Ondas Curtas

Publicação: 23/05/17
MOPHO – “BREJO” (2017, Crooked Tree Recs.)
O outrora trio alagoano Mopho – hoje quarteto – existe desde a década de 1990 e possui uma carreira, digamos, esporádica. Entre os primeiros trabalhos, há as geniais faixas dos EP’s “Uma leitura mineral incrível” e “Um dia de cada vez” (lançados em fita K7 e com som de bateria excelente, poucas vezes alcançado no Brasil), trabalhos que depois seriam a base do disco de estreia em 2002 pelo selo Baratos Afins. De lá para cá, mais dois álbuns nos anos 2000 e agora vindo com 08 faixas novas. Mantendo a clássica influência dos Mutantes e psicodelia sessentista em geral, realçado aqui pelas teclas de Dinho Zampier, o que se ouve na quase meia hora de som passa por baladas atemporais (“Tudo acaba no carnaval”, “Beija-me”), canções mais viajantes – caso de “Limiar”, com uso de violões simulando mandolins – e riffs rock’n’roll a torto e à direita a cargo do vocalista/guitarrista João Paulo em “Cão sem dono” e “Fandango”. De repente, surge alguma composição mais torta, como “Não sou de ninguém”, com mudanças de andamento beirando o prog-rock (!). A faixa título, que é instrumental, serve de trilha sonora de filme dramático. Assim, os monstros sagrados do rock alagoano seguem em frente com letras simples e canções oscilando entre o reconhecível e o estranho, de preferência bem longe de serem esquecidos em algum brejo.

SLOWDIVE – “SLOWDIVE” (2017, Dead Oceans Recs.)

Vinte e dois anos após “Pygmalion” (1995), os oxfordianos retornam com oito faixas na mesma atmosfera onírica de onde tinham parado. Seguindo a turma shoegazer bretã de volta à ativa (MBV, Swerverdriver, Ride, Lush), o quinteto – cuja terça parte dele se transmutou no alt-folk Mojave 3 após a primeira dissolução – ganhou mixagem de Chris Coady (Beach House, Midlake, Wavves), tornando a música ainda mais espacial do que antes. Vozes etéreas de Rachel Goswell e Neil Halstead se espalham nas climáticas “Star roving” (guitarras encharcadas de efeitos de delay/reverb reinam absolutas) e “Sugar for the pill”, faixa esta com dedilhados cristalinos de guitarra que parecem atravessar o cérebro e fazer o caminho inverso. Menos de barulho e mais de atmosfera, quem conhece a banda não se arrependeu de escutar as novas composições, centradas em baixo e bateria quase minimalistas, com o sussurro surreal flutuando entre camadas de guitarra (“No longer making time”) e um leve aceno eletrônico (“Slomo”) em meio aos climas de sonoridade melancólica que percorrem a gravação. O final com oito minutos de “Falling ashes” pede que o Slowdive mantenha seu mergulho lento em direção ao futuro. 22 anos após terem parado, poucos ultrapassam o quinteto de Oxford no quesito apertar pedais e criar canções para guardar entre sonhos.

Por Alexandre Alves


Ondas Curtas

Publicação: 16/05/17
NANDO REIS – “JARDIM POMAR” (2016, Relicário)
No 8º. disco de estúdio do ex-Titãs (fãs recentes nem sabem que banda é esta), o músico revelou em entrevistas que trouxe inspiração literária desde o título, relacionado ao poeta moderno Murilo Mendes. Assim, vamos usar da crítica literária para comparar o disco, pois o italiano Umberto Eco trata em uma de suas obras do “leitor consolado”, adaptado aqui para “ouvinte consolado”. Com uma penca de sucessos assobiáveis para as massas à procura de um refrão, Reis passou quase meia década sem material inédito, retomando parceira dos discos iniciais, com produção nas mãos de Jack Endino (produtor do 1º. álbum do Nirvana) e Barrett Martin (batera dos Screaming Trees. O resultado? Baladas para tocar em luau (“Como somos”, esta com versos como “O sol de novo há de brilhar”), composições de timbre mpbístico com pomposo arranjo de cordas (“Concórdia”) e até algumas canções proto-rock de FM, como a longa “Pra onde foi?”, repleta de solos sabor clichê, e de “Inimitável”, cujo refrão “Se vamos todos morrer/então, vamos tratar de viver” vem com uma assonância (êh-êh-êh-êh-êh) poucas vezes tão pífia na música nacional. Mais uma vez, o músico entrega de bandeja em formato LP, CD e fita K7 (!) o que o “ouvinte consolado” tanto espera. Enquanto isso, jardins brasileiros com frutos mais saborosos estão aí pelo caminho. Só procurar.

