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Eólica

Nova indústria, novas

oportunidades:

para quem?

A geração de energia eólica, entre as opções mais baratas para recobrar a competitividade do setor elétrico no Brasil, se vê diante de um gargalo que desafia empresas e instituições de ensino: carências de qualificação profissional no país. Ao mesmo tempo em que sinais de alerta brilham, no entanto, há novas soluções surgindo e uma corrida por conhecimento está em curso.

Renata Moura
Cledivânia Pereira 25/05/2014


A estrada que liga os municípios de João Câmara e Parazinho, no interior do Rio Grande do Norte, tem casas simples, de paredes de barro, e um vendaval de empregos e investimentos gerado por usinas eólicas - que produzem energia com a força do vento.

Desde 2009, o setor acelera não só no estado, mas no Brasil, impulsionado por ventos favoráveis, mercado aquecido e a crise econômica internacional, que contribui para a atração de investimentos e conhecimento estrangeiros.

O resultado é a proliferação de turbinas que transformam vento em energia e, ainda, uma corrida por conhecimento em regiões metropolitanas e cidades longínquas - a exemplo de João Câmara e Parazinho, localizadas a 74Km e a 116Km, respectivamente, de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

O estado é um dos principais geradores de energia eólica e o que mais tem usinas em construção no Brasil, a maioria delas em obras nesses dois municípios.

Até o ano 2018, estima-se que a cadeia produtiva estadual vá precisar de 35 mil trabalhadores e que ao menos 20% do contingente necessário por ano seja de mão de obra especializada de níveis técnico e superior. O percentual é calculado pelo diretor do Instituto Senai de Inovação - Energias Renováveis, que está sendo implantado no Rio Grande do Norte, Wilson da Mata.

“Há necessidade de se promover qualificação de profissionais para atender as necessidades das empresas em suas diversas fases, desde a concepção dos projetos e desenvolvimento tecnológico, passando pela fase de instalação, operação e manutenção”, diz ele.

No Brasil, embora não dimensione a carência no setor, a presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Élbia Melo, reconhece que há déficit de profissionais qualificados, assim como em outras atividades.

Fontes ligadas à cadeia produtiva afirmam que o gargalo tem afetado o ritmo e o custo de implantação de projetos.

E que algumas iniciativas tentam reduzir os impactos. De um lado, empresas investem em programas de formação internos. De outro, instituições públicas e privadas de ensino desenvolvem cursos específicos, mas esbarram em desafios nesse aspecto.

“O número de professores tratando do tema ainda é bastante reduzido”, diz Maria do Carmo Martins Sobral, pós-doutora em Tecnologia Ambiental e membro do Conselho Técnico-Científico de Ensino Superior da Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, vinculada ao Ministério da Educação.

Por ser uma nova modalidade de produção no Brasil, a ênfase no ensino não contemplava a energia dos ventos, acrescenta Hélio Gomes Teixeira, professor que coordenou cursos de especialização em eólica na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em 2012 e 2013. “Mas o desenvolvimento previsto para o setor demandará novos e habilitados profissionais”, enfatiza.

Demandará e muito, segundo a indústria, dada a expansão esperada dessa fonte de energia.

O Brasil tem hoje 4,5 Gigawatts (GW) de capacidade instalada e essa potência deverá triplicar até 2018, com a adição de 9,8 GW, de acordo com a ABEEólica. Para atingir esse nível, a associação estima que a cadeia produtiva terá de investir R$ 44 bilhões - valor superior ao orçamento da usina de Belo Monte, que deverá ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, erguida ao custo de R$ 30 bilhões no Pará. Também será preciso contratar 147 mil trabalhadores no país, incluídos os 35 mil do RN. A projeção é feita a partir da média de empregabilidade no setor, de 15 postos de trabalho a cada Megawatt (MW) de capacidade instalada.

De acordo com a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), até dezembro de 2013, 32 mil trabalhadores já estavam empregados no Brasil. Estudo da agência aponta o país como o segundo que mais emprega na área de energias renováveis, atrás da China. A eólica é o segundo elo que mais emprega na atividade brasileira, atrás da bioenergia.

Qualificação é "ponto crítico"

No mundo, 6,5 milhões de pessoas estão trabalhando direta e indiretamente com energias renováveis e questões relacionadas à educação e treinamento são consideradas “pontos críticos para o emprego no setor” em todas as áreas. Dado o rápido avanço da energia solar e eólica no mundo, o problema é mais acentuado nessas duas indústrias e é nelas que exige maior foco, analisa Rabia Ferroukhi, que encabeça a divisão de Conhecimento, Política e Finanças da IRENA e é o principal autor do relatório.

No que diz respeito às carências de qualificação, o estudo não faz uma análise específica sobre o Brasil, mas o autor avalia que “essa escassez de qualificação é uma consideração importante no planejamento de expansão de uma tecnologia de energia renovável, e que no caso do Brasil não deve ser uma exceção”.

Déficits de competências, segundo Ferroukhi, já estão criando gargalos para a implantação de projetos em alguns países, podendo levar a excesso de custos, atrasos e cancelamentos, além de instalações defeituosas. “As instalações realizadas por pessoal treinado de forma inadequada podem resultar em problemas de desempenho e levar a uma percepção pública negativa de tecnologias de energias renováveis”, acrescenta.

Evidências sugerem, de acordo com Ferroukhi, que os engenheiros e técnicos, em particular, estão em falta para todas as tecnologias de energias renováveis ao redor do mundo. Indicam ainda que a escassez de competências também pode ser vista quando se tenta recrutar profissionais não-técnicos, em áreas como finanças, marketing, educação e administração. Nem os mercados mais maduros na atividade estão livres do problema.

A Associação Europeia de Energia Eólica (EWEA) afirma que a Europa, por exemplo, tem uma carência anual de 7 mil profissionais qualificados para atender a demanda da atividade, um número que pode subir para mais de 15 mil ao ano, até 2030, se o total de graduados fazendo cursos relevantes para a indústria não crescer.

“A falta de qualificação atrapalha. É um complicador grande numa obra dessas. Em vários casos você tem uma situação de retrabalho. Ou seja, um trabalho foi executado e não foi da forma ideal, fugiu do projeto, você então tem que adequar aquilo e às vezes desmanchar e refazer. Isso tem custo”, ressalta, na condição de anonimato, o diretor de uma das empresas que investem em parques eólicos no Rio Grande do Norte.

