Visões e saudades diante das sombras

Publicação: 13/09/15
Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

O que restou da luminosidade tremulava preguiçosamente em meio às sombras refletidas no silêncio das águas. Eram reflexos disformes de aparência fantasmagórica, mas que formavam um cenário tão belo e tranquilizador que desejei estar ali para sempre. Ao redor de mim zoava um silêncio assustador, uma áurea de paz entrecortada aqui e acolá por ecos embrutecidos de uma cidade que fervia em tentações, mas meus ouvidos escutavam apenas o silêncio.

Imagens de veleiros enuviadas pelas sombras da noite, que começava a cobrir o mundo, bailavam sobre as águas e entre os mastros das embarcações, alegres revoadas de pássaros tomavam o rumo dos ninhos. Era o final de mais um dia e eu estava ali, sozinho e mudo de espanto, presenciado o astro rei se retirar para o merecido descanso. O manto da noite se estendeu e fui despertado do meu transe crepuscular pela luz prateada de uma Lua contadora de histórias e lendas. Como é bela a natureza!

Aquele é o cenário de um mundo que poucos sabem existir e muitas vezes não me acho merecedor de estar vivendo tudo aquilo. Porém, é diante de paisagens assim que minha mente navega em infinitas reflexões e fico em estado de comunhão com os mistérios e segredos do universo.

É diante das sombras do lusco-fusco que me encontro com o meu eu e revivo com alegria os melhores e piores momentos da minha vida. Os melhores momentos me acariciam a alma e os piores me dão a certeza do bom aprendizado. Diante da luz que dança por trás das sombras, me vem à lembrança daqueles aos quais quero bem e desejo que eles estivessem ali ao meu lado.

As primeiras lembranças recaem sobre meus gurus, eternos professores e exemplo de vida que carrego estampado no coração: Nelson Mattos e Iracema – meus pais; Emídio Mattos e Cecília – tios mais amados. Meu Pai e meu Tio – assim mesmo com letra maiúscula – são habitantes do mundo lá de cima e todos os dias sinto o calor de suas presenças a orientar e proteger meus passos. Minha Mãe e minha Tia até hoje são conselheiras e fontes intermináveis de afagos.

Foi sentado solitário na proa do Avoante, observando aquela tarde de luz e sombras, em que o Sol se apresentou com uma roupagem mais linda impossível, que pedi vida longa, conforto, saúde e paz para Ceminha – minha Mãe - e Tia Cecília, que essa semana fazem aniversário.

Foi diante da revoada dos pássaros, em busca do ninho, que pedi a Deus que elas estejam ao meu lado por muitos e muitos anos. Foi diante das sombras que dançavam sobre as águas que pedi aos deuses do mar que me deem proteção para que elas nunca recebam notícias entristecidas.

Foi diante daquele Céu magnifico de pôr do sol que escutei o sussurro de duas vozes que jamais esqueci e nem esquecerei, que dizia assim: Fique em paz filho, seus desejos estão sendo atendidos. Olhei para os lados, agradeci e sorri. Ao longe soaram suaves acordes de um solo de trombone, marcado pela batida de um tantan.

Que vida é essa que me leva a sonhar acordado e me transforma em um louco escrevinhador de um mundo que muitos acham irreal? Que vida é essa que me faz navegar errante pelos mares em busca de viver um sonho colorido? Quantos oceanos terei que navegar para decifrar as entrelinhas existente entre o real e o sonho?

Desde que embarquei no Avoante, e decidi entregar ao mar todas as minhas certezas, o espaço existente entre o real e o irreal se tornou uma bolha de incríveis e inimagináveis transformações. Procuro retirar das espumas de sal e do vento pequeninas lasquinhas de conhecimentos que tragam subsídios para nortear minha proa.

Se isso é loucura é loucura boa e falar sobre ela me deixa lúcido.

Não tenho o dom da palavra e muito menos da escrita, mas insisto em escrever, para que fique registrada em algum lugar do tempo minha experiência de vida a bordo de um veleirinho de oceano e essa sirva de mote para outros que desejarem um dia viverem a loucura.

