Tribuna na Academia

Publicação: 12/01/20
Os 70 anos da Tribuna do Norte vão ser celebrados na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, proposição do seu presidente Diógenes da Cunha Lima que já começou a cuidar da programação. Ainda sem data definida, talvez em março mesmo, mês da fundação da TN (ano de 1950), passando-se os agitos do verão e do carnaval. É forte essa conexão Tribuna e Academia. Basta lembrar que o fundador do jornal, Aluízio Alves, foi um de seus imortais, eleito em 1976 para a cadeira 17.  Lá mais atrás, o doutor Juvenal Lamartine de Faria (um dos fundadores da Academia, 1936), ajudou Aluízio a fundar a Tribuna do Norte.

Juvenal Lamartine também foi um dos principais articulistas da Tribuna do Norte.  Alguns de seus artigos, publicados no segundo semestre de 1954, estão reunidos no livro Velhos Costumes do Meu Sertão, editado em 1963 durante o governo Aluízio Alves, com apresentação de Oswaldo Lamartine de Faria, que também escreveu as notas de rodapé. É um livro fundamental para se conhecer os sertões do Rio Grande do Norte.  A edição tem uma epígrafe de Aluízio: A cultura não é privilégio das elites. É direito do povo.

Numa entrevista que deu ao programa Memória Viva, da TV-Universitária, em julho de 1988, Aluízio conta:

- (...) Fiz jornalismo estudantil, jornalismo literário, revista literária (...) Em 1940 comecei a trabalhar na “A República”. Fui repórter, fui redator. O diretor era Edgar Barbosa e, o secretário, Waldemar Araújo. A sessão de cinema e teatro era feita por Jessé Freire (...)”.

Aluízio continua:

“Eu fiz a Tribuna do Norte, porque em cada campanha eleitoral, fazíamos um jornal. Quando foi em 1949, em que se tornou vitoriosa a “Tribuna de Imprensa” (fundada por Carlos Lacerda e Aluízio), no Rio, nós sonhávamos em fazer jornais associados, como Chateaubriand tinha em cada Estado. Aí eu vim para aqui e sai com Lamartine, Dix-huit, José Xavier, percorremos o Estado todo, levantamos o dinheiro, fizemos a Tribuna do Norte”.

De lá pra cá muita gente que passou pela redação da Tribuna ingressou nos quadros da imortalidade da Academia Norte-Rio-Grande do Norte. Dos que já se encantaram, além de Juvenal Lamartine e Aluízio, vou lembrando dos nomes de Helio Galvão, Esmeraldo Siqueira, Rômulo Wanderley, Meira Pires, Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, Enélio Petrovich, Dorian Jorge Freire, Ticiano Duarte, Agnelo Alves e Paulo Bezerra (Paulo Balá).

Não foram apenas colaboradores, cronistas, articulistas. Agnelo foi diretor e editor. Ticiano, também diretor, Dorian Jorge Freire, editor. Luís Carlos Guimarães, copidesque. As crônicas de Helio Galvão publicadas nos anos de 1967, 68 e 1978 estão reunidos em três livros: Cartas da Praia, Novas Cartas da Praia e Derradeiras Cartas da Praia. Três grandes instantes da nossa literatura. Ele tambem prestava, gratuitamente, consultoria jurídica ao jornal.

Dos atuais acadêmicos, 9 estão presentes nas páginas diárias da TN, integrando o seu time de cronistas: Diógenes da Cunha Lima, Cláudio Emerenciano e Lívio Oliveira, aos domingos. Valério Mesquita e o padre João Medeiros Filho, nas terças-feiras, Daladier da Cunha Lima, quintas, Cassiano Arruda, quartas e domingos, Ivan Maciel de Andrade, aos sábados. Cassiano começou no jornalismo, anos 60, aqui na Tribuna. Mais tarde, assumiria a direção da redação.

