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A África sob um olhar privilegiado
Atualizado: 23:02:50 22/11/2016
“O homem vestido em uma farda militar surrada, metralhadora atravessada no peito, estava a dois passos de mim. Ele me olhou feio. Direto. Um olhar daqueles que apavoram.” Assim começa o livro Com os pés na África, de Sérgio Túlio Caldas, novo lançamento da Editora Moderna. A obra revela o continente africano a partir de um ponto de vista privilegiado. O autor mergulha em suas próprias experiências e aventuras pela região para dar voz ao personagem Tulio. Ao explorar lugares desconhecidos, conhecer pessoas com valores diferentes dos seus e encarar riscos de viagens, Tulio se torna uma importante testemunha dos tempos atuais da África.

Com os pés na África tem linguagem moderna, mesclando textos literários, observação jornalística e quadrinhos. E traz uma importante inovação que extrapola o objeto do livro. O leitor, por meio de links e do aplicativo QR Code, tem acesso a vídeos e áudios que enriquecem ainda mais a leitura.

Na história, o garoto Tulio – após vencer um programa de quiz na TV, cujo prêmio é uma volta ao mundo – joga a mochila nas costas e parte para seu primeiro destino: Angola. Ali, descobre a história do país africano que guarda surpreendentes proximidades com o Brasil. Ele faz amigos, encara perrengues, e vai até a casa do renomado escritor Pepetela, em Luanda, para conversar sobre a África. Pepetela conta da sua infância e revela passagens curiosas da guerra civil angolana, da qual ele participou até a independência de Angola, em 1975. O protagonista também se aventura pela exótica Marrakesh, no Marrocos, e pelo Saara, o maior deserto do planeta – onde numa viagem de camelo com nômades conhece os costumes locais e a fé religiosa.

Com narrativa ágil e bem-humorada, o livro é rico em fotos – a maioria tirada pelo autor – e explicações do vocabulário da região. Chama a atenção que as histórias vividas pelo personagem não são frutos da ficção, mas da realidade.

“Pessoas que tive a oportunidade – e a sorte – de encontrar na África voltaram, de alguma forma, a ganhar nova vida neste livro. Com elas compreendi um pouquinho mais da alma africana. Situações, personagens e lugares citados são reais. E o jovem protagonista da história é um tanto de mim”, diz Sérgio Túlio.

Sérgio Túlio Caldas é jornalista, escritor, diretor de TV e roteirista. Viajante contumaz, ora por meio do trabalho, ora por pura curtição, tem pegado estradas das Américas à Ásia para escrever, fazer reportagens e filmar. Trabalhou para importantes veículos de comunicação do País, como o jornal O Estado de S.Paulo, revista Os Caminhos da Terra e TV Record. Tem roteirizado e dirigido documentários e séries para o canal National Geographic, e para tvs públicas brasileiras. Na África, por onde viajou e morou durante um ano, dirigiu um programa de jornalismo e entretenimento exibido na TV Pública de Angola, TPA). Autor de vários livros, como Nas Fronteiras do Islã (Editora Record), Sérgio Túlio Caldas publicou pela Moderna Terra sob Pressão – A vida na era do aquecimento global, finalista do Prêmio Jabuti.

O QUE
Túlio Caldas explora lugares desconhecidos, conhece pessoas com valores diferentes dos seus e encara riscos de viagens, tornando-se uma importante testemunha dos tempos atuais da África.

Os prêmios e o feijão com arroz literário
Atualizado: 21:53:09 08/11/2016
Carlos de Souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br  ]


Encontrei este artigo de Henrique Rodrigues Neto, na página do Publishnews, do dia 31 de outubro de 2016. Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É especialista em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. Participou de várias antologias literárias e é autor de 11 livros, entre os quais o romance O Próximo da Fila (Record).< www.henriquerodrigues.net >.

“Na última cerimônia de entrega do Prêmio São Paulo de Literatura, o escritor Marcelo Maluf, ao ser anunciado vencedor na categoria estreantes acima de 40 anos pelo livro A imensidão íntima dos carneiros, me surpreendeu. Dedicou sua vitória “aos professores, bibliotecários, mediadores de leitura e a todos que trabalham pela construção do pensamento crítico, pela compreensão da diversidade, da liberdade e da sensibilidade, aos seres humanos que tem fome e sede de fabulação e do saber”.

A surpresa veio pelo fato de que o belo romance tem pitadas da – muitas vezes erroneamente criticada – autoficção: o autor mergulhou nos seus antepassados árabes para construir uma bela narrativa lírica. Há quem critique esse recurso de escrita, muitas vezes associando a figura do escritor que usa algum elemento da própria vida como elemento de fabulação a um ególatra inveterado. Não que eles inexistam, pelo contrário. São muitos os casos, na cena cultural e midiática brasileira, de personas literárias cuja imagem fica muito aquém do que escrevem. Mas isso é um debate para outro momento. Ou talvez nem mereça.

O que Maluf trouxe de diferente foi, em plena celebração por um feito à primeira vista individual, ter oferecido a premiação ao coletivo, ao universo fora do umbigo, às figuras invisíveis que contribuem, com todas as dificuldades, para que se forme o leitor literário num país com índices tão vergonhosos.

Quando o vi recebendo a premiação, falando para uma plateia em que o governador Geraldo Alckmin figurava na primeira fila, e que logo em seguida iria anunciar o prêmio principal a Beatriz Bracher, não pude deixar de enxergar como um ato de ousadia e transgressão. Sob os flashes de um dos principais prêmios literários na maior capital do país, o jovem (ou seminovo, como digo sobre nós que beiramos os 40) autor não nos deixou esquecer do que é realmente importante: a leitura e os leitores.