As sombras balançantes do lusco-fusco de um pôr do sol me fizeram escutar sussurros de dois anjos da guarda de minha vida e me fizeram escrever com as tintas que restaram da luz essa, talvez indecifrável, homenagem às duas pilastras da minha formação. As lágrimas que agora escorrem em minha face nesse momento denunciam o amor e carinho que sinto por elas. Se isso é loucura, lucidez, real, irreal ou sonho, apenas eu, o mar é os elementos da natureza saberemos a verdade.

Parabéns minha Mãe, parabéns minha Tia.

Um grande beijo!

Os piratas

Publicação: 06/09/15
Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

Claro que todos sabem e conhecem as estripulias de Jack Sparrow no filme Piratas do Caribe. Jack, com aquele jeito meio cínico, atrapalhado, cativante e romântico é o estereótipo mais encantador dos piratas que gostaríamos de um dia encontrar pela frente. Dizem que a fonte de inspiração do ator Johnny Depp, para dar vida ao seu personagem, foi à caricatura de liberdade do guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards. Quanto a isso não tenho nenhuma dúvida, porque personagem e inspiração se completam.

Mas deixando de lado as inesquecíveis cenas de Piratas do Caribe - e os trejeitos stoneanos do Sparrow - e mergulhando nos escritos biográficos dos velhos e famosos homens que amedrontavam os oceanos, podemos concluir que, em vez das telas dos cinemas, nos dias de hoje eles fariam mais sucesso nos programas de patrulha policial. Os caras eram perversos!

Pirata, que as línguas grega e italiana definem com sendo um marginal que, de forma autônoma ou organizado em grupos, cruza os mares com o intuito de promover saques e pilhagem a navios e a cidades para obter riquezas e poder, era a crueldade em forma de gente. Para esses renegados nada e ninguém poderiam escapar da sua fama de mau. A bandeira com a silhueta de uma caveira hasteada no alto do mastro sinalizava para as vítimas que eles estavam diante da morte. E como nos filmes: O tema musical era funesto.

Os oceanos consagraram centenas de piratas ao longo dos anos, mas teve aqueles que eram temidos até em pensamentos e bastava seus nomes serem mencionados, para que uma nuvem de terror tomasse conta de um recinto ou do rosto dos interlocutores. E para quem acha que a pirataria era exclusiva dos homens, saiba que Anne Bohhy foi tão temida quanto qualquer outro. Em 1700 ela abandonou os pais latifundiários e foi atormentar os mares como tripulante do navio pirata do capitão Calico Jack Rackhan – o primeiro a utilizar a bandeira da caveira com duas espadas cruzadas, símbolo da pirataria. Rackhan morreu enforcado, junto com a tripulação, em 1720 e Anne escapou do enforcamento por estar gravida do capitão.

Outra mulher do bagaço foi à chinesa Ching Shin, que chegou a comandar uma frota de mais de 300 navios e desafiou vários impérios. Foi talvez o pirata mais poderoso do mundo e em suas fileiras lutavam homens, mulheres e crianças.    

Talvez o mais comentado seja o inglês Barba Negra, que entre 1716 e 1718 saqueou, matou e fez fortuna nos mares do Caribe. Teve também o inglês Sir Francis Drake, responsável por derrotar boa parte da armada espanhola e por ter sido o que mais fortuna arrecadou com suas pilhagens. E o que dizer do turco Barbarossa que saqueou várias cidades africanas?  - Outro ladrão de marca maior!

O malvado Henry Morgan, que meteu a mão no ouro do Panamá, ficou tão famoso e popular que seu nome batiza um dos melhores runs do mundo. Outro inglês batizado como Capitão Kidd, era oficial da marinha, mas escafedeu-se com seu navio para a ressurgir na fama da pirataria. Diz à lenda que os tesouros por ele escondido nunca foram achados.

