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a s c í c u l o 4 Entre os 21 brasileiros penitenciados com o castigo máximo da Inquisição estava Antônio José da Silva, advogado e dramaturgo conhecido pela alcunha de O Judeu. Era um autor de talento, ainda que não genial. Entre suas melhores peças - obras satíricas para o teatro de bonecos, gênero popular na época - estão "Guerras do alecrim e da manjerona" e "A vida do grande D. Quixote de la Mancha". A intolerância da Igreja se abateu sobre ele em 18 de outubro de 1739. Tinha 34 anos e foi morto em praça pública em Lisboa. A acusação era a mesma que levou aos porões da capital portuguesa milhares de cristãos-novos: judaísmo. Antônio José nasceu no Rio de Janeiro, em 1705, numa família de cristãos-novos abastados e cultos: a biblioteca de seu pai, o advogado José Mendes da Silva, tinha 250 volumes, número excepcional na época. Seus antepassados chegaram ao Brasil acreditando que o braço da Inquisição não se estenderia sobre o Atlântico. Enganaram-se. Numa visitação tardia do Santo Ofício ao Brasil, em 1713, d. Lourença Coutinha, mãe do escritor, foi presa, acusada de práticas judaizantes e levada à metrópole para julgamento. Com ela seguiu a família, inclusive o garoto, com 7 anos. D. Lourença foi absolvida, mas a época não favorecia alívios prolongados. Durante anos a família viveu perseguida. Antônio José compareceu pela primeira vez ao tribunal em 1726, aos 21 anos, quando estudava Direito em Coimbra. Mas faltavam provas condenatórias. Estas surgiram, como convinha, meses depois, quando O Judeu foi novamente preso. Sob tortura, declarou-se arrependido e foi absolvido. Em 1739, com o recrudescimento da Inquisição, o escritor seria novamente preso, agora com toda a família. Foi torturado na polé (jogo de corda e roldana que mantinha o preso suspenso pelas mãos, com pesos de ferro nos pés) e no potro (estrutura de madeira em que o preso tinha os membros atados e apertados por torniquetes). Em seguida desfilou pelas ruas num auto-de-fé, cerimônia pública de leitura da sentença. Na última hora, como de costume, foi-lhe dado o privilégio da escolha: o garrote, estrangulamento rápido e "misericordioso", destinado aos que renegassem o judaísmo, ou a fogueira, morte lenta e terrível, para os renitentes. Morreu garroteado e foi queimado em seguida. |