Caindo e Levantando

Publicação: 17/01/17
Daniel Get Up (2016, Independente)
Devagar e sempre, o hip hop potiguar segue avançando e expondo suas ideias a públicos cada vez mais amplos. Novato na área, o rapper natalense Daniel GetUP lançou o primeiro álbum no ano passado, “Caindo e levantando, já causando algum burburinho com a primeira música de trabalho, “Dinheiro, fama e poder”, cujo videoclipe obteve alta rotação na MTV e também ganhou destaque no portal de música Brasileiríssimos. Daniel propõe um hip hop orgânico, priorizando a instrumentação convencional aos beats programados. O resultado são canções que passeiam entre o rock, folk e reggae numa levada quase pop. A produção do músico Diego Brasil atesta o efeito. A funkeada “Rolés pela city” tem potencial radiofônico. O reggae “Luz da consciência” também é grudento, enquanto “Quebrar a barra” pesa mais no dub. As rimas do MC, leves e positivas, caem bem em músicas como “Te dou uma flor” e “Esperança”. (Por Tádzio França)

N.T.E. – “Anatomia da cidade”
(2016, Microfonia)

Após algumas demos e o primeiro disco – de 2015 e que leva o nome da banda, Nem Todos Esquecem –, o quarteto natalense de punk à la 1977 encabeçado pelo inquieto vocal de Alexandre Falante (ex-Raça Odiada) vem neste segundo álbum com exatas 20 faixas, como na estreia. A urgência aqui brada mais alto (a composição mais longa tem três minutos) em faixas como a de título ramonesco “Não aguento mais a humanidade”, com riffs entre o heavy metal (!) nas estrofes e guitar rock no refrão, ou “Quando eu vi a desgraça no meio da rua”, rápida feito o hardcore dos anos 80 e nada de solos. O disco guarda pequenas surpresas, caso da pós-punk quase dançante “A tristeza por trás do meu sorriso”, com bela linha de baixo com efeito de chorus, e a intempestiva “O abismo que eu enfrento é não é físico, é mental”, esta com um começo falado à la Jello Biafra. O título do disco fica explícito em “Onde estão as crianças do Planalto?”, clara denúncia dos problemas sociais do bairro de periferia da capital potiguar, e “A história não contada da história de Natal”, com claros ecos de Dead Kennedys e crítica em evidência (mentes vazias / em plena euforia / em pleno corredor da folia). Terminando com a climática “Pelo menos por um instante”, a fisionomia percebida pelo N.T.E. é bem mais que mera descrição desta urbe dos trópicos. (por Alexandre Alves)

“Mad Grinder + Thee Automatics - MGTA”
(2016, Deserto Records)

Aparentemente discrepantes em suas propostas sonoras, duas bandas potiguares se unem para lançar um CD-split com 10 faixas. A falsa discordância gerada por rótulos se desfaz após a primeira audição: o gosto pelo barulho une interior e litoral. Os mossoroenses do Mad Grinder, já com 2 EP’s e o disco de estreia de 2013 na bagagem, abrem a gravação com “Save yourself”, música inspirada que já convence a seguir ouvindo o álbum. O trio flutua entre o mais pesado e alguma leveza, mas sempre com guitarras como carro-chefe, a exemplo de “Indifference”. Os já decanos Thee Automatics abrem sua parte com “Another you” – com backing vocals e guitarra de Dante Augusto (ex-Calistoga) – e mais uma vez aqui acertam em cheio numa melodia grudenta e aquele refrão, característica consagrada pelo grupo. Em “Mad reminder” (no mínimo, o título é uma alusão ao Mad Grinder, que devolve com a faixa “Automatic man”), os vocais ficam por conta de Christiane Pimenta e a bateria vem sem nenhuma virada (!). Terminam com o longo tema instrumental “Labirinto jazz”, gravado ao vivo no festival Under The Sun e com Adriano Azambuja (A Máquina) na guitar solo e teclas, às vezes tocando ambos ao mesmo tempo. Recomenda-se ouvir alto! (Por Olga Costa)




Born to Freedom “Life is movement” (2016, Independente)