Bartholomew Roberts, apelidado de Black Bart, foi outro inglesinho bagunceiro e que fez muito almirante se esconder atrás daquelas perucas brancas. E se você pensa que os ingleses tomaram ciência, pense não! Os súditos do reino, em pirataria, eram cães em forma de gente. Entre outros teve ainda um tal de Samuel Bellamy, vulgo Black Sam, que morreu aos 28 anos, mas antes disso, fez o que quis e o que não quis pelos oceanos.

Mas se o Jack “Richards” Sparrow acha - e você que assistiu ao filme concorda - que ele foi o terror do Caribe, pode ir se benzendo e tratando de se esconder no porão. O dono do pedaço foi o porto-riquenho Roberto Cofresí, que mereceu até um monumento chantado na praia de Boquerón Bay, Cabo Rojo/Porto Rico. O pirata Cofresí entrou nessa depois que sua família perdeu tudo e ele se viu na miséria. Claro que não é desculpa, mas foi assim!

 Depois da derrocada familiar o malfeitor foi à luta e montou um bando para saquear navios e cidades no Mar do Caribe. El Pirata era o cão chupando manga e ai daquele que duvidasse. Ele foi executado em 1825 aos 33 anos.

E para os pensam que a pirataria acabou e que a bandeira foi queimada, acho bom botar as barbas de molho. A caveira ainda navega por ai, montada em barcos cada vez mais velozes, armada até os dentes e cruel como sempre.

E o romantismo? Bem, ele vai navegar por ai até que alguns séculos adiante as pessoas possam se divertir nos cinemas com as maluquices encantadoras de um novo Jack.

A Dúvida

Publicação: 30/08/15
Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

Dizem que certo velejador desde que comprou o barco, há mais de dez anos, somente tinha saído uma vez, chegou ao clube e movimentou meio mundo de gente em busca dos registros meteorológicos do dia, pois pretendia empreender uma navegada. Para azar dele, ou do grupo de funcionários da secretaria, o sinal da internet estava fora do ar e foi um Deus nos acuda.

Vai lá, vem cá, vai acolá e ninguém conseguia passar uma previsão que atendesse os anseios meteorológicos do velejador. E a tensão foi se elevando na medida em que o tempo passava.

No afã de resolver a peleja, alguém se lembrou de chamar um velho pescador que morava nas proximidades – desses que sabem ler com precisão os sinais da natureza – para que este pudesse dar sua opinião e acabasse o bafafá.

O velho pescador chegou à marina, com um olhar meio que desconfiado, porque nunca havia pisado naquele território náutico, e ao saber do que se tratava, olhou para o céu e disparou: - Acho que não chove, mas aquela nuvenzinha ali está me deixando escabreado. Sendo assim, ficou o dito pelo não dito e a apreensão se elevou ao quadrado.

O velejador começou a suar frio e pegou o telefone para soltar os cachorros na empresa que oferecia os serviços de internet na marina, mas foi informado que o problema era mais embaixo. – Embaixo de quem?

Um raio luz clareou a cabeça de uma secretária da marina e essa resolveu ligar para a Capitania dos Portos e tentar com eles a previsão do tempo, mas antes disso alguém já estava plantado em frente ao aparelho de TV na esperança que a moça do tempo desse o ar da graça e torcendo para que fosse a Maju.

O oficial da Capitania pediu um minuto e logo voltou com o relatório completo, incluindo até a previsão de ondas para aquele dia e os próximos sete. A secretária, aliviada, anotou tudo e saiu nas carreiras para dar a informação. No píer, a confusão continuava grande e prometia crescer.

Ofegante, a secretária invadiu o píer e, sem respirar, passou a informação num folego só. O velejador escutou o relato, olhou para cima, tornou a olhar para ela e perguntou: - Você tem certeza que anotou tudo direitinho? A secretária, já com cara de choro, respondeu: - Tenho sim senhor!