Por um tempo, voltei para pouco mais de um mês, na Bienal do Livro de São Paulo. Participava de um debate sobre a importância dos prêmios literários e a sua participação na formação de leitores. Havia representantes do Jabuti, Oceanos, do próprio Prêmio São Paulo e eu sobre o Prêmio Sesc. Do lado de fora da sala onde falávamos, uma multidão gritava para ouvir e tirar selfies com um youtuber. Por vezes, nosso debate teve de ser interrompido até que o barulho diminuísse. Mas na hora lancei para os colegas de mesa umas perguntas que até agora me instiga: por que há uma distância tão grande entre os dois mundos? Como fazer para que esses jovens interessados pelo objeto livro, que vêm lotando esses eventos de grande porte, possam conhecer os autores que descobrimos e celebramos nos prêmios literários?

Algumas respostas simples poderiam surgir. Inclusive uma primeira mais simples: está bem assim porque se tratam de dois extremos incompatíveis, com a “alta literatura” premiada sendo complexa demais para ser lida pela choldra, que segue as leis do mercado em busca os livros da moda, e no caso a bola da vez são os youtubers. Esse pensamento, além de preconceituoso, seria frívolo demais para quem já lidou tanto com livros de premiados quanto com os jovens que estão lendo mais hoje. Ser um leitor fã de determinado tipo de livro não significa que o indivíduo seja fechado para novas ideias e formatos. Pelo contrário, tenho participado de muitos eventos literários com jovens e o que percebo é um desejo grande por novas leituras. Em muitas ocasiões, basta um papo com grupos de leitores para que nossas certezas sejam revistas e atualizadas.

Outra resposta seria pela aproximação dos autores premiados com o público em bate-papos. Bem, essa etapa é cumprida de certo modo pela maioria dos prêmios. O São Paulo, Oceanos e Sesc promovem encontros dos seus finalistas ou premiados, sendo que o último os leva para diversas atividades literárias em diversos lugares do país. Mas ainda assim isso não significa que os encontros se revertam em leitura efetiva. Em muitos casos o público quer apenas saber sobre a rotina do escritor e seus “processos criativos”, ou apenas tirar fotos. Mas quase não compra os livros.

E também não se deve esperar que os escritores sejam performers do palco. Vale lembrar o caso do escritor Rafael Gallo, que também venceu o Prêmio São Paulo na categoria estreante com menos de 40 anos com o romance Rebentar. Depois de conversar com leitores numa Bienal, recebeu um bilhete no qual era sugerido que fizesse mais stand up, provavelmente porque sua fala não era circense como se esperava.

Daí a importância também dos modelos de divulgação, esse assunto que também é um nó. As editoras investem pouquíssimo para divulgar as obras nacionais que não tenham grande potencial de venda. Há muito vigora uma linha de pensamento segundo a qual o lucro advindo dos best-sellers é que torna viável a publicação dos livros que vendem menos. Essa regra coloca os autores brasileiros num status de resignação cotista, como se fosse um grande favor ter o seu livro publicado. Quando o título é premiado, pode no máximo voltar às livrarias com uma tarja de vencedor, mas por pouco tempo, já que a fila das gôndolas anda rápido e os best-sellers estão esperando.

Por outro lado, não podemos nos esquecer das campanhas de formação de leitores. Ainda que existam muitos projetos de pequeno e alguns de médio porte de norte a sul, não há hoje no país uma grande política de leitura em execução. Educação e leitura são palavras muito bonitas em campanhas políticas, mas remodelar o formato do ensino de literatura e instituir o livro como um bem cultural desejável no âmbito familiar é tarefa para muitos anos. E o resultado, depois de grande investimento e trabalho, começaria a ser percebido em mais tempo do que dura um mandato de governo. Seria fundamental a implantação de política de Estado, que se sustentasse em todos os governos, ou apesar deles.

Com esse quadro, vivemos um boom literário no Brasil, de qualidade e quantidade, cuja explosão tem alcance ainda muito restrito. Num mundo perfeito, os livros vencedores de prêmios literários, pela divulgação que recebem, entrariam rapidamente para as listas de mais vendidos. Pessoas os leriam nos transportes públicos e exemplares permaneceriam nas vitrines das livrarias durante longo período. E não é o “mercado” que vai mudar essa situação.

Por isso vale repetir a dedicatória de Marcelo Maluf. Paralelamente aos grandes prêmios e eventos literários, precisamos olhar seriamente para o trabalho cotidiano da formação de leitores, o feijão com arroz que possa dar sustância na formação de consumidores de cultura livresca. São ações regulares, sistemáticas e pouco visíveis que, aplicadas em escala, podem fazer a necessária ponte entre os grandes livros e os potenciais leitores deles”.

O livro de Tostão e outras novidades
Atualizado: 22:24:08 01/11/2016
Em tempo de moral baixa como este em que estamos vivendo, nada melhor que ler este livro Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos, de Tostão, Companhia das Letras, 200 páginas, R$39,90. “Um dos maiores jogadores de todos os tempos, Tostão foi sempre um ponto fora da curva no esporte brasileiro. Leitor voraz, médico e professor, Tostão é um dos poucos atletas que se dedicou a refletir sobre o futebol. Seja como comentarista ou cronista, suas observações sempre foram muito além do desempenho deste ou daquele jogador. Em Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos, Tostão revê as últimas seis décadas do futebol brasileiro à luz de uma vida dedicada a pensar o esporte. Mais do que uma autobiografia, o livro é um passeio pelos temas e ideias que Tostão cultivou, e dá ao leitor um acesso único não apenas ao jogador, mas também ao espectador, ao torcedor e ao fã”. 