Tem mais dois imortais vivos que passaram pelas páginas da TN: João Batista Machado e Nelson Patriota. Machadinho começou também aqui, repórter político. Aposentou-se. Nelson Patriota, dirigiu a página literária. Nos meados do ano passado o time foi acrescido com a vinda de Vicente Serejo, assinando sua coluna diária. Ao todo são onze imortais. Ou doze? Academia e TN juntos, amigação antiga.

O Poeta

Dia 9, quinta-feira que passou, véspera de lua cheia, foi o centenário de nascimento de João Cabral de Melo Neto, dos maiores poetas da língua portuguesa, Prêmio Camões de 1990. Pernambucano nascido no Recife, além de poeta foi diplomata de carreira. A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras vai homenageá-lo. A festa ainda não tem data.

João Cabral esteve algumas vezes em Natal. Em 1982 foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O reitor era Diógenes da Cunha Lima.  Em Natal, o poeta tinha uma grande amiga, Zila Mamede, a quem dedicou o poema “Do Recife, de Pernambuco”. Aqui foi hóspede do casal Lalinha/Genibaldo Barros.

O Cajueiro  O cajueiro de Pirangi está na poesia de João Cabral de Melo Neto. Em seu livro Agrestes publicou o poema “Os Cajueiros de Guiné-Bissau”:

“São plantados em pelotões. /Desfilam para a autoridade/que os fez plantar; são em parada, /sem o nordestino à vontade. // Os cajueiros são anarquistas, /nenhuma lei rege seus galhos/ (o de Pirangi, de Natal, / é horizontal, cresceu deitado). // Como vão hoje esses cajueiros/ que do seu Nordeste irreduto/ Salazar recrutou para a África? / Já podem dar seu mau exemplo? ”.

Monsenhor  Quinta-feira que vem, 16, comemora-se os 20 anos da morte do Monsenhor Expedito de Medeiros, o “Profeta das Águas”. Haverá celebrações na Paróquia de São Paulo do Potengi, por ele fundada, começando com alvorada musical a partir das 5 horas na praça que tem o seu nome.

Ás 19 horas, na igreja matriz de São Paulo Apóstolo, por ele construída, será celebrada missa em ação de graças, oficiada pelo Arcebispo Dom Jaime Vieira.

Livro 

Uma boa leitura, ótima: o livro de Chico Buarque de Holanda, Essa gente, lançado em dezembro pela Companhia das Letras. Romance escrito em feitio de diário, conquistando o leitor da primeira à última página, numa leitura de uma tacada só.  Me fez companhia na festa dos Três Reis Magos.

Inverno 


Ninguém tem mais dúvidas, nem os meteorologistas, de que 2020 será um ano de inverno, de inverno normal, em todos os sertões nordestinos. Dezembro que passou já foi bem chuvoso, com índices até acima da média. Agora em janeiro, tem municípios com chuvas passando de 200 milímetros: Piauí, Ceará, Paraíba, aqui também no Rio Grande do Norte. Rios descendo com cheias, açudes sangrando.

O Rio Potengi já está com cheia. Em Cerro Corá, onde ficam suas cabeceiras, choveu, quarta-feira, 140 milímetros. Em São Tomé, mais em embaixo, 105, logo em seguida, Barcelona, 157. As águas foram chegando, chegaram em São Paulo do Potengi, aumentando o volume da Barragem de Campo Grande. Monsenhor Expedito, rindo de felicidade.

É o inverno, sim. É para se correr para a bica, dizendo os versos de João Cabral de Melo Neto:

“No ‘Sertão’ masculino/ a chuva sem disímulo/ demonstra o que ela é: / que seu sexo é mulher. // Por mais que em linhas retas/ caia em cima da terra, / caída, mostra a chuva/ que é feminina, em curvas. // Reta é a natureza, / por mais torta que seja, / do Sertão eriçado / onde ela cai tão raro. // Basta seguir o modo/ com que, uma vez no solo, / a chuva é sinuosa/ e provocante rola. // No Sertão de alma bruta/ a chuva é mais que chuva. // É pessoa: e isso é mais/ do que tudo o que traz. // E esse mundo viúvo, / mais que o verde futuro, / ama nela a presença, / corporalmente, fêmea. ”