KINGS OF LEON – “WALLS” (2016, Sony/RCA)

Os americanos do Tennesse – quer saber inglês? Escute os vocais dos srs. Caleb e Matthew Followill e tente compreender o que cantam – parecem ter deixado o disco mais redondo nas melodias com a ajuda do produtor Markus Dravs (Bjork, Arcade Fire, Coldplay). Nascidos sob o rótulo do “new rock” da safra do começo dos anos 2000 – que a crítica juntava Strokes, Interpol e White Stripes no mesmo saco –, o quarteto da família Followill mantém sob seu guarda-chuva os riffs de guitarra com distorção leve e refrões entre o bombástico (“Waste a moment”), o climático – o rock de arena de “Find me” é para a plateia cantar e a banda poupar a garganta na turnê – e o previsível, caso de “Over”, com aquela letra nível ensino médio para cantar (Don’t say it’s over / don’t say it’s over anymore). De vez em quando tentam mimetizar alguma outra banda, pois “Around the world” parece o Vampire Weekend de ressaca e “Eyes on you” é a canção que os Strokes esqueceram de compor. Das dez faixas, sete são baladas desnecessárias, prontas para filmes da sessão da tarde (“Muchacho” e “Conversation piece” são bregas de doer e há quem goste). As outras sete dão um estranho gosto de saber para onde vai o rock do mainstream, pois o excesso em soar agradável pode jogar contra ou a favor. Mas não há surpresa nos Kings of Leon, com exceção da faixa “Wild”, que deveria estar num disco do Coldplay, e uma das capas mais horrendas dos anos 2000.

Por Alexandre Alves


Ondas Curtas

Publicação: 25/04/17
THE JESUS AND MARY CHAIN - “Damage and joy” (Artificial Plastic Recs., 2017)
18 anos não é pouco tempo nos atuais efêmeros quinze minutos de fama, ainda mais com os mais de 30 anos de início da banda. Após o álbum “Munky” (1998), os irmãos Reid brigaram e ficaram sem se falar por anos. Voltam agora quando a molecada descobre o que é noise anos ’80 (Sonic Youth, My Bloody Valentine, Loop) e acham que shoegazer é novidade. “Amputation” é J&MC em sua forma clássica, mas “War on peace” é uma balada meio Velvet Underground meio Byrds e ainda com drum machine (!). A terceira composição, “All things pass” tem um refrão mais Stone Roses que os próprios. A quase pop “The two of us” parece ter saído do disco “Honey’s dead” (1992) e a semi-arrastada “Mood rider” é um belo exemplo de melodia e barulho. A dançante “Get on home” pode render bons remixes para a pista e “Facing up the facts” só irá agradar a velhos fãs, sem surpresas e aquele baixo distorcido. Desleixados e competentes, só o Jesus and Mary Chain sabe onde pode chegar com um disco desses, ou como relata o título, pode tanto causar danos ou contentamento. Fiquemos com o segundo, como diz a derradeira faixa (“Can’t stop the rock”), mas sem exageros. Afinal, é quase uma balada, ainda que com os riffs que são marca registrada dos escoceses, ou seja, aquele timbre de garagem que metade do planeta quer imitar.

WALVERDES  - “REPUXO” (Loop Discos, 2016)
Após hiato de mais de meia década gerando especulações sobre o fim da banda, os barulhentos gaúchos do Walverdes voltam com um disco de 07 faixas e, surpresa, estão menos sônicos e rápidos, mesmo agora como quarteto. A abertura com “Cálculos negociações” vem com uma pegada Jon Spencer Blues Explosion, mezzo rápida, mas não muito, e repleta de acordes garageiros. A seguinte, “Desconstrução” vem com um riff distorcido à la Mudhoney e gerando na sequência uma desnecessária versão dub  (ideia do guitarrista Júlio Porto, também produtor do disco). Os mais modernosos vão dizer que a banda “procura novos caminhos”, mas quem sente saudade dos Walverdes é garantido pular essa faixa. Tudo se acalma – ou seria se agita? – com a ruidosa “É muita gente”, com um riff hipnótico e refrão lembrando o punk safra 1977. As faixas “DNA” e “Água” mantém a sonoridade da banda, esta última acrescentando um órgão sessentão. A despedida intitulada “Jazz com bacon” parece mais um experimento mal acabado em forma de vinheta do que uma real procura por outros caminhos. Aliás, o vocalista Gustavo Mini declarou em entrevista que o dub e o pseudo-jazz foram “brincadeiras sonoras”.  Só se espera que os gaúchos não façam alguma versão de Silva, Marcelo Jeneci ou da Céu. Será a morte do rock alternativo tupiniquim.