Meio desconfiado, mas com a previsão oficial da Marinha em mãos, o velejador entrou no barco, arrumou as compras, ligou o GPS, traçou a rota, acionou o motor, olhou novamente para o céu, pediu para o marinheiro soltar as amarras e quando o veleiro pegou seguimento gritou: - Espere-me no outro píer que eu vou atracar lá. Um marinheiro replicou: - Que dia doutor? – Agora homem!

Todos foram para o outro píer, na tentativa de saber o que havia acontecido, e ao terminar novamente a atracação do veleiro, a secretária aturdida se atreveu a perguntar: - Houve algum problema doutor? O velejador calmamente respondeu: - Não, está tudo bem! Eu apenas queria mudar de píer, porque esse lado é mais ventilado! Nunca mais o veleiro saiu de onde ficou e a história hoje faz parte do folclore da marina.

A “circum-navegação” de um píer a outro deve ter sido o acontecimento mais importante para o nosso velejador e até hoje ele deve estar comentando com os amigos. Dizem que no futuro o feito vai render um livro. Vamos aguardar!

Navegando por ai a gente encontra muitas histórias de velejadores que vivem mergulhados em um sonho colorido, enfrentando terríveis fantasmas e criando teorias conspiratórias contra eles mesmos. Muitos estão debruçados sobre tratados e cartas náuticas, onde são traçadas rotas verdadeiras, porém imaginárias. São pessoas que sabem tudo, tem a solução para todos os problemas a bordo, conhecem todos os segredos dos oceanos e jamais entrarão em uma barca furada. Velejadores de sonhos tão reais que chegam a enjoar. E não são poucos.

Dia desses estávamos ancorados em um lugar maravilhoso por trás da Ilha de Itaparica, quando um amigo ligou para bater papo. Perguntei se iria navegar e ele falou que estava em casa e que Deus o livrasse de velejar naquele dia, porque a noite anterior havia sido de muita chuva e ele tinha certeza que vinha coisa pior por ai. Insisti dizendo que o tempo estava bom e que há muito ele não se fazia ao mar. Foi ai que ele falou: - Nelson, eu não saio na dúvida! Perguntei qual dúvida e ele disse que era em relação ao tempo.

A dúvida dele estava completando um ano e persiste até os dias de hoje.

Sabe de uma coisa?

Publicação: 23/08/15
Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

Na página desse Diário que teve o título, O Grande Mar V, falei da situação de abandono que se encontram os rios brasileiros, que só em lembrar me deixa estarrecido. Escrevi o texto, que segue essa introdução, enquanto o Avoante navegava devagarinho as águas do Rio Paraguaçu e meus olhos procuravam vestígios de algum píer público. Não me queiram mal, porque foram palavras saídas do fundo do coração e que muitos podem até achar que são levianas. 

Eu e todo navegante somos culpados, porque ficamos calados e inertes diante do descaso. Fazemos parte, junto às populações envolvidas, dos que seriam beneficiados e não estamos nem ai, pois fazemos de conta que não temos nada com isso. Um píer em boas condições de uso representa melhorias, atrai turismo, investimentos e desenvolvimento. Sem o píer todos pedem. É difícil entender isso? Acho que não!

Navegantes, clubes náuticos e população precisam levantar essa bandeira e partir para a luta. Cobrar ações, apresentar denuncias, mostrar para as pessoas o que elas estão perdendo, o quanto às cidades e povoados estão perdendo.

Sempre falei que o Brasil vive de costa para suas águas. Temos um litoral quase sem fim e dotado de infinita beleza. Do mar, o brasileiro curte apenas as praias e, assim mesmo, em dia de Sol. Dos rios, nem isso, pois nem conseguimos mantê-los limpos e despoluídos.

Temos um dos maiores e mais desejado rio do mundo, o Amazonas, e não sabemos e nem podemos aproveitá-lo livremente para a navegação amadora. Não existe apoio para isso, não existe segurança, não existem roteiros e nem guias náuticos confiáveis. Muito menos o interesse de alguma alma boa para fazer isso acontecer. Hoje navegando no baiano Paraguaçu, fico com esse grito preso na garganta. Quanto desperdício! Quanto descaso com a coisa pública! Quanta falta de visão das autoridades!