Pedro: do campo ao parque eólico

Em Parazinho, município que lidera a construção de usinas eólicas no Rio Grande do Norte, o pedreiro e ex-agricultor Pedro Alves de Souza, 35, faz curso de almoxarifado, mas já prepara um passo maior: “Quero fazer curso de eletrotécnica”, diz. A busca por qualificação é inspirada nas oportunidades que “invadiram” o município com os projetos de energia eólica. Pedro, que tem segundo grau completo e curso de informática, já trabalhou em uma fábrica de torres eólicas na cidade. Atuou na área de limpeza e chegou a migrar para o setor de produção. “Agora estou me preparando porque mais parques eólicos virão e quero estar pronto para uma função melhor”, diz. Ele acrescenta: “Hoje, fabricam essas torres mas tem que ter um técnico para cuidar da manutenção delas. É isso o que eu quero. E é importante me profissionalizar porque o que vale não é dizer eu conheço, mas ter um papel para mostrar que estou qualificado”.

Mercado paga o preço da escassez

Salários mais altos para os profissionais habilitados, atração de profissionais estrangeiros e uma maior rotatividade de funcionários nas empresas estão entre as conseqüências da escassez de qualificação profissional na indústria eólica do Brasil, diz Élbia Melo, presidente executiva da ABEEólica.

Engenheiros estão entre os profissionais mais requisitados no setor, mas profissionais especializados nas áreas de desenvolvimento, regulação e meio ambiente, além de técnicos, também estão difíceis de encontrar no mercado. “A demora em conseguir profissionais com estas características é concreta para todas as empresas da área”, afirma o gerente executivo de desenvolvimento e operações da empresa australiana Pacific Hydro, no Brasil, Leandro Ribeiro Alves.

A empresa tem dois parques eólicos em operação na divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba - na cidade de Mataraca - e tem planos de instalar duas novas usinas, em Touros (RN), com investimento de R$ 650 milhões. Os projetos estão inscritos em um leilão federal previsto para junho e se forem bem sucedidos na disputa deverão sair do papel nos próximos anos.

A fase de obras, afirma Alves, demanda profissionais com formação mais básica. O problema de “qualidade” surge mesmo na fase de operação. “É difícil encontrar profissionais até porque há inúmeros parques entrando em operação e, com a demanda, o pessoal começou a valer um pouco peso de ouro”, frisa.

O grupo brasileiro Servtec, que construiu um dos primeiros parques eólicos do Nordeste, no Ceará, também está de olho no mercado. “O problema não é só a falta de profissionais qualificados, mas quanto esses profissionais vão custar”, diz Wilson Melo, diretor de Engenharia do grupo. O problema nos parques eólicos, segundo ele, está em encontrar “a turma que pensa”. “A turma de desenvolvimento, que mexe com o regulatório, com o projeto, é difícil. É uma área nova no Brasil, que está aquecida e em que a competição está acirrada”, diz.

A Servtec tem um plano decenal de projetos que prevê a instalação de 1,4 GW no Brasil, que poderão representar R$ 6 bilhões em investimentos. Cerca de 90% dessa cifra é prevista para os estados da Bahia e do Ceará. Para o Rio Grande do Norte, que deve receber uma fatia de 10%, são previstos dois complexos com cinco parques eólicos, ao custo de aproximadamente R$ 500 milhões.

“De um jeito ou de outro as empresas estão crescendo e conseguindo montar seus times de desenvolvimento e implantação. O mundo está girando, mas está mais caro”, acrescenta o diretor do grupo.

Disputa cresce e salários acompanham

A dificuldade para encontrar profissionais com experiência no setor de energia eólica torna a disputa mais acirrada no mercado e a remuneração mais alta, analisa Fábio Gonçalves, gerente da Michael Page nas áreas de construção e comercial, das regiões Norte e Nordeste.

Especializada em recrutamento de profissionais de média e alta gerência, a empresa afirma que entre 15% e 20% das posições de emprego que recebe no segmento de construção civil já são destinadas ao setor eólico.

A participação dessa indústria na oferta de vagas vem crescendo nos últimos três anos e os salários acompanham esse ritmo. “Os profissionais que atuam na construção de parques eólicos chegam a ganhar entre 20% e 30% acima dos que estão no mercado de construção imobiliária. Outro motivo para isso é que eles trabalham em lugares remotos. Isso faz com que ganhem mais”, explica.

Engenheiros elétricos e mecânicos são os mais requisitados nesse mercado, afirma Raphael Falcão, diretor da Hays, empresa de recrutamento e seleção que também “caça” talentos para a indústria de energia eólica. Além da formação, falar inglês é fundamental, diz ele. “É preciso entender a língua do país onde a tecnologia está. E na grande maioria dos casos a língua escolhida é o inglês. Todas as empresas pedem isso”, frisa.

Prosperidade da área gera migração

As perspectivas oferecidas pela indústria de energia eólica têm levado profissionais de outros segmentos a migrar para a atividade. “Eu vejo a migração de muita gente de outros campos de atuação para a área de eólica. É uma questão de adaptação. Gente que tem certa experiência em energia, mas não na eólica. É mais ou menos o que todo mundo está fazendo”, diz Wilson Melo, da Servtec. Mas esse não é o único tipo de migração percebido nessa indústria.

Empresas do setor não raras vezes “importam” profissionais de outras regiões do Brasil para o Nordeste. A carência de qualificação é mais grave na região, diz o PHD em economia e autor do livro Desigualdades Regionais, Alexandre Rands.

“Todos os indicadores mostram que o nível de educação, de qualificação principalmente da população do Nordeste é pior do que o do Brasil. A região tem uma quantidade de anos de estudo médio da população menor do que a média nacional e das outras regiões, e, além disso, se você pegar, por exemplo, estatísticas de pessoas mais qualificadas, como disponibilidade de engenheiros e médicos, também temos uma proporção menor do que o resto do Brasil”, diz ele.

Isso não quer dizer que inexistam oportunidades para quem é da região, diz Fábio Gonçalves, gerente na empresa de recrutamento Michael Page. A maioria dos profissionais que a empresa seleciona para o mercado de eólicas no Nordeste, no entanto, é oriunda do Sul ou do Sudeste. “Se é uma mera coincidência ou se tem uma questão educacional por trás eu não saberia afirmar”, pondera.

Para a ABEEólica, o fluxo de profissionais de outras regiões do país para o Nordeste “pode ser justificado pela atuação descentralizada de algumas empresas do setor”. Representantes de empresas frisam que é comum enviarem gente da matriz para cargos de gerência, por exemplo.

Alternativa

Importação ajuda a desenvolver setor

A expansão da cadeia produtiva de energia eólica no Brasil também serve de chamariz para profissionais estrangeiros. Nem a ABEEólica nem o Conselho Nacional de Imigração (CNIg), órgão responsável pela política de imigração no Brasil, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego, dimensionam esse movimento. Mas, a ABEEólica confirma que ele existe.

