F a s c í c u l o   2
Da antropofagia ao manifesto

Não se pode garantir que o sentido sexual do verbo “comer”, tão disseminado em nossa cultura quanto o arroz-com-feijão, tenha tido origem nos hábitos antropofágicos de parte dos nativos do Brasil. O que é inegável é que o canibalismo dos índios sobreviveu a séculos de extermínio e aculturação na forma de um símbolo de resistência ao invasor estrangeiro, até desembocar, no século XX, numa teoria da cultura dependente. Segundo ela, um Brasil econômica e culturalmente periférico criaria uma linguagem original ao deglutir e digerir influências importadas. A idéia surgiu no “Manifesto antropófago” de Oswald de Andrade, nos anos 30, e serviu de base ao tropicalismo, nos 60.

O teórico da cultura Roberto Schwartz aponta, em seu ensaio “Nacional por subtração”, o que havia de revolucionário (e utópico) na antropofagia de Oswald: em vez do “sentimento de cópia e inadequação causado no Brasil pela cultura ocidental”, entram em cena o orgulho e o triunfalismo: afinal, “é o primitivismo local que devolverá à cansada cultura européia o sentido moderno, livre da maceração cristã e do utilitarismo capitalista”.

Quanto à antropofagia literal, as melhores descrições de churrascos humanos que chegaram até nós são de autoria do artilheiro alemão Hans Staden. No século XVI, Staden caiu prisioneiro dos tupinambás e, com sorte rara, escapou para contar a história. O texto em que narra sua estranha aventura, relançado em 1999, não é recomendado a quem tem estômago fraco: “As mulheres comem as vísceras e também a carne da cabeça; os miolos, a língua e o que mais for aproveitável, são as crianças que recebem”.

O banquete era precedido de um ritual. O prisioneiro costumava ser man-tido vivo por até um ano, submetido a um regime de engorda, embora haja casos de deglutições mais apressadas — como a do primeiro bispo brasileiro, D. Pero Fernandes Sardinha, pelos caetés, em 1556. Durante o período de ceva, o prisioneiro era bem tratado, tendo direito até a mulheres. Europeus que caíram nessa esparrela tinham todo o direito de discordar, mas morrer assim era considerado honroso pelos índios.

O banquete era uma festa: compareciam até os chefes de tribos amigas. Dois dias antes começava a ser preparado o cauim, bebida alcoólica à base de mandioca, reservada aos homens. O prisioneiro era pintado de preto, lambuzado de mel e abatido com uma cacetada na cabeça. Curiosamente, o carrasco não podia comer a vítima.


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