Suma poética de um renascentista apócrifo

Publicação: 30/09/12
Nelson Patriota - Escritor

Mais exigente dos nossos poetas, Paulo de Tarso Correia de Melo é também o mais operoso, na medida em que entende a poesia como uma conquista diária. Lendo-o, entendemos que ninguém é poeta, faz-se poeta através da cota de poesia que conquista para si, cônscio, porém, que essa cota precisa ser renovada. Sempre.

Em seu novo livro, “Misto Códice” (Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2012), esse viés naturalista da poesia de Paulo de Tarso se torna mais evidente pela incorporação de novos temas à já vasta poesia do autor: a ela se somam, agora, a tradição oral dos indígenas brasileiros, mas também elementos das culturas pré-colombianas, como os incas, os astecas e outros e, last, but not least a incerteza sobre a permanência do poema, tema presente no poema “Misto Códice”.

Depurada nesse novo livro, a feitura desses poemas exigiu do autor pesquisas, traduções e adaptações as mais diversas. Mas sua importância já se faz evidente, haja vista que indica uma rota segura para a poesia de nossa época: o poeta precisa se colocar à altura de suas expectativas, encarando como trabalho aquilo que durante muitos séculos foi aceito equivocadamente como fruto do acaso ou da inspiração. Sob esse aspecto, Paulo de Tarso pode ser mais visto como um “apócrifo renascentista”, como ele próprio se retrata no poema “Chaves”, que abre “Misto Códice”.

Afora todo o aporte de novos e velhos motivos poéticos que anima esse livro, “Misto Códice” sai em edição bilíngue português-espanhol, sendo o professor Alfredo Pérez Alencart o responsável pela versão espanhola, bem como pelo “Prólogo” que precede os poemas.

Outro fator que distingue “Misto Códice” é seu aspecto programático: sua escritura cumpriu um objetivo pré-determinado (embora não extraliterário): integrar o “Encontro de Poetas Ibero-americanos de Salamanca”, evento promovido pela Universidade de Salamanca, que acontecerá nos três e quatro de outubro próximo, e ao qual Paulo de Tarso participará como expositor, quando lançará seu novo livro.

Temas épicos, como o ocaso do imperador asteca Montezuma e do líder indígena peruano Atahualpa, entre outros episódios da conquista das Américas, se disseminam ao longo de poemas que, para serem perfeitamente apreciados, requerem do leitor não só sensibilidade poética, mas também informação histórica. Há, porém, aqueles poemas que lidam com temas imemoriais quando, no embate com as palavras que já não podem calar, o poeta parece bradar como um profeta em transe: “Aonde iremos / que morte não haja? / Meu coração partirá / como as flores perecem? // Não mais que uma flor / é o homem sobre a terra, / breve instante goza / a primavera” (Pergunta). Mas logo o próprio poeta reassume o comando do diálogo, e pronta vem a resposta: “[...] Viemos somente sonhar. / Viemos somente dormir. Que viemos viver na / terra não é verdade. // Esta terra nos é dada / por empréstimo, amigo. / Nela a nossa passagem / pouco ou nada tem valido. // Abandonar os poemas / e as flores será preciso. / Eu estou cantando ao sol / e estou triste por isso” (Resposta). Algo, porém, se sobrepõe ao niilismo pungente: “Para a casa da aurora / e a casa do azul da tarde [...] para a casa aonde se chega / pela trilha do arco-íris, // na beleza eu caminho, / com a beleza adiante / e atrás com a beleza / acima e em torno de mim. / caminho para a beleza / e em beleza termino” (Canto Noturno).

Homem renascentista, enfim, esse anacronismo permite a Paulo de Tarso se assenhorear de todo o saber suscetível de ser transmudado, pela alquimia da poesia, na liga fina do poema, agora livre de toda impureza.

Patrícia Pillar – o olhar

Publicação: 24/08/08

Foi Bette Davis quem primeiro disse: “Eu interpreto com os olhos”. De fato, a atriz passava para a câmera através do olhar o estado de espírito da personagem. Interpretar com os olhos, não significa, obviamente, arregalar os olhos, como faz Regiane Alves (Joana) em Beleza Pura. Esse recurso, quando mal utilizado, torna-se artificioso, particularmente quando não se tem talento ou a sensibilidade para expressar sentimentos através do olhar.