Resistência
Enquanto o país inteiro embarca de volta no sistema arcaico de oligarquias políticas, velhas práticas clientelistas, um bando de jovens nos ensina como resistir e não virar parte da manada. O livro Escolas de Luta, de Antonia Campos, Jonas Medeiros e Márcio Ribeiro, Editora Venera, 352 páginas, R$49,90, conta toda essa história que se desenrola na sua frente, enquanto os conservadores chama esses meninos e meninas valentes de “vagabundos” e “maconheiros”. “No final do ano de 2015, surgiu um movimento social sem precedentes na história brasileira, tanto por sua dimensão quanto por suas táticas, quando mais de 200 escolas públicas estaduais de São Paulo foram ocupadas pelos seus alunos. Eles lutavam contra o plano do governo de fechar 94 escolas inteiras e centenas de turmas, realocando estudantes e superlotando salas. O caso das primeiras escolas ocupadas causou pânico das autoridades, que reagiram com ameaças e violência, mas foi impossível conter o movimento e o número de ocupações cresceu em uma velocidade impressionante - Zona Leste, Norte e Sul da Capital, Jandira, Mauá, Osasco, Ribeirão Pires, Santo André... De repente havia escolas ocupadas por todo o Estado, do interior ao litoral, dos centros às periferias. A Polícia Militar foi chamada por diretores desesperados e diversos casos de violência e sabotagem contra os estudantes foram registrados. Mas junto com a repressão também veio a solidariedade dos pais, de professores, das comunidades, de artistas, da sociedade. Os estudantes foram vitoriosos - forçaram o governador a recuar, suspendendo o projeto de reorganização escolar , e derrubaram o secretário de educação - e, logo em seguida, a mesma tática começou a ser utilizada por estudantes de outros estados na luta pela educação pública de qualidade. Este livro é uma tentativa de reconstruir a luta contra a reorganização da perspectiva deles e delas”.

Pobreza
O mais radical dos anticomunistas, o escritor George Orwell, tinha um olha bem particular sobre a pobreza. Aliás, seu anticomunismo se deve muito à sua antipatia pelo ditador russo Joseph Stálin e sua gestão de um regime soviético brutal. É interessante ver este Na Pior em Paris e Londres, Companhia das Letras, 256 páginas, R$35,92. “No final do anos 1920, decidido a tornar-se escritor, o jovem Eric Arthur Blair resolveu viver uma experiência pioneira e radical - submeter-se à pobreza extrema - e depois narrá-la. Em 1928, instalou-se em Paris com algumas economias e começou a dar aulas de inglês - mas em pouco tempo perdeu os alunos e foi roubado. Sem dinheiro, passou fome, penhorou as próprias roupas, trabalhou em restaurantes sórdidos e por fim partiu para a Inglaterra. Enquanto esperava por um emprego incerto, radicalizou ainda mais sua experiência convivendo intensamente com os mendigos de Londres, perambulando de albergue em albergue, atrás de dormida, comida e tabaco. É essa vivência miserável que Orwell relata com humor e indignação, distanciamento e participação”.

Aventura
Para encerrar nossas dicas de hoje aí vai Lugar Nenhum, de Neil Gaiman, Editora Intrínseca, 336 páginas, R$39,90. “Publicado pela primeira vez em 1997, a partir do roteiro para uma série de TV, o sombrio e hipnótico primeiro romance de Neil Gaiman, anunciou a chegada de um grande nome da literatura e se tornou um marco da fantasia urbana.

Bob Dylan é o Nobel de Literatura de 2016
Atualizado: 22:12:03 18/10/2016
Carlos de Souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br  ]


Quando anunciaram o nome do músico Bob Dylan para o Prêmio Nobel de 2016 na semana passada. Pareceu que o mundo veio abaixo. Logo se formaram dois blocos antagonistas: um defendendo Dylan até a morte e outro detratando. Mas como pode, diziam, um músico ganhar um prêmio que é destinado a escritores? E as piadas e memes pipocaram nas redes sociais. Entre as mais engraçadas estavam, “Keith Richard vai ganhar o Nobel de Química”, Philip Roth vai ganhar o Grammy”, por aí vai.  Mas no calor da discussão, muita gente esqueceu uma coisa: Bob Dylan é a ponta final de uma tradição que se inicia com os trovadores medievais. O bardos provençais já cantavam seus poemas nas ruas, nas feiras, nos teatros, nos palácios. E indo mais longe, o cego Homero, provavelmente cantou seus versos na Grécia antiga. E para dar a martelada final no prego da discórdia, Bob Dylan também escreveu. Pelo menos dois livros, ele escreveu. Vamos conferir.
Bob Dylan é o ganhador do Prêmio Nobel de literatura deste ano
Infantil
Descubra os bichinhos peludos, fungadores, deslizantes da clássica canção de Bob Dylan, O Homem Deu Nome a Todos os Bichos, Editora Nossa Cultura, 32 páginas, R$43,00. “Desde seu surgimento, no memorável álbum Slow Train Coming, esta canção de influência gospel, com uma batida marcante, vem cativando pessoas de todas as idades. Agora uma nova geração pode apreciá-la como história, nesta encantadora adaptação ao formato de livro, repleto das brilhantes ilustrações de Jim Arnosky, sintonizadas com a Natureza e com o humor irreverente das letras de Bob Dylan. Esta edição de colecionador vem acompanhada por um CD com a canção, para que todos possam cantar com ele e gritar os nomes dos bichos ao final de cada estrofe”.

Ensaio
Aproveite e leia também este Poesia e Política nas Canções de Bob Dylan e Chico Buarque, de Ligia Vieira Cesar, Editora Novera, 207 páginas, R$50,00. Este estudo comparativo pretende examinar a ideologia e dos textos poéticos de Bob Dylan e Chico Buarque, na literatura de protesto surgida entre as décadas de 1960 e 1980.

