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a s c í c u l o 3 Muito apropriadamente, o papel da miscigenação na formação de uma consciência da nacionalidade brasileira é assunto complexo demais para análises simples, em que predominam o branco e o preto: valem mais os meios tons. Para Gilberto Freyre, revolucionário em seu tempo, o papel histórico da mestiçagem brasileira foi o de "corrigir a distância social entre a casa-grande e a senzala". Mas também é verdade que o mesmo fenômeno desembocou no ideal racista do "branqueamento": quanto mais diluído o "sangue negro" através de sucessivos cruzamentos, melhor, pois desse modo estaríamos "apurando a raça". O grande mérito de Freyre é o de ter trazido o negro para o centro da discussão sobre a identidade brasileira, mostrando que ele é tão importante quanto o elemento europeu (e mais do que o indígena, que os jesuítas trataram de descaracterizar em grande parte). O antropólogo francês Roger Bastide, que estudou o Brasil a fundo, se aprofundou no caminho aberto por Freyre: "Aos casamentos inter-raciais correspondem os casamentos de civilizações. O mulatismo não é somente um fenômeno biológico, é também um fenômeno cultural", escreveu. Encarnação farta da ambivalência desse "mulatismo" é o poderoso mito da mulata brasileira, símbolo sexual de dimensões internacionais. Eis aí um bom exemplo de como todas as estradas têm mão dupla nesse assunto. Quando um dos catedráticos no ramo, João de Barro, o Braguinha, cantou em seu sucesso carnavalesco de 1948 que "branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal", estava ajudando a glorificar o símbolo máximo de uma cultura miscigenada? Com certeza, mas ao mesmo tempo fixava um estereótipo que, no futuro, com a ajuda das campanhas internacionais da Embratur, viria a estimular a imaginação de italianos e alemães em busca de turismo sexual. Da mesma forma, qual será a distância que vai de Di Cavalcanti, o maior pintor de mulatas de nossa história, a Osvaldo Sargentelli, o empresário das mulatas "que não estão no mapa"? |