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Natal, 05 de Fevereiro de 2012

Diário do Avoante

por Nelson Mattos Filho

Esta coluna é atualizada aos Domingos

De Natal a Salvador no Malaika-III

05 de Fevereiro de 2012
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Nelson Mattos Filho
Velejador-avoante1@gmail.com

Uma das grandes interrogações das pessoas quando descobrem que moramos a bordo de um veleiro é como é a noite no mar. Perguntam como fazemos para dormir e onde ancoramos para passar a noite. Quando respondo que não paramos para dormir e que montamos turnos de comando com intervalos regulares de duas horas para cada tripulante, elas ainda assim ficam a imaginar como é não ter uma noite inteira de bom sono, ainda mais na escuridão do mar.

Na noite da Segunda-Feira, 09/01, quando deixamos Maceió a bordo do veleiro Malaika e fizemos o rumo de Salvador, com uma bela lua cheia fazendo a festa no céu, não sei por que essa pergunta me veio na lembrança. O mar naquela noite não estava dos melhores, mas o vento soprava macio fazendo o veleiro avançar decidido e sem dar muita bola para cara feia.

Fora os navios que encontramos ancorados ao largo, esperando a vez para atracar no Porto, nenhum outro barco estava no mar naquela noite. Pelo menos ao alcance de nossa vista. Nenhum pescador, nenhum velejador, ninguém estava querendo trocar o aconchego de uma boa noite de sono, iluminado pela luz prateada da lua cheia entrando pela janela de casa, pelo mar. Mas se eles olhassem com mais carinho, aquela noite estava super convidativa para se fazer ao mar. É nós estávamos lá para comprovar e aproveitar.

Naquele devaneio entre o mar, o vento e o luar, eu adormeci e não sei o tempo que dormi enquanto Lucia ficou a espreita de algum sinal de vida no horizonte, mas a verdade é que eu nem vi quando o mar mudou de feição. Quando acordei o vento estava ainda mais brando e o mar incrivelmente liso. Estávamos próximo de deixar a fronteira Alagoas/Sergipe, demarcada pelo Rio São Francisco, e a lua já não fazia parte da paisagem. O clarão de mais um dia já podia ser percebido no horizonte e com ele a vida mais uma vez se renovava. Como é à noite no mar? Bem! Aquela noite para mim foi um sonho.

Diziam para mim que o Malaika era um barco lento e difícil de velejar, mas até aquele momento ele havia nos mostrado predicados totalmente inversos. Não que ele fosse rápido, mas ele estava dentro da média de todos os outros, e no quesito velejar ele estava muito acima. Um barco forte, marinheiro, fácil de comandar e construído para enfrentar qualquer tipo de oceano. No começo da tarde do dia 10/01, menos de dezoito horas depois de sair de Maceió estávamos no través de Aracajú/SE.

Almoçamos um delicioso espaguete com calabresa, velejando por entre plataformas de petróleo, que, segundo Lucia, estão cada vez mais numerosas por aquelas bandas. Não sou favorável, nem apreciador de navegar entre elas, mas estávamos numa rota tão tranqüila e numa condição de vento e mar tão favoráveis que nem cogitei mudar de rumo.

Logo após o almoço avistei um navio vindo em nossa direção a todo vapor. Pensei se mais um dos muitos rebocadores que dão apoio logístico as plataformas. Conferi a navegação e vi que estávamos a 12 milhas da costa, navegando a 5,5 nós de velocidade e no rumo 240 graus. Aquele navio estava realmente em nossa direção e se aproximando rápido. Mais um pouco e vi que era um navio patrulha da Marinha do Brasil. Mantive o rumo e aumentei o volume do rádio esperando um chamado.

O navio patrulha cruzou a popa do Malaika e emparelhou por bombordo. Sem nenhuma comunicação cruzou a popa no sentido inverso e emparelhou por boreste virando em seguida e se posicionando aproado na nossa direção numa situação de alerta. Eu apenas observava as manobras comendo pipocas quentinhas que acabavam de sair do fogão.

“Veleiro Malaika, aqui é o navio patrulha Gravataí da Marinha do Brasil. Estamos em procedimento de Inspeção Naval e pedimos autorização para ir a bordo” Respondi que eles seriam bem vindos a bordo e que estávamos à espera. Disse também que continuaria navegando, apenas reduziria as velas. O comandante concordou e disse que uma equipe viria a bordo num bote de apoio.

A Inspeção em alto mar foi efetuada na maior tranquilidade e cordialidade. Era uma operação padrão devido à apreensão de um veleiro estrangeiro carregado com drogas em Aracajú no mês de Dezembro. Despedimos-nos desejando boa sorte a tripulação do Gravataí e recebemos os votos de boa velejada até a Bahia.

A noite chegou e ainda ouvíamos pelo rádio que o Gravataí estava por perto. Foi uma das mais tranqüilas noites no mar!
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