 A Bahia tem sua história intrinsecamente ligada ao mar e das águas surgiram grandes personagens de sua história, navegando em belos saveiros e canoas de tronco. Tudo isso está sendo jogado no lixo como se não fosse nada. Como se não representasse nada. Parece até que querem apagar a história de um povo. O que é isso gente?

Não se comete uma desfeita sem que se pague um preço por ela. A história é inclemente com os malfeitores e usurpadores dos bens públicos. Como é também com quem se cala, se ajoelha, se acovarda e aplaude o descaso alheio.

O Paraguaçu ainda está vivo, porém, entristecido e com um jeitão de um velho abandonado. Não se abandona um velho a própria sorte, porque isso é um crime irreparável. O que vamos dizer as gerações futuras? Será que vamos deixar apenas que os livros contém como era? Que velhas e desbotadas fotografias denunciem o que deixamos para trás? Culpar a quem se os culpados somos nós mesmos.

Aqueles que têm a felicidade de viajar pelo velho continente, pelos EUA ou algum país que valoriza rios e mares, retornam contando maravilhas do que viram por lá. A França com seus canais sendo navegados por confortáveis embarcações. A Espanha com suas belas marinas e portos modernosos. A Croácia com suas águas cristalinas e apetitosas. Os EUA com sua instigante intracoastal waterway. A Turquia, a Grécia, Portugal, Itália, o Mediterrâneo. Tudo lindo, tudo preservado e acenando para o turista. No Brasil temos tudo isso embaixo de nosso nariz e viramos o rosto, porque não queremos cobrar, não sabemos exigir, não queremos enxergar.

Ficamos boquiabertos diante das manchetes dos jornais, quando estes flagram o descaso, a poluição, a destruição dos rios, a corrupção desvairada e no segundo seguinte, esquecemos tudo, pois ficamos conformamos, achando que sempre foi assim e assim será para o sempre.

Nós navegadores desse Brasil imenso, perdemos tempo em debater os últimos lançamentos da indústria eletrônica. Desperdiçamos sonhos em busca de barcos maiores. Confabulamos em intermináveis, e sem futuro, bate papos sob os palhoções dos clubes. Digladiamo-nos para alcançar o poder dentro das associações náuticas e esquecemos o que realmente precisamos. Será que perdemos o norte, ou será que a navegação pura e simples não é a nossa praia?

É com tristeza que olho hoje para as águas do velho Paraguaçu e vejo nelas o reflexo de todos os rios brasileiros. Todos mal amados e esquecidos. Todos precisando de apenas um afago para sair da lama em que se encontram metidos.

Somos todos culpados! Infelizmente!

Rainhas dos oceanos

Publicação: 16/08/15
Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

A velejadora brasileira Izabel Pimentel é uma mulher guerreira, corajosa e, como diz o baiano, arretada. Conheci Izabel em 2006, quando de sua primeira travessia oceânica do Atlântico, a bordo do Petit Bateau, um modelo Mini Transat – veleirinho muito rápido com 6,5 metros de comprimento e que é utilizado em regatas em solitário transoceânicas. Na ocasião ela tentava conseguir o passaporte para a regata Mini Transat e chegou a Natal com o Petit Bateau mais capenga do que lutador que sofre um nocaute, mas apesar da fragilidade aparente do barco e da própria comandante, ela olhou para mim, sorriu, como quem tem a certeza do dever cumprido, e em vez de jogar a tolha falou: - Você tem uma toalha?
RAINHAS DOS OCEANOS
Ela estava completamente molhada, com os cabelos duros de cristais de sal, precisava de um banho de água doce e a bordo do Petit tudo estava virado pelo avesso e úmido. – Tenho sim! Izabel estava ali na condição de primeira mulher brasileira a ter atravessado o Oceano Atlântico em um veleiro numa navegação em solitário. Ela vinha de Fortaleza/CE, onde havia concluído a travessia, e na velejada do Ceará para o Rio Grande do Norte o barco sofreu a dureza do que é considerado o pior pedaço de mar do litoral do Brasil para quem navega contra ele.