Por Alexandre Alves




Isca de Polícia volta com Cd inédito

Publicação: 11/04/17
Julio Maria (AE)

Ele só pode estar ali, escondido em algum canto debaixo do calo do dedo indicador da mão esquerda de Paulo Lepetit, brincalhão nos dribles de pernas tortas da guitarra de Luiz Chagas. É um riso e uma raiva que se sente sem ver na voz indomesticável de Vange Milliet e nas provocações de Suzana Salles. Uma predileção pelo diabo aqui, evocada por Lepetit e Carlos Rennó, outra glorificação dos próprios erros ali, proclamada por Arrigo Barnabé. Presente sem estar, Itamar Assumpção, morto em 2003, reafirma a força de uma linguagem que definiu nos anos 80 assim que o grupo que criou em 1981, o Isca de Polícia, lança seu primeiro disco autoral sem o seu criador.

A missão poderia ser inglória por algumas armadilhas na pista. Haveria legitimidade de se compor com o pensamento de Itamar sem sua presença? Criada nos anos 80, quando era erguido um cenário chamado Vanguarda Paulista, não estaria aquele idioma datado? As duas perguntas nem parecem ter sido feitas pelos músicos enquanto trabalhavam no novo repertório, mas podem ser levantadas por quem vai ouvi-los. E as respostas aparecem logo que a primeira música começa.

A linguagem do Isca não soa datada talvez por ter se recusado a escorar-se nas muletas de época. Musicalmente, Itamar desconstruía os caminhos que ele mesmo começava a pavimentar, criando um movimento ininterrupto de tensão e relaxamento, confundindo graça e contestação ou usando a primeira para atingir a segunda. Quando existia, a calmaria durava pouco, como se estivesse ali apenas para dar o gosto do quase pop, retirando o doce da boca da indústria pop.

Ao seu lado do início e até o fim, Paulo Lepetit absorvia seu pensamento, colocando o contrabaixo na condução do processo criativo, guardando sustos para os próximos compassos. Quando viessem então os anos 2000 e surgisse o que se chamaria de "a nova música brasileira", com seu núcleo criativo identificado em São Paulo, com nomes como Tulipa Ruiz, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Dani Black, a validade do Isca seria mais uma vez colocada à prova. Ele estaria em todos, de alguma forma, em corpo e alma.

Estariam os músicos do Isca pensando com suas cabeças ou com a cabeça de Itamar Assumpção? "Esse não é um trabalho saudosista", define Vange Milliet em sua forma de dizer, com respeito ao mentor, que o valor do passado não pode ser uma âncora ao presente. O disco tem vida própria e seu idioma não é mais de um, mas de todos que um dia aprenderam a falar aquela língua. "Cada um dos músicos tem seus trabalhos próprios ou com outros grupos, mas é impressionante. Quando nos juntamos, fazemos esse som naturalmente, essa linguagem é nossa", diz Vange, sob os olhares do baterista Marco da Costa e o guitarrista Jean Trad.

Novidades

O disco que sai agora cruza colaboradores com histórias passadas diretamente ou não pelo trajeto da Vanguarda Paulistana. Péricles Cavalcanti é autor de Arisca; Arnaldo Antunes assina Dentro Fora com Lepetit; Meus Erros é de Lepetit com Arrigo Barnabé (com quem Itamar começaria tocando contrabaixo). Lepetit, Milliet e Ortinho fazem uma homenagem mais assumida em As Chuteiras do Itamar. "Não se afobe, o adversário é forte / Pra gente virar o jogo não vai ser mole não / Baixa o Garrincha aqui nesse Nego Dito / Driblo a torcida com meu sorriso / Meu patrocínio é o que eu digo, preste atenção".

Há uma espécie de exercício de alongamento no repertório do Isca Zeca Baleiro não estava ainda na cena, mas poderia ter passado por ali, apesar do estilo de poesia mais direto, como mostra sua parceria com Lepetit batizada de É o que Temos, é o Melhor. "Você nunca sabe o que quer / Se quer viagem, casamento, bicicleta / É sempre tão difícil escolher..." Há ainda Atração pelo Diabo, de Lepetit e Carlos Rennó; Eu É uma Coisa, com Alice Ruiz; Xis, de novo com Arnaldo Antunes; e Itamargou, de Tom Zé.


