F a s c í c u l o   3
Ensino clássico, sim. Libertário, jamais

Os jesuítas atuaram em duas frentes: ao mesmo tempo em que convertiam os índios, promoviam a educação da população, que começava a crescer. Agiram com presteza: pouco depois de desembarcar, fundaram a primeira missão jesuítica da América, no Monte Calvário, na Bahia. O primeiro colégio jesuítico (Colégio dos Meninos de Jesus) abriu as portas em 1550, um ano depois da chegada dos padres, em São Vicente (no litoral do futuro estado de São Paulo), dando início a uma vasta cadeia de ensino. Assim, o Brasil recebeu uma forte educação clássica, com escolas do mesmo padrão das freqüentadas na Europa por Molière, Goldoni e Corneille, todos alunos dos jesuítas. "Eles são tão bons", elogiou em 1605 o filósofo inglês Francis Bacon, um protestante, "que gostaria que estivessem do nosso lado".

No Brasil, o trabalho dos jesuítas atingiu o ápice com a chegada de José de Anchieta, em 1553. Anchieta, que desembarcou na costa da Bahia aos19 anos, tinha uma saúde frágil (era franzino e corcunda), mas energia suficiente para realizar uma obra impressionante: decodificou o tupi, um dos principais troncos lingüísticos indígenas, escrevendo um "vocabulário" e uma gramática da Língua Brasílica - a "língua geral" imposta aos índios de outra família lingüística.

Anchieta utilizava a língua com o objetivo de se aproximar dos índios e ganhá-los para sua causa. Para isso, fez verdadeiros malabarismos semânticos: de que forma traduzir palavras cujo sentido era desconhecido dos primeiros brasileiros, como "pecado", "missa" ou "Virgem Maria"? Como criatividade tem limite, nesses casos extremos, nota Alfredo Bosi em "Dialética da colonização", o jesuíta optava por enxertar a palavra em português no meio de versos ou cantigas que transplantava da cultura ibérica. Na maior parte das vezes, buscava algo similar, como pai-guaçu (pajé maior) para "bispo". "Demônio" era anhanga (espírito errante e perigoso) e "Reino de Deus" virou Tupãretama (terra de Tupã). Começava assim o sincretismo religioso.

Nessa época, os jesuítas já tinham introduzido nos colégios a montagem de peças de teatro. Aquele era, perceberam os padres, um excelente instrumento pedagógico e evangelizador. Anchieta escreveu vários autos, que ele mesmo dirigia e vertia para quatro idiomas: tupi, latim, português e espanhol. A música e o canto eram usados principalmente para atrair as crianças índias, que se tornavam agentes catequizadores dos pais.

A missão evangelizadora levou os jesuítas a se embrenhar pelo interior do país, onde fundaram colégios e missões. No entanto, o fato de se limitarem a um tipo de ensino clássico fez com que se mantivessem na retaguarda da evolução cultural dos séculos XVII e XVIII, quando na Europa se desenvolvia uma nova atitude diante do mundo, científica, com ênfase nos estudos de matemática e física. Aqui, onde se ensinavam basicamente retórica e teologia, a criação de universidades não fazia parte dos planos da Coroa. Para tornar mais obtuso o horizonte tropical, tudo o que se lia no Brasil passava por censura ou expurgo. Eram proibidos o teatro de Gil Vicente e as "Metamoforses" de Ovídio, por exemplo. Podiam-se ler alguns clássicos, como Horácio ou Plauto, desde que purgados de alguns trechos. Best-seller mesmo era "Flos sanctorum", compêndio sobre a vida de santos. Ensino humanista sim, libertário jamais. "De forma alguma concordavam os discípulos de Santo Inácio com uma visão do homem que significasse a exaltação da liberdade", observa Riolando Azzi no livro "A cristandade colonial - Um projeto autoritário".

Os livros eram trazidos diretamente de Portugal, encomendados pelos religiosos. A ausência de tipografia (atividade proibida no Brasil até 1808) dificultava ainda mais a circulação de idéias. O monopólio da educação e da cultura era deles. Tão fortes eram os jesuítas que terminaram por se transformar num Estado dentro do Estado, uma ameaça ao poder da Coroa, que terminou por bani-los em 1759 (texto abaixo).

Mas sua marca já era indelével. Segundo o educador e sociólogo Fernando de Azevedo, seu ensino contribuiu largamente "para o desprezo das ciências úteis, o desinteresse pela natureza e o horror à atividade manual, (...) traços característicos do brasileiro". O sociólogo Gilberto Freyre, no clássico "Sobrados e mocambos", concorda: atribui aos jesuítas "a tendência para a oratória que ficou no brasileiro, perturbando-o tanto no esforço de pensar como no de analisar as coisas. Mesmo ocupando-se de assuntos que peçam a maior sobriedade verbal, (...) o brasileiro insensivelmente levanta a voz e arredonda a frase. Efeito do muito latim de frade; da muita retórica de padre."


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