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Com o Modernismo, os supostos defeitos da nacionalidade viraram grandes trunfos

A consciência sobre o caráter periférico e dependente da cultura brasileira no cenário internacional - tão periférico e dependente quanto o modelo econômico do país - surgiu lentamente. Só com a Independência e a emergência do Romantismo, na primeira metade do século XIX, a busca de uma estética genuinamente nacional se tornou um programa. Antes disso, houve artistas que criaram expressões originais a partir do processamento de influências européias - como o escultor Aleijadinho e o cantador Lereno, ambos no século XVIII, por exemplo - mas o reconhecimento do gênio ali expresso se daria apenas de forma retrospectiva. Uma vez conquistada a independência política, o Brasil passava a perseguir a cultural.

A idealizada visão dos índios que povoou o imaginário romântico - os nativos seriam os depositários da verdadeira "brasilidade" - era ingênua demais, mas inaugurou uma nova era. A angustiosa busca de uma originalidade capaz de nos dar relevância internacional ficou marcada como uma invenção do século passado. O crítico literário Sílvio Romero a registrou em 1897, ao definir amargamente seus compatriotas como "fantasistas, capazes de imitar, porém organicamente impróprios para criar, para inventar (...)". O curioso é que o discurso pessimista de Romero era um ataque - equivocado - a Machado de Assis, como se o irônico comentário sobre a cultura ocidental feito pelo romancista carioca fosse um exemplo de servilismo intelectual.

Seria preciso aguardar até o século XX para que surgissem visões mais construtivas da singularidade brasileira. Com a Semana de Arte Moderna (1922) e a publicação de "Casa-grande e senzala" (1933), de Gilberto Freyre, deu-se uma inversão: os supostos defeitos congênitos da nacionalidade viraram trunfos - no caso do Modernismo, por meio da teoria antropofágica de Oswald de Andrade, que nos julgava capazes de aproveitar os avanços culturais da Europa sem lhe importar os vícios burgueses; no caso de Freyre, pela valorização da cultura negra e da miscigenação como traços constitutivos da alma brasileira.

Isso abriu um caminho teórico para a compreensão de novos fenômenos artísticos - alguns profundamente originais, como o miscigenado samba, que àquela altura se firmava - mas de modo algum encerrou o debate entre os dois lados daquele fio de navalha. A reboque de questões político-ideológicas, a discussão sobre o que é "verdadeiramente brasileiro" atravessou sem solução o século XX, passando pelo neo-modernismo dos tropicalistas e pelo universalismo despreocupado dos roqueiros dos anos 80. A conclusão, se houver alguma, pertence ao terceiro milênio.


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