O jornalismo de luto

Publicação: 12/02/19
Carlos de Souza
fcarlos@tribunadonorte.com.br

Não é fácil acordar na segunda-feira sabendo que um colega faleceu de forma trágica. Leio Ricardo Boechat desde que ele era assistente de Zózimo Barroso do Amaral. Grandes jornalistas. Depois Boechat ficou mais famoso como âncora de TV. Gostava muito dos comentários dele num programa da Bandnews pela manhã. Ele fazendo parceria com José Simão, gozando com a cara dos políticos.

Boechat iniciou sua carreira em 1970, no extinto jornal Diário de Notícias. Sempre foi muito polêmico e se envolvia com discussões acaloradas. Lembro do episódio quando ele foi demitido do jornal O Globo. Foi na época da na guerra pelo controle das companhias telefônicas no Brasil.

Mais recentemente ele se envolveu em um bate boca com o pastor Silas Malafaia que não se saiu muito bem do debate. Boechat pegou pesado. Teve também aquela polêmica envolvendo a deputada Heloisa Helena. Ultimamente ele vinha desagradando setores da esquerda por causa de suas críticas aos políticos deste campo ideológico. Mas sempre manteve o nível do debate.

Gostava dele, mesmo discordando de alguns pontos. Foi um canal permanente de informação e elegância para nós jornalistas. Boechat estava com 66 anos, em pleno exercício criativo de sua profissão, essa nossa profissão tão espinhosa. Estamos sempre desagradando a alguém.

Uma frase de Boechat: "Torturadores não têm ideologia. Torturadores não têm lado. Não são contra nem pró impeachment. Torturadores são apenas torturadores".

Descanse em paz, Ricardo Boechat.

Tragédia 
De acordo com o Capitão Augusto Paiva, da Polícia Militar Rodoviária, o helicóptero onde Boechat estava fazia um pouso de emergência quando foi atingido por um caminhão que tinha acabado de passar pelo pedágio, pela faixa do Sem Parar. Informações da BBC Brasil.

 Ambiente
Fátima bezerra: “Recebi os representantes do SAR, que há tantos anos desenvolvem trabalho tão relevante junto aos trabalhadores do campo e da cidade, e hoje fizeram uma apresentação sobre o SOS Rio Piquiri. Francisco de Assis, do Fórum Social de Políticas Públicas, mostrou o grande desmatamento irregular na área que agora é improdutiva, e as barragens que já estão sendo feitas para recuperar o ambiente, enquanto Dom Jaime e Padre Murilo e o Sub Tenente José Carlos da Silva, Coordenador do Fórum Social de Políticas Públicas de Nova Cruz me entregaram o documento que trata da preservação do Rio Parau”.

Alfabetização
Foram abertas ontem as inscrições para a contratação de alfabetizadores e técnicos agrários que atuarão no Projeto de Alfabetização com Qualificação Social e Profissional para o Campo. Estão disponíveis 200 vagas, sendo 100 para cada profissional. Os candidatos devem comparecer com a documentação exigida pelo edital em um dos três pontos de inscrições. Atenção para as datas e locais de inscrições: hoje, no IFRN de João Câmara. Amanhã e quarta-feira, no IFRN de Mossoró. Nos dias 13, 14 e 15 de fevereiro no IFRN Central de Natal. 

Justiça 
A Justiça do Paraná torna réu o ex-governador do estado, Beto Richa por organização criminosa e corrupção passiva. Ele era investigado pela Operação Integração que apurava o recebimento de propinas pelo ex-governador, pagas por empresas de pedágio do Paraná.

Ativismo
A consciência dos magistrados brasileiros sobre a importância de se preservar a dimensão institucional do Judiciário é importante para frear o ativismo judicial, afirmou ontem o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Dias Toffoli. Ele participou no Rio de Janeiro do lançamento do estudo “Quem somos: a magistratura que queremos”, feita pela Associação de Magistrados Brasileiros (AMB). Com informações do site ConJur.

Igreja 
Deu no Estadão: Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”. O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno.

Livros 
Atenção, chega até o fim deste mês às livrarias, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, pela Companhia das Letras, em duas edições —uma comum e outra de luxo. Esta, limitada, terá 63 exemplares numerados. Os exemplares especiais terão capas feitas por bordadeiras de São Paulo e Minas Gerais, feitas uma a uma e inspiradas em um manto do Bispo do Rosário. O desenho, criação de Alceu Chiesorin Nunes, traz os nomes de diversos personagens do romance. Em março, a Global começa a lançar suas edições, com o volume de contos “Sagarana”. Neste ano, saem ainda “Primeiras Estórias” e “Manuelzão e Miguilim”, entre outros.