Ondas Curtas

Publicação: 11/04/17
THE JAYHAWKS  – ‘PAGING MR. PROUST’ (Thirsty Tiger Recs.)
Desconhecidos no Brasil e no mundo, os Jayhawks são um dos mais bem guardados segredos da música estadunidense. Na ativa desde meados dos anos de 1980, o som que fazem só veio a ser batizado depois pelos ianques: alternative country (ou simplesmente alt-country). Vozes dobradas, certo apelo acústico no uso de violões, piano melancólico e guitarras com distorções leves, tudo isto cria o suprassumo do estilo, aliás, pouco difundido aqui nos trópicos. Indo do under hit de “Quiet corners & empty spaces” – abertura com imenso potencial radiofônico, baladona de arpejos jingle-jangle à la Byrds e refrão de derrubar bandas emo ao chão –  ao rock com riffs stoneanos (“Leaving the monsters behind”), o prato principal passeia por singelas baladas (“Lovers of the sun”, “Isabel’s daughter” e “The devil in her eyes”, essa com uma gaita arretada e outro refrão marcante). Já “Comeback kids” é uma faixa que os Strokes dariam um braço para compor hoje em dia. Fecham com a acústica “I’ll be your key”, como convém a uma banda ainda preocupada em fazer canções com estrofe-refrão e pouco preocupada com os críticos que decretam toda semana a morte do rock. (Por Alexandre Alves).

DIABLO ANGEL – “FUZZLED MIND” (2016, Independente)
Baseados no som do pedal de distorção chamado fuzz (muito usado por bandas de stoner rock, por exemplo), o power trio sem baixo vem de Recife para (re)lembrar a todos que nem tudo é mangue beat na terra da Nação Zumbi e isso já faz tempo. Na esteira da tradição guitar band pernambucana (Supersoniques, Vamoz!, Mellotrons, River Raid, Badmington) e com a charmosa voz da guitarrista Kira Aderne, a banda passeia por riffs conhecidos, distribuindo pegadas de talhe clássico, incluindo os firmes tambores de Bruno Kiss. Dos anos 70 aos 90, ouvem-se ecos de Black Sabbath, Runaways, Screaming Trees ou Belly. Melodias on-the-road tomam conta de “Sick of you” ou “Grow older girl” enquanto a ramonesca “I want you to know” flerta com um refrão mais pop em meio à sujeira do inseparável fuzz. Com bases de guitarra sem descansar um segundo sequer a distorção, os timbres acabam soando similares em algumas faixas, caso da dupla “Metal box” e “Old rag”. Sem contrabaixo, o guitarrista Tárcio Luna tem que se desdobrar um pouco mais para ressaltar personalidade nos timbres das suas seis cordas em meio ao movediço cenário indie tupiniquim, com o grupo chamando atenção em grandes festivais, como o Coquetel Molotov e Abril Pro Rock. Aliás, ao vivo o Diablo Angel não tem nada de angelical, com fuzz de sobra. (Por Alexandre Alves).

EVALDO BRAGA – O ÍDOLO NEGRO Volume 2 e 3
O cantor Evaldo Braga ficou pouquíssimo tempo entre nós: apenas 27 anos. Mas foi o suficiente para se tornar um dos artistas mais populares do Brasil. Tanto que, desde que morreu, em 1973, seu túmulo é um dos mais visitados no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. A devoção se mantém firme graças a músicas como “Sorria, Sorria” e “Esconda o Pranto Num Sorriso”, grandes sucessos presentes no disco “O Ídolo Negro Volume 2”, lançado um ano antes de sua partida e relançado agora pela Universal. A gravadora também trouxe o “O Ídolo Negro Volume 3” gravado em meados de 1973, após a morte do artista.  Com canções como “Eu Me Arrependo”, “A Triste Queda” e “Eu Não Sou Lixo”, Evaldo deixava seu vozeirão como grande herança para os fãs.

WILSON SIMONAL – REWIND
Em 2004, alguns dos principais hits de Wilson Simonal foram repaginados por DJs da cena nacional. Com o álbum “Rewind”, agora relançado em formato digital, o suingue do cantor ganhou novos timbres para as pistas de dança. Entre os destaques, os remixes de “Meu Limão, Meu Limoeiro” (por Mad Zoo) e “Tributo a Martin Luther King” (DJ Hum) são ótimos exemplos de seu talento para comandar a massa. Outros clássicos do saudoso cantor, como “Vesti Azul” e “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, também ganharam versões eletrizantes. O lançamento é da Universal.