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a s c í c u l o 2 À medida que se intensificavam as relações entre os colonizadores europeus e os nativos brasileiros, a regra era estes se adaptarem aos costumes daqueles, até mesmo por conveniência. Temerosos de sofrer represálias por seus hábitos “selvagens”, muitos indígenas procuravam imitar os costumes dos brancos em todos os aspectos da vida cotidiana: passavam a se vestir, aboliam (ou escondiam) o canibalismo e adotavam a religião católica — embora muitas vezes apenas da boca para fora, a fim de agradar aos padres que fervorosamente procuravam catequizá-los. Por vezes, porém, o que ocorria era uma aculturação na mão inversa. Alguns entre os conquistadores, especialmente os portugueses, adotavam costumes e práticas da nova e paradisíaca terra, deslumbrados com suas delícias, e acabavam tornando-se quase índios. Uma das primeiras providências dos índios “emergentes” era ter o máximo de esposas, numa prazenteira e rentável poligamia. Isso fazia com que várias famílias indígenas possuíssem agora um parente importante entre os europeus. A vida delas melhorava com isso, pois contavam com a influência dele para conseguir os instrumentos de ferro que tanto apreciavam, para vender o eventual excesso do que produziam nos roçados e nas criações de animais e para garantir que seus membros não seriam escravizados. Para os brancos, a mudança era da água para o vinho. De párias condenados a uma difícil e sacrificada vida na metrópole — assolada com freqüência pela fome e pela peste — os “novos índios” transformavam-se de repente em verdadeiros potentados cercados de favoritas, concubinas e vassalos, gerando dezenas de filhos, andando nus e saudáveis pelas matas, comendo a farta comida nativa (há registro de alguns que passaram a adotar o canibalismo, aparentemente sem maiores problemas de consciência), aprendendo a identificar plantas e animais, e ganhando muito dinheiro com o corte de árvores ou servindo de guias, mediadores e intérpretes para os antigos companheiros conquistadores. Dois marinheiros portugueses ficaram famosos na História do Brasil por feitos dessa natureza. Diogo Álvares sobreviveu a um naufrágio, em 1509 ou 1510, na altura da foz do Rio Vermelho, no litoral baiano. Foi salvo por tupinambás que o acharam parecido com um peixe comum na região, o caramuru, e assim o apelidaram. Cara-muru tomou várias esposas índias, inclusive Paraguaçu, a filha do chefe Taparica, e viveu por lá até morrer em 1557. João Ramalho chegou à capitania de São Vicente possivelmente em 1512. Uniu-se a muitas índias tupiniquins, entre elas Potira, filha do cacique Tibiriçá. Montou com os parentes nativos um ativo entreposto comercial, participou da fundação da cidade de São Paulo, da qual se tornou capitão-mor em 1562, e morreu muito rico, com quase 90 anos, em 1580. |