Música 
Milton Nascimento está em turnê pelo Brasil, mostrando seus belos momentos do Clube da Esquina. Neste momento tão difícil de tantas tragédias, nada mais bem vi do que música deste gigante mineiro. Já estou separando aqui uns CDs dele para ouvir durante a semana. Espero que o país dê uma respirada e retome seu caminho com paz e alegria de viver. Chega de tanto sofrimento.






Em prol de nossa cultura

Publicação: 12/02/19
João Medeiros Filho
Padre

Em geral, por cultura entende-se um conjunto de ideias, símbolos, expressões artísticas, hábitos e tradições, transmitidos de geração em geração, através da vida em sociedade, incluindo o idioma falado e a culinária. Trata-se de uma variante de determinada herança social da humanidade. É também um processo cumulativo, no qual as modificações trazidas por alguns são repassadas a seus sucessores, incorporando-se a outros elementos. Não se pretende aqui uma definição acadêmica, e sim uma abordagem do cotidiano. Em face da globalização, mais do que nunca somos convidados a preservar nosso patrimônio material e imaterial.

Recentemente, dirigimo-nos a um restaurante para almoçar. Pessoas amigas desejavam consumir camarão empanado. Uma das responsáveis pelo “buffet” advertiu: “este prato faz parte da comida japonesa e deve ser tomado à parte” (sendo o preço diferenciado). Compreende-se o zelo da funcionária. Mas, atitudes assim contribuem para descaracterizar ou desrespeitar nossas tradições e origens. O camarão é componente cultural norte-rio-grandense. Um de nossos gentílicos é o étimo “potiguar”, que significa na língua indígena “comedor de camarão”. O crustáceo está ligado a nossos hábitos alimentares, desde os tempos coloniais e hoje a nossos produtos exportados. Pelo pouco que conhecemos sobre pratos típicos, o seu preparo empanado não lhe confere exclusividade de culinária japonesa. Os “experts” poderão discorrer melhor sobre a temática.

No entanto, as autoridades e os órgãos de cultura de nosso estado deverão estar mais atentos à proteção de nosso patrimônio. Se não cuidarmos, em breve, pessoas de outros países poderão patentear nossos bordados, queijos, carne de sol, a culinária regional etc. Seremos obrigados a pagar “royalties” por aquilo que é nossa produção (criação por vezes) e remonta a nossas raízes? Há cerca de quinze anos, propusemos um curso de gastronomia regional para o Seridó. O projeto foi apresentado ao MEC, mas por mudança na administração da diocese de Caicó e pouco interesse de alguns dirigentes, o processo foi esquecido e arquivado. Estados do sul e sudeste brasileiros cuidam de seus legados e costumes. Em Minas Gerais, a cachaça é estudada com suas nuances locais. O vinho é abordado academicamente, no Rio Grande do Sul. O mesmo se diga do churrasco e outros elementos de sua cultura. Segundo pesquisadores, o queijo potiguar precede ao mineiro, surgindo no Seridó, no final do século XVI, sob a forma de coalho e manteiga.

Os bordados e rendas seridoenses são uma tradição herdada de Flandres. Assemelham-se às “dentelles de Bruges”. Na paróquia de Campo Grande, padre Pedro Neefs, sacerdote neerlandês, promoveu cursos para as bordadeiras da Serra de João do Vale a fim de preservar a originalidade e a qualidade da produção artesanal. Infelizmente, outros municípios, inclusive de estados vizinhos, começaram a fabricá-los, em larga escala, com uma qualidade inferior e usando material sintético, que degrada mais rapidamente as peças nas primeiras lavagens.

Cabem à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, à Fundação José Augusto e ao Conselho Estadual de Cultura o posicionamento e a elaboração de normas sobre tais assuntos. Ultimamente, o parlamento estadual aprovou um projeto (Lei nº 10.481/2019), declarando nosso patrimônio cultural imaterial a ginga com tapioca. Acreditamos que há outros elementos de maior abrangência e repercussão. Dentro de alguns anos, nossos jovens não saberão mais o que é aluá, espécie, sequilho, mungunzá, buchada, chouriço etc. O consumo alimentar de nosso autóctone deve ser respeitado (enfatizando-se seus diversos preparos): macaxeira, carne assada, linguiça do sertão, farofa d´água, paçoca, tapioca, cuscuz e tantas outras iguarias por nós apreciadas, integrantes de nosso universo alimentar. Há o direito de opção, porém um restaurante não pode se apresentar como tipicamente regional, oferecendo comidas orientais.

