Coronavírus, o reset que muitos pediam?

Publicação: 25/03/20
Arturo Arruda Câmara 
Publicitário

Passados os primeiros dias do impacto da pandemia que para o mundo, é hora de refletirmos sobre os recados e oportunidades que podem estar por trás desse acontecimento histórico, científico e econômico. Quantos de nós não ouvimos em grupos de amigos, mesas de bares, discussões intelectuais ou até mesmo em pregações religiosas que o mundo estava precisando de um RESET, de um recomeço? Será que o CORONAVÍRUS não é a oportunidade que precisávamos para recomeçar tudo aquilo que tanto desejávamos?

O mundo já testemunhou a Gripe Espanhola (1918/1919), maior pandemia de gripe da história - comum terço da população do planeta infectada e 50milhões de vítimas fatais -a tuberculose, a cólera, o HIV (AIDS), já sofreu comas I e II Guerra Mundial, a nossa geraçãojá se chocou com os desastres naturais (Terremotos, Furacões, Tsunamis, etc), já choramos com os ataques terroristas (11 de setembro), já discutimos sobre o capitalismoX Socialismo, já nos indignamos com as injustiças sociais, e porque não dizer que já nos cansamos da maior chaga de todas: a corrupção.

Corrupção que diferente daquilo que a maioria da população pensa ou julga, não é apenas aquele gesto ou atitude do político em se beneficiar das suas funções para conquistar vantagens próprias, corrupção que está bem mais presente na vida de cada um de nós do que podemos imaginar ou aceitar. Falo daquela corrupção que está por trás no “jeitinho brasileiro” de sempre querer se dar bem em tudo, seja furando uma fila, seja fingindo uma doença não existente para faltar ao trabalho, seja espalhando fake News, ou até mesmo se arvorando na guarda da legalidade para descumprir a lei em busca de um reconhecimento da categoria ou mesmo da nação.

O mundo, através do CORONAVÍRUS, está dando uma oportunidade a essa nova geração (a geração Z, os Nativos Digitais) para recomeçar tudo de novo, RESETAR, corrigir tudo aquilo que nos incomodava. Não adianta pedir para parar o mundo, se nós não temos aonde descer. 

Vamos nos inspirar nos inúmeros bons exemplos, nos gestos de cidadania, na preocupação com o próximo, na dedicação dos profissionais da saúde (colocando em risco suas próprias vidas em prol da humanidade), na cordialidade, na cumplicidade das relações comerciais que se preocupam em salvar a economia, na esperança...Vamos ser a luze não o interruptor que apaga a luz.




Análise: antes e depois da “pandemia”

Publicação: 25/03/20
Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado

Hoje não se pode mais cantar o “mundo maravilhoso” de Louis Armstrong, com exaltação às cores do céu, das árvores, do arco-íris, ao beijo abençoado do dia e a escuridão sagrada da noite.  De repente, o risco de uma “contaminação muitas vezes fatal” atinge, de forma igualitária, a parcela dos 1% mais ricos do mundo e 60% da população mundial, que vive na miséria absoluta. De que valeram os avanços tecnológicos e a riqueza acumulada, se o “dom da vida” – presente de Deus – está sob ameaça?

Quando o “cinto aperta”, vozes em coro pedem socorro aos governos. Não se pode deixar de registrar gestos de solidariedade da população em geral. Em Natal, mobilização de empresários garantiu a doação de vários respiradores. Entretanto, a realidade mostra a necessidade de mudanças futuras, de forma a dotar o Estado de meios instantâneos para enfrentar calamidades públicas. 

Aí surge o debate sobre o tipo de Estado, que garanta ao cidadão os seus direitos mínimos. O principal deles é o direito à saúde.  Está provada a fragilidade do modelo apocalíptico de “capitalismo”, com o “deus mercado” amedrontando a própria atividade econômica, diante da ausência de poder regulador. 

A consequência natural, após a pandemia, será o surgimento de um “novo capitalismo”, alicerçado no “Estado necessário” (nem mínimo, nem máximo), capaz de numa crise como a atual, exercer as suas funções de controle social, salvando vidas, mantendo empregos e ajudando os mais pobres.

Se olharmos a história econômica, a crise de 1995 teria sido a oportunidade de mudanças na ordem econômica e social, quando o mundo enfrentou a recessão dos “mercados emergentes”, com uma série de ataques especulativos aos sistemas monetários, atingindo até economias sólidas como os “tigres asiáticos”.

Já àquela altura existiam sinais e evidencias, de que a globalização se transformava em “financeirização”, gerando instabilidade às economias, vulnerabilidade às populações e o aumento do fosso da desigualdade social, epidemia tão grave quanto o “coronavirus”. 

Os governos, ao invés de aproveitarem a ocasião e reformularem as práticas vigentes, optaram por abrir os cofres e salvar os mais ricos, tudo em nome da eficiência fiscal (monetarismo). Como diz o provérbio árabe, “não se recupera a oportunidade perdida”.

Só no Brasil, em valores da época, a União injetou nada menos do que R$ 16 bilhões de dinheiro público em bancos privados (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional). Foram esquecidos os direitos e gastos sociais, quando as duas ações teriam que ser simultâneas.  

Repetiram-se os mesmos erros em 2008, na maior recessão ocorrida no capitalismo americano, desde a grande depressão de 1929. O governo voltou a “salvar” os bancos, com socorro de cerca de 30 trilhões de dólares. Os clientes com as suas casas hipotecadas foram morar “em baixo das pontes”. Como reflexo, o Ibovespa teve baixa de 41.22%. 

A esperança é que os equívocos cometidos no passado ensejem reflexões e abram perspectivas de reformulações futuras, sempre preservadas as liberdades, a qualquer custo. Não se poderá perder a oportunidade de redistribuir a renda e riqueza. Afinal, o nosso país convive com estatísticas alarmantes: 10% dos mais pobres gastam 32% de sua renda em tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam apenas 21%. São 45 milhões de brasileiros pobres, que ganham menos de US$ 5 por dia.

A redução da desigualdade (epicentro de todo o problema) incentiva a empresa assumir compromisso social, além de garantir a “dignidade da pessoa humana”, o que aliás é princípio da Constituição (art. 1°, III). Tal ótica, não significará igualdade de classes, negativa do direito ao lucro legítimo, ou desestimulo ao empreendedorismo. 

Para que se alcance tais objetivos, não haverá como apostar nos extremismos – de direita ou de esquerda -, que trazem consigo o perigo do surgimento de “redentores”, “salvadores da pátria”, que poluem a democracia e restringem as liberdades. O estado democrático debilitado, “escancara portas” para o autoritarismo e ações impunes de especuladores, que farejam oportunidades, conspirando contra o interesse público.

Deus queira, que o economista português Manoel Alberto Maçães tenha razão, ao dizer que “o mundo parecerá muito diferente do outro lado do túnel em que acabamos de entrar”. Resta apenas saber, se aprenderemos a lição da pandemia!