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a s c í c u l o 2 Afonso Arinos foi o mais rigoroso e detalhista defensor da tese, mas não o único. O antropólogo Darcy Ribeiro pregava a mesma idéia em seu característico estilo informal, destacando o choque que deve ter sido, para um bando de europeus malcheirosos vindos de cidades devastadas por peste e fome, encontrar “aquela indiada nua, paradisíaca”. O fato é que o Brasil revelado pelos navegantes portugueses encaixava-se muito bem no imaginário coletivo europeu de um paraíso terrestre, povoado de criaturas fantásticas. A idéia não era uma novidade no Velho Mundo — até então os seres quiméricos costumavam ser situados nas misteriosas Índias — mas começaria a ganhar novo significado filosófico num momento em que faiscavam as centelhas que tinham encerrado a Idade Média. O mundo novo em nada ficava a dever ao idealizado Éden bíblico: tinha luz natural gloriosa, matas exuberantes, águas abundantes e, principalmente, uma excitante população nativa, “de corpos grandes e robustos, bem dispostos e proporcionados” (Américo Vespúcio). O fascínio provocado pelas terras americanas e pelos índios que aqui habitavam se alastrou pela Europa rapidamente — com o auxílio nada desprezível da imprensa, criada por Gutemberg em 1454. A carta “Mundus novus”, de Vespúcio, teve, entre 1503 e 1512, ano da morte do autor, 13 edições latinas, dez alemãs e inúmeras outras na Itália, França e Holanda. O homem que batizaria todo o continente caprichou na propaganda: “Todas as árvores são odoríferas e produzem gomas ou óleos (...) cujas propriedades todas, se fos-sem conhecidas, não duvido que andaríamos todos sãos. E por certo que se o paraíso terrenal existe em alguma parte da terra, creio que não deve ser longe destes países.” Logo se difundiram fantasias. Uma das mais comuns falava da longevidade avantajada dos índios, que viveriam até 150 anos. Outra dava conta de gigantes com 16 palmos de altura e selvagens com “duas ordens de dentes em cima e em baixo” ou “pés às avessas”. Os viajantes, como os franceses André Thevet (“Singularidades da França Antártica”, 1558) e Jean de Léry (“Viagem à terrado Brasil”, 1578), eram criativos: segundo eles, bichos que se alimentavam de ar, homens marinhos e com cabeça de cachorro também vagavam pelas novas terras. Suas descrições provocaram tal rebuliço que a Igreja mandou um grupo de teólogos examinar a questão, como é informado em “Notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas do Brasil”, do padre Simão de Vasconcelos, reitor dos colégios jesuíticos da Bahia e do Rio de Janeiro. (Vasconcelos publicou seu livro em 1663, mas sem o capítulo que detalha essa investigação, que a censura eclesiástica considerou delirante.) Os europeus viam o que queriam ver e tinham se programado para ver, é claro. O Brasil, como as outras terras do “Mundus novus”, era uma tela onde se projetava a imaginação do Velho Mundo, ainda contaminada pelos bestiários medievais. A novidade é que, baixada a bruma fantasiosa, sobrou em cena, para ser examinada à luz de um racionalismo nascente, uma multidão de pessoas de verdade, fortes e (até aquele momento) milagrosamente saudáveis no isolamento sanitário em que se mantinham. Nas palavras de Darcy, “uma humanidade em flor, intocada pelos vícios e usurasda civilização”. Exportada para a Europa a fim de satisfazer a curiosidade de nobres e abastados em geral, essa Humanidade recém-encontrada virou atração de espetáculos itinerantes e passou, naturalmente, a personagem de um novo pensamento. O inglês Thomas More (Morus em latim) deu a partida com seu livro “A utopia” (1516). O personagem principal é um marinheiro português que, isolado numa terra selvagem, logo aprende que “a virtude consiste em se viver segundo a natureza”. O francês Michel de Montaigne radicalizou o argumento em seu ensaio “Sobre os canibais”, de 1572, louvando a vida selvagem para criticar as instituições européias. “A essa gente chamamos selvagem como denominamos selvagens os frutos que a natureza produz sem a intervenção do homem”, escreve ele, baseando-se no relato de um criado que estivera no Brasil, em cronistas da época e nos intérpretes de índios que pululavam pela França. “É um país (...) onde não existe hierarquia política, nem domesticidade, nem ricos e pobres; (...) o trabalho dos metais aí se ignora; não usam vinho nem trigo; as próprias palavras que exprimem a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, o perdão, só excepcionalmente se ouvem.” Montaigne vai além, defendendo o canibalismo para criticar a Inquisição: “É pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos (...) a pretexto de devoção e fé”. Estava pavimentado o caminho para a tese de um comunismo primitivo, uma era de convivência fraterna entre os ho-mens que a civilização teria estragado. Daí até o francês Jean-Jacques Rousseau, o maior defensor da tese do “bom selvagem”, a distância foi de quase dois séculos mas, em termos intelectuais, apenas um passo. No “Discurso sobre a origem da desigualdade”, de 1755, Rousseau desenvolve a idéia de que o homem nasce bom, mas é corrompido ao se distanciar da natureza e da inocência. Aqui já estamos sob o domínio de uma nova mentalidade e às portas de uma revolução que iria propor uma volta àquele paraíso primitivo, cheio de “liberdade, igualdade, fraternidade”. Bom mesmo era viver sem propriedade e sem servidão, como aqueles índios bondosos que, quando guerreavam, era para exercitar seus nobres instintos. Em nome disso cortaram-se muitas cabeças, mas essa é outra história. |