Breves histórias

Publicação: 10/09/19
Valério Mesquita
Escritor

01) O maestro Dermival, de Mossoró, comprou um carro usado. Um “pero menos”. “Pero menos não vai a pé”, era como chamava o velho Fiat 147. Numa sexta-feira, Dermival parou num posto de gasolina e mandou as ordens: “Menino, encha aí o tanque desse macho, dê um polimento no bicho. Deixe ele brilhando!”. Os frentistas riram, até porque o estado do carro era deplorável. Mas como manda quem pode pagar, os rapazes capricharam no serviço. “Deixe esse macho brilhando e cheiroso que hoje é sexta”, sublinhou o maestro em tom bemol. O gerente do posto rindo exclamou: “O senhor gosta muito do carrinho, heim?”. Dermival levou a mão ao queixo e do alto de sua prosopopéia sentenciou: “É, tenho de tratar o machão muito bem. Foi o único que botou em mim sem pedir licença. Ninguém quer comprá-lo”.

02) Era praxe em Assu construir-se nos quintais residenciais cacimbão para manutenção da casa. Certa vez, na residência de uma tia do saudoso deputado Arnóbio Abreu, aconteceu um fato no mínimo interessante, por má interpretação da nossa complicada língua portuguesa. Enquanto as senhoras conversavam amenidades nas calçadas, as crianças brincavam no extenso quintal. De repente, correram todos pela lateral do casarão e, um deles assustado gritou: “Mamãe! O ‘baldo’ caiu dentro do cacimbão!”. Foi um Deus nos acuda. A mãe desmaiou; a avó entrou em estado de choque incontrolável, era grito e xixi pra todo o lado e, o remédio mais rápido chegando: álcool e alho para a desmaiada cheirar. Já se aglomerava uma pequena multidão, quando um curioso perguntou a uma das crianças: “Meu filho, como foi isso?”. O pequeno respondeu: “Nós fomos “puxar” água, a corda partiu-se e o “baldo” caiu lá no fundo...”. Estava explicada a situação. “Quem caiu no fundo do poço” foi O BALDE e não UBALDO, neto da velha mijona.

03) Chico do Peixe, assim conhecido porque era locatário no mercado de venda de pescados, caracterizou-se, também, como eterno concorrente à Câmara Municipal de Natal. Foi seguidor fiel de Dix-Huit Rosado e imitador de suas palavras e gestos. Na campanha com Aluízio Alves para deputado federal denominada “um amigo em cada rua”, ouvia atento o líder mossoroense dizer: “Desejo o empenho dos meus amigos natalenses. Uma andorinha só, mesmo que tenha asas de águia, não faz verão”. Uma semana depois, Chico do peixe, no bairro das Quintas profundas discursava no palanque: “Como falou semana passada o “dotô” Dixuite, uma andorinha só mesmo tendo asas de aço não faz verão!”. Aí um gaiato gritou do meio do povo: “Nem voa, Chico, nem voa!!”.

04) Francisco Dantas ou Chico da prefeitura, como era conhecido em Mossoró, ingressou no folclore político local por haver se elegido “vereador” sem concorrer a eleição. Passava o tempo todo na calçada da Câmara Municipal varrendo aqui e acolá, convidando os amigos para conhecer o seu “gabinete”. Após longos meses de “legislatura” foi flagrado pelo presidente da Casa com três amigos ao redor do seu birô, ligando para o ramal da copa: “Dona Raimunda (a copeira), por favor, traga aqui três “cafezes” para o meu gabinete por “obeseque””. Ali mesmo, perdeu o “mandato”.

05) Noite de autógrafo no Iate Clube de Natal. O nosso condestável jornalista e imortal Paulo Macêdo  lançava o seu novo Dicionário Social do Rio Grande do Norte. Amigos de perto e da distância se espalhavam por toda parte numa noite de glamour que só Paulo sabe produzir. Ali perto, o rio e o mar exalavam o cheiro forte de sal e sargaço. O nosso grupo: Manoel de Brito, Tertuliano Pinheiro, Patrício Junior e eu, comentávamos a vida, o tempo e a circunstância. Durante o papo, a unanimidade do aplauso recaiu no jurista e escritor Ivan Maciel de Andrade, que escreve na Tribuna do Norte. Ante a observação literária e prazerosa de que o articulista, vez em quando, gosta de dissecar sobre a sensualidade das voluptuosas personagens femininas, Manoel de Brito não reprimiu a sua verve: “O autor deu pra vida. Aderiu ao ramo”.



