Leituras no carnaval

Publicação: 01/03/20
Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Para este ex-folião aposentado que vos fala, o carnaval que passou foi mais para leituras e releituras. Nos intervalos, cachacinha com umbu e umbuela.  Dos novos livros lidos, dois de Carlos Newton Júnior que me chegaram ás mãos pela gentileza do poeta, escritor e amigo: Ressureição 101 Sonetos de Amor (Editora Nova Fronteira) e Ariano Suassuna, este um perfil biográfico do grande escritor, de cuja obra Carlos Newton é um dos principais estudiosos brasileiros, já tendo publicado vários títulos. A propósito, o último livro de Ariano, Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, em 2 volumes, publicado pela Nova Fronteira, 2017, é prefaciado por Carlos Newton.  Este seu trabalho agora sobre Ariano foi editado pela Academia Brasileira de Letras, incluído na ‘Série Essencial’, “que se propõe oferecer informações básicas sobre cada um dos ocupantes das 40 cadeiras ABL ao longo da História”.

O terceiro livro novo lido nos alpendres das Queimadas (enquanto não se ouvia nada de carnaval, somente dos galos de campina, dos azulões e dos sabiás) foi Ânsia Eterna, da escritora carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), incluída na coleção “Escritoras do Brasil”, editada pelo Senado Federal.  Domingo passado falei aqui sobre esta coleção, da qual faz parte o livro Opúsculo Humanitário da conterrânea Nísia Floresta. Foi a primeira vez que li Júlia Lopes, romancista, contista, teatróloga, cronista, jornalista e abolicionista. Líder feminista do mesmo tope de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Seu livro -  são contos -  já está incluído na lista das minhas próximas releituras. Gostei muito.

O livro de Carlos Newton Júnior tem orelha assinada pelo crítico e ensaísta André Seffrin. Destaco um trecho, escrito assim:

“Ontem como hoje e sempre, por rogo ou destino, somos transverberados por grandes poetas e sonetos. Grandes poetas como Carlos Newton Júnior, que abraça o soneto sem perder de vista o rés do chão, isto é, sem artifícios, avesso a todo recurso farfalhante. Um poeta que nada deve a ninguém, e caminha lado a lado com os clássicos que antes dele foram também vitimados pelos encantos da musa fatal. Esta mesma musa que não vingaria sem a febre dos poetas, imersos no sem-nome do amor, esse oco que amplia e distorce o real que julgamos conhecer – e que não existe”.

No Beco da Quarentena

Outra releitura prazerosa foi Antologia de Pedro Velho, organizada por Luís da Câmara Cascudo, cuja primeira edição é de 1954, publicada pelo Departamento de Imprensa do Estado quando dirigido pelo jornalista e poeta Antônio Pinto de Medeiro, pai da ideia do livro e que escreveu a sua apresentação. Agora em 2018, nas comemorações de seus 60 anos, a UFRN lançou uma edição fac-similar da Antologia.

O livro reúne discursos, artigos, depoimentos que vão contando e marcando a trajetória política de Pedro Velho (junte-se adendos preciosos, como o depoimento de Domingos Barros sobre os últimos dias de Pedro Velho e o seu perfil traçado por Cascudo), que também foi médico, professor, jornalista e gostava de tocar piano. Muito bom de prosa, como se comprova nas crônicas que escreveu para o jornal “A República”, por ele fundado, que eram assinadas com o pseudônimo de Nemo.  Algumas dessas crônicas estão no livro, agrupadas no capítulo “Artiguetes”. Deliciosa leitura. Numa delas, Pedro Velho fala sobre o carnaval natalense e faz uma revelação importante: havia carnaval no Beco da Quarentena. Que não está incluído na “história oficial” do carnaval natalense. O que se sabe, o carnaval na Ribeira - coisa dos anos de 1920 -  era na Avenida Tavares de Lira, percurso entre a Praça Leão XIII (atual Capitão José da Penha) até ao cais banhado pelo rio Potengi (hoje uma lixeira).

Pois bem, Pedro Velho, que nasceu no bairro (Rua Chile) e nele viveu boa parte da sua vida, com consultório de médico, redação do jornal que fundou e dirigiu, e depois governando o Estado, palácio localizado na mesma rua Chile (o prédio hoje abandonado), pois bem, Pedro Velho nos conta que no final do século 19 já havia carnaval na Ribeira, o bairro chique naqueles tempos, incluindo o Beco da Quarentena (uns 3 metros de largura),  passagem  para se chegar na Frei Miguelinho, depois zona, baixo e médio meretrício, trilha da boemia. Hoje, o Beco é uma tristeza de abandono. Nem sei se os remadores do Centro Náutico e do Sport Clube se arriscam em passar por lá.

Numa crônica (artiguete), com o título “O Inspector”, publicado em 4 de março de 1897, Pedro Velho conta essa história. Transcrevo, alguns trechos, começando pelo começo e respeitando a ortografia original:

O Inspector

- Os senhores hão de ter percebido que eu sou um espirito desabotoado e ilhano, de seu natural, ingênuo e comodista, sem complicações e sem subterfúgios, vendo as cousas pelo prysma da pacatez bem-humorada e ligeiramente egoísta, que é a nota dominante na situação mental deste fim de século de grandezas e misérias – século de Napoleão, de Bismark, do Conde d’Eu e de Antonio Conselheiro.

- Também não gosto de indiscrições e intrigas; e só por isso deixo de consignar nos ‘Artiguetes’ o resultado da perspicácia de que dei provas, reconhecendo vários cavalheiros que se exibiram fantasiados durante o carnaval. Por exemplo: mesmo através das máscaras e das suas falas nazaladas, conheci muito bem os pândegos que fazião de monarchistas (...).

- Mas, deixando, esse melindroso assumpto, vou contar-lhes o caso do inspector:

- Um cidadão, aliás investido de nobres e conspícuas funções públicas, não podendo resistir ao contagioso prurido da  bella pandega, resolveu mascarar-se. Vestiu, pelo avesso, um velho fraque, calçou um par de meias, uma de cada cor, por cima dos sapatos, poz na cabeça uma cartolla amarrotada, improvisou a mascara com um retalho de seda de um chapeo de sol aposentado e começou a percorrer a cidade, solitário e melancholico, sem dizer graçolas a pessoa alguma, e meio desconfiado de que não estava lá fazendo uma figura muito divertida; mas, emfin, tendo satisfeito o seu capricho.

- Nisso encontra-se, no becco da Quarentena, com uma troça de entrudistas, armados de enormes seringas que esguichavão pó, que nem a cratera de um vesuvio. E o nosso homem, em vez de seguir tranquilamente o seu caminho, na palermice inofensiva e nada atraente de seu modesto disfarce, teve a infeliz ideia de se dizer a um dos do grupo, que mais se lhe avizinhava:

- ‘Seu carnavá’, o senhor não me ‘avôe’ gomma.

- Foi como se tivesse atirado uma pedra n’uma casa de maribondos. Uma chuva de seringação, um diluvio de pó envolveu o desgraçado, quase a suffocal-o” (...).
Mais carnaval  Sucesso total o carnaval natalense de 2020 com a aprovação dos foliões de todas tribos, daqui e de fora, ampliando mais ainda o êxito da folia do ano passado. Ponto para o prefeito Álvaro Dias e o secretário de Cultura Dácio Galvão, que não é folião, mas entende do riscado.

Música e Poesia 


Sexta-feira que vem, dia 6, teremos na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras o projeto Música & Poesia Potiguar. Começa ás 18 horas. Vozes e piano, mais palestra dos acadêmicos Leide Câmara e Carlos Gomes contando a história da música potiguar.