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a s c í c u l o 1 Coincidência ou não, seguiu-se uma campanha desastrosa: depois de batalhas e acidentes, apenas sete embarcações retornariam a Lisboa. Isso contribuiu para tornar o episódio ainda mais confuso. Cabral já sabia da existência dessas paragens? Imaginava a importância que aquela terra “chã e formosa” teria para o Império? Caminha não responde a essas questões. Talvez soubesse mais do que dizia, talvez não. O fato é que a carta compensa essas omissões com sua clareza cartesiana — e olha que Descartes só nasceria 96 anos depois. Chega a ser engraçado, mas o futuro país dos excessos barrocos e carnavalescos teve como pedra fundamental um texto que é um modelo de comedimento. Na época, os relatos marítimos costumavam trazer fantasia de permeio com informação. Dragões, amazonas e homens com um olho só no meio da testa podem ser encontrados em depoimentos de gente séria. Cristóvão Colombo, por exemplo, jurava ter visto sereias — e mais ainda, lamentava que fossem... feias! Caminha se destaca pelo distanciamento crítico. Sua carta — que passou séculos perdida, sendo reencontrada em 1793 — tem alguns méritos de uma reportagem moderna. O italiano Américo Vespúcio, que por aqui passaria um ano depois, é autor de uma carta arguta e historicamente vital, “Mundus novus”, que o levaria a batizar o continente inteiro. Mas o mesmo entusiasmo que dedicou a saudar a boa forma das nativas — “nenhuma se notava que tivesse os peitos caídos” — Vespúcio investia em balelas como a longevidade dos índios, com suas centenas de anos nas costas. Caminha, não. Começa com um aviso a d. Manuel: “Creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu”. O sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda anota essa sobriedade como uma característica portuguesa, em contraste com o estilo de espanhóis e italianos: “O gosto da maravilha e do mistério (...) ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo”, escreveu em seu livro “Visão do paraíso”, tentando compreender o fenômeno: “Ou porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o fascínio do Oriente absorvesse em demasia os seus cuidados (...), não os inquietam aqui extraordinários portentos ou a esperança deles”. Assim, quando um dos nativos levados ao navio apontou o cordão de ouro usado por Cabral e depois o chão, parte da tripulação leu no gesto a prova de que havia ouro brotando da terra. Mas Caminha resistiu à tentação de iludir d. Manuel com a notícia precipitada. “Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos”, escreve, com um ceticismo que parece deslocado em sua época. Caminha se revela um observador empolgado, mas cauteloso. Sem a frieza dos documentos oficiais, chama a atenção para a exuberância da natureza, o clima ameno, as “vergonhas expostas” dos nativos. O relato tem boa dose de espanto, mas busca a precisão absoluta ao citar distâncias, datas e horários. No primeiro estudo antropológico da gente brasileira, o escrivão dedica generoso espaço a uma espécie de crônica de costumes ou reportagem de moda. Fala de pinturas e adereços exóticos. “Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços.” Seus olhos viram nos nativos seres inocentes e dóceis, sem nenhuma noção de religião e com uma privilegiada compleição física. Os homens eram descritos como altos, robustos, de traços bem feitos; as mulheres eram graciosas, donas de formas exuberantes que “deixariam envergonhadas as portuguesas”. Caminha se impressiona com o asseio daquela gente — em contraste, presume-se, com os fedo-rentos embarcadiços. Não se deve confundir a objetividade de Caminha com uma ausência de pressupostos ideológicos — o que seria impossível. Ele conta que a primeira missa celebrada na terra pagã por frei Henrique foi assistida com muita devoção pelos nativos, embora, obviamente, eles não entendessem nada. “Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos (...)”, diz, dando um conselho ao rei: “Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar da sua salvação.” Naquele primeiro contato documentado entre europeus e nativos americanos, toda a comunicação nos surge filtrada pelas cautelosas suposições de Caminha. Os tradutores da frota de Cabral não podiam fazer milagre. O escrivão conta que dois degredados foram deixados aqui com a missão de aprender aquela estranha língua e levantar informações sobre riquezas, costumes e crenças da terra. A eles juntaram-se espontaneamente outros dois homens da tripulação — os primeiros estrangeiros a fazer uma opção pela promessa dos prazeres tropicais. Uma nota curiosa: Caminha deixou claro em sua carta que esperava receber um favor real em troca dos serviços prestados à Coroa: o perdão para seu genro, prisioneiro na ilha de São Tomé. Trata-se do mais antigo registro do famoso jeitinho brasileiro. D. Manuel, embora desse pouca importância às novas terras — em sua carta aos reis católicos, dedicou um único parágrafo a elas, e todos os demais à segunda parte da expedição — atendeu o pedido. Mas o fiel Caminha nunca soube disso: morreu naquela mesma viagem às Índias, quando a frota de Cabral foi atacada em Calicute. |