A origem das espécies

Publicação: 05/02/19
Carlos de Souza
fcarlos@tribunadonorte.com.br

Eu tenho em casa uma edição do livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin que eu comprei num sebo na Cidade Alta. E tenho um exemplar de Viagem de Um Naturalista ao Redor do Mundo, também dele. É um diário de bordo que ele escreveu no navio Beagle, em 1831. Na verdade, o livro tem trechos escolhidos, mas mesmo assim é muito abrangente.

O livro de Darwin ficou famoso quando ele, um homem profundamente religioso, decidiu provar em 1859, que somos fruto da seleção natural e que, provavelmente, em algum momento da história da vida na terra, um ancestral nosso, o chamado elo perdido, se desligou da linhagem dos primatas e deu origem ao homem.

Mas o livro é muito mais que isso. Darwin é um cientista meticuloso que vai mostrando e provando suas descobertas a cada página, de forma precisa, com responsabilidade, dando crédito a outros cientistas. Para que ama a natureza, a leitura se torna um deleite, mesmo que tenhamos que passar por trechos bem áridos.

O problema é que sua teoria bateu de frente com o criacionismo, uma teoria religiosa que só dá credibilidade ao que estiver escrito na Bíblia. Então, nós somos filhos de Adão e Eva e fim de papo. Essa discussão ficou lá no século XIX e Darwin conviveu muito bem com a hostilidade de seus contemporâneos e a ciência colocou os limites entre o que é do campo científico e o que é do campo religioso, sem nenhum desrespeito pelas crenças das pessoas.

Acontece que em pleno século XXI, um grupo de pessoas decidiu que não devemos ensinar a teoria de Darwin aos nossos filhos, mas somente o criacionismo, porque está na Bíblia, e se está lá, é verdade consumada e pronto. Essa ideia de ir contra tudo que o iluminismo nos legou está contaminando o mundo pouco a pouco e não duvido se entrarmos em uma nova idade das trevas.

Os sinais estão muito evidentes: a volta de doenças que são facilmente tratáveis por vacinas é um deles. Não vou nem falar em terraplanistas, porque acho que é uma brincadeira entre crianças num hospício virtual. O que mais me preocupa é o revisionismo histórico, que nega o holocausto nazista, a escravidão do povo negro, por exemplo. Esse é perigoso.
Diário No diário de bordo do Beagle, o jovem Darwin conta como foi sua passagem pelo Brasil. São trechos de grande poesia e sensibilidade. Ele se encanta com a natureza ao ponto de comparar tudo que viu com o Éden bíblico. Mas fica chocado com a escravidão. Essa mancha que nós carregamos ainda hoje e que tanto dificulta nosso desenvolvimento, Darwin viu de perto.

Gelo
O livro Depois do Gelo, de Steven Mithen conta a história do mundo a partir de uma glaciação que atingiu o planeta terra por volta dos 20 mil anos A.C. Interessante que ele não gosta dessa medida de tempo, mas de “Antes da Nossa Era”. O ser humano habita a terra a muito mais que isso. Chega ao milhão de anos nas profundezas do tempo, mas ele só se interessa por esse período de tempo e só vai até a fundação dos primeiros povoamentos humanos. É como viajar numa máquina do tempo e visitar esses lugares que foram soterrados pela sucessão de eras. A partir dos ossos, das cerâmicas, das flechas que são desenterradas, ele vai contando uma história que não deixou registro escrito. Uma beleza.
História Interessante perceber que a partir do momento em que os humanos tiveram que disputar as riquezas ao redor, não houve mais paz. As cidades começaram a ser cercadas, as guerras se tornaram comuns até hoje. É sempre uma disputa pelas riquezas naturais. Principalmente por comida e água, mas também minerais preciosos, animais, armas.

Bíblia
A primeira coisa que surgiu nesses primeiros povoamentos foi o registro de atividades religiosas. Os Sumérios deixaram os primeiros registros escritos em tabuletas de argila. Depois veio a Bíblia, uma reunião de documentos muito antigos sobre um povo apenas, os Hebreus. Muita coisa da narrativa bíblica pode ser encontrada nos escritos sumérios. O dilúvio, por exemplo. 

Testamento
A Bíblia tem também o Novo Testamento, que é o testemunho de Jesus e sua passagem pela terra. Um livro cheio de sabedoria e amor. Mas por que a maioria das pessoas preferem as narrativas sangrentas e os conselhos específicos da época que estão contidos no Velho Testamento? Não precisa me responder. Esta é uma pergunta puramente retórica. Você pode ler a Bíblia de várias formas, mas tente lê-la em busca de conhecimento e não de preconceitos. Experimente ler os Salmos, Eclesiastes ou O Cântico dos Cânticos com o coração aberto.

Poesia
A Bíblia tem muita literatura e da mais alta qualidade. É um livro essencial porque, além de tudo nos ensina um bocado sobre poder, religião e amor.  E tem muita poesia também. Periodicamente eu me dou ao luxo de ler passagens da Bíblia para me deleitar com esses textos, com certeza escritos por alguém com grande capacidade literária. Já sei, você está dizendo, “foi escrita por Deus!” E eu respondo, está bem, foi ditada por Deus para alguém. 

Ciência
Então não há como misturar a leitura de Darwin com a leitura da Bíblia. Um escreve sobre ciência. O outro é de origem divina. Não vamos misturar isso. Eu ouvi outro dia na TV uma pessoa importante dizer que “não devíamos ter deixado Darwin chegar às nossas escolas”. E isso me chocou profundamente, porque sem Darwin não dá muito para entender de onde nós viemos e para onde iremos.