“Entendemos que existem muitos (estrangeiros) trabalhando no Brasil principalmente em função de algumas empresas serem multinacionais e a fonte eólica ser uma tecnologia nova no país, mas a cada dia mais brasileiros estão atuando no setor e acreditamos que a participação hoje seja muito maior em relação aos estrangeiros”, diz a presidente executiva, Élbia Melo.

Parte da atuação de estrangeiros no setor brasileiro, segundo Élbia, é justificada pela necessidade de desenvolvimento das tecnologias estrangeiras nos parques eólicos nacionais e para treinamento dos brasileiros, dada a expertise de outros países na área.

“Como o setor é novo no Brasil, esse know how está lá fora, principalmente na Europa, que é onde estão os fabricantes. E onde estão os fabricantes está a mão de obra especializada em montagem, funcionamento e operação. Essa mão de obra teve, basicamente, de ser importada”, afirma um executivo que atua em parques eólicos do Rio Grande do Norte e que pediu para não ser identificado. “Os fabricantes enviam essa mão de obra para montagem ou coordenação da montagem nos parques. Entre 4% e 5% dos profissionais em alguns parques chegam a ser estrangeiros”, calcula.

De acordo com Fábio Gonçalves, da Michael Page, há muitos profissionais de países como Espanha e Portugal trabalhando no Brasil. “O mercado de eólica na Europa é bem mais antigo, tem muita gente formada e com a crise que a Europa enfrenta muitos desses profissionais migraram para cá”, afirma.

A empresa, segundo ele, não chega a ir buscar esses profissionais no exterior com frequência. “O mercado de eólica está tão bom aqui que alguns deles vêm buscar a oportunidade”, diz. Alguns desses profissionais ainda estão nos países de origem quando se candidatam às vagas. Eles usam ferramentas como o Skype para fazer a entrevista de emprego. Outros já estão no Brasil e buscam uma recolocação.

Para Raphael Falcão, da empresa de recrutamento Hays, a presença de estrangeiros na cadeia produtiva brasileira é temporária. “Hoje, você já encontra bons brasileiros dominando a tecnologia. O Brasil já tem muito parque eólico e know how, apesar do relativo pouco tempo”, analisa.

Brasileiros fazem "intercâmbio"

Ao mesmo tempo em que chegam profissionais de fora para atuar no Brasil, há brasileiros indo buscar conhecimento no exterior. O movimento é visto como natural em empresas multinacionais.

“Eventualmente, enviamos colaboradores das nossas unidades produtivas para a Alemanha. Isso inclui desde pessoal operacional, de fábrica, até o pessoal de nível gerencial. É um movimento comum”, diz o diretor de vendas da Wobben Windpower, Eduardo Lopes. A empresa, de origem alemã, estreou no Brasil em 1995, com uma fábrica de pás eólicas para exportação. O mercado brasileiro ainda não existia nesse segmento e foi preciso formar internamente os colaboradores, estratégia que é mantida até hoje. Um dos pré-requisitos para trabalhar nas unidades de produção da companhia é ter, ao menos, nível técnico. “Pegamos esse profissional, trazemos para dentro e treinamos. Acabamos virando um celeiro de mão de obra”, diz Lopes.

Nos últimos anos, a Wobben incluiu na linha de produção brasileira torres e outras peças para implantação de parques eólicos. Também implantou usinas e passou a oferecer assistência técnica no país. A empresa afirma que não “importa” profissionais. Mas reconhece que o mercado, não só de energia, enfrenta dificuldades para preencher algumas vagas.

Em áreas mais remotas em que instala parques, a necessidade de técnicos, por exemplo, é suprida por profissionais que atuam em cidades próximas. “A ideia sempre foi desenvolver o mercado brasileiro e isso inclui desenvolver as pessoas daqui”, diz o diretor.

Em uma fase também anterior à ebulição no mercado eólico, o grupo Servtec recorreu a técnicos egressos da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) e a recém-formados no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para implantar o primeiro parque. “Juntamos a experiência com a garra e o conhecimento mais atualizado da turma jovem”, relembra o diretor de Engenharia, responsável pela implantação dos empreendimentos do grupo, Wilson Melo.

Josemar: novo mercado e especialização

O engenheiro eletricista Josemar Moreira Dias Júnior, 38, estava em um projeto do setor naval, no Rio de Janeiro, quando foi convidado para um “desafio”: trabalhar com energia eólica no Nordeste. “Vim acompanhar a montagem e o comissionamento (fase em que as máquinas entram em operação) de um parque eólico”, diz. Com 12 anos de experiência profissional e passagens por empresas das áreas de distribuição de energia e eletronuclear, ele desembarcou no Rio Grande do Norte há quase um ano. Nesse intervalo, também voltou à sala de aula em um MBA de petróleo e energias. “Eu já tinha MBA em engenharia econômico-financeira, mas queria saber o que o mercado quer agora. A experiência conta muito, mas experiência somada a um título dá uma oportunidade muito além”. O engenheiro também faz cursos à distância em energia eólica e afirma: “Não pretendo sair do setor enquanto estiver bom em termos de conhecimento”.

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Negócios

Carência vai além do setor de energia

Problemas relacionados à qualificação profissional são vistos como limitadores de crescimento do Brasil e vão muito além do setor de energia. Pesquisas recentes mostram que o país enfrenta deficiências na educação básica, nos ensinos técnico e superior e que isso é considerado um “gargalo” para as diversas atividades produtivas.

“As empresas estão reclamando muito da formação de mão de obra e estão tendo que investir em treinamento para suprir isso”, diz o professor e pesquisador do núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Renato de Sousa.

Uma pesquisa coordenada pelo núcleo – divulgada este ano – mostra que a escassez de profissionais capacitados é a maior dificuldade para contratação de pessoal, de acordo com 83,23% das empresas. Deficiências na formação básica dos candidatos vêm logo em seguida.

Os pesquisadores consultaram 167 empresas de diversos setores, que representam 23% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Representantes de atividades como mineração, construção civil, agronegócio, varejo e energia foram ouvidos e confirmaram a existência de problemas em todas as regiões do país.

Para 66% dos entrevistados, os profissionais de nível técnico são os mais difíceis de contratar – perdendo apenas para a função de compradores, citada por 72%. O percentual relacionado aos técnicos, no entanto, supera o registrado na pesquisa anterior, de 2010, quando a dificuldade para admiti-los foi apontada por 45,38% das empresas. Eles são citados, ainda, como a posição de qualificação mais “precária” entre todas as pesquisadas.

