jogo interessante entre o crime e a Justiça, que se vai  enriquecendo de variantes e modalidades. Mas é estranho.

Depois de insistir (cadê o interesse do outro lado?), o presidente recebe-o em casa para uma conversa informal, tarde da noite. E a paixão anti-Temer vê crime em o presidente receber o delator em casa, informalmente, em hora avançada. Crimes novos, nunca dantes cogitados, acautelem-se os cidadãos... Quem se lembra de explicar tais circunstâncias pela agenda presidencial, sempre tão carregada?   Volta o delator com uma gravação, e o que se ouve? Sua primeira palavra é sobre o “muito” tempo, desde o último contato pessoal entre ambos. Dois sócios não passariam tanto tempo assim sem se falar... Depois, se queixa do atendimento no BNDES. Sintoma de que os tempos não eram mais aqueles em que ele levantou bilhões para se tornar “o maior do mundo”. Faz também pedidos. O presidente transfere-os a um assessor. Um governador, um prefeito faria diferente? Claro que não, repassaria a um assessor. E o presidente declarou sábado, 20/5, que nenhum dos pedidos foi atendido. Onde, o jogo de favores?

E vem o ponto crucial. Começa o delator a falar “do Eduardo” (de “uma mesada”, mas a fita não é nada clara, escutem!) e o presidente diz o que soa como uma concordância. Pronto, era a prova criminis! Estranha prova! O delator contou algo que o presidente claramente não sabia. E que, portanto, não ordenara. Suponhamos, porém, que ele temesse que Cunha, com ou sem delação, resolvesse abrir o bico para acusá-lo. De que? Quando? Demorasse um mês, sua missão presidencial já estaria praticamente cumprida, aprovadas as reformas. Conclusão: não poderia um escândalo desses ter chegado em melhor hora. Ainda a tempo de defenestrar Temer e enviar seus projetos das reformas para o arquivo morto da história. Muito estranho.

O mais estranho é que um juiz aceite como válida e corra a dar a público uma gravação que não atende ao requisito da lei: servir de defesa ao delator. Em nenhum momento aparece ele sob ataque, sofrendo chantagem ou recebendo “cantadas” para praticar alguma imoralidade. O juiz deve explicar que tem seu método de fazer justiça. Mas e as reformas, e o Brasil? O Brasil que se exploda, responde do túmulo Justo Veríssimo.

Um país sem futuro?

Publicação: 24/05/17
Tomislav R. Femenick
Mestre em economia, com extensão em sociologia e história

Não sei quantas vezes me ufanei pelo fato de ser brasileiro, de ter nascido em uma terra abençoada por Deus e bonita por natureza, como diz o Jorge Bem Jor. Viajando pelas minhas lembranças, acho que a primeira vez foi em 1945, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, então a capital federal, quando assisti o desembarque dos pracinhas brasileiros que tinham lutado na Europa contra o nazifascismo. Eu era criança, mas foi contagiado pelo entusiasmo e pela alegria das pessoas.

Outra vez, em 1950, foi no Colégio Santa Luzia, lá em Mossoró-RN, durante uma aula de civilidade (antigamente a escola também ensina educação) ministrada pelo padre Cornelio Dankers – um holandês de rosto avermelhado, que não sei como nem porque foi parar nas frondes da caatinga nordestina. Após descrever o Brasil, sua geografia, seu povo e sua história, disse ele que nós tínhamos todos os motivos para termos orgulho de uma pátria tão maravilhosa. Depois disso, quando entrava na fila que se formava antes do começo das aulas, passei a cantar o Hino Nacional com mais fervor.

Logo depois, ao ler “Brasil país do futuro” – o livro escrito nos anos 1940 pelo judeu-austríaco Stefan Zweig que é um retrato do nosso país sob a ótica de um estrangeiro –, me convenci que um dia eu viveria em um país esplendoroso; até que o meu tio, o Padre Mota, começou a abrir meus olhos para a vida real, bem diferente dos conceitos, ensaios e das manifestações. “Não se entusiasme de mais, o otimista sempre se fruta; não perca a esperança, o pessimismo embota as boas iniciativas”; foi mais ou menos o que ele me disse.