Publicação: 10/01/17
Após a estranheza causada pela vinheta de abertura com o sintomático nome de “Intro” – na verdade, um rap em português sob sample de Belchior (a banda diz que funcionaria como uma “orelha de livro”!) do convidado Rafael Bessa (Bilico), músico potiguar hoje radicado em Nova York –, as demais seis curtas canções passeiam pelo hardcore melódico, estilo muito em voga no Brasil entre os anos 90 e começo dos 2000. Na mistura de acordes distorcidos rápidos e vocais melodiosos em inglês, o Born To Freedom mantém debaixo do braço a influência de pioneiros como Pennywise e Bad Religion (sombras do Garage Fuzz, idem). E ainda tem participação de gente renomada como Rodrigo Lima (Dead Fish) cantando na faixa “Noisy place”, um dos exemplos do quinteto natalense de sua música cheia de riffs de guitarras, uso de pedal duplo e paradinhas típicas do estilo. Na faixa “Lights of men”, o produtor Cássio Zambotto (predileto das bandas mais barulhentas do Estado) adiciona guitarras extras para encorpar ainda mais a bem tramada teia de acordes distorcidos da dupla das seis cordas. A banda também participou da coletânea “Elefante Core volume 2” com a faixa “Real walls” – que tem um final lento à la Nada Surf – e tocando no eixo sul-sudeste, provando que o hardcore melódico continua em movimento. (Alexandre Alves)


“Solve et coagula” (Microfonia, 2016) Black Witch

Publicação: 27/12/16
Se é stoner, se é hard rock, se é doom metal, isto você decide. Após lançar o EP “Awake” em 2015 e chamar a atenção da bíblia do metal mundial, a revista britânica Metal Hammer (que os incluiu em um cd que homenageava o Black Sabbath que veio encartado na publicação), o quarteto do semi-deserto de Mossoró lança seu primeiro disco cheio com riffs mastodônticos e soturnos. Potencializando a voz de Lorena Rocha – também responsável pela arte da capa –  e as guitarras de timbres graves de Rafaum Costa, as faixas “Solve” e “Summerian tongues” (esta com quase sete minutos) dão o cartão de visitas da banda, com clima arrastado à la Monster Magnet e acordes oitavados quase corroendo os ouvidos, como também em “The serpent and the dove”. O hard rock emerge em “Necromancy” e riffs hipnóticos tomam conta de “Tzolkin”. Mais para Blue Cheer do que para Black Sabbath, as canções finais (“Sitra Ahra” e “Coagula”) não dão descanso ao disco, sem baladas nem por acaso. Ao vivo, soam ainda mais pesados, com a cozinha jogando graves do além. (Alexandre Alves)


“Porcelain: Memórias” (Editora Intrínseca) Moby

Publicação: 20/12/16
Moby sempre pareceu um estranho no ninho onde quer que estivesse. Quando o álbum “Play” estourou a partir de 2000, surgiu um popstar deslocado e diferente. Mas a melhor parte dessa história veio antes. É justamente ela que é contada em “Porcelain: Memórias” (Editora Intrínseca), autobiografia focada num recorte de tempo que o autor considera a mais fértil – e “estranha” - de sua vida: da adolescência até 1999. As memórias de Moby levam até o mundo instigante, singular e fervilhante que foi Nova York na década de 80. Moby conta sobre as aventuras de ser um garoto branco e meio carola que tentava um lugar na cabine do DJ, tocando house music e hip hop, num mundo hedonista e essencialmente negro, latino e gay. As histórias são incríveis. Grandes testemunhos da era de ouro da música eletrônica. Moby entrelaça 'causos', baixarias, momentos alegres, tristes e musicais, com o tom auto-depreciativo que já virou sua marca registrada – e o faz ser tão humano. (Tádzio França)

“Inércia EP”
(2016, Balaclava)
Mahmed

Após lançar seu aclamado disco “Sobre a vida em comunidade” em 2015, o Mahmed aparece com uma tríade de faixas nesse compacto em vinil verde. As guitarras flutuantes de Dimetrius Ferreira e Walter Nazário abrem com a curtíssima faixa título. São menos de dois minutos para notar a mesma vibe da banda: acordes e dedilhados mais espaçados do que delicados, além de ser notado o uso de violão e de teclas com sonoridades margeando a world music. Já “Nuvem” surge como continuação climática da anterior, terminando com acordes quase dissonantes, mas de leve, pois a distorção no Mahmed está proibida até segunda ordem. Exclusiva no lado B, a semi-jazzeada “Pra que ser maior” mais parece música de final de filme dramático em três minutos e meio de duração, com destaque para a compassada cozinha de Leandro Menezes e Ian Medeiros, e o silêncio quase falando em alguns segundos. Concentração total e calmaria em meio às ruidosas bandas que integram o atual cenário de bandas potiguares, com o Mahmed servindo de antítese. Nem tudo é barulho nesse tal de rock. (Alexandre Alves)