Cada vez mais, faz-se necessário o estudo aprimorado das obras de Câmara Cascudo, especialmente a Antologia e a História da Alimentação no Brasil. Seria importante que nos cursos de nutrição e gastronomia, aqui ministrados, houvesse espaço para o aprofundamento das ricas tradições alimentares e da culinária norte-rio-grandense. O apóstolo Paulo já recomendava aos tessalonicenses: “Portanto, meus irmãos, permanecei firmes. Guardai as tradições que tendes aprendido, quer oralmente, quer por escrito”. (2Tes 2,15).





Em prol de nossa cultura

Publicação: 12/02/19
João Medeiros Filho
Padre

Em geral, por cultura entende-se um conjunto de ideias, símbolos, expressões artísticas, hábitos e tradições, transmitidos de geração em geração, através da vida em sociedade, incluindo o idioma falado e a culinária. Trata-se de uma variante de determinada herança social da humanidade. É também um processo cumulativo, no qual as modificações trazidas por alguns são repassadas a seus sucessores, incorporando-se a outros elementos. Não se pretende aqui uma definição acadêmica, e sim uma abordagem do cotidiano. Em face da globalização, mais do que nunca somos convidados a preservar nosso patrimônio material e imaterial.

Recentemente, dirigimo-nos a um restaurante para almoçar. Pessoas amigas desejavam consumir camarão empanado. Uma das responsáveis pelo “buffet” advertiu: “este prato faz parte da comida japonesa e deve ser tomado à parte” (sendo o preço diferenciado). Compreende-se o zelo da funcionária. Mas, atitudes assim contribuem para descaracterizar ou desrespeitar nossas tradições e origens. O camarão é componente cultural norte-rio-grandense. Um de nossos gentílicos é o étimo “potiguar”, que significa na língua indígena “comedor de camarão”. O crustáceo está ligado a nossos hábitos alimentares, desde os tempos coloniais e hoje a nossos produtos exportados. Pelo pouco que conhecemos sobre pratos típicos, o seu preparo empanado não lhe confere exclusividade de culinária japonesa. Os “experts” poderão discorrer melhor sobre a temática.

No entanto, as autoridades e os órgãos de cultura de nosso estado deverão estar mais atentos à proteção de nosso patrimônio. Se não cuidarmos, em breve, pessoas de outros países poderão patentear nossos bordados, queijos, carne de sol, a culinária regional etc. Seremos obrigados a pagar “royalties” por aquilo que é nossa produção (criação por vezes) e remonta a nossas raízes? Há cerca de quinze anos, propusemos um curso de gastronomia regional para o Seridó. O projeto foi apresentado ao MEC, mas por mudança na administração da diocese de Caicó e pouco interesse de alguns dirigentes, o processo foi esquecido e arquivado. Estados do sul e sudeste brasileiros cuidam de seus legados e costumes. Em Minas Gerais, a cachaça é estudada com suas nuances locais. O vinho é abordado academicamente, no Rio Grande do Sul. O mesmo se diga do churrasco e outros elementos de sua cultura. Segundo pesquisadores, o queijo potiguar precede ao mineiro, surgindo no Seridó, no final do século XVI, sob a forma de coalho e manteiga.

Os bordados e rendas seridoenses são uma tradição herdada de Flandres. Assemelham-se às “dentelles de Bruges”. Na paróquia de Campo Grande, padre Pedro Neefs, sacerdote neerlandês, promoveu cursos para as bordadeiras da Serra de João do Vale a fim de preservar a originalidade e a qualidade da produção artesanal. Infelizmente, outros municípios, inclusive de estados vizinhos, começaram a fabricá-los, em larga escala, com uma qualidade inferior e usando material sintético, que degrada mais rapidamente as peças nas primeiras lavagens.

Cabem à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, à Fundação José Augusto e ao Conselho Estadual de Cultura o posicionamento e a elaboração de normas sobre tais assuntos. Ultimamente, o parlamento estadual aprovou um projeto (Lei nº 10.481/2019), declarando nosso patrimônio cultural imaterial a ginga com tapioca. Acreditamos que há outros elementos de maior abrangência e repercussão. Dentro de alguns anos, nossos jovens não saberão mais o que é aluá, espécie, sequilho, mungunzá, buchada, chouriço etc. O consumo alimentar de nosso autóctone deve ser respeitado (enfatizando-se seus diversos preparos): macaxeira, carne assada, linguiça do sertão, farofa d´água, paçoca, tapioca, cuscuz e tantas outras iguarias por nós apreciadas, integrantes de nosso universo alimentar. Há o direito de opção, porém um restaurante não pode se apresentar como tipicamente regional, oferecendo comidas orientais.