O número de matriculados nesse tipo de curso tem aumentado, mas há um descompasso entre a formação e as necessidades do mercado, segundo o coordenador da pesquisa. “As matrículas na educação profissional passaram de 780 mil, em 2007, para mais de 1,3 milhão em 2012, no país. Você vê que o número aumentou muito, mas como a indústria também está crescendo, essa formação consegue suprir apenas 10,6% da demanda”, calcula. Para ele, está havendo um “desbalanceamento” no mercado. “As pessoas tendem a ir diretamente para a faculdade e pulam uma etapa, que é o curso técnico. Só que o mercado está precisando de muito curso técnico. Foi o que conseguimos comprovar na pesquisa”.

A “Sondagem Especial – Falta de trabalhador qualificado”, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em outubro do ano passado, também chama a atenção para as carências existentes no Brasil. A sondagem, realizada junto a 1.761 empresas, indica que 81% avaliam a baixa qualidade da educação básica como maior barreira para qualificar os empregados. “A reduzida oferta de ensino profissional e deficiências no ensino superior” também são vistas como gargalos que, segundo a CNI, “limitam a capacidade de inovar das empresas e sua produtividade, com impactos sobre a competitividade do país”.

Entre as hipóteses já levantadas para a falta de trabalhador qualificado está a de que conhecimentos e habilidades obtidos pelos trabalhadores na educação formal não atendem ao que os empregadores desejam. Outra possibilidade é a de que a carência de mão de obra qualificada decorra da falta de formação básica geral.

Não é só a formação convencional que as empresas buscam. “As empresas estão procurando um perfil de profissional que mudou muito. Se você pegar, por exemplo, a profissão mais complicada de encontrar hoje é a de comprador. O comprador tem uma função estratégica na redução de custos de uma empresa, mas a empresa não precisa de um simples comprador. Ela precisa de um executivo que tome decisões. No caso dos técnicos não é diferente. Muitas vezes ele pode ter feito um excelente curso, mas muitas vezes não tem capacidade de lidar em equipe. Então você vê que é um casamento de coisas. Não basta só ser um excelente técnico. Tem que ter também características extracurriculares que fazem com que ele seja demandado no mercado”, observa Paulo Renato de Sousa, da Fundação Dom Cabral.

Formação é chave na indústria eólica

Na área de energia eólica, o desenvolvimento de engenheiros e técnicos voltados para a atividade poderá tornar a área cada vez mais perene e não uma moda, uma coisa passageira, diz o diretor de Engenharia da Servtec, Wilson Melo. “Esse desenvolvimento também é importante porque vai barateando o custo de implantação dos projetos”, analisa.

É crescente o número de profissionais atentos às necessidades dessa indústria. Em meio a eles, estão o cearense Francisco Fabiano Castro e os paraibanos Mailton Fernandes da Silva e Anderson Andrade. Os três abriram as portas do setor eólico usando como chave cursos técnicos em eletrotécnica. Hoje, são operadores de parque eólico.

Francisco Fabiano, por exemplo, era assistente técnico na área de informática, estudava pedagogia e pretendia dar aulas a crianças até a 5ª série. Mudou de idéia ao ver o trabalho do cunhado que já atuava no setor eólico. “Vi que o mercado estava crescendo”, afirma.

Anderson, por sua vez, trabalhava em uma usina sucroalcooleira no Rio Grande do Norte e não pensou duas vezes quando surgiu a vaga em eólica. “Não queria atuar no setor de alimentos. Meu foco sempre foi a área de geração e sempre quis atuar com produção de energia sustentável”. Com o curso técnico concluído, ele pretende agora estudar engenharia de automação. “O profissional que não se qualifica fica para trás e eu não pretendo mudar de setor tão cedo”.

Mailton, o mais “antigo” dos três no parque eólico em que atuam, na cidade de Mataraca (PB), entrou no empreendimento como motorista, ainda na fase de obras, mas queria abocanhar uma vaga fixa após a construção. Foi aí que decidiu apostar no curso de eletrotécnica. Ele era o único profissional do município com o certificado. “Comecei a me qualificar para um dia poder concorrer a uma vaga na empresa. Fiz vários cursos para poder me adequar”, afirma.

Mailton também tem cursos de eletricista, brigadista e socorrista. Antes de entrar no parque eólico, ele trabalhou em uma mineradora na Paraíba. “Mas aqui, no setor eólico, eu estou vivenciando uma coisa maior e tenho uma visão mais ampla do mercado. O setor eólico é novo na Paraíba, mas no Rio Grande do Norte, no Ceará e na Bahia está crescendo. E tem um leque de oportunidades não só para mim. Já tenho muitos amigos fazendo o curso técnico pensando em um dia trabalhar nessa atividade”, diz o operador.

Kaline: expandindo horizontes

Kaline Fernandes de Souza, 20, nasceu e cresceu em João Câmara (RN), onde a agricultura e o comércio são as principais opções de emprego, mas não são as áreas que ela pretende seguir. “Quero me especializar em energia solar, mas também vejo oportunidades na energia eólica”, diz. Para tentar carreira no setor, Kaline aposta em um curso de tecnólogo em Energias Renováveis que funciona desde 2012 no município – um dos polos que mais atraem investimentos em energia no RN. A expansão do setor pesou, mas não foi o único chamariz para a estudante. “O curso me atrai porque mostra o desenvolvimento de novas tecnologias e o salário no mercado também é bastante atrativo”, diz. Enquanto se debruça sobre a área, Kaline também faz licenciatura em geografia, em um curso à distância. A mãe, que estudou até a 5ª série, incentiva a qualificação da filha. “Ela tenta me oferecer o que não conseguiu”, diz Kaline.

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Qualificação

Academia e indústria buscam sintonia

Qualificação, requalificação, especialização... Essas palavras estão entre as mais citadas, hoje, em qualquer discussão que envolva a expansão e implantação de projetos de energia eólica no Brasil. O desafio é grande: o mercado sofre com a falta de pessoal qualificado para desenvolver os projetos e a academia e institutos de formação de mão de obra tentam se adaptar para garantir quantidade e qualidade no ensino nessa área nova e ainda pouco explorada no Brasil.

“Na verdade, temos que reconhecer... é uma área muito nova. Mas, tenho certeza que a academia vai dar a resposta esperada ao mercado”, diz o professor aposentado da UFRN, Wilson da Mata, que agora trabalha com o desafio de implantar no Rio Grande do Norte o Instituto Senai de Inovação – Energias Renováveis, que será o único entre os 25 que estão sendo criados pelo 'Sistema S' para desenvolver pesquisas e impulsionar a formação de mão de obra especializada para o setor. “Há um fosso entre as áreas acadêmicas e a indústria em geral no Brasil. Mas vamos trabalhar forte para encurtar essas distâncias e ajudar a formar o profissional e pesquisador que o setor merece”, afirma, otimista.

