O tempo por testemunha

Publicação: 24/03/20
Valério Mesquita
Escritor

“O ambiente era profundamente lúgubre...”, dissertou o aluno. Nesse instante, ele foi interrompido pelo professor Severino Bezerra (avô do meu amigo Luciano Bezerra), e diretor do Colégio Pedro II, que existiu em Natal muitas décadas atrás. O professor replicou o aluno: “Quero que você consulte o dicionário e me traga amanhã o significado dessa palavra: lúgubre”. No outro dia, na sala, o aluno explicou-se: “Professor, eu consultei o dicionário e não adiantou nada! Fui na palavra lúgubre e encontrei fúnebre. Depois, procurei a palavra fúnebre e encontrei tétrico. Aí procurei a palavra tétrico e encontrei lúgubre! Não entendi nada!”. Boa hora para o inesquecível mestre responder: “Sente, zero”.

02) O médico Luiz Antônio, ateu juramentado, sempre repetia que da sua cabeça pra cima não acreditava em nada. Um dia faleceu um grande amigo que residia no bairro da Ribeira. Por força da amizade, foi ao velório e ao enterro. Luiz Antônio, bastante gordo, mesmo assim, postou-se a frente e segurou a alça do caixão do compadre que beirava cento e quarenta quilos de peso. O cortejo subia a velha Junqueira Aires, rumo ao cemitério do Alecrim. O famoso médico e escritor, já suado, olhava de lado mas ninguém se candidatava a substituí-lo. Tirou o lenço, enxugou o rosto, mostrou cansaço e ninguém o acudia. Chegaram à catedral. Missa de corpo presente, recomendações, etc. Abriram o caixão. Muito choro dos parentes. O padre, ao aproximar-se, o dr. Luiz Antônio dos Santos Lima fitou o caixão e disse em tom de oração: “É, meu compadre, até aqui eu lhe trouxe. Daqui pro Alecrim o diabo que o carregue. Você pesa demais.”

03) O nosso amigo Hirohito Santiago que viveu e trabalhou vários anos em Mossoró nos envia mais uma poucas e boas. Dix-Huit Rosado costumava, sempre que podia, visitar sua fazenda “Bamburral” na velha “Studebaker” que não ultrapassava os 40 km/h. Certo fim de semana “o velho alcaide”, como se autoproclamava, ao cruzar suas terras, presenciou meia dúzia de trabalhadores que brincavam agarrados uns aos outros, como se estivessem praticando atos um tanto quanto indecentes. Ao chegar à casa da fazenda, Dix-Huit chamou o capataz e perguntou: “Você mandou aqueles rapazes fazer o quê?”. “Doutor, eles foram cuidar do novo lance de cerca para a apartação”, respondeu o encarregado. Dix-Huit franziu a testa e disse por vias das dúvidas: “O que eu vi foi diferente. Parece que simulavam atos obscenos. Meu dinheiro dá pra tudo, heim?”. O capataz, chocado com o que ouviu, indagou: “O senhor quer que eu os dispense?”. O velho rebateu: “Não. Amanhã você pague a quinzena, mande-os pra casa e que só voltem a trabalhar quando estiverem saciados e ‘maneiros’”. Era o espírito salomônico do alcaide.

04) O ex-deputado Valmir Targino tinha uma pequena propriedade nos confins da zona norte em Natal. Os amigos do alheio começaram a surrupiar material. Informado do que acontecia, o deputado deixou uma pessoa de atalaia para o flagrante. Uma tarde, finalmente, aconteceu. O sujeito carregava muitas telhas numa carroça. Incontinenti, Valmir chegou ao local, com dois rapazes, numa camionete. O larápio, junto com um ajudante, foram levados à delegacia. O deputado foi logo informado. “Prenda esses dois e eu quero tudo meu de volta”. O agente, que cochilava numa cadeira com os pés sobre o birô, sequer abriu os olhos e falou: “Olha, o delegado não está., Aguarde aí”. “O quê?”, esbravejou o deputado. “Eu quero isso agora!”. E metendo a mão no bolso, puxou uma carteira. Os rapazes não viram o que era. Esfregou no nariz do servidor dorminhoco que, num pulo de gato gritou para os seus pares: “Cuida, cuida. Metem esses malandros no xadrez! Depressa que o doutor não pode esperar”. Vitoriava, mais uma vez, a tática targiniana do velho oeste onde nasceu.

