Lembrando José Aguinaldo

Publicação: 08/09/19
Lembrando José Aguinaldo

Remexendo a gaveta dos papéis desarrumados encontro uma carta do doutor João Maria Furtado (1903-1997), escrita em junho de 1992. O magistrado e jornalista protesta contra a mudança de nome de uma rua de Natal (Rua José Aguinaldo de Barros) para um “outro nome qualquer”.  São citados o poeta Sanderson Negreiros (genro de Zé Aguinaldo) e o escritor Veríssimo de Melo.  O doutor João Maria lembra na carta a fuga que fez ao lado do amigo Zé Aguinaldo (poeta, dramaturgo e empresário, veranista apaixonado pelas praias da Redinha, Santa Rita e Jenipabu) quando ameaçado de prisão no Governo Rafael Fernandes, acusado de envolvimento com a Intentona Comunista de 1935.

Toda essa história está detalhada no seu livro de memórias, Vertentes, leitura fundamental para se conhecer a política e o jornalismo do Rio Grande do Norte naquelas eras, tempos do Cafeismo. A fuga começou na Praia da Redinha, onde as famílias dos dois amigos veraneavam e foi feita a pé até Ceará Mirim, passando por Igapó e Lagoa de Extremoz, chegando nos canaviais da usina São Francisco, de Luiz Varela.  Dias depois, na praia de Maxaranguape, embarcaram num bote com destino a Fortaleza. Leiamos a carta:

“Natal, 03/06/92

Prezado W. Madruga

Venho aqui associar-me aos justíssimos protestos de Sanderson Negreiros e Veríssimo de Melo contra a substituição do nome de José Aguinaldo Barros de uma rua já existente por outro nome qualquer.

Eventualmente convivi por cerca de quase três meses com José Aguinaldo Barros, quando, em março de 1936, eu e ele como últimos veranistas da praia da Redinha, fomos forçados a juntos, fugir daquela praia até ao Estado do Ceará, para não sermos vítimas de novas prisões ainda em repressão ilegal à revolta vermelha de novembro de 1935 como tudo está contado em “VERTENTES”

Nesse convívio forçado e nas circunstâncias em que nos achávamos, me foi dado aquilatar as grandes qualidades de coração e caráter de José Aguinaldo Barros.

Portanto, essa substituição é um ato da mais revoltante injustiça.

João Maria Furtado”

O livro “Vertentes” teve a sua primeira edição publicada em 1976 (Gráfica Olímpica Editora, Ltda. – Rio de Janeiro) e uma segunda em 1989 com o selo da Editora Clima, Natal. O prefácio é de Helio Galvão que, às folhas tantas, diz:

- João Maria Furtado não teve receio de contar as coisas como ele as viu, de trazer para o seu livro as reminiscências de episódios dos quais foi partícipe ou testemunha. A inquietação do seu espírito, a busca permanente da justiça, o lutador que se engaja nos movimentos do seu tempo, da Revolução Modernista de 22 à Revolução política de 30, sem perguntar pelo que vai ganhar nem indagar dos riscos da empresa. Como no Evangelho, escutou o “vem e segue-me” e foi e seguiu. ”

Os experimentos de Moacy Cirne

No mesmo envelopão, junto à carta do doutor João Maria Furtado, aparece um bilhete do poeta Moacy Cirne, escrito à mão numa lauda inteira. Não tem data, mas pelo miolo é coisa de 1988, quando estava cuidando de um novo livro: Docemente Experimentais, que seria publicado naquele ano. O bilhete me foi enviado do Rio de Janeiro, onde ele vivia, torcia pelo Fluminense e trabalhava na Editora Vozes:

“Woden:

Um abraço!

Estes textos fazem parte do meu próximo livro de poemas/processo (título: DOCEMENTE EXPERIMENTAIS), a sair no segundo semestre.

Como vai o nosso ABC? Ruim de bola?

De resto, entre na justiça contra a Vozes. Claro, Dermi não tem nada a ver com a canalhice de certas pessoas que se dizem “cristãs”. E, ainda por cima, vivem falando em “justiça social”! Só rindo...

Do Moacy”

Projeto Político

No verso da página estão datilografados três poemas de Moacy, um deles com o título de “Projeto Político”, poetado assim:

1. fotografe o crepúsculo de ontem. / 2. leia ‘crônicas marcianas’, de Bradbury. / 3.  sonhe com o sorriso da mulher amada. / 4. veja um filme de Antonioni. / 5. participe da luta dos trabalhadores. / 6. faça o amor e faça a revolução. /7. seja feliz. / 8. seja feliz. / 9. seja feliz.

Na Fliq

Quinta-feira que vem, 12, véspera de lua nova, começa a 9ª Fliq (Feira de Livros e Quadrinhos), montada na Arena das Dunas, com uma ampla e variada programação que se estenderá até o dia 15. Palestras, oficinas, lançamentos de livros. Um destaque especial para a literatura de cordel.

Na sexta-feira, 13, coisa das 19 horas, acontecerá uma mesa sobre a obra de Oswaldo Lamartine de Faria, cujo centenário de nascimento ocorre no dia 15 de novembro. O papo será entre Vicente Serejo e este anotador de notícias que vos fala.  Grande Oswaldo Lamartine, dos maiores nomes de nossas letras.

Livro

Demétrio Diniz está com um novo livro na praça, Contos Escolhidos, editado pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). É o seu 11º livro, incluindo cinco de poemas. Ainda não marcou data do lançamento com os devidos autógrafos. Mas alguns amigos já foram brindados com sua leitura.

Na Academia

Será quinta-feira, 12, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, a partir das 19 horas, o lançamento do livro de Maria Helena Brandão Varela, Minha Alma Nua.

Teatro

O Teatro Alberto Maranhão continua fechado, já passa de quatro anos. Herança do governo passado e mantida pelo atual, nas vésperas de 10 meses no poder. A classe artística permanece de boca fechada.