A festa na Carnaúba

Publicação: 11/08/19
Jornal de WM
Por Woden Madruga

A festa na Carnaúba


Três anos atrás publiquei uma crônica com o título “E todos foram para Taperoá” contando o que foi, em julho de 2016, o “Dia D” da Fazenda Carnaúba, um dos mais importantes eventos da agropecuária nordestina. Pegava carona no livro de Sérgio Augusto, E todos foram para Paris, que escreveu “nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia” pelas duas margens do Sena, publicado em 2011. Este ano, quando o Dia D chegou a sua sétima edição, bem mais gente andou por aqueles sertões do semiárido paraibano. Todos estavam lá.  Gente vindo de várias partes do país e até do exterior, como a colombiana María del Rocío Zapata, dona da fazenda Zorilhos onde cria zebuínos da raça Guzerá.  Ela, admiradora dos guzerás da Fazenda Carnaúba, raça de dupla aptidão (carne e leite) melhorada por Manoel Dantas Vilar Filho (Maneleito).  Quem sabe um dia os indianos não chegarão também a Taperoá?  A Carnaúba realmente tem muito o que mostrar e ensinar.

Dorgival Teixeira Neto (1932-2013).  taperoaense, professor universitário,  jornalista, escritor ( sócio da Academia Paraibana de Letras), prefeito de João Pessoa e Governador da Paraíba, em seu livro Taperoá – crônica para a sua história (prefácio de Ariano Suassuna) fez este retrato três por quatro de Manelito, ressaltando seu trabalho nas fazendas Carnaúba e Pau Leite: “Foi pioneiro em tecnologia para o semiárido paraibano, fazendo investimentos e concebendo inovações para convivência produtiva com a seca. Tudo o quanto fez em mais de três decênios de labor incessante poderia ser encampado numa fundação para estudo e desenvolvimento de ações na região. ”

Na verdade, a Carnaúba hoje é um campus avançando para pesquisas da agropecuária nordestina. Tanto assim, que agora no Dia (sábado, 27 de junho) foi assinado uma parceria com uma instituição de ensino superior de Patos, que estenderá suas atividades e pesquisas até aos terreiros da Carnaúba, Manelito com suas vestes mescla azul de magnifico reitor. Ele tem muita coisa a ensinar. Tudo o que aprendeu no semiárido, no seu sertão brabo. Sertão cheio de vida, tudo verde por conta do bom inverno, friozinho (de noite) de 18 graus, gente se agasalhando em casacos e moças bonitas calçando botas altas, finas, elegantes. Bebia-se uísque e tintos. Cachaça, também.  Bons papos.

Anotei alguns números que revelam o significado e a importância do Dia D. Os negócios chegaram a 1 milhão de reais. Desse total, R$ 840 mil, na venda de bovinos, caprinos e ovinos. Os queijos passaram dos R$ 160. Os queijos Grupiara, da Carnaúba, já são premiados até na França. Aliás, o Dia D este ano teve também palestras e oficinas sobre queijos. Por lá passaram mais de 8 mil pessoas: criadores, produtores rurais, técnicos, pesquisadores, estudantes, artistas (excelentes duplas de cantadores) e artesãos. Rico artesanato do cariri paraibano.

Estar na Carnaúba é sempre um encantamento. A gente fica todo ancho em ser nordestino.

Sitônio e Dantas

Entre as tantas coisas boas que desfrutei na Carnaúba destaco os encontros e papos com Otávio Sitônio Pinto e Manuel Dantas Suassuna. Sitônio, jornalista, poeta e escritor, autor de um livro fundamental sobre o semiárido nordestino: Dom Sertão, Dona Seca. Mora em João Pessoa, mas é sertanejo de Princesa, mesmo chão de Aldo Lopes, outro bamba da literatura paraibana, mas arranchado em Natal.  Manuel Dantas, artista plástico, divide o tempo entre Taperoá e Recife. Tem atelier na Carnaúba.

Dantas me presenteou com o livro “ A História do Amor de Fernando e Isaura”, deAriano Suassuna, seu pai, edição (a 11ª, com apresentação de Carlos Newton Júnior) lançada este ano, e devidamente autografado:  “Para Woden a História do Amor de Fernando e Isaura, livro do meu pai, dedica Manuel Dantas Suassuna. Taperoá, 27 VII 2019”.

Exportando queijo

Os franceses desembarcaram em Natal, viram como se fabrica o queijo de manteiga e se encantaram com o seu sabor. E querem agora que o produto nordestino seja vendido em seu país. Vai depender das leis ultrapassadas do Brasil. Eram integrantes de uma caravana da ‘Guilde Internationale de Fromages’ (Confraria Internacional de Queijeiros) que deram uma parada aqui, antes de seguirem no rumo de Araxá, Minas Gerais, onde aconteceria o “Mundial do Queijo no Brasil”.

Os queijeiros franceses escalaram Natal por conta do 15º ENEL (Encontro Nordestino de Leite e Derivados) que aconteceu no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, entre os dias 5 e 7.  O encontro de Natal foi o mote da coluna Paladar, do jornal Estado de S.Paulo, edição de quarta-feira, 7, com o título “Queijo de manteiga potiguar ganha investimento e surpreende franceses”. A coluna é assinada por Débora Pereira que também esteve aqui.

Apoio  Os queijeiros franceses foram recebidos pela governadora Fátima Bezerra, que tem dado apoio aos queijeiros potiguares e anunciou que vai à França para negociar acordos com o governo francês.  A coluna Paladar registrou assim:

- A governadora Fátima Bezerra recebeu o grupo de 18 membros da Guilde Internationale des Fromagers em um jantar especial e anunciou que vai à França em novembro, em viagem diplomática com outros governadores nordestinos, para negociar acordos e investimentos com o governo francês. “Vamos incluir uma visita à Federação dos Queijeiros na nossa agenda e nos inspirar no modelo deles de proteção e valorização da diversidade queijeira, além de abrir as portas para exportar o queijo nordestino”, disse a governadora.

- “Tenho certeza que se esses queijos puderem chegar à França eu vou coloca-los à venda na minha loja”, comenta Christelle Lorho, mestre queijeira francesa, de Estrasburgo, toda animada.

Os guardiães 
Quatro nordestinos (três potiguares e um paraibano) foram homenageados pela Guilde na sua passagem por Natal, como conta a coluna do Estadão:

- Na cerimônia da Guilde, foram reconhecidos como ‘Guarde et Jure’ (Guardião e Jurado, em tradução livre quatro personalidades do mundo queijeiro nordestino: Joaquim Dantas, queijeiro da Fazenda Carnaúba de Taperoá; Acácio Brito, diretor do Projeto do Queijo Artesanal do Sebrae; a Chef e pesquisadora de queijos Adriana Lucena; e o pesquisador do Laboratório do Leite e Queijo da UFRN, Adriano Rangel. ”

Livro 
Anote em sua agenda: dia 21, tem o lançamento do novo livro de Gustavo Sobral:  História da Cidade do Natal. Será na Floricultura Flor de Algodão (Flora Cafeteira), avenida Rodrigues Alves, 443-A, Petrópolis, a partir das 7 horas.