Aeroporto mais moderno não resiste à concorrência

Publicação: 11/03/20
Cassiano Arruda

 A explicação conhecida é essa:

- “Com o intuito de separar a aviação civil da militar (o Aeroporto Augusto Severo está contiguo à Base Aérea de Natal), as primeiras desapropriações dos terrenos começaram em 1996. Entre 1997 e 2000, o terreno foi cercado, terraplanado e desmatado. Somente em 2009, o termo de cooperação entre a Infraero e o 1º  Grupamento de Engenharia do Exército foi assinado com o intuito de construção das pistas de pouso, compreendendo ainda as pistas de taxi, infraestrutura, de balizamento e proteção ao voo, sistema de drenagem, pátio de estacionamento de aeronaves, e acesso terrestre dentro do sítio aeroportuário”.

Em 2008, o decreto nº 6.373 incluiu o novo aeroporto de Natal no Programa Nacional de Desestatização.

Mesmo em plena “Nova República” era possível, como está visto, iniciar uma obra do tamanho de um Aeroporto Internacional sem a comunidade saber, a classe política discutir, o Governo do Estado e prefeituras opinarem. Era um projeto de “segurança nacional”, legado dos governos militares.

COMEÇO DA HISTÓRIA
Quando a Latécoère planejou cruzar o atlântico para vir ao Brasil, todos disseram que era impossível. Ele pensava, aliás, em fazer a rota Dakar-Recife, mas Jean Mermoz voou Dakar-Natal, assim como os alemães, italianos, americanos.

A questão é – por que os militares americanos escolheram Natal e não Fortaleza? A diferença é mínima, apenas 3%.  É mais próxima dos EUA; para os hidroaviões do início. E Fortaleza era mais desenvolvida do que Natal. Mas Natal foi a escolhida.

Dois momentos que explicam porque Natal tem a sua história entranhada pela história da aviação. E um terceiro momento começava a se descortinar quando o Estado Maior das Forças Armadas definiu a instalação do “gateway” da América do Sul para os voos vindos da Europa, África e América do Norte.

HORA DE CORRER
Depois de 15 anos de muitos estudos, projetos e pequenas obras iniciadas, eis que a ação quase “clandestina” do governo federal vai para uma das grandes vitrines mundiais: entra para o protocolo das Responsabilidades da Copa do Mundo de 2014. E ainda em 2011 é realizado o Leilão de privatizações na Bolsa de Valores de São Paulo. O primeiro em todo o Brasil, vencido pelo consórcio Inframérica Aeroportos (formado pelo grupo brasileiro Engevix e a argentina Corporacional América) e levou a concessão do aeroporto por 28 anos. O contrato foi assinado coma presença da Presidente da República, Dilma Roussef, em novembro de 2011.

A concessionária começou seu trabalho de acabamento da estação de passageiros em agosto de 2012. Os acessos rodoviários ao aeroporto só foram iniciados em novembro de 2013, já com pressão da Copa do Mundo a se iniciar no ano seguinte

Em dezembro daquele ano, o Exército concluiu as obras sob sua responsabilidade (as pistas para pouso e decolagem com capacidade para os super jumbos) e o aeroporto recebeu o nome de governador Aluízio Alves.

O Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves iniciou as suas atividades em 31 de maio de 2014, enquanto o Augusto Severo, em Parnamirim, era desativado. Duas semanas antes da Copa do Mundo, com o concessionário comprometendo, de acordo com o contrato, mais de R$ 500 milhões na conclusão dos terminais de passageiros e carga.

PREÇO DE SER PIONEIRO
Contrariando uma “tradição brasileira”, o plano de privatização de aeroportos, do governo petista, teve continuidade, inclusive, corrigindo pontos negativos dos primeiros contratos.

A própria Inframérica, conquistou o Aeroporto de Brasília, maior e com maior tráfico, em condições muito mais favoráveis do que o contrato firmado para o Aeroporto de São Gonçalo.

Por aqui ainda houve uma movimentação pelo hub da TAM. O RN se mexeu, se imaginando favorito na disputa do hub da TAM, mas quem conseguiu atrair novos serviços foi o Estado do Ceará.

Ai começaram a aparecer os “defeitos” do nosso Aeroporto, sempre classificado como excelente no mercado. “Muito longe”, “acessos inseguros”... Tudo, “culpa dos políticos”....

E AGORA?
Muito mais que uma reversão de expectativas, a decisão da empresa concessionária de abrir mão do contrato (hipótese prevista no próprio contrato) reflete um acúmulo de problemas que foram se somando, logo do começo, a partir da retirada do sócio brasileiro do consórcio, alcançado pela Lava Jato, o que pode ter influído no equilíbrio empresarial.

Na hora da competição, os nossos vizinhos – e concorrentes – se mostraram muito mais eficientes. Governo, empresários de diferentes segmentos e a própria concessionária, na hora da disputa, ficamos num nível inferior.

Quando chegou a hora da verdade, aquele, que parecia o “mais moderno”, “mais novo”, “o  equipamento aeroportuário do Nordeste”, não conseguiu vencer a concorrência.

A chegada de um novo operador – quem sabe? – pode mudar esse jogo, com a substituição de um player que demonstrou cansaço. E não adianta reclamar, é a competição que assegura a eficiência. E define os vencedores. É assim no esporte e na vida.