Poesia
Existe uma edição de Tarantula, da Editora Brasiliense, de 1986. Se você não escondido lá no canto empoeirado da sua estante, corra porque os sebistas vão subir o preço. Na Estante Virtual já está custando R$116,00.  Mas se você gostar de ler em inglês, é possível adquirir um exemplar por R$41,20 no site da Livraria Cultura. É uma edição da Harpercollins, de 144 páginas. Escrito em 1966, Tarantula visa captar as preocupações de Bob Dylan em um momento crucial para o seu desenvolvimento artístico, apresentando a imaginação esquisita de um poeta laureado e popular que foi capaz de combinar a humanidade e a compaixão das raizes de seu país com o surrealismo lúdico da arte moderna. Os poemas e prosa nesta coleção refletem as preocupações que as pessoas encontram na música mais seminal de Dylan - um sentimento de protesto, a ludicidade verbal e espontaneidade, e uma crença na legitimidade artística do narrador da vida cotidiana e a excentricidade das ruas.

Raridade
Eu encontrei na Estante Virtual, um exemplar de Poemas 1, Coleção Rock On, volume 9, por R$65,00 mais frete. Aqui os leitores e fãs mais apaixonados vão encontrar as letras de Bob Dylan en estado bruto, traduzidas e prontas para a degustação dos leitores mais ávidos pela poesia do bardo americano. As letras de Dylan são imensa e funcionam como crônicas do cotidiano, revelando nas entrelinhas toda sua capacidade de desvendar os mistérios do mundo contemporâneo, a farsa, a mentira, a hipocrisia e a tragédia humana.

Curiosidade
O livro A Balada de Bob Dylan, de  Daniel Epstein, Editora Zahar, 524 páginas, R$R$51,90 conta, a partir de quatro concertos de Dylan (em 1963, 1974, 1997 e 2009), como o artista se reinventou diversas vezes ao longo da carreira - o jovem cantor folk, o roqueiro, o recluso hippie rural, o profeta, o pastor evangélico, o decadente e, por fim, o septuagenário reconciliado consigo mesmo. Em 'A balada de Bob Dylan', Epstein discute cada um dos álbuns, analisa as letras de suas músicas, e traz à tona o contexto sociopolítico e musical através das entrevistas com pessoas próximas ao cantor ao longo da carreira. O autor analisa ainda as circunstâncias em que os shows aconteceram, as mudanças no comportamento do público, as evoluções no repertório, as diferenças nos arranjos das músicas mais conhecidas e, por fim, os rumos de uma carreira artística considerada corajosa.


O universo ficcional de Marcia Denser
Atualizado: 20:14:39 11/10/2016
Carlos de souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br  ]


Vamos percorrer hoje a obra literária de Marcia Denser, essa escritora paulistana, que é jornalista, pesquisadora de literatura e curadora da Biblioteca Sergio Milliet do Centro Cultural São Paulo. Ela ainda tem o charme de ter sido a escritora favorita do saudoso jornalista Paulo Francis (mas olha, no twitter ela é uma esquerdista feroz). Ela também é considerada a musa dark da literatura contemporânea nacional. Ambos os rótulos ela considera apenas “bobagens”. Ela possui “um estilo extremamente original, que já influenciou duas gerações de escritores”. Ela tem obras traduzidas e publicadas na Alemanha, Suíça, Holanda, Estados Unidos, Espanha e Bulgária. Vamos conhecer alguns livros dela.

Romance
Caim, Record, 144 páginas, R$47,90 e pode ser encontrado na Estante Virtual por R$7,80, “traz um texto muito mais descritivo, impressionista, antes um painel de vozes, sombra, crepitações, não preocupado com a fabulação. Uma história cuja estrutura se constrói com a linguagem, e vice-versa. O personagem principal desse livro é a linguagem. A fragmentação literária de sua construção, inspirada na sofisticada técnica narrativa de Mario Vargas Llosa, dá ao romance a forma de um mosaico. E é a aproximação e o cruzamento desses trechos que orientam o leitor na travessia de uma “ficção forçada a navegar por caminhos ainda mais reais que a realidade”.

Sucessos
Ela começou com dois livros de sucesso. Diana Caçadora e Tango Fantasma. Existe uma edição com esses dois livros: Exemplar da Editora Ateliê, 312 páginas, R$45,00. Você pode encontrar outro exemplar somente com Diana Caçadora, da Editora Ateliê, na Estante Virtual por R$33,75 mais frete. “Em um texto agridoce, no qual a ironia serve a um olhar sensível e perspicaz, a autora constrói uma ponte muito particular que permite ao leitor ir e voltar entre os anos 70, 80 e 90 - seus costumes característicos, as dores de cada tempo e, marco de todos eles, a fluidez dos seres. Márcia entrega-se, sem medo e com sarcasmo, à tarefa de escarafunchar, de aplicar todo o potencial de seu bisturi, à mão solta, para dissecar nossas fragilidades, nossa incapacidade de manter minimamente o fio da meada, até mesmo quando nos imaginamos seguros”, diz Bernardo Ajzenberg.

Contos

Marcia Denser também se destaca no gênero contos. Em Toda Prosa, Editora Nova Alexandria, 160 páginas, R$35,00 ela apresenta sete contos e duas novelas que compõem esta antologia de 'inéditos e dispersos', com apresentação de Italo Moriconi - crítico literário e organizador de Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século', do qual Márcia participa com dois trabalhos. O livro traz a singularidade da prosa poética de Márcia Denser, conhecida pelo seu forte tom intimista e sensual. Nas histórias, retratos de vidas plenas de fantasias ousadas, como a atrevida garota de 'O último tango em Jacobina', que leva às últimas conseqüências o desejo obsessivo de seduzir o mecânico de seu Porsche vermelho.