05) Possidônio, revolucionário de antigas refregas, resolveu participar da campanha para prefeito de Mossoró, ajudando Dix-Huit Rosado. Militante juramentado, gestos arrebatados, vestiu a camisa pra valer. “Dessa vez”, dizia, “vou tirar o pé da lama. Já estou beirando os 60 anos e, nunca arranjei sequer um emprego por ficar somente do lado que perde”. Quando Dix-Huit se elegeu e passada a euforia da vitória, Possidônio foi procurá-lo. “Ola, Possidônio velho de guerra”, saudou-o o velho alcaide. “Como está passando?”. Possidônio explicou-se: “Doutor, eu estou aqui para lhe pedir socorro. Arranje-me um emprego para eu sobreviver”. Dix-Huit espreguiçou-se, rodopiou a “giroflex” e indagou preliminarmente: “Mas Possidônio, você já tão velho e ainda quer emprego? Você não acha a sua idade bastante avançada?”. Possidônio, embora entristecido, veementemente rebateu: “Doutor, isso é muito engraçado. Eu vou fazer 60 anos e não posso nem ser porteiro? Mas o senhor com mais de 80 pode ser prefeito?”. O astuto guerrilheiro não esperou muito: foi nomeado dia seguinte.






Sem missas, mas com Deus

Publicação: 24/03/20
João Medeiros Filho
Padre 

Os sinos das igrejas soam. De nossa casa, pode-se ouvir as campanas de alguns templos. Durante dias, a sequência das badaladas não chamará os fiéis para a missa, mas irá recordar que Deus está presente. Mesmo se muitos questionam sua existência em meio à atual crise, é a Ele que tais sons nos remetem. Tornam-se a única sinfonia, rompendo o véu do silêncio que envolve Emaús de Dom Nivaldo. Nos últimos dias, o céu azul, límpido e claro é como um sorriso reconfortante da natureza neste período difícil. Mas, “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”, entoa o salmista (Sl 23/22, 1). Cabe lembrar Ernest Hemingway: “Por Quem os sinos dobram”? Hoje, eles plangem também pelos muitos ataúdes da cidade de Bérgamo. Seu toque é igualmente o lamento pelos vinte sacerdotes italianos (muitos com mais de cinquenta anos dedicados ao altar), vítimas do Covid-19, que hoje cantam no céu os louvores eternos.

No Brasil, diante de informações, por vezes inexatas e desencontradas, ainda é difícil prever quantas famílias terão boas notícias advindas das unidades hospitalares e terapia intensiva, espalhadas pelo país. Alguns temem talvez algo triste. São milhares de correntes de preces em cidades sem missas. Mas, nem por isso com menos fé no Deus da vida. É exatamente aí que as circunstâncias fazem a religiosidade superar a religião, e a espiritualidade as práticas espirituais.

Na Itália, alguns padres celebram missas, transmitidas pela internet, com fotos de fiéis vivos e falecidos. E há os que pedem pela alma dos irmãos presbíteros, vitimados pelo vírus. Mas, a fé nos sustenta e fortalece cotidianamente. A mesma vivida por Padre João Maria Cavalcanti de Brito, o “Anjo de Natal”. Este “Santo da caridade” viu seus paroquianos morrer em seus braços. Entretanto, acalentava todos com palavras, orações e gestos concretos, traduzindo sua fé cristã. Diante de um moribundo, lembrava-se de Cristo agonizante na cruz. O presbitério de sua querida Natal de hoje e do Rio Grande do Norte poderia, em cadeia de emissoras de rádio (diocesanas, paroquiais e outras), elevar as súplicas do povo orante ao Deus do amor e da vida. Assim sugeriram um cronista deste jornal e devotos do “Santo de Natal”. 

É triste constatar que países ditos cristãos foram insensíveis com a Itália, ícone da nova civilização ocidental e do catolicismo. Alguns consideram tal atitude um gesto de oposição à Igreja e represália ao Papa. As vítimas não são culpadas de nossos pecados. Países próximos e longínquos fecharam as portas, mostrando apatia. Vários são detentores de maiores recursos humanos e materiais. Os cristãos não podem ficar indiferentes para que essa pungente história não se repita em outros lugares. Apesar do eventual e execrável uso da situação atual para fins econômicos, ideológicos, políticos e promoções pessoais, despidos de solidariedade humana, deveremos ser altruístas e caridosos. 

Os católicos sentem falta da missa diária ou dominical. Segundo pesquisadores, o vírus, esse inimigo silencioso, pode ocupar os bancos das igrejas sem que se perceba. Fomos pároco do interior e testemunhamos centenas ou milhares de fiéis que não têm a alegria de participar da eucaristia cotidiana ou em dias de preceito. Não se pode esquecer que durante séculos o Povo de Deus viveu sem sacramentos, nutridos apenas pela fé e Palavra Divina. Muitos irmãos de outras igrejas não dispõem de ritos sacramentais, mas vivem a dimensão religiosa de sua fé, alimentados pela oração e meditação do Livro Sagrado. Os que se ressentem da ausência de missas presenciais, poderão viver o princípio da caridade e da prece intercessora. A frase “a fé sem obras é morta” (Tg 2, 14), eternizada pelo apóstolo Tiago, aplica-se ao momento. Com fé digamos como o salmista: “Senhor, não temerei os males, pois sei que estás comigo” (Sl 23/22, 4). No entanto, o vírus faz um alerta a todos – de modo especial aos prepotentes e arrogantes – um inimigo microscópico e invisível poderá nos derrubar e destruir! “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Gn 3, 19). Deus convida-nos a refletir!