O pior prefeito

Publicação: 22/12/19
Dei uma esticada esta semana no Cova da Onça. Fui à procura das novidades da velha Ribeira contadas por mestre Gaspar, acrescidas de seus comentários ao redor do que acontece ou não em Brasília. Estava com saudades da patota que compõe o plenário da casa. A primeira boa surpresa foi o reencontro com o poeta Manassés, há mais de quatro anos ausente da terrinha depois que se mudou para Portugal. Está de casa alugada em Galveias, cidadezinha de uns dois mil habitantes (menos que a nossa Lagoa de Velhos), no Alto Alentejo, distante, segundo me contou, 150 quilômetros de Lisboa; duas horas de ônibus. Fica perto de Évora, coisa de 80 quilômetros (como de Natal para as Queimadas, meu roteiro de todos os sábados).

Galveias é onde nasceu o escritor José Luís Peixoto, dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea, detentor de vários prêmios (entre eles, o Prêmio Literário José Saramago, de 2001, com o romance Nenhum Olhar.  Entre seus vários romances tem um com o título Galveias. Em suas páginas conta como é o universo da aldeia, seus personagens (incluindo a brasileira Isabella) e suas histórias. Manassés me contou que já bateu alguns papos com o escritor, quando ele aparece por lá. “Galveias sente os seus. Oferece-lhes mundo, ruas para estenderem idades. Um dia, acolhe-os no seu interior. São como meninos que regressam ao ventre da mãe. Galveias protege os seus para sempre”.

Manassés referiu-se também com carinho a cidade de Estremoz, bem perto de Galveias, coisa de 53 quilômetros e já chegando na divisa com a Espanha. Uma joinha de lugar. Foi lá certo de encontrar grude para reforçar o café matinal.   Mas os moradores do lugar nem sabem o que é isso. Porém, descobriu, para o deleite de seu paladar, o ensopado (guisado) de borrego, com batata, alho, cebola, tomate, salsa , folhas de louro, pimenta preta, raminho de alecrim, azeite, tudo servido com fatias de pão alentejano. Passou a receita para Gaspar, a mesa toda com água na boca.

Deixando a literatura e a gastronomia de lado, o pessoal passou a falar sobre o brabo momento político que o Brasil atravessa, incluindo no rol os pronunciamentos do presidente Bolsonaro, suas frases estilo “chute-na-canela”. De Brasília, se fez em seguida uma parada no Rio de Janeiro que tem a mesma “geografia política”, sotaques idênticos. Foi o que disse assim mestre Gaspar, quando tirou do bolso a crônica de Ruy Castro publicada na Folha de S. Paulo, de quarta-feira, com o título “Cuidar das pessoas”. O mote é o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Começa assim:

- O bispo Marcelo Crivella, pior prefeito do Rio em todos os tempos, insiste em seu exercício de ódio contra tudo que caracteriza a cidade. Neste último sábado (14), não se deu ao respeito de prestigiar a inauguração da árvore de Natal da Lagoa, atração mantida por particulares, que recebe gente do país inteiro e não custa um real à prefeitura. Há meses ignorou o Rock in Rio, evento que, durante duas semanas, faz a festa do comércio, hotéis, restaurantes, táxis, ambulantes. Ainda este ano, Crivella agrediu a Bienal do Livro, a maior do país, despachando um bufão para proibir um gibi e se tornando motivo de chacota internacional. E desde que assumiu a prefeitura, faz o que pode para sabotar o Carnaval e o Réveillon, festas que só voltaram a ser o que eram quando ele deixar o cargo e se retirar, como sugere um amigo meu, para o raio que o parta.

- O notável é que todos esses eventos – que qualquer cidade do Brasil daria tudo para hospedar – revertem em impostos diretos e indiretos para a prefeitura, e que ele aceita sem constrangimento. Donde deveria ser de seu interesse até promover esses eventos, para aumentar seu faturamento. Mas Crivella, ao contrário, dedica-se a torpedeá-los, como se portador de uma espada divina, destinada a expulsar os infiéis do templo – do seu templo. Só que o Rio votou nele para prefeito, não para pastor.

