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a s c í c u l o 1 Por toda a Idade Média, a Europa parecia satisfeita com essas limitações políticas e comerciais. Os mercadores europeus — a partir do século XIII, sobretudo os de Veneza, Florença e Gênova, que dominavam o mar — iam até a fronteira leste do Mediterrâneo e lá se encontravam com as caravanas que vinham da Arábia, das Índias e do Extremo Oriente carregando ferro, chumbo, estanho, drogas medicinais, seda, algodão, madeiras para fabricar tintas, âmbar, açúcar, chá, marfim, além das especiarias —- canela, baunilha, noz moscada, erva-doce, gengibre, mostarda, pimenta. Estas eram valiosas: disfarçavam o sabor apodrecido das comidas. A situação mudou com o fortalecimento dos muçulmanos na região, que passaram a dificultar a vida dos cristãos. As mercadorias ficaram mais caras. Os tempos de carestia, agravados por epidemias de peste, estimularam revoltas populares em toda a Europa. A região começava a dar sinais nesse sentido, mas ainda não era o “berço da cultura” que viríamos a conhecer. Nobres grosseiros e brigões disputavam com espadas ou golpes baixos o poder sobre súditos semibárbaros, enquanto a Igreja Católica estimulava em todos um medo irracional do conhecimento. Os guardiões do tesouro clássico dos gregos nas áreas de matemática, literatura, ciência e filosofia eram os chama-dos “infiéis”, ou seja, árabes, indianos e chineses — não os europeus. O pequeno Portugal estava destinado a liderar o processo de expansão e emancipação comercial européia, seguido de perto pela Espanha e, de longe, por franceses, holandeses e ingleses. O orgulho de Camões é, assim, mais do que justificado. Não por acaso, esse fôlego exploratório ajudou a demarcar o fim da Idade Média e o início do Renascimento europeu. A conquista do mar Oceano fica, assim, como a mais bonita metáfora da História para o desafio à ignorância e a conquista do desconhecido. Os navegadores fizeram pelo mundo real o que Leonardo da Vinci, Maquiavel e Michelângelo faziam pelo mundo simbólico. Tudo conspirava a favor de Portugal. Em posição estratégica entre o Mediterrâneo e o Atlântico, já além das tais Colunas de Hércules, o reino também se beneficiava, ao contrário da maioria dos vizinhos, de uma razoável estabilidade interna desde o final do século XIV. A dinastia dos Avis, iniciada com d. João I em 1383, mantinha aristocracia clero sob controle e tinha o apoio de ar-tesãos e comerciantes. Nesse clima, aventura do Descobrimento logo viraria um projeto de união nacional. Tratava-se de expandir o conhecimento do homem. Para isso havia a necessidade de se criar uma espécie de “universidade” que processasse toda a massa de conhecimentos náuticos acumulada até ali. A tarefa coube a um dos filhos do rei, o infante d. Henrique, que na segunda década do século XV fundou no Cabo de São Vicente, ponto extremo do país dentro do mar Oceano, a Escola de Sagres. Para aquele centro de saber afluíram os mais famosos pilotos, geógrafos, astrônomos, cosmógrafos, matemáticos e outros herdeiros dos conhecimentos dos navegantes árabes. Muitos eram judeus, outros muçulmanos. Vinham de todos os lados, tangidos pela perseguição que lhes movia a Inquisição. Saíam baratinhos: trocavam seu trabalho pela tolerância do Rei. Esse pessoal fez um compêndio de toda arte náutica da História e a aprimorou (texto adiante). A tarefa de “dar novos mundos ao mundo” iniciou-se em 1415 com a toma-da de Ceuta, no litoral mediterrâneo do Marrocos. Seguiu-se a vitória sobre o te-mível Cabo Bojador, na extremidade do Saara Ocidental, em 1434, por Gil Eanes. Em 1487, outro divisor de águas: Bartolomeu Dias atingiu o extremo Sul do continente africano, dobrando o cabo das Tormentas (ele morreria ali, em 1500, no comando de uma das embarcações perdidas pela frota de Cabral), depois rebatizado da Boa Esperança por abrir a porta do Oceano Índico. Enquanto Portugal partia para o “Périplo Africano” — a hipótese de chegar às Índias costeando o continente negro — a Espanha, nos calcanhares do vizinho, apostava na rota do Ocidente. Um dos maiores defensores da tese era o genovês Cristóvão Colombo, que já fizera estágio náutico em Portugal (casando-se, em 1480, com a portuguesa Filipa Moniz). A História seria diferente se Colombo ficas-se no reino, mas em 1481, quando D. João II negou-lhe navios para uma viagem, o navegador foi servir à Espanha. Em 1492, Colombo desembarcou nas Antilhas e, embora ainda não soubesse disso, descobriu o Novo Mundo. D. João II protestou junto aos reis católicos (da Espanha), reivindicando a posse das novas terras em nome de um acordo (quadro ao lado). Fracassou, mas a vingança lusa viria logo. A morte de d. João II, o Príncipe Perfeito, deixou para d. Manuel I a honra de armar em 1497 a frota de quatro navios com que Vasco da Gama aportaria em Calicute, na Índia, em maio de 1498. O objetivo inicial fora atingido: Portugal estava no topo do mundo. Séculos depois, a grandeza perdida levaria Fernando Pessoa a trocar a euforia camoniana pelo lamento: Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro. |