Ai, as palavras...

Publicação: 10/09/19
João Medeiros Filho
Padre

As palavras passeiam, frequentam palácios e tugúrios, dançam, viajam, andam de chinelos ou sapatos. Conta-se que Gabriel García Márquez ao escrever, espalhava sobre a mesa de trabalho vários dicionários, de modo que as palavras disputassem umas com as outras. O poeta de Itabira, em seu poema “O Lutador”, já se expressava: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos, mal rompe a manhã... Palavra, palavra (digo exasperado). Se me desafias, aceito o combate”. A palavra tem uma força surpreendente: pode ferir ou confortar; unir ou separar; despertar amor ou ódio; humilhar ou enaltecer; compreender ou condenar; incitar à guerra ou trazer a paz. Pode ser amarga ou terna, desumana ou divina. Tem a capacidade de gerar sentimentos paradoxais no ser humano. Consegue provocar danos mais graves que a arma convencional, que atinge o corpo. Ela, porém, fere a alma, causando estragos irreversíveis.

Há palavras chiques e banais, não por conta da semântica, mas por causa da pressão social. Nos aeroportos, quando a viagem é de classe econômica, a indicação da fila está em vernáculo. Porém, no embarque em classe executiva, as palavras mudam para “business” ou “first class”, mesmo se a viagem é apenas de lazer, sem propósito de negócios. Quando se toma uma xícara de café com uma fatia de bolo ou tapioca em casa, diz-se merenda. Se acontecer numa empresa ou escritório, vira “coffee break”. Adquire mais charme, embora não necessariamente mais sabor. Saudades de Ariano Suassuna, que não se curvava diante de estrangeirismos desnecessários e pernósticos.

A linguística vem mostrando que os idiomas vão se desgastando, não só pelo uso, mas também pela submissão colonialista, assimilando palavras e expressões de outras línguas. Assim aconteceu com o latim, que foi se misturando às línguas dos povos colonizados. Parece adquirir um tom mais refinado, quando o autóctone emprega termos insólitos ou estrangeiros. A moda hoje é o inglês, como foi o francês no passado e o grego na Antiguidade. Quem sabe, será o mandarim no futuro? Assim, há quem diga que trabalha “full time” ou “part time”. O povo simples – apesar de já se comunicar pelo “whatsapp” – não usa tais expressões. Dirá apenas que trabalha o dia todo, inclusive sem se preocupar com o que significam os termos ingleses.

O anglicismo pega forte, como dizem os jovens. Prefere-se “sale” à liquidação. E isto pode ser verificado desde lojas sofisticadas – que vendem produtos de marca nos “shoppings” – até aquelas de rua. Um amigo falou que já encontrou tal expressão em barracas de vendedores ambulantes (“camelôs”, o galicismo dá ares de elegância). Na verdade, os brasileiros são mais afeitos a absorver a cultura estrangeira, diferentes de outros povos, que são mais resistentes.

Antes, dizia-se que fulano era diretor de vendas ou gerente comercial. Agora está em moda qualificá-lo de diretor de “marketing”, assim como a operadora de “telemarketing” era telefonista. Se isso aumenta o volume de vendas, não se sabe. Mas, alimenta, sem dúvida, o colonialismo cultural. Os assessores e redatores de autoridades são comumente chamados de “ghost writers”. A atenção dos leitores volta-se para os “best sellers”. Ao se hospedar em um hotel de algumas estrelas, certamente alguém haverá de encontrar nos aposentos um “kit” de higiene, “wi-fi” e outras realidades rotuladas de nomes ingleses. Ao se hospedar em hotéis mais luxuosos, faz-se primeiro o “check-in” (expressão também usada nos aeroportos) e na saída o “check-out”. Nos estádios, teatros etc., costuma haver uma sala “VIP”. Às vezes, quem tem direito ao acesso, não é tão importante quanto pensa, mas o dinheiro ou o cargo fala mais alto. De fato, seria mais democrático não haver tais discriminações.