“Chills” (Deckdisc, 2016)
Far From Alaska

Consagrada pela imprensa tupiniquim como um dos nomes para se ficar atento, o Far From Alaska lançou o comentado “Mode human” em 2014 e de lá para cá segue abrindo caminhos no caótico cenário musical brasileiro (e cantando em inglês!). De destaque da revista Rolling Stone nacional à ganhadora de prêmios – o mais recente foi o de revelação, dado pelo International MIDEM Awards, recebido na França –, o quinteto potiguar lançou agora um compacto sete polegadas. “Chills” é inédita e saiu com exclusividade no site ianque punknews.org, servindo de aperitivo no lado A para o segundo álbum, já em fase de gravação. Com intróito incluindo batidas levemente flertando com a eletrônica, logo a voz de Emmilly Barreto começa a clamar atenção e a guitarra de Rafael Brasil a expulsar riffs granulares, realçados pela masterização de Chris Hanzsek. Nem de longe o grupo cede a algum tino mais comercial, lembrando mais bandas de post-hardcore dos anos 90. No outro lado do disco, vem “Dino vs. Dino”, presente no disco de estreia e com belo clipe gravado nas dunas potiguares (mais de meio milhão de visualizações na net!), mas bem que poderiam ter colocado nesse lado B alguma versão ao vivo extraída das ruidosas apresentações do grupo. (Alexandre Alves)


“Porcelain: Memórias” (Editora Intrínseca) Moby

Publicação: 20/12/16
Moby sempre pareceu um estranho no ninho onde quer que estivesse. Quando o álbum “Play” estourou a partir de 2000, surgiu um popstar deslocado e diferente. Mas a melhor parte dessa história veio antes. É justamente ela que é contada em “Porcelain: Memórias” (Editora Intrínseca), autobiografia focada num recorte de tempo que o autor considera a mais fértil – e “estranha” - de sua vida: da adolescência até 1999. As memórias de Moby levam até o mundo instigante, singular e fervilhante que foi Nova York na década de 80. Moby conta sobre as aventuras de ser um garoto branco e meio carola que tentava um lugar na cabine do DJ, tocando house music e hip hop, num mundo hedonista e essencialmente negro, latino e gay. As histórias são incríveis. Grandes testemunhos da era de ouro da música eletrônica. Moby entrelaça 'causos', baixarias, momentos alegres, tristes e musicais, com o tom auto-depreciativo que já virou sua marca registrada – e o faz ser tão humano. (Tádzio França)

“Inércia EP”
(2016, Balaclava)
Mahmed

Após lançar seu aclamado disco “Sobre a vida em comunidade” em 2015, o Mahmed aparece com uma tríade de faixas nesse compacto em vinil verde. As guitarras flutuantes de Dimetrius Ferreira e Walter Nazário abrem com a curtíssima faixa título. São menos de dois minutos para notar a mesma vibe da banda: acordes e dedilhados mais espaçados do que delicados, além de ser notado o uso de violão e de teclas com sonoridades margeando a world music. Já “Nuvem” surge como continuação climática da anterior, terminando com acordes quase dissonantes, mas de leve, pois a distorção no Mahmed está proibida até segunda ordem. Exclusiva no lado B, a semi-jazzeada “Pra que ser maior” mais parece música de final de filme dramático em três minutos e meio de duração, com destaque para a compassada cozinha de Leandro Menezes e Ian Medeiros, e o silêncio quase falando em alguns segundos. Concentração total e calmaria em meio às ruidosas bandas que integram o atual cenário de bandas potiguares, com o Mahmed servindo de antítese. Nem tudo é barulho nesse tal de rock. (Alexandre Alves)

“Chills” (Deckdisc, 2016)
Far From Alaska

Consagrada pela imprensa tupiniquim como um dos nomes para se ficar atento, o Far From Alaska lançou o comentado “Mode human” em 2014 e de lá para cá segue abrindo caminhos no caótico cenário musical brasileiro (e cantando em inglês!). De destaque da revista Rolling Stone nacional à ganhadora de prêmios – o mais recente foi o de revelação, dado pelo International MIDEM Awards, recebido na França –, o quinteto potiguar lançou agora um compacto sete polegadas. “Chills” é inédita e saiu com exclusividade no site ianque punknews.org, servindo de aperitivo no lado A para o segundo álbum, já em fase de gravação. Com intróito incluindo batidas levemente flertando com a eletrônica, logo a voz de Emmilly Barreto começa a clamar atenção e a guitarra de Rafael Brasil a expulsar riffs granulares, realçados pela masterização de Chris Hanzsek. Nem de longe o grupo cede a algum tino mais comercial, lembrando mais bandas de post-hardcore dos anos 90. No outro lado do disco, vem “Dino vs. Dino”, presente no disco de estreia e com belo clipe gravado nas dunas potiguares (mais de meio milhão de visualizações na net!), mas bem que poderiam ter colocado nesse lado B alguma versão ao vivo extraída das ruidosas apresentações do grupo. (Alexandre Alves)