Conversa de poeta

Publicação: 08/07/18
Nos intervalos dos jogos da Copa volto à gaveta dos papeis desarrumados, despistando das emoções perdidas e procurando reencontrar saudades de um passado.  Na primeira busca, uma carta de Sanderson Negreiros (03/07/1939 – 19/12/2017) e que o poeta prefere chamar de bilhete. Bilhete escrito à mão,  em três laudas, quase todo dedicado ao amigo e também poeta Nei Leandro de Castro. Está datada de 26 de maio de 2006. Vai na íntegra:

“Amigo Woden: Prometi-lhe, ontem, este bilhete, escrito mesmo à mão. Bilhete em computador é muita petulância. Mas o que quero mesmo assinalar é o seguinte: Ney Leandro de Castro completa, domingo próximo, 66 anos de idade. Uma semana quase depois que Luís Carlos Guimarães chegaria, se estivesse entre nós, às 72 primaveras ou verões.

Ninguém nota, com a ênfase necessária, que Ney encontra a chã da serra, ele que só viveu somente no litoral. Acima de tudo, vê seu romance sobre Ojuara, consagrado definitivamente, transformando-se em filme, com música de Caetano.

Como nós dois nos conhecemos – somos da mesma idade -, desde a adolescência da Rua da Estrela, depois Rua José de Alencar, e fui-lhe testemunha dos longos cursos e recursos de sua vida inteira, quero fazer para ele o elogio mais eloquente, mas menos academio, de seu talento, sobretudo do seu instinto de disciplina, o mais importante da minha geração: tem sido grande poeta, ficcionista, contista, publicitário, e, sobretudo, amigo generoso e solidário.

Quando mais moço, podia ter um espírito mais arrebatado, até briguento, segundo seu biógrafo não oficial, que era Luís Carlos Guimarães, nosso eternamente insubstituível Lula, como está no epitáfio de todos os que conheceram o poeta que foi eleito, certa vez, vereador em Currais Novos, e quando casou com Leda, para ajudar nas finanças, foi professor na terra de Padre Ausônio, e me escreveu, certa vez, pedindo livros de Contabilidade Mercantil. E eu respondi em telegrama: “Tenho horror à Contabilidade. Ensine pelo menos Filosofia da Contabilidade. ”

Para seus amigos, de Lula e Ney, resta a grande saudade para o primeiro e a alegria pela vitória do segundo, que devia estar fazendo Yoga também para perder uns seis quilos que já adquiriu nesta sua atual presença natalense.

Quanto à mosca no meu olho, é consequência dessa mania besta de ler, não cinco jornais e ver tantos canais de TVF, mas de ler Prosas inteiras.  E você não brinque, que está despontando marcha batida para os 70 anos, e vai precisar muito de Yoga, meditação Zen e outras complacências.

Em TV, só assisto futebol. E umas moças bonitas, altas, verdadeiras colunatas gregas, que jogam vôlei. A beleza dói, dizia Gilberto Amado. Agradeço o espaço matinal de sua coluna, que dura o tempo das rosas de Malherbe – o tempo de uma manhã. Abraços de Sanderson, extensivos a Alex Nascimento (quando estiver com ele), que mais uma vez desapareceu, depois de uma gripe que o deixou na lona.

Sanderson Negreiros, 26 de maio de 2006.”

Catando chuva

Num envelope timbrado revejo ofício do engenheiro agrônomo João Henrique de A. Costa Rebelo, diretor regional da 1ª Diretoria Regional do DNOCS, com sede em Teresina, Piauí. É datado de 9 de dezembro de 1983, quando eu já catava notícias de chuvas por estes cantos do Nordeste. Como a tradição reza, o inverno nos sertões nordestinos começa em dezembro pelo Piauí. Confira o que está escrito:

“Senhor Redator, em atendimento a vossa solicitação, estamos encaminhando, em anexo, uma cópia do Quadro Demonstrativo de Precipitações Pluviométricas referente ao mês de dezembro, até o dia 05 nos postos sob a jurisdição desta 1ª Diretoria Regional do DNOCS.

Salientamos que as perspectivas são boas, se considerarmos o início do período chuvoso nas regiões sul e centro-sul, onde começa mais cedo, como características de invernos normais, conforme podemos observar nos postos de: Perímetro Gurguéia (60,4mm); Perímetro Fidalgo (39,2mm), e Lameiro (22,7mm). Na região de Picos (municípios de Pio IX, Fronteiras, Paulistana e São Raimundo Nonato, onde as precipitações médias são as menores do Estado, as chuvas caídas têm sido de pequena intensidade.

Com referência à região norte, onde o período invernoso inicia mais tare, também já caíram boas chuvas, como é o caso de Teresina (Capital do Estado) onde ocorreu uma precipitação de 65,0mm no final de novembro. Nos demais postos desta região (Perímetro Caldeirão, Esperantina, Longá e São João da Serra) já houve precipitações, com exceção do Perímetro Lagoas do Piauí, localizado no Baixo Parnaíba, em que não choveu, mas que talvez ainda neste mês de dezembro ocorra alguma precipitação. Esta é uma região com o maior índice de pluviosidade, onde a média é de 1.400 mm anuais.

Com relação a agricultura, nos Perímetros localizados na região sul e centro-sul (Gurguéia e Fidalgo, onde existe colonização, os plantios estão sendo iniciados, enquanto a Secretaria de Agricultura do Estado está distribuindo 65.000 kg de semente de algodão aos agricultores, proveniente da última safra, adquiridas dos Perímetros Irrigados Caldeirão (Piripiri-Pi) e Lagoas do Piauí (Luzilândia-Pi). Em todas as regiões do Estado a intenção do plantio entre os agricultores é animadora e semente não deverá faltar.

Atenciosamente,
Eng. Agro. João Henrique de A. Costa Rebelo – Diretor Regional 1ª. DR/DNOCS. ”

Poesia

“De repente a mulher desabrochou nua/ saindo do mar, pois a água não a vestia, / antes a desnudava, fazendo a sua/ nudez mais nua à dura luz que afia/ seu gume no sol da manhã que inaugura/ o verão. Dezembro só luz reverbera/ em seu corpo, doura-se as coxas, fulgura/ nas ancas, no dorso ondulado de fera./ Fera que guarda no ventre uma colmeia/ com a flor em brasa do sexo que ateia/ fogo ao meu desejo e tanto me consome/ a vulva, gruta, rosa de pelos – que nome/ tenha-, que desfaleço como se em sangue/ me esvaísse morrendo de amor. Exangue. ” (Do poema “Sagração do verão”, de Luís Carlos Guimarães, em seu livro “A Lua no Espelho”, Clima-1993, com prefácio de Paulo de Tarso Correia de Melo, orelha de Sanderson Negreiros e ilustrações de O. Morgantini).