De lá para cá tenho vivido numa espécie de montanha russa. Cai no fosso com o golpe militar, subi às nuvens com o movimento das diretas já, me decepcionei com os planos de Sarney e de Collor, me encantei com o Plano Real (e nem tanto com os tucanos), até que o Lula subiu a rampa do Planalto. Ai tive um momento de expectativa (afinal no dia 10 de fevereiro de 1980, eu estava no Colégio Sion, em São Paulo, na reunião de Fundação do PT, acompanhando o meu professor Paul Singer). Gostei quando Lula resolveu manter a matriz econômica do governo FHC, da Bolsa Família, do PAC inicial e de mais algumas coisas. Mudei de opinião com os primeiros escândalos e com o sectarismo de alguns petistas históricos ou novatos. Voltei a ter alguma esperança quando meu ex-professor Guido Mantega foi nomeado ministro, afinal quando eu o conheci era um homem probo, honesto, honrado. Outro engano, outra decepção. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, elevou um pouco, muito pouco, meu animo. Do jeito que estava qualquer coisa melhoraria o cenário do futuro.

Mas o Brasil parece que não tem jeito. Há pouco tempo estávamos no elevador que nos levaria a um futuro radioso, a economia estava bombando, a indústria estava produzindo perto de sua capacidade máxima, o comércio estava vendendo mais e mais, todos estavam comprando e os mais pobres estavam andando de avião, o nosso presidente “era o cara”... até que se revelou que tudo era artificial e veio a crise que levou quase que quinze milhões de pessoas ao desemprego. Em paralelo, o serviço de saúde entrou em colapso, o ensino nacional é um dos piores do mundo e a segurança pública quase que não existe.

Mas era pouco e vieram dois tsunamis: as delações da Odebrecht e da JBS. Se juntarem as duas delações, talvez não escape nenhum político, talvez todos estejam nas mãos de empresas poderosas – “empresas campeãs” criadas pelos governos petistas, financiadas pelo BNDES e outras instituições públicas.

Analisada de forma retroativa, chegamos a conclusão óbvia que a origem de toda essa crise e de ordem política. Apesar de existiram 35 partidos registrados no TSE e alguns outros em tramites de estruturação, na verdade não temos partidos. O que há são frequentadores de balcão de negócio. Quem der mais leva votos e almas dos homens e mulheres que foram eleitos para defender o povo, mas que preferem forrar seus bolsos com dinheiro sujo.

Mesmo assim, ainda credito no meu país. Afinal ainda nos resta a Lava Jato.

Alfabetização no Brasil

Publicação: 23/05/17
Luiz Carlos Amorim
Escritor, fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA

Meu sobrinho de sete anos, Ramon, saiu-se com esta, recentemente, quando lhe deram um texto escrito em letra cursiva para ele ler: “Como é que vocês me dão uma coisa com uma letra que eu não sei ler?” E ele tinha razão. Ele está sendo alfabetizado pelo sistema novo que inventaram, há uns quantos anos, para o ensino fundamental, segundo o qual a escola começa com as letras “de forma” ou “de livro”.  Ao contrário da sistemática antiga, na qual começava-se pela letra cursiva e só depois das famílias de sílabas, que hoje em dia já não se usam mais, quando a criança já começava a ler, é que se entrava com as letras de imprensa.

E, comprovadamente, as crianças têm muito mais dificuldade para aprender a letra cursiva depois da letra de forma. A maneira que se usava antes era muito mais prática, tinha uma sequência que funcionava, mas os donos do poder, na última década, resolveram “modernizar” a educação brasileira e as nossas crianças, agora, estão aprendendo a ler e a escrever com oito, nove anos, por osmose, ao contrário de antes, que era com sete anos. Então o Ramon tem razão de ficar indignado, pois se ensinaram para ele  primeiro a letra de forma, que é quase quadrada, com muitos traços retos e poucas curvas, não dá para esperar que ele reconheça um texto escrito em letra cursiva.

Precisamos que o MEC reveja a nossa sistemática de ensino, pois não está funcionando. Precisam fazer mudanças para melhorar o ensino e não o contrário, como tem sido feito. Estão tornando o ensino cada vez mais fraco neste nosso país, com modificações que deveriam melhorá-lo, mas na verdade o sucateiam cada vez mais.  As escolas públicas precisam de manutenção, de equipamentos, pois muitas estão caindo aos pedaços, literalmente, e os professores precisam de qualificação e salários decentes.

A educação precisa de uma reforma de verdade, mas uma reforma que melhore o ensino público e até o particular, pois as modificações que foram feitas até agora foram só para encaminhar a nossa educação para a falência.