A expansão acadêmica voltada para a área de energias renováveis está longe de acompanhar a dinâmica do setor no Brasil. Hoje, segundo dados do site do Ministério da Educação, há apenas 12 cursos de graduação específicos para a área de energia eólica. Maria do Carmo Martins Sobral, pós-doutora em Tecnologia Ambiental, professora da UFPE e membro da Capes, reconhece o desafio da academia para atender essa demanda de profissionais e afirma que “as ações ainda têm se restringido às áreas das engenharias”.

Wilson da Mata ressalta que as mudanças curriculares de universidades não ocorrem na mesma velocidade que as transformações do mercado. “É assim em qualquer área... Educação não é uma produção em série. Mas, o importante é que a academia consiga acelerar a resposta para os setores importantes da economia. E esse processo - para as energias renováveis - tende a acelerar muito de agora em diante”, argumenta ele, que foi um dos responsáveis pela implantação do curso de Engenharia do Petróleo, dentro da UFRN. O professor, que também é engenheiro aposentado da Petrobras, compara a preparação da academia para atender a demanda das eólicas à que ocorreu para a indústria do petróleo entre os anos 80 e 90.

Esse descompasso entre a velocidade de crescimento econômico e qualificação de especialistas não chega a impedir o desenvolvimento da industria eólica, mas atrasa e encarece projetos. O diretor executivo da BioConsultants, Hugo Alexandre, afirma que praticamente 'forma' todos os seus profissionais. A consultoria atua no licenciamento de projetos eólicos em cinco estados (RN, CE, PE, PI e BA) e tem hoje cerca de 50 funcionários (entre fixos e temporários). São profissionais como biólogos, arqueólogos, geógrafos, geólogos, engenheiros e administradores que receberam das universidades pouca qualificação específica para a área que hoje atuam. “Os alunos saem das faculdades sem a mínima condição de atuar no mercado de trabalho. Os alunos são formados para o meio acadêmico, não para o mercado. Essa cultura precisa mudar para ajudar o país a se desenvolver”, analisa Hugo Alexandre.

O tecnólogo em Petróleo e Gás, Luciano Medeiros, corrobora com essa opinião: “O que aprendi na área de eólica, aprendi na marra, aprendi fazendo, já atuando no mercado”, revela. Luciano hoje faz uma especialização em Petróleo e Energias Renováveis e atua na BioConsultantes como gerente de logística. Entrou na empresa como estagiário e já recebeu diversas promoções na empresa. Mesmo confirmando a pouca noção de prática profissional adquirida na academia, ele ressalta: “A universidade nos dá a chave... mas é preciso saber qual porta abrir no mercado de trabalho”.

John: aprendendo para ensinar

Mão de obra especializada para trabalhar na indústria de energia eólica é escassa. Mão de obra especializada para formar mão de obra especializada é mais rara ainda no Brasil. E foi observando esse novo campo de atuação, que o já engenheiro mecânico, especialista em petróleo e gás e com doutorado em materiais composto, o peruano John Edward Neira Villena enveredou pela área de energias renováveis. “Vi uma ótima oportunidade de seguir carreira acadêmica nessa área. E fiz a pós-graduação em eólica e logo que conclui o curso, migrei da área acadêmica de petróleo e gás”, explicou. Após a especialização, John foi enviado pelo CTGAS-ER para um intercâmbio na Alemanha, para aprofundar conhecimento na área de eólica. Próximo mês de julho, o peruano está deixando Natal para coordenar a área de tecnologia de automação no Senai de Goiás. “Minha família está lá, daí a escolha. Mas vou continuar na área acadêmica de eólica, com cursos à distância do CTGAS-ER”, concluiu.

Pesquisas ainda engatinham

Um dos mais festejado programas educacionais do Governo Federal – o Ciência Sem Fronteiras – pode demostrar o vácuo existente no Brasil na formação de mão de obra e desenvolvimento de pesquisa para a área de energias renováveis. Dados publicados no site do programa revelam que das mais de 50 mil bolsas de graduação e pós-graduação que já foram liberadas para estudantes universitários, apenas 1,2% (630 bolsas) são para pesquisas nessa área.

Quando se analisa esses dados levando em consideração os estados com maior potencial para a indústria de eólica, a situação é ainda mais preocupante. O Rio Grande do Norte, por exemplo, se reveza com o Ceará na liderança de produção desse tipo de energia, mas não conta com potencial parecido no ranking dos que mais pesquisam o setor. Das 630 bolsas distribuídas para a área no País, apenas sete (7) foram para estudantes potiguares. Isso representam menos de 0,6% do total de bolsas distribuídas nas universidades potiguares.

O professor Wilson da Mata acredita que essa falta de sintonia entre mercado e pesquisa tende a diminuir na área de energias, especialmente em eólica. Ele explica, inclusive, que será estudada a necessidade de criação de um novo curso de graduação específico para energias renováveis na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O objetivo seria, não só formar especialistas no setor, mas estimular a iniciação científica.

A preocupação inicial, segundo o professor, será o de fortalecer as disciplinas da área dentro dos demais cursos de engenharia para tentar atrair mais estudantes para o setor. “Mas se isso atrapalhar o desenvolvimento das pesquisas e formação de especialistas aguardados para o setor, vamos requerer a criação do novo curso. A graduação é a porta de entrada para a pesquisa e formação de mão de obra qualificada”, explicou.

O Ciência Sem Fronteiras foi implantado em 2011 e tem como objetivo oportunizar que estudantes de graduação e pós-graduação de universidades publicas brasileiras tenham experiências de formação e pesquisa em diversas escolas do mundo. A área tecnológica – o gargalo do desenvolvimento industrial do País – é desde sempre uma das prioridades do programa que lista entre as suas cinco missões a de “ampliar o conhecimento inovador de pessoal das indústrias tecnológicas”.

A pós-doutora em Tecnologia Ambiental e professora da UFPE, Maria do Carmo Martins Sobral, lembra que a importância do programa vai muito além da formação de pesquisadores. Ela destaca o papel fundamental da experiência para a “capacitação internacional dos docentes, garantindo a consolidação e a expansão da ciência e tecnologia, da inovação em áreas prioritárias”, completa.

RN terá centro de inovação

O Rio Grande do Norte será o centro de pesquisa e inovação na área de energias renováveis no Brasil. Esse é o objetivo do Instituto Senai de Inovação – Energias Renováveis (ISI-ER) que, depois de passar dois anos engavetado, está saindo do papel. O projeto está sendo orientado por duas consultorias internacionais: Fraunhofer (Alemanha) e MIT (EUA).