O olhar neutro

Ingrid Bergman confessou na autobiografia que o papel de Casablanca lhe foi especialmente difícil. Como o roteiro ia sendo escrito durante as filmagens e por desconhecer o final da história, ela não sabia se terminaria com o amante (Humphrey Bogart) ou o marido (Paul Henreid). O seu maior problema era o olhar. E, por causa da dúvida, adotou o olhar neutro no terço final do filme, quando o marido reaparece, formando o triangulo amoroso.

A coerência do olhar

Patrícia Pillar não teve o problema da dúvida que deixou a disciplinada e metódica Ingrid Bergman angustiada. Pois, conforme revelou, após a primeira semana de exibição de A Favorita, o autor, João Emanuel Carneiro, comunicou-lhe (e a Claudia Raia) que havia se decidido pela culpabilidade de Flora. A revelação, mantida em segredo para os demais membros do elenco, não alterou o modo de interpretar de Flora na primeira fase da novela. O seu olhar, assim como a postura física e o tom de voz, ajustava-se com perfeição ao papel de uma heroína vitimada por uma conspiração e um erro jurídico. A interpretação de Patrícia Pillar foi tão convincente que para o telespectador não havia duvida de que Flora era inocente.

A mudança do olhar

Entretanto, para quem tem olho aguçado pela experiência cinematográfica, foi possível perceber, nos capítulos que antecederam à revelação, uma sutil mudança no olhar de Flora. Mudança extensiva a um igualmente sutil, mas mutante, jogo fisionômico. Nessa altura, já sabíamos que Donatela não era culpada, e, se não houvesse um inesperado e oculto terceiro personagem, Flora era a assassina. Mas, contrariando a fórmula de alguns romances de mistério, fórmula que Agatha Christie adotava com perfeição, João Emanuel Carneiro mostrou o reverso da medalha.

A vítima era a vilã

Essa opção exigiu muito de Patrícia Pillar. Equivale à outra volta do parafuso, onde de repente, aquilo que se estava vendo pelo buraco da fechadura do quarto fechado, não corresponde à realidade. Para o telespectador representava uma inesperada e dura reversão de expectativa – equivalente à traição de alguém em que você acreditava. Não é fácil, principalmente quando se é física e emocionalmente delicada e afetuosa como Flora, o telespectador passar a vê-la como uma criminosa calculista, fria e implacável. Com a mesma competência com que vestiu a pele de cordeiro, Patrícia Pillar começou a mostrar o lado negro da personalidade de Flora. Mas, essa metamorfose exigiu uma dificuldade adicional: a necessidade de continuar alternando os papéis da rã e do escorpião, pois, para Irene, Gonçalo e Lara ela continua sendo a vitima. Pela dificuldade do papel e complexidade psicológica de Flora, pode-se dizer sem exagero que Patrícia Pillar alcançou em A Favorita o nível de interpretação das grandes atrizes do cinema brasileiro e estrangeiro.

A outra volta do parafuso

Publicação: 17/08/08

Com o fim do mistério de A Favorita, a novela de João Emanuel Carneiro teve um novo começo. Em alguns filmes (Um Corpo que Cai), assistimos o recomeço da historia. O grande problema é manter o mesmo grau de interesse do público. No capítulo em que (para surpresa de muitos) o telespectador ficou sabendo que Flora era a assassina, A Favorita atingiu o pique máximo de sua audiência: 46 pontos. No dia seguinte, caiu cinco pontos.

A diminuição do interesse pela história era previsível e Emanuel certamente sabia que isso aconteceria. Resta saber o que ele fará para substituir o suspense da dúvida.

A inversão dos papéis

É previsível que Donatela Fontini (Claudia Raia), após amargar no purgatório da prisão e sofrer o suplício da injustiça, terminará recuperando a liberdade e voltando a ocupar o que fora seu e agora é ocupado por Flora (Patrícia Pillar). Por sua vez, Flora, mais cedo ou tarde, cairá em desgraça e será castigada. Apesar das habituais imprevisibilidades das novelas, é praticamente impossível que haja surpresas em relação ao destino de Donatela e Flora.