Mais contos
Política subversiva, dramas existenciais e virtualidade nos relacionamentos são alguns dos temas das novelas e contos reunidos na antologia Toda Prosa II, Record, 256 páginas, R$49,90 e pode ser encontrado na Estante Virtual por R$5,60. “Elementos do cotidiano - logradouros ou celebridades, álcool, música, publicidade, a noite, o cinema, grifes, literatura - dão mostra de uma escritora ímpar, entre o maldito e o pop mais fustigante, sem deixar de lado o refinamento da tonalidade poética”.

Curiosidade
Fuçando um pouco mais, encontrei na Estante Virtual este Exercícios Para o Pecado, Editora Philobiblion, por R$15,00 e é dedicado ao público infanto-juvenil. Não se com essa capa vai ser aceito por pais adeptos do projeto Escola Sem Partido, já que estamos vivendo esses tempos sombrios.

Coletânea
Marcia Denser também participa desta interessante coletânia intitulada Rock Book, Editora Prumo, R$25,00 mais frete na Estante Virtual; R$26,51 mais frete no site da Saraiva. São contos da era da guitarra, ao lado de outros contistas brasileiros. O livro reúne contos com uma mesma temática - o rock. Organizada por Ivan Hegen, a obra contém histórias de Márcia Denser, Glauco Mattoso, André Sant’Anna, Nelson de Oliveira, Luiz Roberto Guedes, Carol Zoccoli & Cláudio Bizotto, Alex Antunes, Danislau, Toni Monti, Xico Sá, Andréa Catrópa, Abilio Godoy, Carol Bensimon, Cadão Volpato, Antonio Vicente Pietroforte, Mario Bortolotto, Sergio Fantini, Andréa Del Fuego e Fernando Bonassi.
O universo ficcional de Elvira Vigna
Atualizado: 20:09:29 04/10/2016
Carlos de souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br  ]


Elvira Viga é uma escritora, ilustradora e jornalista brasileira, de 69 anos, carioca, que vive hoje em São Paulo. Sua obra é extensa e variada e vem chamando a atenção dos leitores há algum tempo. Seu último trabalho Como Se Estivéssemos em Palimpsestos de Putas, Companhia das Letras, 216 páginas, R$44,90 e e-book R$30,90 chamou a atenção do público e da crítica. “Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação”.

Crime
Como sempre, gosto de pesquisar um autor quando ele se destaca na imprensa nacional ou local. Encontrei alguns livros de Elvira Vigna, alguns já esgotados. O bom é que ela publica seus livros esgotados no site vigna.com.br para a leitura livre de quem não se importa de ler em formato digital. Mas quem prefere o livro físico aqui vão umas dicas. O Assassinato do Bebê Martê, Companhia das Letras, 124 páginas, pode ser encontrado na Estante Virtual por R$6,50 mais frete. A sinopse é a seguinte: “Uma mulher sabe que sua melhor amiga matou o próprio pai, há muitos anos, durante uma festa onde se comemorava o aniversário de 80 anos dele. Nesta noite haverá uma outra festa. Ela refaz na sua cabeça os acontecimentos passados, acrescentando aqui e ali alguns detalhes de como ela acha que o fato se deu. Durante a festa ela irá repetir esse crime, agora não mais como mera ouvinte, mas como autora dele”.

Jogo
Em O Jogo dos Limites, Companhia das Letras, 128 páginas, pode ser comprado por R$4,50 mais frete na Estante Virtual. Neste livro ela surpreende seu leitores com uma trama lúdica. “Aqui Elvira Vigna propõe a seus personagens e leitores um jogo inteligente e desconcertante. Trata-se de saber que há um trabalho a ser feito - uma vida a ser vivida - e que existem limites para o jogo. O ambiente é um castelo cujas partes são refeitas no minuto mesmo em que ficam prontas”.

Separação
Este livro Por Escrito, Companhia das Letras, 312 páginas, R$47,90 e e-book R$33,00, está sendo vendido na Estante Virtual por R$34,90 mais frete. Então fique ligado. Este livro foi recebido pela crítica assim: “A prosa de Elvira Vigna ocupa um lugar único na literatura brasileira. Na contramão de tudo que soa tradicional ou corrente, a autora vem, desde o fim dos anos 1980, trilhando um caminho próprio, na criação de um universo pessoal que parece se expandir a cada romance ou conto que publica. Com uma linguagem cortante e antissentimental, e uma visão de mundo cáustica e desiludida, os personagens de Elvira caminham trôpegos por cenários de devastação afetiva, emocional e pessoal”. E a sinopse é esta: “Este romance é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas, sem Ulisses que valham a pena. E de muitos erros”.

Metalinguagem
No livro A Um Passo, Editora Lamparina, 186 páginas, R$26,00, que pode ser adquirido na Estante Virtual por R$7,00 mais frete, “cada personagem conta, em sua própria voz, o que ele acha que sabe sobre os outros. Cada um explica um pouco a respeito de um roubo e de uma tentativa de assassinato. Há um personagem que conta todos os outros e que só vai aparecer no final. É ele o narrador e seu problema é o que ele fará uma vez que os seus companheiros estejam mortos ou tenham fugido. O que fazer depois que as transgressões foram feitas e assimiladas”.  