A expectativa é que até o final de julho próximo seja firmado financiamento com o BNDES para liberação dos R$ 27 milhões necessários para a construção do prédio de 4 mil metros quadrados de área e aquisição dos equipamentos dos primeiros laboratórios.

O diretor do ISI-ER, o doutor em energia e professor aposentado da UFRN, Wilson da Mata, explica que o objetivo principal do projeto é intermediar a relação entre indústria e pesquisa visando otimizar e acelerar soluções para o desenvolvimento do setor no Brasil. “Vamos encurtar a distância entre o que o Brasil precisa e o que existe. Assim, podemos acelerar o desenvolvimento industrial do País”.

O ISI-ER faz parte do programa de Melhoria da Competitividade implantado pelo Senai. A intenção é implantar 25 estruturas semelhantes em diversos estados brasileiros para alavancar e ultrapassar os gargalos que impedem maior celeridade de crescimento do setor produtivo do País. O do RN, que será instalado na Escola Agrícola de Jundiaí, através da parceria entre a Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (que administra o 'Sistema S' no Estado) e a UFRN, é o único do país com foco em energias renováveis.

O presidente da Fiern, Amaro Sales, ressalta que os ISIs visam, em especial, desenvolvimento de pesquisa aplicada para setores pré-competitivos a partir de uma atuação como elo entre instituições de pesquisa e o setor produtivo. “Para isso, esses institutos assumirão participação ativa em fases intermediárias do desenvolvimento de inovações, principalmente na validação tecnológica do conhecimento gerado em instituições de pesquisa, no desenvolvimento de protótipos e na definição de produtos. Serão centros de excelência, dotados do que há de mais moderno no mundo e se posicionarão como referência nas suas áreas de atuação", detalha.

A implantação será feita em 30 meses, após assinatura do contrato. O projeto prevê um quadro fixo de 20 pesquisadores da área de energia, com ênfase para o setor eólico e solar.

“Vamos contribuir para a atração de empresas e indústrias que possam consolidar uma cadeia produtiva em volta – inicialmente – da energia eólica, e em um segundo momento, da solar e demais energias”, explica o diretor do ISI-ER.

A falta de especialistas na área de energia é apontado como um gargalo para a consolidação do projeto, mas Wilson da Mata argumenta que já há uma estratégia para vencer o problema. Em paralelo à construção, a equipe do ISI-ER vai fomentar a expansão da pesquisa em energias renováveis na UFRN e outras universidades do País para atrair e extrair desses grupos os nomes que formarão o 'time' de pesquisadores fixos da instituição. “Também não descartamos a captação de pesquisadores de outros países que tenham maior experiência no setor. Mas, em cinco ou 10 anos seremos um instituto de médio porte e auto suficiente em pesquisa e formação. Essa é a nossa meta”, concluiu o diretor.

Aldemir: em busca de oportunidade

Há sete anos Aldemir chegou a Natal vindo do Amazonas. De tanto passar em frente ao prédio de uma escola técnica, ele quis saber o que poderia estudar no local: “descobri o mundo do gás e decidi: essa vai ser a minha profissão”. Após o primeiro curso técnico na área de gás natural, ele concorreu mais de 500 alunos e conseguiu uma das vagas de especialização técnica em energia eólica. A volta aos estudos despertou um desejo antigo: fazer graduação na área de petróleo. O curso está em andamento e Aldemir também já está enveredando para a área de pesquisa. “Desenvolvi um projeto de um microgerador que recebeu menção honrosa na faculdade. Embora haja todo esse interesse pela área e da qualificação que tem buscado nos últimos anos, Aldemir ainda não conseguiu vaga no mercado de trabalho das eólicas. “Todas as empresas perguntam: você tem experiência? Não, tenho qualificação”. Mas ele diz que não vai desistir. “Serei um profissional dessa área. Quero isso, estudo para isso e vou conseguir”.

O desafio de capacitar formadores

O deficit de trabalhadores para a indústria eólica atinge todos os níveis de formação. A maior demanda está para os profissionais do nível médio. Desde 2011 o Governo Federal criou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), com o objetivo de ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica.

Das dezenas de cursos ofertados, um é específico para a área (Técnico em Sistemas de Energia Renovável). Uma turma desse curso será iniciada próximo dia 2 de junho, no CTGAS-ER, que tem como meta se transformar em referência nacional e internacional na formação de mão de obra na área de energias renováveis, com ênfase para a indústria eólica.

Para isso a escola vem tentando ultrapassar um dos maiores desafios desse setor de formação: encontrar professores com conhecimento específico. “Como a área é nova, temos que capacitar, também, os professores para esse setor bastante específico e ainda novo em nossa indústria. E como esse mercado tem pressa, precisamos oferecer essa capacitação em paralelo à formação de mão de obra”, explica a diretora Executiva do CTGAS-ER, Cândida Amália Aragão de Lima.

Para tentar expandir o conhecimento no setor eólico e capacitar os formadores, o CTGAS-ER enviou professores especialistas para aperfeiçoamento na Alemanha. “Temos pressa em conhecimento; o setor tem pressa em mão de obra. Não podemos formar professores e só depois formar mão de obra para a indústria. Estamos fazendo isso em paralelo”, ressaltou Cândida.

O CTGAS-ER forma Comitês Técnicos Setoriais que guiam o planejamento de abertura, expansão ou manutenção de cursos na grade curricular. Desses grupos, participam representantes pedagógicos da escola, do setor industrial, da academia e de instituições representativas de cada setor. Segundo a diretora, o centro segue a demanda do mercado. “Nós existimos em razão da necessidade de mão de obra e tecnologia especializada da indústria”.

O centro oferece cursos técnicos presenciais e à distância voltados para a área de energia eólica. Mas também já formou uma turma de pós-graduação (Especialização lato sensu em energia eólica) com quarenta alunos graduados em Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Civil e área afins.

Dessa turma, inclusive, saiu um dos professores que atuam na área. O peruano John Edward Neira Villena, que já tinha mestrado e doutorado na área de Petróleo e Gás e Materiais Compostos, fez a pós no CTGAS-ER e migrou para o departamento de eólica dentro da escola.

“É uma área promissora, especialmente para a quem quer seguir carreira acadêmica”, analisa o professor. Poucos dias após conceder essa entrevista (final de abril/2014) John Edward aceitou um convite para gerenciar a área tecnológica do Senai em Goiás. Lá, não vai trabalhar diretamente com cursos do setor eólico: “Mas vou continuar como professor da área aqui no CTGAS-ER com os cursos à distância”, detalha.