A prisão da ação

As situações de sofrimento físico e psicológico de Donatela serão repetitivas e não poderão ser prolongadas por muito tempo. Por outro lado, existe o confinamento da ação, que, se num filme é problema, numa novela torna-se particularmente monótono pela multiplicação das mesmas imagens e situações. Embora Claudia Raia esteja bem nessa fase de interiorização psicológica e desconstrução da imagem física, sozinha, não terá como “segurar” dia após dia a ação num cenário desagradável e anti-fotogênico.

A face oculta

Nesse novo começo da trama a novela deverá valorizar a presença e a conduta de Flora. É uma vitoriosa que vive sob permanente risco de cometer um erro ou de ser desmascarada. Além de autoconfiança que costuma levar à perdição, Flora tem o seu destino ligado a dois personagens problemáticos - sem contar, é claro, o arrogante Zé Bob (Carmo Della Vecchia) que, por estar apaixonado e acreditar na inocência de Donatela Fontini, pretende desmascará-la.

O que Dodi pretende?

Dodi (Murilo Benício) é um vigarista 100% inconfiável. Por dinheiro, será capaz de tudo, é aquele mau caráter que, se tiver chance, rouba pai, mãe, irmão. Não é particularmente inteligente, como Flora, mas, como disse Silveirinha (Ary Fontoura), é esperto e sabe explorar a fraqueza feminina. Não é o vilão antipático ou fisicamente mal encarado. Ao contrário. É simpático, maneiroso, bem humorado, e, por ser assim, é duplamente perigoso. Mostrou o talento da dissimulação durante o tempo em que se se reaproximou de Donatela, para poder traí-la. É, porém, exibicionista e subestima o perigo. A sua conduta coloca em risco o plano da fria e cerebral parceira. Não se sabe, já que o seu objetivo é o dinheiro, porque não optou por Donatela, que tem 20 milhões de dólares no exterior. Por amor a Flora? - nem ela acreditaria nisso.

A gata e o rato

Aparentemente, Flora e Dodi estão fazendo um jogo, que é um replay da fórmula policial do gato e o rato. Flora sabe quem Dodi é e o que ele será capaz de fazer. Possivelmente, está imaginando como se livrar dele. Dodi, por sua vez, não ficará à mercê de Flora, particularmente no tocante ao dinheiro. A dúvida é: o que ele fará? E o que ela fará para se livrar dele? Entre ambos, temos um terceiro personagem, espertíssimo, camaleônico, Silveirinha - também não se sabe o que ele fará.

O que o coadjuvante faz pelo papel

Publicação: 21/07/08

O cinema americano (do passado) tanto acertava na escolha dos protagonistas como na dos artistas secundários. Um coadjuvante, a despeito das limitações do papel, pode se destacar e alcançar à projeção dos atores principais. Isso também acontecia – e ainda acontece – no cinema brasileiro. Nas antigas chanchadas, por exemplo, a primeira imagem que vem a mente é a de José Lewgoy. O mesmo ocorre nas novelas. E está ocorrendo com Ary Fontoura como o Silveirinha de A Favorita. O que se vê não é um corpo, não é a beleza, não é a juventude. É a imagem do talento. É a vitória do talento. Pelo seu currículo, sabia-se que Ary Fontoura é capaz de fazer, mas, ainda assim, em A Favorita ele está se excedendo. É verdade que o personagem é bom. Silveirinha cresceu na história e adquiriu uma complexidade psicológica e uma ambigüidade inesperadas. Mas, para que esse crescimento se completasse e se corporificasse, era indispensável um ator com o talento de Ary Fontoura.

