A nau de Florentino

Publicação: 01/09/19
Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Na madrugada friorenta de sexta-feira caiu na minha bacia das almas  imeio do mestre Florentino Vereda  trazendo no bizaco um artigo que escreveu sobre as queimadas amazônicas e a sua repercussão no mundo todo, começando pela França de Brigitte Bardot e de Macron. Florentino, que é doutor em Botânica e viveu alguns anos em Tocantins, estado incluído na chamada Amazônia Legal, conhece muito bem essas coisas complicadas do meio ambiente (derna dos tempos de Eva e Adão, quando não havia incêndio), mais complicadas ainda quando apimentadas pelas discrepâncias ideológicas, made in Brasília.  Presentemente estica um “ano sabático”, que já vai perto de três anos, com andanças pelo mundo. O artigo foi escrito em Pádua, Itália, onde se encantou com a Basílica de Santo Antônio.  Deu ao texto o título de “A Nau dos Insensatos”. Vai na íntegra:

“O prato do dia nos blogs e tablóides daqui e d’além-mar são as queimadas. A Jenicleide, aflita, pergunta-me se isto estaria afetando Lagoa de Velhos e, ironias à parte, sua saúde. Tentei tranquilizá-la dizendo que o assunto foi debatido na cúpula do G7 que aconteceu semana passada em Biarritz, uma das praias favoritas de Brigitte Bardot, em cujas dunas muito de nós sonhamos fincar estacas e armar barracas.

Como fazem, vez em quando, os senhores do universo sentam-se à mesa para discutir nossos destinos ignorando nossos infortúnios e aumentando suas fortunas. Nessa imensa fogueira de vaidades, o anfitrião Macron encomendou um par de sapatos com salto alto pra aparecer na foto à altura do imponente e prepotente Trump que, de quebra, resolveu representar o Brasil para que as queimadas da Amazônia não queimem nosso filme em “Wall Street” e no ‘bas fond’ parisiense. Nunca tivemos um embaixador tão louro e bronzeado. Quanta honra para nós, pobres sobreviventes do Pindorama tresloucado.

O presidente americano ao saber que Putin – seu parceiro na campanha presidencial – fora barrado no baile por anexar a Criméia sem pagar nada, tentou comprar a Groelândia e nela passar um muro, separando-a da China. A Dinamarca, desconfiada de que há algo de podre no reino de Donald, recusou a proposta. Quem sabe, ela toparia uma troca por Miami, livrando a América dos cubanos, latinos e turistas brasileiros. Vale a pena para Trump – que fez fortuna no ramo imobiliário – insistir na proposta. Quem sabe, ele resolve também comprar o Jalapão e aí a Jéssyka vai ser gringa.

Terras sempre foram objeto de cobiça dos homens poderosos. Há mais de seis séculos impérios lançaram-se ao mar em buscas de baías tranquilas para soltarem seus ferros e ferrarem os nativos. Hoje não há mais territórios a descobrir e pouco restou das primitivas riquezas naturais. Florestas foram derrubadas, rios apodrecem, geleiras derretem e levas de miseráveis fogem de suas terras, em busca da mera sobrevivência. Enquanto isto, novos impérios levantam os olhos para o infinito e ameaçam colonizar os planetas. E já começou a sujeira espacial. Restos de satélites orbitam a Terra.

Na Lua, astronautas americanos deixaram centro e oitenta toneladas de dejetos, incluindo noventa e seis sacos de cocô que, a esta altura, já devem estar petrificados que nem os dos índios da Amazônia. Até mesmo seres vivos, minúsculos, como ‘Tardígrados’ – vulgarmente chamados de “ursos d’água” – foram levados a ordo de uma sonda israelense, em atitude irresponsável e inconsequente de um pseudocientista. Qualquer dia, mandarão larvas de ‘Aedes Egypti”, espalhando dengue e chicungunia pelo espaço sideral, dizimando ETs antes mesmo que pisemos os olhos inóspitos dos planetas a anos-luz de distância.

Quando leio sobre os custos da corrida espacial fico imaginando o que não se faria aqui na terra com tanta grana. Só o projeto ARTEMIS, como que a NASA pretende montar um entreposto na Lua como escala para a viagem a Marte, deverá consumir perto de trinta bilhões de dólares, que correspondem ao déficit fiscal do Brasil neste ano de 2019. De lá para Marte, outra montanha de dólares. Enquanto isto, crianças dormem nas calçadas enquanto dondocas desfilam nos shoppings com seus ‘petchis’ banhados, tosados e perfumados; imigrantes naufragam em mares d’antes navegados gloriosamente por esquadras chinesas, portuguesas, espanholas, britânicas. A mim resta um consolo. As espaçonaves que exploram o infinito não levam escravos nos seus porões. Pelo menos, por enquanto. E quando chegarem a Marte não encontrarão nativos para enganarem com miçangas e penduricalhos, roubando-lhes ouro, prata e deixando a merda em que transformaram a Terra.

Ao fim da cúpula do G7 deste ano, os patrões concordaram em ajudar o Brasil, quando mais não seja, para salvar seus investimentos em solo verde amarelo. “IT’s all about Money”.

Espero que a próxima cúpula do G7 aconteça no deserto da Groelândia ou nas duas da Amazônia. ”
Guerra  Nos idos de 1960, entre 61 e 63, houve um “pega pra capar” entre o Brasil e a França: chamada “Guerra da Lagosta”, o litoral do Nordeste como o principal palco do conflito, a costa potiguar no meio. Não houve bala, somente a chamada “guerra diplomática”.

No meio dessa contenda ficou famosa a frase atribuída ao presidente francês, Charles de Gaulle: “Le Brésil n’est un pays serieux”. Na língua herdada de Camões: “O Brasil não é um país sério”.

Mais na frente descobriu-se que a frase não é de De Gaulle.  É do diplomata Carlos Alves de Souza Filho, à época embaixador do Brasil em Paris.  O presidente era João Goulart e quem comandava o IV Exército, que se preparou para a “guerra”, era o general Humberto Castelo Branco.

Agora, estamos diante de uma nova “guerra” envolvendo os dois países, com trocas de acusações e desaforos entre os seus presidentes. Bolsonaro   não poupou nem a primeira dama francesa. Já o presidente francês, depois de chamar o colega Bolsonaro de “mentiroso”, disse semana passada: “Os brasileiros deveriam ter vergonha do comportamento de seu presidente”.

“Allons enfants de la Patrie”

Livros 
Setembro começa com lançamento de livros. Agora, dia 5, o natalense-paraibano Francisco Antônio Cavalcanti, lança o seu terceiro romance: O Tempo de Tudo. Será na Fundação Casa José Américo, em João Pessoa. Além de livros técnicos (ele é engenheiro e professor universitário), Francisco Antônio publicou os romances O Violoncelo: Uma trajetória de acasos e mistério e Diário de Bordo: o legado de Jacques Drouvot.

Memória 
No dia 26, aqui em Natal, será a vez de Berilo de Castro autografar   o seu quinto livro: Memória Emoldurada. São crônicas. Tem apresentação de Tarcísio Gurgel, orelhas de Carlos Gomes e quarta capa de Alex Nascimento.

O lançamento acontecerá no Restaurante Nemésio, na avenida Rodrigues Alves, Petrópolis. A partir das 18 horas.

Flip 
Começa no dia 12, montada na Arena das Dunas, a 9ª Feira de Livros e Quadrinhos de Natal. Vai até o dia 15.