Luciano: prática e academia

A vontade de conciliar a vida profissional com viagens levou Luciano Fagner (31) a ingressar na faculdade de Tecnologia em Petróleo e Gás. Achava que a área iria permitir muitas viagens. “Ledo engano”, diz. Antes de terminar a graduação, aceitou participar de estágio não-remunerado em uma consultoria ambiental. “Não sabia o que empresa ia querer de mim, mas estava disposto a aprender”. Dois meses depois, o estágio se transformou em emprego efetivo e hoje Luciano é coordenador de logística da empresa que trabalha quase exclusivamente com a liberação ambiental para parques eólicos em cinco estados do Nordeste. Ele conseguiu essa função porque conhece todos os processos que envolvem a instalação desse tipo de empresa (desde o projeto até a entrada em operação). Hoje ele faz pós-graduação em energia e petróleo. “O que sei hoje da área de eólica eu aprendi em campo... na marra. A graduação nos dá a chave, mas é preciso saber abrir a porta certa”, conclui.

Poucos cursos, grandes perspectivas

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que acompanha o desenvolvimento dos cursos de pós graduação stricto senso (mestrados e doutorados) não possui m levantamento específico da área de Energias Renováveis. A informação mais detalhada que possui é a de que 696 discentes receberam títulos em cursos de mestrado e doutorado em Ciências Ambientais e outros 2.676 estavam matriculados nos cursos, até o ano 2012. É nessa área (Ciências Ambientais) que estão relacionadas pesquisas na área de eólica. Pelos dados encontrados no site da Capes, hoje existem 88 cursos dessa área ativos nas universidades brasileiras.

Já os cursos de especialização e MBA, não são acompanhados diretamente pelo MEC. Segundo informações da assessoria de imprensa da Secretaria de Educação Superior, os cursos de pós-graduação lato sensu independem de autorização do MEC, mas só podem ser oferecidos por instituições cadastradas no Mistério.

Em Natal, pelo menos dois cursos de especialização em energias renováveis estão em andamento em universidades particulares: na UnP e Estácio de Sá Segundo a doutora em Química Izangela de Andrade, que coordena o curso na Estácio de Sá, a área acadêmica de eólica está em expansão e é promissora. “Primeiramente faz-se uma pesquisa de mercado. Existindo absorção dos profissionais pelo mercado o curso é indicado para abertura”, explica. E foi isso que ocorreu com a área de energias renováveis dentro da Faculdade, que também conta com cadeiras específicas da área em outros cursos de graduação, como nas Engenharias e de Petróleo e Gás.

Em todo o Brasil, há apenas 12 cursos de graduação voltados especificamente para a área de Energias Renováveis, segundo dados do portal do Ministério da Educação. Um desses está sendo oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN, no município de João Câmara (79 km de Natal) – que é beneficiado pela indústria eólica.

O curso Tecnologia em Energias Renováveis foi criado em 2012 e tem duração de três anos. Quando foi aberto, apresentou concorrência de 10 candidatos por vaga, uma das maiores entre os IFRNs. O professor Gênesson Batista Carneiro, coordenador interino, explica que o curso foi implantado devido a carência de técnicos para as empresas que estavam se instalando na região.

“Sempre que se vai montar um curso no IFRN há uma audiência pública para discutir essa implantação com a comunidade escolar. Há uma votação, inclusive, entre as prioridades". Anualmente, são oferecidas 40 vagas. “A procura tem sido bem grande devido ao crescimento das eólicas e atraído alunos e várias outras cidades da região, e até de Natal”, diz.

Quando formados, os alunos saem com conhecimentos na área das energias renováveis, principalmente no campo das energias eólica, hidráulica, térmica e energia solar.

Futuro

Diversidade e custo menor

A China, Estados Unidos e Alemanha possuíam em dezembro de 2012 mais da metade da capacidade instalada na produção de energia elétrica. Mas a expansão dessa alternativa energética está migrando para mercados emergentes da Ásia e América Latina: em 2012, o Brasil liderou o ranking mundial de ampliação da capacidade instalada de produção de eólica.

Segundo dados do relatório anual de energias renováveis (REN21_Global Status Report 2013), o País apresentou taxa de crescimento de 66% na produção de energia eólica. Hoje, esse número já chega a 4,5 GW e deve triplicar até 2018.

Mas, no Brasil, a indústria ainda é relativamente nova e tem a maior concentração de investimentos no Nordeste. O desenvolvimento do setor no mercado brasileiro pode ser dividido em duas fases principais.

A primeira é a fase Proinfa, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, criado no âmbito do Ministério de Minas e Energia em 2002 para aumentar a participação da energia elétrica produzida por fontes eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (PCH) no Sistema Elétrico Interligado Nacional.

“O Brasil tinha instalado menos do que 30 MW até 2004, quando começou-se a implantar os projetos do Proinfa”, diz o diretor de vendas da Wobben Windpower, Eduardo Lopes.

A empresa, de origem alemã, fincou bandeira no Brasil bem antes dessa época, em 1995. Na ocasião, implantou na cidade de Sorocaba (SP) uma fábrica de pás eólicas para exportação. “Não havia um mercado no Brasil. Os trabalhadores foram formados pela empresa”, diz.

Entre os anos 2004 e 2006 a Wobben implantou dois parques eólicos no país, um deles no Rio Grande do Norte. A virada do setor ocorreria pouco tempo depois, a partir de 2009, quando a fonte eólica entrou fortemente nos leilões federais de energia – um sistema que garante mercado de longo prazo à produção e tem ajudado a tirar do papel uma série de usinas.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), o crescimento da indústria eólica no Brasil é resultado da combinação de alguns fatores. O primeiro é natural: o País possui um dos melhores ventos do mundo para a geração desse tipo de energia.

Esse cenário natural atrai os demais requisitos: preços competitivos; demanda crescente de energia e necessidade em diversificar a matriz de geração. Essa é a análise Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), que inclui, inclusive, a crise econômica internacional como um dos pontos que atraem para o Brasil os investimentos e conhecimento estrangeiros para essa área.

O setor de energia eólica também cresce impulsionado pela oferta de crédito em instituições nacionais e internacionais. O Banco do Nordeste foi um dos grandes financiadores da estruturação da atividade até 2011, ano em que o governo federal decidiu concentrar os empréstimos no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

As eólicas, são hoje, na instituição, um dos principais alvos de investimento. Divulgada na quinta-feira passada (22), a perspectiva de investimento para o setor elétrico brasileiro no período que vai de 2014 a 2017 é de R$ 191,7 bilhões, no banco, sendo a maior parte em geração hidrelétrica, com R$ 54,5 bilhões. Os complexos eólicos são o segundo destaque em porte de investimentos, com R$ 43 bilhões. Transmissão de energia elétrica vem em terceiro, com estimativas de investimentos de R$ 37,6 bilhões.