- Nas diversas vezes em que diminuiu a verba do Carnaval – ou, como agora, em que ameaça negá-la de todo -, Crivella alegou que a destinaria à saúde e à educação. Mas algo deve ter acontecido com ela a caminho dos hospitais, postos de saúde e clínicas da família, porque o Rio vive neste momento a pior crise de sua história no setor.

- Como centralizou sua campanha no mote “cuidar das pessoas”, Crivella deve explicações àquelas que votaram nele e hoje se veem sem atendimento médico. As que sobreviverem, claro. ”

Tempo de chuva

Hoje, 22, começa o verão, tempo de temperatura alta, sol queimando, temporada de praia, vez dos chamados veranistas que rimam com turistas. Coisas do litoral... Mas é tempo também da chegada das primeiras chuvas no sertão. Já vem acontecendo derna do começo do mês para as bandas do Piauí e Ceará.

Quinta-feira, 19, a TN deu esta manchete: “Preliminares apontam inverno positivo”. Inverno de 2020, claro. A matéria se baseia nas informações dos meteorologistas, que se baseiam na “oscilação da temperatura do oceano Atlântico”. As águas estão mais quentes. Sinal positivo de que vamos ter chuva pras bandas de dá. As pedrinhas de sal de Santa Luzia também confirmam.
No Ceará   Essas chuvas de dezembro que caem principalmente no sul do Ceará (região do Cariri) formam o que os meteorologistas chamam de ‘Pré-Estação”, que se estende até janeiro, com média pluviométrica de 130 milímetros. Tem município que já passou dos 90, como é o caso de Barbalha (chuvas registradas até semana passada).

É bom lembrar que o inverno de mesmo nos sertões cearenses pega os meses de janeiro, fevereiro e março. Esta semana (de segunda-feira, 16, até  sexta, 20) as melhores chuvas de lá foram nos municípios de Granjeiro, 36 milímetros, Caririaçu, 34, Lavras da Mangabeira, 28, Limoeiro do Norte, 26, Russas, 21, Juazeiro do Norte e Mauriti, 11. Regiões do Cariri e da Jaguaribana, esta divisa com o Rio Grande do Norte.

Livro

Já chegou na Livraria da Cooperativa Cultural da UFRN, o novo romance de Francisco Antonio Cavalcanti, O Tempo de Tudo, editado pela Drago Editorial, do Rio de Janeiro.

O autor é natalense radicado em Joao Pessoa. É o seu terceiro romance. O primeiro, O Violoncelo: Uma trajetória de acasos e mistérios, seguido de Diário de Bordo: o legado de Jacques Drouvot, este publicado em Lisboa.

Do Potengi


O Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Conerh) aprovou esta semana a Criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Potengi. Tomara que saia do papel e funcione de verdade. Que cuide de suas águas, de suas margens, a partir de sua nascente ao pé de Cerro Corá, ares seridoenses, até a foz com o mar   lambeando as pedras da Fortaleza dos Reis Magos, abandonada.

Dezessete municípios compõem a bacia do Potengi: Cerro Corá, São Tomé, Barcelona, Rui Barbosa, Lagoa de Velhos, Riachuelo, São Paulo do Potengi, São Pedro, Serra Caiada, Elói de Souza, Bom Jesus, Sítio Novo, Santa Maria, Ielmo Marinho, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e Natal.

Emanoel Amaral


Perdemos Emanoel Amaral, que se encantou no dia 16, quarta-feira, aos 67 anos. Lutava contra um câncer. Chargista, cartunista, professor de desenho, pintor, agitador cultural fiel as raízes culturais suas e de nossa gente. Por isso, mamulengueiro também. Deu muita vida às páginas desta Tribuna do Norte por vários anos.  Grande companheiro.