F a s c í c u l o   1
Portugal chega ao topo do mundo pelo atalho do mar

Cessem do sábio grego e do troiano / As navegações grandes que fizeram; / (...) Que eu canto o peito ilustre lusitano, / A quem Netuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta. A euforia de Luís de Camões, o homem que fundou a moderna língua portuguesa com seu poema épico “Os Lusíadas”, em fins do século XVI, estava, embora ele fosse caolho, longe de ser fruto de uma ilusão de ótica. Portugal foi o líder da maior aventura empreendida pela Humanidade no se-gundo milênio: a conquista do mar Oceano ou Tenebroso — como os antepassados de José Saramago chamavam o Atlântico — com todas as terras além dele. O mundo nunca mais seria o mesmo.

Até o início do século XV, a maior massa de água que o mundo ocidental e adjacências conheciam era o Mediterrâneo, o Mare Nostrum dos romanos. Ultrapassar as Colunas de Hércules (o Estreito de Gibraltar) naquelas frágeis galeras movidas a chicote e remos estava fora de questão. As navegações atlânticas se limitavam às rotas costeiras singradas pelos comerciantes do Mediterrâneo, que contornavam a Península Ibérica para chegar às ilhas britânicas e à Escandinávia.


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