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Natal, 05 de Fevereiro de 2012

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por Tribuna do Norte

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Comportamentos (2)

05 de Fevereiro de 2012
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José Arno Galvão    [ Advogado   ]

Uma das lembranças mais mar-cantes da infância e da juventude pelos lugares de Tibáu do Sul, prin-cipalmente em Pernambuquinho, onde ficavam as casas de meu avô e de Seu Matias, onde era hospedado, são as farinhadas, isto é, o verdadeiro mutirão que era armado nas casas de farinha para moer a mandioca e transformá-la em farinha, depois de extraída a goma, da qual são feitas a tapioca, o grude e os diversos tipos de beijus. Dessa lista, só fica de fora o beiju de mandioca mole, que resulta de um tratamento diferente a que é submetida a mandioca, mergulhada em água até soltarem-se suas fibras.

Nessas ocasiões, participava nem que fosse comendo farinha quente apanhada diretamente do forno, de preferência aquela que ficava pelas beiradas, bem torrada. Era uma festa presenciar aquelas reuniões de famílias inteiras, compreendendo a do dono do roçado de onde provinha a mandioca e as de seus companheiros. Era um processo demorado: primeiro, descascavam manualmente a mandioca, que era levada para a raspadeira, um cilindro de madeira no qual se firmavam lâminas serrilhadas a intervalos regulares e era acoplado a um eixo através do qual recebia o movimento provindo de uma grande roda a que era ligado por uma correia. Daí, a pasta era lavada para dela retirar a goma e, em seguida, prensada, ex-traindo-se a manipueira, que agora é considerada excelente adubo mas antes era desprezada, por conter ácido cianídrico rapidamente evaporado, tanto que os cachorros dela bebiam. Por último, a farinha era levada ao forno, onde era assada, usando-se uma larga pá de madeira para movimentá-la, o rodo, evitando que queimasse. A tarefa de descascar, de colocar as mandiocas na raspadeira e de lavar a massa era das mulheres, que também preparavam os beijus, de forno e de coco, enquanto os homens se encarregavam da movimentação da roda, da prensagem e dos cuidados com o forno, inclusive a movimentação da massa colocada sobre ele. Desse trabalho, participava toda a família, menos os muito pe-quenos que, assim mesmo, lá ficavam por não ter como ser mantidos em casa sozinhos.

Essa prática, que os psicólogos consideram importante por estimular a cooperação entre os membros da família, o trabalho em grupo, agora está sendo objeto de repressão, de forma indiscriminada, por parte do Ministério Público do Trabalho e pela Delegacia do Trabalho, por considerar que é exploração de trabalho de menor.

Outra atividade, essa de natureza lúdica, era o furto de galinha no sábado de aleluia, costume consagrado que era motivo de muita brincadeira e troça, como nos tantos casos verdadeiros em que o dono da penosa era convidado a degustar o acepipe, de cuja procedência só no final ele iria tomar conhecimento. Que houve excessos, não se nega. Mas houve, também excesso na repressão e, até, na prevenção, como aquele dono de galinheiro que foi condenado por ho-micídio por ter ligado à corrente elétrica o portão de entrada.

O mesmo ocorre com os trotes, a recepção dos calouros pelos veteranos nas escolas superiores, que no meu tempo ainda era uma grande brinca-deira em que os estudantes aproveitavam para tecer críticas aos governantes (no ano em que entrei na Faculdade de Direito, saiu um cartaz dizendo: "o RGN é uma piada, sai um reprodutor e entra um bode", alusão a Dinarte Mariz, autor de uma vasta prole e Aluizio Alves, com fama de namorador). Terminada a brincadeira, quando era levado do Grande Ponto para casa, verifiquei estar estacionado da av. Deodoro um pelotão de soldados do Exército, armados e prontos para reprimir a manifestação. Agora há pouco, num blogue francês, vi a notí-cia do que chama de "guerre des sapins", guerra dos pinheiros, consistente na disputa entre alunos de escolas do Monte Saint Geneviève, em Paris, para ver qual escola consegue "roubar" a maior quantidade de pinheiros colocados em praças pela administração de parques e jardins, que reagiu advertindo as escolas e levando alguns alunos a serem presos em flagrante.

La como cá, há protestos contra a judiciarização de uma tradição, no mesmo rumo dos trotes e do roubo de galinha no sábado de aleluia. Algo que vai na mesma direção da proibição da participação de menores nos trabalhos da farinhada, atividade que faz parte dos costumes de nosso homem interiorano e constitui uma forma de participação de toda a família no trabalho em proveito do grupo.

E fica o questionamento: será que é essa a forma adequada de tratar tais questões. Não seria o caso de restaurar os antigos Juízes de Paz, cidadãos moradores do local, incumbidos de resolver conflitos pequenos de vizinhança, evitando o agravamento de tais disputas e, pela sua proximidade com os litigantes, conhecedor dos costumes, mais apto a desatar os nós. E evitando questões tais como a de um Procurador da República que encasquetou na cabeça mandar parar o toque do carrilhão da igreja próxima à casa onde passou a morar, por perturbar seus dias de repouso. Perdeu a causa.

Não demora vai aparecer por aí um Delegado ou Promotor resolvido a prender e denunciar pessoas fantasiadas de Papai Noel, acusando-as de assumir falsa identidade.

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