Novos livros prometem animar a semana
Atualizado: 20:15:20 27/09/2016
Os leitores da escritora Noemi Jaffe já podem comemorar seu novo livro Írisz: As Orquídeas, Companhia das Letras, 224 páginas, R$39,90 e e-book R$27,90. Com a entrada da União Soviética na Hungria, em 1956, Írisz foge de Budapeste, deixando para trás a mãe doente e um passado cheio de lacunas. Quando chega a São Paulo para estudar as orquídeas, essa mulher singular e indecifrável logo encanta Martim, diretor do Jardim Botânico. Agora que Írisz desapareceu, ele terá de preencher seu vazio com os relatórios nada ortodoxos deixados por ela, que transitam entre as particularidades da língua húngara, a crise da utopia comunista, memórias pessoais e algumas observações - bastante inusitadas - sobre as orquídeas. Com o trabalho meticuloso da palavra que lhe é característico, Noemi Jaffe oferece uma trama rica e envolvente, que investiga os limites da ideologia e as agruras do amor. Noemi Jaffe é doutora em Literatura Brasileira pela USP e professora de escrita criativa. Escreve para a Folha de S. Paulo desde 2006 e é autora, entre outros títulos, de Quando Nada Está Acontecendo (Martins Fontes), de 2011; A verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras), de 2012, que recebeu o prêmio Brasília de Literatura, e O Que os Cegos Estão Sonhando (Editora 34), também de 2012. Organizou a antologia de poema de Arnaldo Antunes para a Global em 2010.
Írisz: as orquídeas, Noemi Jaffe
Ensaio
Se você ainda não encontrou este livro na sua livraria, corra porque está quase esgotado. Destinado a interessados em literatura e história, A Memória Rota, de Arcadio Díaz-Quiñones, Companhia das Letras, 328 páginas,  R$54,90 e e-book R$37,90. “Em 1993, Arcadio Díaz-Quiñones, um dos maiores intelectuais de Porto Rico, publicou La memoria rota, livro de ensaios sobre a polarização do mundo durante a Guerra Fria e a situação porto-riquenha. Mais de duas décadas depois, chega ao Brasil esta edição que reúne reflexões sobre o Caribe e um extenso caderno de fotos. Antologia inédita, traduzida e selecionada pelo professor da Universidade de Princeton Pedro Meira Monteiro, A memória rota reflete sobre as relações entre literatura e história, o poder das palavras e da cultura nas ilhas caribenhas. Um trabalho profundo e contundente sobre a história de um lugar que, embora geográfica, política e culturalmente distinto, dialoga muito com a realidade brasileira”.
A Memória Rota, Arcádio Díaz-Quiñones
Sociologia
Está chegando à livrarias Trópicos Utópicos, de Eduardo Giannetti, Companhia das Letras, 240 páginas, R$49,90 e e-book R$34,90. “Eduardo Giannetti é conhecido por tratar de temas éticos e economia com clareza e precisão. A argumentação rigorosa e o texto límpido são as marcas de Trópicos utópicos. Aqui o assunto central é o da identidade nacional, ao qual o leitor é conduzido depois de passar por reflexões sobre a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico. Organizado em aforismos ou, como prefere chamar o autor, seções ou microensaios, o livro propõe uma abordagem original e inovadora da questão da identidade, que olha antes para o futuro que para o passado- É possível unir o Brasil em torno de um projeto próprio no mundo globalizado? Um livro para redescobrir o país e pensar em seus possíveis futuros”.

Humor
Para deixar seu feriadão mais alegre, programe a leitura de Canibal Vegetariano, de Gabriel Pardal, Fábrica 231, 144 páginas, R$26,50 e e-book R$17,00. “As pessoas sempre dizem como é difícil ser artista. Mas ninguém considera o quanto é difícil para o artista não ser artista. Em Canibal vegetariano, o carioca Gabriel Pardal leva para o papel as tiradas, reflexões e provocações que compartilha diariamente com os seguidores de seu perfil no Instagram e em outras redes sociais. São frases curtas ou pequenos diálogos quase sempre desconcertantes, acompanhados de ilustrações ou grafismos despretensiosos que surpreendem o leitor a cada página, com suas doses de espanto, inadequação, humor. Como a pequena subversão do velho ditado- Antes só, do que solitariamente acompanhada , ilustrado pela imagem de uma jovem bebendo uma taça de vinho. Um livro atual, antenado com as pequenas e as grandes questões do dia a dia, e com o qual jovens e adultos vão se identificar”.


Novo livro de Bernardo Carvalho é um sucesso
Atualizado: 20:20:34 20/09/2016
Carlos de Souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br ]

O livro Simpatia Pelo Demônio, de Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 232 páginas, R$44,90 e e-book R$30,90 está arrebatando os leitores brasileiros. A começar por este título instigante que nos remete ao sucesso musical dos Roling Stones. Vamos ver a sinopse: “O funcionário de uma agência humanitária é designado para levar o resgate que libertará o jovem refém de um grupo extremista islâmico. Enquanto espera para travar contato com os terroristas, o personagem revê o mais tortuoso episódio de paixão de sua vida- seu caso com um estudante mexicano em Berlim. É no espaço entre a vivência do terrorismo contemporâneo e a aceitação do mundo sem regras criado por um relacionamento desigual, que Simpatia pelo demônio se equilibra com maestria, fazendo do romance um dos grandes acontecimentos literários brasileiros. Um livro profundo e cativante, em que política, humanidade e desejo compõem uma grande odisseia pessoal”.

Pesquisa
Resolvi pesquisar mais livros de Bernardo Carvalho e encontrei alguns indisponíveis para venda nas livrarias, mas que podem ser encontrados em sebos. Aberração, Companhia das Letras, 176 páginas, R$39,00 pode ser encontrado na Estante Virtual por R$18,00. “Um arqueólogo anuncia a descoberta de uma civilização minúscula. Um homem constrói pouco a pouco, sobre uma série de fotografias dispersas, a solução de um velho mistério familiar, enquanto outro abandona sua família quando uma música começa a tocar em sua cabeça. Onze personagens à procura de um sentido, de uma explicação, acabam enredadas numa trama de coincidências obsessivas, cujas soluções e descobertas são sempre dúbias, e os sentidos, duplos. Aqui não é mais permitido o sentimento romântico de um retorno ao lar: a essas personagens, exiladas em sua própria terra, perdidas, buscando suas origens num país e numa cidade esfacelados, só resta alucinar-se no próprio passado”.


