F a s c í c u l o   1 4
Dias Gomes e Janete Clair: o sucesso apesar das diferenças

Certa vez, quando lhe perguntaram se Dias Gomes podia ser considerado o melhor dramaturgo do Brasil, Nelson Rodrigues - ele sim, detentor do título - disse que isso era impossível, pois o rival não era o melhor "nem na casa dele". A provocação não deixava de ser elogiosa: referia-se à inevitável comparação entre Alfredo Dias Gomes e sua mulher Janete Clair, casal que, apesar das diferenças de estilo e de nunca ter feito uma novela em parceria, escreveu a quatro mãos boa parte da história do gênero.

Dias Gomes tinha formação mais intelectual e ambições à alta literatura: era autor teatral de sucesso antes de escrever radionovelas e telenovelas para a Globo. Janete começara a vida no rádio, como atriz e autora, antes de se tornar a "maga das oito" da Globo, adorada pelo público. Responsável por uma fieira de sucessos - como "Irmãos coragem" e "Selva de pedra" - e por bordões como "Quem matou Salomão Ayala?", de "O astro", Janete fez brilhantemente a transposição da radionovela para a TV. A falta de pudor com que lançava mão de recursos popularescos era criticada por intelectuais: diziam que ela açucarava as tramas, ajudando a alienar a população nos anos da ditadura. Carinhosamente chamada de "usineira de sonhos" por Carlos Drummond de Andrade, Janete se defendia: "É pecado você dar uma distração ao povo brasileiro? A vida já é tão dura, a gente já luta tanto. Com exceção da novela, o resto é tudo ruim. Então vamos alegrar povo".

Dias Gomes conseguiu a proeza de manter uma linha coerente entre seu trabalho dito "erudito" e o televisivo. Ele havia escrito, no início dos anos 60, "O pagador de promessas", sucesso teatral que, transformado em filme por Anselmo Duarte, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Filiado ao Partido Comunista, transpôs para a tela da Globo, em "O bem-amado" (1973) e "Saramandaia" (1976), um nítido tom de crítica social e política - tanto que "Roque Santeiro", vetada pela censura em 1975, só iria ao ar dez anos depois.

Nem tudo eram diferenças. Havia colaboração também. Quando Janete estreou na Globo, com a incumbência de salvar a trama inflacionada de "Anastácia, a mulher sem destino", Dias ajudou-a a criar um terremoto na novela, matando 35 personagens. "Pecado capital", a novela mais realista da autora, também teve a influência confessa do marido. Por seu lado, ele foi aprimorando uma facilidade de comunicação com o povo que era a marca principal da esposa. O par romântico da teledramaturgia se desfez em 1983, com a morte de Janete. Dias Gomes morreu em 1999.


p r i n c i p a l