A informática sofre de um anglicismo crônico e agudo. Parece menos repulsivo manipular um “mouse” do que um rato. Muito se poderia escrever sobre o assunto, mas como o jornal impõe um “deadline” (prazo de entrega), melhor é parar por aqui e enviar o texto por “e-mail” ao redator. É bom pedir a proteção de Ariano para que interceda junto à Compadecida pelos brasileiros, mergulhados em muitos barbarismos, libertando-os de tantos termos pedantes e sem precisão! “E cada um ouvia falar em sua própria língua” (At 2, 6).



Campanha do baixo clero

Publicação: 10/09/19
Merval Pereira

O presidente Jair Bolsonaro está conseguindo ser o protagonista do jogo político brasileiro nesses oito meses iniciais de seu governo, apesar de sua popularidade ter caído. As polêmicas que provoca, e as linhas mestras das ações de aparelhamento ideológico no sentido inverso do PT, dominam a cena do debate partidário. Que se desenvolve até o momento em tom de baixo clero.
Para quem dizia que não seria candidato à reeleição, Bolsonaro mostra especial habilidade para ditar o ritmo da campanha presidencial de 2022. Candidatos potenciais, como o governador de São Paulo, João Doria, já buscam se posicionar em raia semelhante à de Bolsonaro na questão de costumes.

Até mesmo quem disputa outros cargos, como o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, reforçou os laços com o eleitorado conservador, embora não seja certo que esse grupo concorde integralmente com a censura ordenada.

O prefeito Crivella, com péssima imagem de administrador, mandou recolher uma história em quadrinhos dos Vingadores, que continha um beijo gay. Alegou “querer preservar as crianças”.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, suspendeu a censura e, no domingo, último dia da Bienal do Livro, as vendas aumentaram.

O governador tucano João Doria, apesar de ter criticado a decisão de Crivella, havia mandado recolher no início da mesma semana uma cartilha com material escolar de Ciências para alunos do 8º ano do ensino fundamental da rede estadual.

A cartilha trata de conceitos de sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual. Também traz orientações sobre gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

Os dois políticos alegaram estar seguindo a legislação, ambos distorcendo seu objetivo. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe pornografia, mas o casamento gay é reconhecido pela Constituição. Um beijo gay tem o mesmo grau de pornografia, diante da lei, que um beijo de adolescentes héteros. Ou seja, nenhum. E são casos diferentes, pois Doria interferiu no currículo do ensino público de São Paulo, e Crivella num evento privado, utilizando-se de censura.

No caso de São Paulo, a Secretaria da Educação afirma que o termo “identidade de gênero” estaria em desacordo com a Base Nacional Comum Curricular do MEC. É verdade que a BNCC, em sua versão final, retirou esse tema do currículo, para posterior análise. Mas não o proibiu. A decisão, portanto, foi do governo de São Paulo.

O ministro do STF Gilmar Mendes, em outra ação, determinou que a prefeitura do Rio de Janeiro se abstivesse de apreender livros de temática LGBT na Bienal do Rio. Classificou o ato de “verdadeira censura prévia” e promoção de “patrulha do conteúdo de publicação artística”.

O ministro Gilmar Mendes tocou na ferida ao se referir à questão da homossexualidade: “O entendimento de que a veiculação de imagens homoafetivas é “não corriqueiro” ou “avesso ao campo semântico de histórias de ficção” reproduz um viés de anormalidade e discriminação que é atribuído às relações homossexuais.

Tal interpretação revela-se totalmente incompatível com o texto constitucional e com a jurisprudência desta Suprema Corte, na medida em que diminui e menospreza a dignidade humana e o direito à autodeterminação individual”.

O ministro lembrou que a orientação sexual e a identidade de gênero “devem ser consideradas como manifestações do exercício de uma liberdade fundamental, de livre desenvolvimento da personalidade do indivíduo, a qual deve ser protegida, afastado o preconceito ou qualquer outra forma de discriminação”.

O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, sentiu o cheiro de queimado e, em resposta à colunista Mônica Bergamo, condenou a censura a livros da Bienal do Rio de Janeiro, considerando que o episódio “constitui fato gravíssimo”. E fez a ligação entre o momento atual e um possível retrocesso dos princípios democráticos:

“Sob o signo do retrocesso — cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado —, um novo e sombrio tempo se anuncia: o tempo da intolerância, da repressão ao pensamento, da interdição ostensiva ao pluralismo de ideias e do repúdio ao princípio democrático”.