Malthus, a epidemia e o mercado

Publicação: 26/03/20
Alcyr Veras
Economista e professor universitário            

Um imperceptível vírus aterroriza o planeta, desafia a ciência e ameaça continuar dizimando um elevado e crescente número de vidas humanas. Ao longo de sua história, o mundo viveu horrores com a perda de milhões de vítimas letais, provocadas por doenças altamente epidêmicas como a Peste Negra, o Cólera, a Tuberculose, a Varíola, a Gripe Espanhola, a Febre Amarela, o Ebola, entre outras.
Durante o século dezoito, período das profundas transformações sociais e econômicas advindas da Revolução Industrial, que causara desemprego e outros problemas urbanos, o então polêmico economista e pastor anglicano Thomas Robert Malthus, trazia para discussão o seguinte questionamento sob a forma de pergunta: o mundo estaria, naquela época, com excesso de gente ou com insuficiência de alimentos?  Baseado nessa temática, Malthus escreveu sua principal obra “An Essay on the Principle Population.”   

Para ele, a produção de alimentos estava crescendo em progressão aritmética, enquanto que, ao mesmo tempo, a população crescia em progressão geométrica. Esse descompasso acarretaria crises irreversíveis de pobreza e fome generalizadas. As sombrias previsões de Malthus chegaram ao ponto extremo de admitir que as pestes, epidemias e as guerras eram formas naturais de dizimar parte da população, e com isso, restabelecer o equilíbrio entre a produção de alimentos e o crescimento demográfico. Mais tarde, entretanto, o célebre sociólogo Karl Marx contestou a tese Malthusiana ao dizer que ela ignorava a estrutura social da economia e as possibilidades criadas pela tecnologia utilizada na produção agrícola.

A eclosão do novo CORONAVÍRUS provocou alterações nas Bolsas de Valores e no Câmbio em vários países. Isso aconteceu porque, atualmente, estamos vivendo numa economia aberta, globalizada, em que o mundo tornou-se um único território plano, onde o fator mais importante é a competitividade dos preços. E a competitividade depende essencialmente do valor da moeda. Hoje, cada país vive permanentemente de olho nas variações do valor das moedas dos outros países. Ao menor movimento oscilatório, eles valorizam ou desvalorizam suas moedas, dependendo, é claro, do comportamento do mercado financeiro e da atração da taxa de juros.

Os preços hoje não se baseiam somente nos custos de produção. A China, por exemplo, é o único país do mundo que opera com os menores custos de produção, devido a sua mão de obra superabundante e barata. Mas, não é só por isso que seus preços são os mais baixos do planeta, é porque ela desvalorizou exageradamente sua moeda.

Chegamos, hoje, ao limiar da casa de sete bilhões de habitantes em todo o globo terrestre. É certo que o vírus causará grandes estragos na economia mundial. Mas, ainda é muito cedo para se dimensionar o tamanho da recessão econômica em todo o mundo. Estima-se que mais de 25 milhões de pessoas perderão seus empregos, embora que temporariamente. Prejuízos incalculáveis de empresas que deixarão de produzir e de vender. E um gigantesco volume de dinheiro em impostos que não serão arrecadados. O governo brasileiro anuncia medidas de efeito pouco compensatório como a ampliação do crédito, diminuição da taxa de juros e subsídios às microempresas e a trabalhadores autônomos. Devido a recessão, o PIB poderá ter crescimento ínfimo ou negativo. 




É preciso sensatez e equilíbrio

Publicação: 26/03/20
Garibaldi Filho
EX-SENADOR DA REPÚBLICA          

Este artigo deveria detalhar, como prometi no texto anterior, aspectos do estudo desenvolvido pela consultoria carioca Macroplan, fundada por Claudio Porto, sobre a economia do nosso Estado. Iria hoje dar continuidade ao que abordei,  na semana passada, quando falei das nossas potencialidades, mas agora analisando, com base nas informações disponíveis no Mais RN, as debilidades e como superá-las. E o faria convicto de que não podemos deixar este estudo de lado. No entanto, diante da situação tão grave na qual estamos inseridos, com a crise global provocada pela Covid-19, gostaria de fazer algumas reflexões sobre episódios recentes que precisam ser superados para que possamos enfrentar esse momento que tantos impactos começam a ter na saúde pública, na vida social e econômica também do Rio Grande do Norte. 

Os números são preocupantes. Na tarde desta quarta-feira, quanto estou redigindo este artigo, as autoridades informam que são 2.281 infectados em todos os estados do Brasil e foram registrados 47 mortos, uma quantidade que, lamentavelmente, aumenta a cada dia. A mesma Macroplan que fez o estudo sobre a situação do Rio Grande do Norte, em 2014, agora ouviu 150 pessoas entre  economistas, sociólogos, cientistas políticos, engenheiros, gestores de empresas, pesquisadores e professores universitários sobre a repercussão do coronavírus na economia nacional. Para a maioria (86%) o impacto da pandemia, com esse número crescente de infectados no País, será “alto” ou “muito alto” na economia brasileira.

Tudo isso, agora se soma à grande preocupação com o nosso ambiente político-institucional. Depois de um pronunciamento infeliz e insensato, que só deixou a população ainda mais apreensiva, o presidente da República, Jair Bolsonaro, na manhã desta quarta-feira, não conduziu a reunião com os governadores do Sudeste com a capacidade de liderança que se espera de um Chefe de Estado. Ao contrário, trocou farpas com o governador de São Paulo, segundo relatos feitos pelos jornalistas. Ou seja, o clima de hostilidade predominou, quando precisamos de colaboração entre os governos federal e estaduais. 

E não pudemos esquecer a pesquisa da Macroplan sobre as implicações do coronavírus. Não apenas quanto ao aspecto econômico, mas também quando conclui que, infelizmente, a tendência, para a maioria (60%), é que o País passe por esse crise “aos trancos e barrancos”. Ou seja, ora assumindo um comportamento cooperativo, mas com sucessivas recaídas de confrontação. Se estiverem certos, o ambiente, em várias ocasiões, estará com dificuldades institucionais para o combate à epidemia.

E conclui  o estudo da Macroplan, sobre as implicações da pandemia no país, que  o pior cenário, hoje o mais improvável, se daria com a denominada “marcha da insensatez”, que se configuraria se tivéssemos uma ruptura com relação ao Brasil atual. Haveria, em uma conjuntura deste tipo, uma escalada desenfreada de autoritarismo populista. Nesta situação, os laços sociais, já enfraquecidos, se romperiam em uma crescente e ilimitada polarização.

Portanto, vamos aguardar e, na medida das possibilidades de cada um, contribuir para que possamos recuperar os passos necessários para prevalecer a marcha democrática.