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a s c í c u l o 2 O quadro geopolítico dos povos e tribos era movediço. Os tapuias, por exemplo, que faziam parte do ramo jê, tinham sido expulsos da costa pelos tupis. As guerras obedeciam a uma lógica de conquista de territórios, mas também, em muitos casos, a outra, simbólica: beber o sangue e comer a carne do inimigo era uma homenagem aos deuses e dava vida longa aos vencedores — sem mencionar as proteínas. A antropofagia dos primeiros brasileiros impressionou vivamente os conquistadores e viria a dar origem, no século XX, a mais de uma teoria nacional da cultura (texto adiante). Nem tudo era guerra. Havia caça, alguma agricultura, produção de objetos de cerâmica e armas. O lado empreendedor dos índios aparecia na Peabiru, uma primitiva estrada ligando o sertão ao litoral — a região onde fica a cidade de Assunção, no Paraguai, à costa do que é hoje o estado de São Paulo. Também havia permutas comerciais entre litoral e interior. Os tupis tinham acesso a regiões fronteiriças do império inca, onde obtinham, por troca ou saques, objetos de ouro, prata e cobre. Machados de cobre andino foram descobertos no Sul e no litoral de São Paulo. O modelo de divisão de trabalho era rígido, baseado na coletivização. Todos eram classificados de acordo com a faixa etária, obedecendo a rigorosos ritos de passagem. Ao contrário do que ocorre na moderna sociedade ocidental, com sua lógica de produção e consumo, entre os índios a idade era mérito: quanto mais velho, melhor. Os idosos tinham todas as regalias. Apesar de levarem a fama de poligâmicos, só os “principais”, que se destacavam por bravura ou idade, podiam ter mais de uma esposa. Em muitas aldeias, viviam todos juntos numa casa enorme, a maloca. Foi quando chegaram aqueles sujeitos estranhos e barbados, cobertos da cabeça aos pés. A boa recepção à esquadra de Cabral pode ter sido motivada apenas pelo interesse despertado por armas de fogo, facas e espelhos. No entanto, encontra paralelos sinistros na ilusão dos astecas, que viram o conquistador Hernán Cortés como o longamente aguardado messias branco e o puseram para dentro do palácio, facilitando o massacre, e na imprudência de Zapan, o imperador inca aprisionado pelo espanhol Francisco Pizarro. A destruição dessas complexas sociedades foi rápida e fulminante. A dos brasileiros, gradual. Ambas foram sistemáticas. Na época do Descobrimento, havia no Brasil entre um milhão e cinco milhões de nativos. Alguns apostam que chegassem a 8,5 milhões. Seja como for, os números atuais, de 200 a 300 mil, dão uma idéia da carnificina ocorrida ao longo de 500 anos. Começou com as epidemias. Varíola, tifo, catapora, gripe, coqueluche, difteria e peste bubônica foram alguns dos males que atacaram tribos absolutamente despreparadas para lidar com os novos inimigos microscópicos. A escravização de índios, que a princípio os portugueses tentaram transformar em modelo econômico, e as conversões em massa promovidas pelos jesuítas também ajudaram a esfacelar comunidades inteiras. A própria miscigenação tratou de completar o quadro, levando à perda de identidade dos descendentes de índios com brancos, os mamelucos. A partir da chegada dos franceses, ainda no início do século XVI, os índios passaram a atuar também como bucha de canhão em conflitos internacionais. Os tamoios tornaram-se aliados dos franceses, enquanto seus arquiinimigos tupiniquins defendiam os portugueses. Um século depois, os holandeses entraram no jogo e se uniram aos tapuias contra os lusitanos. Criou-se assim uma tradição que iria longe: em troca de liberdade ou, mais tarde, da demarcação de terras, índios de várias tribos brasileiras seriam enviados para guerras que nada tinham a ver com seus interesses, como a do Paraguai. A visão dos índios como criaturas inocentes e idílicas criou raízes profundas no imaginário do Velho Mundo, mas, na prática político-econômica, os nativos logo se tornaram um empecilho ao projeto expansionista português. Foi quando começou a crescer sua fama de preguiçosos, rebeldes e desobedientes, que abriria caminho para a importação de escravos negros. No entanto, embora não fosse hegemônica, a escravidão de indígenas continuou a ser praticada de forma mais ou menos intensa em todo o território brasileiro, onde teve base legal até 1833. Mesmo assim, em meados do século passado ainda eram vendidos índios escravizados no Rio de Janeiro e na Amazônia. Até serem expulsos do país, em 1759, os jesuítas lutaram contra essa prática. Uma luta difícil: acossados por doenças e escassez de alimentos, muitos pais vendiam seus filhos como escravos por qualquer valor em dinheiro ou gêneros. No século XX, a percepção dos índios como vítimas de uma política sistemática de destruição gerou ações governamentais que, se lhes deram alguma proteção, terminaram de lhes tirar o papel de sujeitos da própria história. Com o Serviço de Proteção ao Índio, criado no início do século, e a Fundação Nacional do Índio, que o substituiu em 1967, instaurou-se uma tutela ainda em vigor: eles são considerados relativamente incapazes, como as crianças. Hoje se pode ver com clareza: os índios brasileiros — como seus irmãos tecnologicamente mais avançados, incas, astecas e outros — entraram numa violenta guerra chamada História. Nela não havia lugar para as idéias modernas de diversidade cultural e preservação de diferenças. Foram esmagados. Num seminário em Londres, nos anos 80 do nosso século, um inglês politicamente correto perguntou ao compositor Gilberto Gil o que podia ser feito pelos índios brasileiros. “Arqueologia”, respondeu Gil. Quase foi linchado. A verdade histórica incomoda. |