Os inspetores da Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte, que estavam ali em total apoio a velejadora, olhavam com semblantes de incredulidade aquele barquinho machucado e sua franzina comandante cansada, porém, feliz. Escutei da boca do inspetor William uma frase que nunca esqueci: - Nelson, essa é mesmo uma mulher de coragem e só temos que aplaudir!

Pois é, Izabel é uma velejadora de fibra e nunca jogou a tolha para o mar. Depois dessa primeira travessia vieram outras e até uma volta ao mundo, com escalas, concluída em 2014. A volta ao mundo foi em um veleiro de 33 pés, em que sofreu uma capotada no temível Cabo Horn, o terror de todo marinheiro, deu meia volta e dias depois aproou novamente o Cabo para atravessar em grande estilo. Ela é assim e não desiste nunca.

O mar foi desbravado ao custo de muito desafio e até hoje é assim, mesmo com o homem conhecendo quase todas as fronteiras navegáveis. Mas, conhecer é uma coisa e navegar é outra. Muitos homens já embarcaram na aventura que desafiou o sonho de Izabel e o pioneiro foi Joshua Slocum, a quem a velejadora fez a promessa que faria a mesma coisa. Porém, mulheres foram poucas e até se conta nos dedos.

A pioneira na circum-navegação com escalas foi à polonesa Krystina Chojnowska, em 1976 e retornando para casa dois anos depois. Em seguida, e no mesmo ano que a polonesa retornou, partiu a neozelandesa Naomi James. Uma curiosidade é que Naomi não tinha nenhuma experiência com navegação e o desejo aflorou durante lua de mel. Dizem que ela chegou a trocar latitude por longitude nos cálculos de posição, quase perdeu o mastro do veleiro no Cabo Horn – sempre ele -, capotou, ameaçou abandonar a aventura e no afã de vencer, seguiu em frente e concluiu a viagem. Só não sei se o marido esperou para concluir a lua. Também em 1978 a inglesa Brigitte Oudry perambulou pelos oceanos durante 20 meses e também esculpiu seu nome nos arquivos de Netuno.

Essas mulheres navegaram os oceanos com escalas em alguns portos e entre elas se alinharam duas adolescentes australianas, que até comentei aqui nesse Diário sem rotina. Mas teve quem apostasse em não parar em lugar nenhum e seguir em frente sem eira, nem beira e sem assistência. A pioneira dessa categoria foi à australiana Kay Cotter, em 1988, a bordo de um veleiro de 37 pés - pouco mais de 11 metros – e levou 189 dias para rodar o mundo, numa viagem azeitada com aventuras e capotadas. Numa dessas capotadas, Kay foi jogada no mar e devolvida a bordo por força de uma onda caridosa, mas seguiu em frente desdenhando da cara feia do medo.

No livro “First Lady”, escrito pela australiana e que tem o mesmo nome do seu veleiro, ela conta que em uma travessia teve que emendar um dente com epóxi, depois de um pequeno acidente. O veleiro de Kay hoje faz parte de um museu na cidade de Sidney. Eh, por ai afora essas façanhas são reconhecidas e preservadas!

Mulheres como Izabel, Krystina, Naomi, Brigitte, Kay e tantas outras que se fazem ao mar em busca de novos horizontes e novos sonhos, é um exemplo para gerações futuras. Elas são a prova de que somos o que queremos ser e não podemos ter medo e nem criar fantasmas sobre o caminho a ser percorrido. O homem foi concebido para ser livre, pensar livre e caminhar sempre no rumo da liberdade. Ficar enfurnado em planos e sonhos que nunca se realizam é a mais cruel das prisões.

Tem pessoas que se fecham em castelos de areia e diante de histórias de vida como a das velejadoras se apressam em perguntar: - Sim, e dai? E eu respondo: - Dai nada né!