F a s c í c u l o   3
Por que o Brasil continua sem seu santo

Catequista e educador que ajudou a "civilizar" cerca de um milhão de índios, poeta, dramaturgo, gramático e por vezes até diplomata, o jesuíta José de Anchieta é uma das mais relevantes figuras da História do Brasil na segunda metade do século XVI. Em sua intensa atividade literária destacam-se o "Poema da bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus", de 5.786 versos, e a "Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil", com os fundamentos do tupi. Há quem o considere mesmo um precursor da literatura nacional.

Anchieta morreu aos 63 anos, em 1597, com fama de santo milagreiro, o que deu ensejo a que, logo em seguida, a Companhia de Jesus pedisse sua beatificação e canonização. Começava na Santa Sé um lento e complicado processo que ainda não chegou ao fim.

Depois de arrastadas marchas e contramarchas, somente em 1736, por decreto do Papa Clemente XII, Anchieta se tornou "venerável", primeira etapa da beatificação. Com a supressão da Companhia em 1773, todos os processos de beatificação e canonização de jesuítas foram suspensos por Clemente XIV. O do chamado Apóstolo do Brasil foi reaberto em 1875. Mais de cem anos se passaram até que, em 22 de junho de 1980, às vésperas de sua primeira visita ao Brasil, João Paulo II finalmente convertesse Anchieta em beato. Mas o século XX chega ao fim sem que a canonização - o passo final, que finalmente criaria o primeiro santo brasileiro - acontecesse. Por quê?

De saída, existe a questão dos milagres. Dos quatro "de primeira grandeza" necessários para qualquer santo, só dois foram comprovados. Faltam os outros dois, cuja demonstração, no entanto, o Papa tem o poder de dispensar.

Darcy Ribeiro, em "A fundação do Brasil", levanta a tese de que o impedimento maior para a canonização é o fato de Anchieta ter escrito um poema em louvor a Mem de Sá, no qual não só aceita como se regozija com a matança de índios inimigos (aliados dos invasores franceses) na campanha de 1558-1560, no Rio de Janeiro. Há versos que falam em "exterminar de vez esta raça felina com a ajuda de Deus". Outros, que eram "cento e sessenta as aldeias incendiadas, mil as casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos com suas riquezas, passado tudo pelo fio da espada". Os defensores do jesuíta dizem que ele não podia ser contra aquela guerra porque ela era cristã e, portanto, justa.

Os muitos "advogados do diabo" - como são conhecidas as autoridades religiosas encarregadas de levantar objeções a uma proposta de canonização - que já atuaram no processo de José de Anchieta ainda esgrimem outros problemas. Durante a expulsão dos calvinistas franceses do Rio, o padre teria ensinado o carrasco a apressar o enforcamento de um prisioneiro ("para abreviar o sofrimento do condenado", dizem seus defensores). Ele também é acusado de não lutar com o fervor que se esperaria de um candidato a santo contra a escravidão de negros e a escravidão de índios entre si.


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