Macaíba, antes da violência

Publicação: 23/05/17
Valério Mesquita
Escritor

01) Xanxo era um pedreiro macaibense, alto, magro e disponível 24 horas em favor da construção civil. Trabalhava muito e quase não sobrava tempo para a bebidinha preferida: “2 Tombos”, fabricada no engenho Califórnia, de Nilton Pessoa de Paulo, São Gonçalo. Certa vez, foi contratado pela prefeitura para construir um muro que o tempo, a história, a lenda e a legenda, passaram a congnominá-lo de “muro de Xanxo”, de geração a geração. Tido e havido como pedreiro competente, edificar um muro era tarefa tão simples que o próprio Xanxo resolveu precedê-la com alguns goles da famosa aguardente, na mercearia de seu Alfredo de Almeida, pelas oito da matina. Tentado pelos circunstantes a misturar a “caninha” com Cinzano e Run Merino, Xanxo não fugiu do desafio, como senhor e mestre da mistura de cimento, cal, areia e barro. Depois, partiu para o trabalho oficial de forma preocupante, pelo caminhar sinuoso, desenhando figuras geométricas. Xanxo foi rápido na construção, pois ainda queria pegar o expediente da prefeitura para receber o dinheiro. O prefeito Luís Curcio Marinho, diligente e exigente, ao observá-lo no guichê da tesouraria, convidou-o para juntos irem ver o muro. No caminho, ainda fedendo a cana, detalhou o serviço, a altura do muro (2 metros) e a sua extensão (15 metros). O prefeito, diplomaticamente, com um abano de cabeça, reprovou antecipadamente o tempo exíguo gasto pelo pedreiro. Ao chegarem a “obra”, já havia uma aglomeração de curiosos. “O que foi isso, Xanxo?”, pergunta surpreso o prefeito. “Sei não, seu Luís, mas alguma coisa me diz que foi gente adversária do senhor”.  Xanxo, que bem poderia ter trabalhado no muro de Berlim, até hoje é relembrado entre os antigos pelo coquetel de ingredientes da argamassa: aguardente, run cinzano, cimento, areia e barro.

02) Guilherme Paulino Siqueira foi motorista de praça, de caminhão e passou no vestibular de dirigir a caminhonete Chevrolet de Leonel Mesquita. Gostava de se apresentar aos desconhecidos como pessoa importante, pronunciando de forma pomposa e cabotina o seu nome: “Muito prazer, Guilherme Paulino Siqueira, às suas ordens”. Sempre pedia nos balcões das bodegas e bares da vida a bebida certa para as companhias incertas pagá-la. Invariavelmente, nas recusas, Guilherme ia curtir a enganosa diplomacia no xadrez da rua da Cruz. Em muitas dessas caminhadas, era comum se desvencilhar dos policiais para se refugiar na casa de seu Mesquita, em desabalada carreira, portão a dentro. “Seu Mesquita, me acuda, a polícia me persegue!!”. Lembro-me das vezes que cantava, sentado à janela gradeada da cadeia, as canções de Nelson Gonçalves e Linda Batista para os passantes que o compensavam com cigarros e comida. No volante do carro, Guilherme era exímio mas corria demais. De uma feita, estando em Macaíba, o meu pai interrompeu a minha viagem a Natal, ponderando forma enfática: “Com esse doido dirigindo, meu filho não vai. Pegue um ônibus ou vá na marinete (alternativo daquele tempo)”. Guilherme Paulino Siqueira saiu de Macaíba há mais de 30 anos e foi morar em Bom Jesus. Nunca mais o vi. Deve ter falecido.

01) Zé Deca era comerciante estabelecido na esquina da Francisco da Cruz com a Dinarte Mariz. Alcancei-o nos anos cinquenta perto dos setenta anos, sempre por trás do balcão de sua mercearia despachando goles de aguardente, com extrema paciência, aos “pinguços” do matadouro municipal. A sua sobrinha por afinidade era a professora Naide Tinoco, que me ensinava particular antes de prestar exame de admissão ao Colégio Marista, juntamente com D. Enedina Bezerra. Mas, o lado popular de Zé Deca residia exatamente na facilidade com que a meninada “passava” notas do cruzeiro velho de duas cabeças que a sua vista ruim não detectava. Só desconfiou quando os fregueses de verdade começaram a rejeitar seus trocos. “Seu Zé Deca, essa nota é duas cabeças!”. Ao cabo de algum tempo em cima da prateleira, Zé Deca já contabilizava um prejuízo enorme representado por um volumoso maço de cédulas frias amarradas num barbante. Daí pra frente, Zé Deca não trabalhava mais só, e todo garoto era um suspeito em potencial.