De Walflan para Sanderson

Publicação: 05/01/20
Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

2020, que começa com muita chuva pelos sertões do Nordeste num espetáculo muito mais bonito e emocionante do que o da queima de fogos da praia de Copacabana, é um ano especial para esta Tribuna do Norte, fundada por Aluízio Alves em março de 1950. São 70 anos, o jornal mais antigo em circulação no Estado. Milhares de resmas de muita história, muitas histórias.  Na ressaca moderada da quarta-feira, remexendo nos papéis desarrumadas das minhas gavetas, encontrei uma crônica de Walflan de Queiroz (31/05/1930 – 13/08/1995) publicada na TN, edição de 15 de dezembro de 1959. Lá se vão 60 anos. Walflan, poeta, era colaborador do jornal ao lado de outros intelectuais daqui e de fora.  Título da crônica:  “Bilhete ao Poeta Sanderson Negreiros”. Sanderson, que anos mais na frente viria a ser outro colunista da TN, nasceu em 03/07/1939 e se encantou em 19/12/2017.

Iniciando minhas comemorações dos 70 anos de Tribuna do Norte, onde assino o ponto derna de março de 1964 (acrescente mais três anos da década anterior: 56 e 57/58), transcrevo por inteiro a crônica de Walflan:

“Agora que aqui chego, prezado Sanderson Negreiros, poeta por graça de Deus, meu irmão em Baudelaire, releio os teus versos escritos quando esperavas uma aurora:
‘Senhor, abandonar nunca se pode
Uma dama e a ternura que nela dorme. ’
O abandono significa sempre uma atitude trágica. O crime de Rimbaud foi o de ter abandonado a poesia pela solidão africana. Por que abandonar o céu nítido, a ternura, o fruto verde?
Mas as auroras chegam com suas rosas e seus orvalhos. Então partiremos para Betsaida, a piscina das cinco galerias, que não era um “lugar de tédio”.
Nela fez o Cristo a sua primeira ação grave. Esperaremos o Anjo que agita a águia. E Ele que cura paralíticos e mutilados, Ele que faz a delícia das estações, nos espera.
Como abandoná-lo? Por acaso odiamos a ternura? Não, presado Sanderson Negreiros, abandonar nunca se pode, “uma dama e a ternura que nela dorme”. Ternura, delicadeza de Rimbaud, incompreendida pela sociedade do seu tempo e pelos “donos do mundo”.
Por ela, pela ternura, perderemos nossas vidas, até que o tempo onde os “corações se juntem” tenha vindo. ”


Ótima leitura
Findei 2019 com o livro de Ruy Castro, Metrópole à Beira-Mar (Companhia das Letras), que me chegou na sacola de Papai Noel graças à gentileza do professor Cláudio Emerenciano.  Foi das minhas melhores leituras desta temporada. Um livro encantador (pesquisa ao redor do Rio de Janeiro dos anos 20, cidade realmente maravilhosa), desses que agarram o leitor do começo ao fim. São 496 páginas escritas e mais 36 com ilustrações. Ricas e preciosas informações.
No livro passeiam seis norte-rio-grandenses: Alzira Soriano, Juvenal Lamartine, Peregrino Júnior, Murilo Melo Filho, Antônio Bento (nascido em Araruna, PB, mas criado no Engenho Bom Jardim, em Goianinha, onde se hospedou Mário de Andrade, seu amigo, final dos anos 20) e Orlando Ribeiro Dantas, fundador do Diário de Notícias, no Rio de Janeiro.
Peregrino Júnior, jornalista, médico, escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras também é citado como fonte das pesquisas de Ruy Castro (são anotadas três obras suas: Vida Útil (1923), O Movimento Modernista (1954) e Ronald de Carvalho – Poesia e Prosa, 1960.  Murilo Melo Filho, jornalista e também imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, é outra fonte das pesquisas, através de seu livro Rui Barbosa, publicado em 2012 pela ABL em parceria com a Imprensa Oficial.

O voto feminino
Juvenal Lamartine e Alzira Soriano aparecem no livro quando se aborda a campanha feminista que tinha Bertha Lutz como uma das lideranças nacionais. Destaco um trecho do que escreveu Ruy Castro no capítulo 7 (Pelos no Vento):
- A campanha feminista prosseguiu pelo resto da década, sempre sob a orientação de Bertha Lutz. Em 1927, sua influência se estenderia ao Rio Grande do Norte, onde seu amigo, o governador Juvenal Lamartine, alegando que o status federativo do Brasil dava independência às unidades, conseguiu aprovar o voto feminino em seu estado. Coma presença de Bertha em Natal, muitas mulheres se inscreveram para votar e a cidade de Lajes elegeu uma prefeita, Alzira Soriano, indicada por ela. ”

Brum 
Em fevereiro, passados os agitos do veraneio, teremos o lançamento do livro TriBRUMna, do nosso querido chargista Brum, 7 anos ilustrando as páginas da Tribuna do Norte. Seu primeiro livro, uma edição de alto quilate da Unigráfica, com apoio da Prefeitura de Natal.
Brum, detentor de vários prêmios nacionais – incluindo o Vladimir Herzog -, reuniu 193 charges, começando com a que marcou a sua estreia na Tribuna do Norte em 03 de abril de 2012.  Quase oito anos subindo as escadas daqui.

Política
De Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de S. Paulo, de quarta-feira, primeiro dia do ano novo, brechando as eleições municipais de 2020, disse:
- Em 2018 uma tempestade varreu a política brasileira. No que se supunha que seria o novo, veio junto uma carta de mediocridade e atraso. A eleição de outubro poderá separar o atraso. ”

Aderbal de França 
Hoje, 5 de janeiro, véspera dos Santos Reis Magos, é o aniversário de nascimento do jornalista Aderbal de França (05/01/1895-27/05/1974), Natalense da gema, um dos fundadores da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e do jornal O Diário (com Djalma Maranhão, Waldemar Araújo e Rivaldo Pinheiro). Foi em 1939.  Em 1947, adquirido por Assis Chateaubriand, passou a ser chamar Diário de Natal. Foi também fundador da revista Cigarra, ano de 1928, que tinha como colaboradores gente do naipe de Luís da Câmara Cascudo, Edgar Barbosa, Jorge Fernandes, Otacílio Alecrim, Jaime e Palmira Wanderley, entre outros.  Pioneiro da crônica social na imprensa natalense, usava o pseudônimo Danilo.

Inverno 
Fazia tempo, talvez uma década ou mais, que não se tinha uma passagem de ano com tantas chuvas como esta agora nos sertões nordestinos, pegando do Piauí a Pernambuco, passando pelo Ceará e Paraíba. No Rio Grande do Norte tem municípios no Oeste e no Seridó passando dos 100 milímetros, numa chuva só, entrada do ano. Chuvas que chegaram também em partes do Agreste e até no Sertão do Cabugi. No Ceará chove em todas as regiões.  Na Paraíba mais concentradas no Alto Sertão, divisa com o Ceará e Pernambuco. As previsões continuam otimistas. Amém.