Cada vez mais, faz-se necessário o estudo aprimorado das obras de Câmara Cascudo, especialmente a Antologia e a História da Alimentação no Brasil. Seria importante que nos cursos de nutrição e gastronomia, aqui ministrados, houvesse espaço para o aprofundamento das ricas tradições alimentares e da culinária norte-rio-grandense. O apóstolo Paulo já recomendava aos tessalonicenses: “Portanto, meus irmãos, permanecei firmes. Guardai as tradições que tendes aprendido, quer oralmente, quer por escrito”. (2Tes 2,15).





Perfis populares do interior

Publicação: 12/02/19
Valério Mesquita
Escritor

01) João Faustino, de saudosa memória, me falou de Zé de Araque, figura popularíssima de Pau dos Ferros. Integra, ao lado de tantos outros folclóricos como ele, a falange luminosa do humanismo das cidades interioranas. Impressionado com o prestígio dos Torquatos naquele tempo que pontificavam na política da região, assim definiu o quadro eleitoral: “Os Torquatos quando nascem já saem nomeados no Diário Oficial”.

02) Venâncio Freitas, de Pendências, me passou alguns causos hilários de sua região. Ele é irmão do saudoso prefeito Levanir de Freitas, que governou o município por quatro vezes. Chico Barreto, aos 77 anos de idade, era brigado com a esposa. Moravam juntos mas não se cumprimentavam. Briga igual só a de judeu com palestino. Mas, nas horas de refeição havia uma trégua esquisita. Para não chamar pelo nome do marido, assim o convocava à mesa: “Xô galinha, xô!”. Ai Chico Barreto vinha, sentava e comia. Briga é briga. Senha é senha.

03) Chico Barreto sempre comparecia aos velórios e enterros em Pendências, mas costumava nunca entrar no cemitério. O fato se tornou notório. Um dia um curioso observador perguntou-lhe: “Chico, por que você não entra no cemitério?”. Resposta na ponta da língua: “Porque quem não é visto não é lembrado”.

04) Antônio Bino, de Pendências, era casado mas deu um passo em falso. Navegante de longo curso, “furtou” uma moça de Pedro Avelino. Passou a conviver com ela. Dos filhos choveram protestos e meios persuasórios para que o pai recuasse. Os esforços não prevaleceram. Bino sustentou a tese de que era impossível deixar a jovem e pediu aos filhos que cuidassem de Amália, a esposa. E explicou: “Quando eu retirei essa moça da casa dos pais em Pedro Avelino, ela era virgem”. Com essa declaração o tempo fechou. D. Amália que participava da reunião conciliatória, ali mesmo estourou: “Ô Antônio! E você quando me tirou de casa para casar comigo por acaso, eu era moça ou rapariga?”. A reconciliação foi adiada por tempo indeterminado.

05) Quando foi criada a Junta do Trabalho em Macau, muitas questões trabalhistas encalhavam o movimento forense. João Tomaz, agricultor de Pendências sentiu-se também prejudicado pela morosidade da Justiça. Maninho Felipe, seu amigo, que conhecia o “caminho das pedras”, insinuou uma saída estratégica: “Por que você não molha a mão do oficial de justiça?”. Resposta sertaneja de Tomaz, desde o tempo do santo do mesmo oficio: “Tá de molhar e nascer!”.

06) Recém formado em medicina pela Faculdade do Recife, no ramo da psiquiatria, foi clinicar em Mossoró o Dr. Alcimar Torquato de Almeida, ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa. Jovem, charmoso, cabelos longos dos anos setenta, tornou-se o médico preferido de todos. Certo dia, um rapaz o procurou no consultório em busca de socorro. “Doutor, eu vivo um problema existencial muito grave. Só o senhor pode me curar”. “Qual é o problema?”, indaga o psiquiatra. “Eu sou homossexual e não quero aqui em Mossoró que o meu pai saiba. Seria a maior vergonha para ele, a família e para mim também”, contou o desesperado paciente. “Não há como você reprimir esses impulsos?”, interrogou Alcimar. “Doutor, é coisa que não posso evitar. Já faço isso há muito tempo. É da minha natureza”. “Então”, disse o médico, “como não há jeito na medicina, só tem uma saída: T’áqui o dinheiro da passagem, vá para São Paulo dar o cedenho longe do seu pai”.