Mistério
Os Bêbados e os Sonâmbulos, de Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 144 páginas, R$36,00 também pode ser encontrado na Estante Virtual por $15,00. Mas antes de comprar calcule o frete para ver se vale a penas. “Ao descobrir que tem um tumor no cérebro, que mudará progressivamente sua personalidade, fazendo-o perder a identidade e a memória, um militar homossexual decide sair em busca de sua origem. Sobrevivente, ainda criança, de um acidente aéreo em que morreram o pai e o irmão, ele parte à procura da mulher que o teria salvado e, conforme avança nessa viagem, correndo contra o tempo e também contra o avanço do tumor em sua cabeça, vai se embrenhando cada vez mais num intrigante mistério, uma história de traições e imposturas, para acabar diante de uma revelação para ele inimaginável. Ao dar voz a um narrador cuja identidade é mutante, esse livro transforma a investigação e a busca de si mesmo num enigma policial, perseguindo, numa prosa perturbada e inquieta, sempre a um passo de perder a cabeça, uma brecha, um outro caminho para a narrativa hoje: uma prosa que se arrisca até os limites onde possam se esboçar as centelhas de um novo texto de ficção”.

Suspense
E para finalizar, recomendo Nove Noites, Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, R$39,00 que por ser encontrado também na Estante Virtual por R$8,90. “Na noite de 2 de agosto de 1939, um jovem e promissor antropólogo americano[e permaneceu em grande parte desconhecido do público. Sessenta e dois anos depois, ao tomar conhecimento da história por acaso, num artigo de jornal, o narrador deste livro é levado a investigar de maneira obsessiva e inexplicada as razões do suicídio do antropólogo. Em sua busca obstinada pelas cartas do morto ou pelo testamento de um engenheiro que ficara amigo do antropólogo nos seus últimos meses de vida, o narrador é guiado por razões pessoais que não serão reveladas até o final do romance, mas que dizem respeito à sua experiência de criança na selva, à história e à morte de seu próprio pai”. 

Estrangeiro
Tem também este Mongólia, de Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 192 páginas, R$42,90 que pode ser adquirido por R$18,90 na Estante Virtual. O romance estrutura-se como um ‘diálogo’ entre o diário de um fotógrafo desaparecido nos montes Altai e as anotações do diplomata brasileiro encarregado de encontrá-lo. A narrativa apresenta experiências marcadas pelo contato do olhar estrangeiro com a cultura de um país desconhecido: a vida dos nômades no deserto de Gobi e nas estepes mongóis, dos tsaatan (criadores de renas) na fronteira com a Rússia e a dos criadores de camelos no deserto de Sharga; os encontros com um cantor difônico, um monge budista e um falcoeiro cazaque. Os protagonistas se vêem diante de um povo que exercita o misticismo como quem descobre a liberdade depois de setenta anos sob o jugo de uma ditadura comunista. Na Mongólia, a imaginação, antes cerceada, agora ocupa o lugar da memória que se perdeu pelo uso da força”.

Sociologia
Atualizado: 20:35:21 06/09/2016
Carlos de Souza
[ fcarlos@tribunadonorte.com.br  ]


Ótima leitura é também este Autoritarismo e Golpes na América Latina, de Pedro Estevam Serrano, Alameda Casa Editorial, 182 páginas, R$37,40. “Após o fracasso dos Estados de polícia de direita e esquerda do século XX, as formas de manifestação da soberania absoluta e de polícia, ou seja, de exceção, deixam de ocorrer sob a forma de interrupção da democracia representativa, mostra Serrano.  Nos EUA, citamos o Patriot Act, produzido após o ataque às torres gêmeas, autorizando a prática de atos de tortura como método de investigação do inimigo mulçumano fundamentalista, bem como a detenção, ou seja, o sequestro de qualquer ser humano suspeito de inimigo em qualquer lugar do planeta, sem qualquer respeito à soberania dos Estados do mundo. Em países europeus, observamos as leis e atos de combate ao terrorismo e de tratamento a estrangeiros e descendentes, mesmo que nacionais, com cadastros especiais de controle estrito da intimidade e da vida destes seres, campos de confinamento, entre outras aberrações.  Em Honduras e no Paraguai, regimes democráticos foram inconstitucionalmente interrompidos, golpeando presidentes legitimamente eleitos por obra ou com apoio das respectivas cortes supremas. Trata-se da jurisdição funcionando como fonte da exceção, e não do direito”.

Política
Não deixe de ler também Por Que Gritamos Golpe? Vários Autores, Boitempo, 176 páginas, R$15,00. “A obra incita o amadurecimento do debate público sobre a crise política no Brasil e proporciona ao leitor as mais diversas análises sobre a dinâmica do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, dentro de uma perspectiva multidisciplinar e de esquerda. Os textos que compõem a coletânea buscam desenhar uma genealogia da crise política, entender as ameaças que se colocam à democracia e aos direitos conquistados pela Constituição de 1988 e apontar caminhos de superação de nossos impasses políticos. São mais de 30 autores, entre pesquisadores, professores, ativistas, representantes de movimentos sociais, jornalistas e figuras políticas. Os ensaios são ilustrados por charges da cartunista Laerte (publicadas originalmente pelo jornal Folha de S.Paulo) e por fotografias do coletivo Mídia NINJA. Por que gritamos Golpe? é o quinto título da coleção Tinta Vermelha, que aborda perspectivas variadas sobre temas atuais, dando sequência às coletâneas Occupy- Movimentos de Protesto que Tomaram as Ruas (2012), Cidades Rebeldes- Passe Livre e as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil (2013), Brasil em Jogo- o que Fica da Copa e das Olimpíadas? (2014) e Bala Perdida- A Violência Policial no Brasil e os Desafios Para Sua Superação (2015)”.