Alternativa em momento de crise

O futuro do setor eólico é promissor. De acordo o Plano Decenal de Energia (PDE), divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), como projeção para o ano de 2022, a fonte eólica terá 17GW de Capacidade Instalada, o que representará uma participação de 9,5% na matriz elétrica brasileira, ou seja, mais de três vezes o percentual de hoje (2,3%).

Especialistas apontam que essa expansão tem como uma das consequências o barateamento da energia distribuída no País. Com uma matriz energética mais diversificada, em período de chuvas escassas – como o que o Brasil enfrenta atualmente – a indústria eólica compensaria a queda na produção das hidrelétricas e conseguiria manter os preços do serviço.

O produto das eólicas é o segundo mais barato entre as fontes produtoras de energia no País. Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica - de outubro de 2013 - mostravam que o MW/h da hidrelétrica era R$ 121,44 e o da eólica era R$ 136,26. Bem abaixo de outras fontes como: bagaço de cana (R$ 177,46), carvão (R$ 179,66), óleo combustível (R$ 186,62) e óleo diesel (R$ 201,36).

E a alta nos preços de energia no Brasil tem assustado não só os consumidores domésticos, mas – especialmente - a indústria, que vem reclamando constantemente do peso cada vez maior da energia no processo produtivo.

Em audiência realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), no início de maio deste ano, para debater o setor elétrico do País, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, defendeu a busca de soluções que possam baratear a energia vendida no Brasil. “A crise atual torna evidente a necessidade de introduzir novos aperfeiçoamentos no modelo institucional do setor”, afirmou.

Entre cinco propostas apresentadas pela indústria para baratear o serviço, estava diversificação da matriz energética (hoje dependente em 63% do setor hidrelétrico). E é essa uma das principais vantagens da eólica no Brasil: a fonte é a segunda mais competitiva, perdendo apenas para hídrica.

No início de maio deste ano, estudo do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) apontou que o custo médio da energia elétrica para a indústria saltou 17%, em um ano.

Em 16 de maio próximo passado a Firjan divulgou levantamento sobre a tendência de aumento do valor do serviço para a indústria e estima que o custo da energia elétrica para as indústrias brasileiras no mercado cativo pode chegar a R$ 420,20 por MWh ao final de 2015, caso o reajuste médio de 17,1% (já aplicado em algumas distribuidoras do País) se mantenha neste ano para as 41 distribuidoras que ainda terão seus reajustes aprovados e se repita no ano que vem.

Na comparação com janeiro de 2013 - quando foi concedido o desconto através da MP 579 e o valor era de R$ 263 por MWh - o aumento será de 60%. Caso a projeção se confirme e todas as outras variáveis se mantenham constantes, em 2015 o Brasil subirá para a 4ª posição em ranking de maior custo de energia, atrás apenas da Índia (R$ 596,96), Itália (R$ 536,14) e Singapura (R$ 459,38). Hoje, o país ocupa a 11ª posição. Os dados são do estudo “Perspectivas do custo da energia elétrica para a indústria no Brasil em 2014 e 2015”.

As oportunidades da indústria

Segundo dados do estudo “A indústria do ventos e o Rio Grande do Norte” divulgado em 2013 e elaborado pelo presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia – CERNE, Jean-Paul Prates, 86 países possuem usinas eólicas comerciais, sendo que 22 deles são capazes de gerar pelo menos 1 GW.

Até 2005, a Alemanha liderava o ranking dos países produtores de fonte eólica. Em 2008 foi ultrapassada pelos EUA, mas desde 2010 a China já é o maior produtor de energia eólica do planeta. Já o país com maior participação de fonte eólica em matriz energética nacional (30%) era a Dinamarca.

Entre os países da América do Sul, o Brasil emergiu como o mercado mais promissor para o desenvolvimento da energia eólica. E o Nordeste é a região do país com maior potencial. Os parques eólicos estão permitindo que essa região - antes eminentemente importadoras de energia - passe a ser potencial exportador de energia.

E dentro do Nordeste, o Rio Grande do Norte e o Ceará se revezam na liderança do ranking de potencia instalada no Brasil. O RN é um dos cinco estados brasileiros com maior potencial de geração de energia elétrica utilizando a força dos ventos, e poderá atingir os 7GW de capacidade geradora eólica instalada em 2016, o equivalente a 50% do que produz atualmente a maior hidrelétrica brasileira, a usina de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR).

O analista do IBGE/RN, Ivanilton Passos de Oliveira, avalia que o expansão do setor eólico no Estado é uma oportunidade de desenvolvimento da economia local que é baseada na indústria tradicional, com baixo poder de geração de riquezas e empregos. “O Estado sofre com a falta de infraestrutura e de mão de obra. Essas sãos duas barreiras que dificultam a atração de investimentos de maior porte para o Estado”, analisa.

Ivanilton Passos lembra que a indústria de eólicas é uma oportunidade também para a expansão do mercado de trabalho e de valor de salários no Estado. “Aqui no Rio Grande do Norte, a população trabalha na administração pública, serviços (especialmente turismo) e comércio. É muito importante para a economia do Rio Grande do Norte o surgimento de novas fronteiras de emprego”, detalha.

O analista do IBGE destaca que é importante a academia e as escolas técnicas reforçarem suas estruturas para essa nova área, para que não ocorra com o setor eólico o mesmo que ocorreu com a indústria do petróleo, aqui no Estado. “Sem uma boa qualificação, as melhores vagas de trabalho ficavam para profissionais de fora do Estado. Um exemplo: no município de Macau – que é produtor de petróleo – não existe qualificação para a área”, exemplificou.

O diretor do ISI-ER, Wilson da Mata, também concorda com as possibilidades de expansão econômica que a nova indústria dos ventos traz para o Rio Grande do Norte, mas alerta: “É preciso, nesse momento, que haja decisão política das autoridades para dar as condições necessárias para que essa indústria – hoje atraída por um potencial de recursos naturais – não seja afastada por questões de infraestrutura e burocracia”, ressaltou.

A Governadora Rosalba Ciarlini reconhece a importância do setor para a economia do Estado. “O Governo atua como um grande parceiro dos investidores do setor para garantir agilidade no processo de implantação e resolver qualquer entrave que possa surgir”, afirmou ela no início de maio, quando o Estado atingiu 1 GW de capacidade de geração.