F a s c í c u l o   3
O mais lucrativo negócio da colônia

O impulso básico da escravidão foi simples: era preciso povoar o Brasil e evitar invasões estrangeiras. Para isso, a Coroa portuguesa doou grandes extensões de terra (as capitanias hereditárias) a apaniguados que, no entanto, precisavam de mão-de-obra farta. Com o fracasso da escravidão dos índios - logo tachados de "indolentes" pela facilidade com que, conhecendo a terra melhor do que o colonizador, fugiam - a rota africana, em cuja costa Portugal já tinha uma presença forte, apresentou-se como saída.

Inicialmente, como num safári, os comerciantes negreiros caçavam escravos perto da costa, o que apresentava riscos: em 1580, atacados por suas quase vítimas em Angola, 30 portugueses foram massacrados. Com o tempo, forjaram-se acordos com líderes políticos locais - o rei do Congo tinha excelentes relações com Lisboa, por exemplo - que forneciam escravos em troca de produtos.

Fácil de começar, difícil de parar. A consolidação de um modelo econômico baseado no trabalho cativo e o lucrativo comércio humano entre África e Brasil - que no século XVIII se tornaria o mais rentável da colônia - terminaram tão arraigados que acabar com aquilo representaria um desastre para as finanças da terra. Além de poder importar até 120 africanos por ano, cada senhor de engenho também tinha o direito de comprar, no mercado brasileiro, quantos negros quisesse e necessitasse.

O número de mortos durante a travessia nos navios negreiros ultrapassava os 10%. Muitas vezes nus, acorrentados uns aos outros, os escravos ficavam confinados em cubículos infectos, que lhes serviam também de banheiro. Não podiam ficar de pé. Comida e água eram artigos escassos. A maioria vinha do Congo, da Guiné e de Angola. Dividiam-se em dois grandes grupos, identificados pelos troncos lingüísticos: sudaneses e bantos. Quando chegavam, os sobreviventes da viagem eram misturados, para dificultar a comunicação entre eles.

Se o senhor de engenho, como quer Freyre, era um pai para seus escravos, encaixava-se na categoria do pai desalmado. Nas senzalas insalubres, os cativos tinham direito a apenas uma refeição por dia (feijão, milho e farinha de mandioca) e trabalhavam em média 14 horas. Uma vez por ano, recebiam de uma a duas camisas e o mesmo número de calças (ou saias). Não tinham sapatos. Mesmos os escravos domésticos, que se vestiam melhor, andavam descalços.

A freqüência dos maus tratos e as péssimas condições de vida tornavam rotineiras as mortes precoces. Desnutridos e sem esperança de libertação, muitos tentavam se matar comendo terra. Essa prática era reprimida com açoites e máscaras de ferro atadas ao rosto. Expostos a doenças e a condições de trabalho desumanas, os escravos pouco procriavam - além de tudo, vinham mais homens do que mulheres, na proporção de quatro para uma. O que estava longe de ser um problema para os senhores: era bem mais barato trazer novos braços da África do que sustentar desde pequenos escravos nascidos no Brasil.

O trabalho escravo foi largamente empregado em todas as atividades econômicas da colônia, com destaque para as plantações de cana, nos séculos XVI e XVII, e para as minas de ouro, no século XVIII. A longa duração do sistema escravista pode dar a impressão errônea de que o cativeiro foi aceito pacificamente pela maioria das vítimas. No entanto, já no século XVI, histórias de fujões eram freqüentes. Os quilombos, verdadeiras nações de escravos fugidos, alguns dotados de complexa organização social e militar, surgiram no século seguinte. O mais famoso deles foi o de Palmares, que durou mais de meio século e fez de Zumbi o grande herói negro da História do Brasil.

É assim que, violência à parte, voltamos ao fascínio exercido por Gilberto Freyre. Denunciadas as injustiças históricas, resta o problema de dar conta de um quadro sui generis em que dominados e dominadores trocaram influências lingüísticas, religiosas, culinárias (quadro ao lado) e até, através de uma miscigenação desenfreada, genéticas. Surgia o mulatismo (texto adiante), idéia em torno da qual se organiza e se reconhece uma nação. Depois de "Casa-grande..." e da onda de estudos sobre cultura negra que ele desencadeou, aposentaram-se os índios de José de Alencar como símbolos da nacionalidade. Saiu o pé na selva, entrou o pé na cozinha.


p r i n c i p a l