Outro exemplo

Ainda em A Favorita temos outro coadjuvante que está brilhando. É Mauro Mendonça, que também pode ser visto na reprise de Cabocla, onde, no papel de um coronel caipira e ladino, tem desempenho antológico. Em A Favorita, ao contrário de Cabocla, o papel dá menos margem do que o daquele coronel. O Gonçalo de A Favorita não conta ao seu favor com o escudo humorístico e está naquela faixa em que não desperta amor ou ódio. Ele está convencido de que Flora é culpada e que Donatella é inocente. Também crê, honestamente, que a esposa, Irene, é manipulada por Flora e que a cumplicidade dela com a suposta assassina do seu filho gerou a desagregação familiar. O desafio de Mauro Mendonça era fazer com que esse personagem que não é vilão nem herói, se tornasse uma presença marcante, e, principalmente, convincente. Gonçalo não possui a ambigüidade e a dissimulação de Silveirinha. É estático, e, psicologicamente, monolítico. Como homem de negócios e milionário, é pragmático, e, como um pequeno rei, usa o poder do dinheiro para proteger os súditos de seu reinado familiar.

É esse modo de agir e as características psicológicas que Mauro Mendonça passa quando entra em cena. E mais: não usa truque de interpretação para chamar a atenção do telespectador.

O vilão da moda

O que torna Romildo Rosa diferente de outros vilões não é, naturalmente, o fato de ser político e corrupto. É, apenas, o fato de ser negro. Ou seja: ele é um hiato no preconceito às avessas da ficção televisiva, onde só existem vilões brancos. É obvio que não é a cor da pele que determina o caráter das pessoas. Um dos méritos de A Favorita é a ousadia de haver se rebelado contra esse artificioso patrulhamento racial. 

O que o coadjuvante faz pelo papel

Publicação: 20/07/08

O cinema americano (do passado) tanto acertava na escolha dos protagonistas como na dos artistas secundários. Um coadjuvante, a despeito das limitações do papel, pode se destacar e alcançar à projeção dos atores principais. Isso também acontecia – e ainda acontece – no cinema brasileiro. Nas antigas chanchadas, por exemplo, a primeira imagem que vem a mente é a de José Lewgoy. O mesmo ocorre nas novelas. E está ocorrendo com Ary Fontoura como o Silveirinha de A Favorita. O que se vê não é um corpo, não é a beleza, não é a juventude. É a imagem do talento. É a vitória do talento. Pelo seu currículo, sabia-se que Ary Fontoura é capaz de fazer, mas, ainda assim, em A Favorita ele está se excedendo. É verdade que o personagem é bom. Silveirinha cresceu na história e adquiriu uma complexidade psicológica e uma ambigüidade inesperadas. Mas, para que esse crescimento se completasse e se corporificasse, era indispensável um ator com o talento de Ary Fontoura.

Outro exemplo

Ainda em A Favorita temos outro coadjuvante que está brilhando. É Mauro Mendonça, que também pode ser visto na reprise de Cabocla, onde, no papel de um coronel caipira e ladino, tem desempenho antológico. Em A Favorita, ao contrário de Cabocla, o papel dá menos margem do que o daquele coronel. O Gonçalo de A Favorita não conta ao seu favor com o escudo humorístico e está naquela faixa em que não desperta amor ou ódio. Ele está convencido de que Flora é culpada e que Donatella é inocente. Também crê, honestamente, que a esposa, Irene, é manipulada por Flora e que a cumplicidade dela com a suposta assassina do seu filho gerou a desagregação familiar. O desafio de Mauro Mendonça era fazer com que esse personagem que não é vilão nem herói, se tornasse uma presença marcante, e, principalmente, convincente. Gonçalo não possui a ambigüidade e a dissimulação de Silveirinha. É estático, e, psicologicamente, monolítico. Como homem de negócios e milionário, é pragmático, e, como um pequeno rei, usa o poder do dinheiro para proteger os súditos de seu reinado familiar.

É esse modo de agir e as características psicológicas que Mauro Mendonça passa quando entra em cena. E mais: não usa truque de interpretação para chamar a atenção do telespectador.

O vilão da moda

O que torna Romildo Rosa diferente de outros vilões não é, naturalmente, o fato de ser político e corrupto. É, apenas, o fato de ser negro. Ou seja: ele é um hiato no preconceito às avessas da ficção televisiva, onde só existem vilões brancos. É obvio que não é a cor da pele que determina o caráter das pessoas. Um dos méritos de A Favorita é a ousadia de haver se rebelado contra esse artificioso patrulhamento racial.