A biblioteca de Dona Gena

Publicação: 22/03/20
Franklin Jorge
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Eu me lembro da voracidade com que lia, num exemplar sobriamente encadernado dos Clássicos Jackson, o relato da estranha aventura do “imprestável Rip”; Rip Van Winckle, na verdade, a quem os gnomos fizeram dormir, ao pé das montanhas de Kaatskill, por vinte anos. Seu Autor, Washington Irving (1783-1859), um dos expoentes do Romantismo, faz parte da plêiade de escritores fundadores da Literatura norte-americana. Escreveu, entre outros livros, as biografias de Lincoln e de Maomé. Foi diplomata em Londres.

Teria catorze anos quando o li pela primeira vez, emprestado da variada e preciosa biblioteca da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro – por todos nós chamada de Dona Gena -,instalada em um velho e aristocrático solar azulejado da Praça Getúlio Vargas, 19, um dos símbolos que prefiguram o Açu que remanesce de antigas grandezas.

Tornou-se Washington Irving, desde então, um de meus escritores mais queridos; desses a que recorremos para nos proporcionar um grande prazer intelectual. Cidadão de Nova York, biógrafo do fundador da cidade, cria, através de seus contos, uma mitologia para o estado de Nova York.

Mestre dotado de espírito e imaginação, fundador de uma tradição literária, pareceu-me, ao ler suas páginas, um escritor eclético e sofisticado, cultivei, desde então, esse nome: Washington Irving.

A biblioteca de Dona Gena guardava algumas transcrições de textos seus publicados em antologias e obras raras, como a monumental Biblioteca Internacional de Obras Célebres e os Clássicos Jackson, um florilégio da literatura universal ao alcance dos ledores.

No centro da sala-biblioteca havia um birô e uma cadeira em estilo funcional inspirado no Bauhaus alemão, como alguns outros móveis distribuídos nos diversos aposentos do casarão sesquicentenário que prefigurou, desde então, para mim, o paraíso na terra.

Ali, numa velha máquina de escrever, elaborava a querida Dona Gena seus textos ou escrevia à mão sua correspondência com Jorge Antônio. Havia ainda, próximo a porta, um pequeno sofá para as visitas, armários compridos e estreitos, envidraçados, abrigo das obras raras e, ao fundo da parede, uma grande estante repleta de livros de autores contemporâneos, lidos e relidos durante uma vida.

Isolamento

Faltando duas semanas ainda para o pico do contágio no Brasil, a curva já chegou a dobrar os infectados a cada 50 horas. A única chance de escapar da contaminação é ficar em casa, fazer o impossível para não sair às ruas.

Economia

A recontagem feita na sexta-feira sobre a perspectiva do PIB em 2020, mostrando ínfimos 0,02% de aumento, pode ter sido até otimista se considerar a terrível realidade do mercado depois da hecatombe provocada pelo Covid-19.

Nas redes

Desde a quinta-feira, o termo “vírus chinês” se mantém entre os mais replicados no Twitter. Ficou em primeiro lugar o dia inteiro, disputando pau a pau com “patrulha do destino”, a nova série da DC que estreou no Cinemax.

Efeito Trump

Foi o fotógrafo Jabin Botsford, do jornal The Washington Post, quem registrou no discurso de Donald Trump, na quinta-feira, a palavra Corona riscada e o termo Chinese Vírus escrito por cima. Ele postou a foto no Twitter e viralizou.

Bancos

O Sindicato dos Bancários lançou nas rádios um spot apelando às autoridades políticas e judiciárias que obriguem os bancos a fecharem suas portas durante a pandemia. O pior num cenário desse cairá nas costas dos mais humildes.

Fundo

Agora que a situação de calamidade pública foi aprovada no País, e que o coronavírus anulou as leis 101 e 8.666, que tratam da meta fiscal e das licitações, bem que o governo federal poderia sequestrar o fundo eleitoral.

Praias

Em diversas cidades litorâneas, o acesso às praias já está proibido, o que ainda não se viu em Natal. Na quinta-feira, circulou nas redes imagens de grupos reunidos em algumas das nossas praias urbanas, como Ponta Negra.

Cuidados

As autoridades sanitárias e os dirigentes das redes de supermercados precisam tomar precauções em relação ao grande movimento que poderá ocorrer nas lojas. Gente demais, e ainda em filas nos caixas, é um perigo.

Fujões

O drible dado por Neymar no PSG, quando fugiu da concentração ao perceber regime de quarentena e veio ao Brasil, inspirou o argentino Higuain, que foi parado pela polícia quando tentava sair da Itália. A Juventus tem infectados.

Milton Neves

A turma da ESPN Brasil foi até o escritório do jornalista de Muzambinho, o homem da Band e do Terceiro Tempo, e fez uma baita entrevista. MN disse loas e boas, tipo “Neymar é odiado”, “Tite já era” e “Felipão é um ingrato”.