Filosofia
É tempo também de ler O Sujeito Incômodo, de Slavoj Zizek, Boitempo, 424 páginas, R$79,00. “Esta é uma das principais obras do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Aqui o leitor encontrará tanto um extenso acerto de contas com a tradição anti-cartesiana, que, em muitos sentidos, ainda orienta nosso pensamento filosófico e político, como um confronto renovado - e entusiasmante - com os althusserianos que tentaram reinventar a política universalista à luz do multiculturalismo vigente, passando por uma vigorosa defesa do potencial político da psicanálise contra as duras ressalvas de seus críticos pós-modernos. Longe de ser apenas mais um livro na vastíssima obra do filósofo esloveno, O Sujeito Incômodo nos permite acompanhar a transformação essencial em seu pensamento. Transformação que atrela a defesa do universalismo à retomada de um projeto político de emancipação da humanidade”.

Radiografia do golpe
Não acredite no que jornalões, revistas e TVs hegemônicos têm a dizer sobre um momento político que vai lhe afetar diretamente tirando seus direitos e condenando você a se aposentar às portas da morte. Leia a Radiografia do Golpe, de Jessé Souza, Casa da Palavra-Leya, 144 páginas, R$27,90 e e-book R$24,99. “Maio de 2016 ficará marcado na história do Brasil como o momento em que a hegemonia política e ideológica iniciada no primeiro governo Lula se viu sitiada por um aparelho jurídico, policial e midiático sem precedentes. O objetivo, entretanto, não era diferente daquele que deu origem a todos os outros golpes cometidos no passado nacional: atender aos interesses políticos e financeiros da elite do dinheiro. Isso é o que defende o sociólogo Jessé Souza em A Radiografia do Golpe. Por meio de um exame crítico, ele descreve a trama do golpe e analisa os caminhos tortuosos que trouxeram o país a um cenário de turbulência política e econômica, deixando claros os mecanismos que permitiram às elites manipular a população em benefício próprio”.


Vida Vaza: Uma Paideia da Resistência
Atualizado: 21:28:24 30/08/2016
Por Márcio de Lima Dantas
Professor da UFRN


O curta Vida vaza está estruturado na cor azul, que predomina nas indumentárias dos atores, nas águas do mar, nas tomadas dos pequenos planos. A cor azul representa as estruturas presentes no Imaginário. Tudo que se apresenta com essa cor e suas tonalidades se reveste de um ethos de infinito, no qual o indigitado real concreto vem a demandar as fronteiras da comarca do Imaginário. O azul lança sua irradiação para contraditar as cores representantes do status quo.

O azul é a vereda que conduz ao devaneio e à fantasia, lugares no qual repousa a morada da “louca da casa” (Gilbert Durand). Em suma, o azul ocupa, na geografia mental, as locas da irrealidade, onde pulsam as vontades e os discursos antípodas ao estabelecido, ao que nos obrigam a ser; pela linguagem, a dizer; ao que nos fazem querer parecer algo que não somos. Enfim, o azul se opõe ao ocre e ao vermelho, cor da terra, do cenário do cotidiano, da carne, da realidade, a qual somos compelidos a dar soluções ao que não pedimos, ao que fizeram de nós como construção de um sujeito lançado ao mundo, tampouco, esse empírico, nem sempre nos diz respeito. Pradaria onde o embate entre ser e parecer medem forças.

 E para que se vença, inexoravelmente a vitória de quem busca se contrapor ao sistema do ocidente cristão e tecnocrata, jamais poderia deixar de ser uma vitória de Pirro.

De toda maneira, pedra também se trinca. Quer por movimentos naturais geomorfológicos, de acomodação de paisagens, ou através de engenhos inventados pelo homem, como procediam os Incas, quando construíam suas cidades de bruta pedra. Se no Imaginário repousam arquétipos dinâmicos - não estou falando de imaginação, fronteiriça da memória -, há que fazer esforços não apenas para conhecer sua sintaxe, mas, sobretudo, em um esforço intelectual, compreender e partir para a ação, para questionar, para negar, para não-ser, para resistir, refutando um empírico fascista que nos compele, como dizia Roland Barthes (Leçon), “obrigando a dizer”.

No Imaginário há toda uma sorte de constelações que refogem à gramática normativa, proclamando uma outra forma de ser e sentir, de representar o mundo, seus objetos e retóricas. Há enxames de poemas em estado de enérgia, carecendo ser dínames. Palavras que buscam uma forma, e, por meio da palavra feito estética, vir a ser uma crítica do real vivido.

literatura como crítica do real, como sabemos. Nunca “sorriso da sociedade”. Há flores míticas detentoras de outras narrativas, de outras maneiras de organizar a vida, provando que o que nos fizeram conhecer pode ser entendido como maya (ilusão). Pura quimera para os desavisados ou acomodados, que se contentam com a geleia geral.

Não façamos dramas. Há que se comprazer com a brisa marítima que assoma da janela, alertando das possibilidades práticas da Gaia ciência (alegre saber). Há que atestar a frágil grandeza do humano, que pode colecionar na manga um naipe de cartas, outorgando ao empírico que Apolo traz todos os dias, com seus cavalos de fogo, o dionisíaco plasmado em poesia como forma de conhemento, como reflexão sobre a vida, como um singular representando parte do coletivo, vindo a crismar o número do espírito da época. E assim (re)conhecido, torna-se menos duro se contrapor às ondas reacionárias que assolam certas épocas da História, como agora sucede.

Não parece ser à toa que sintomaticamente no cartaz do filme VIDA VAZA o esboço da figura humana seja o centro no qual a cor ocre está acima. A cor azul, embaixo. Não era para ser exatamente o contrário? Na medida em que o ocre representa a terra e o azul o céu, numa hipócrita boda de harmonia? Não, não era, de jeito qualidade. Ora, a inversão quis colocar em evidência uma outra possibilidade de vivenciar o real: o azul com sua pulsátil força de transformar as coisas.