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a s c í c u l o 4 A marca da presença holandesa no país foi dada especialmente pelo conde Johann Mauritius van Nassau-Siegen - ou Maurício de Nassau, como foi adaptado seu nome - durante o período em que governou Recife (1637-1644). Ex-coronel da cavalaria, Nassau aceitou a nomeação para o cargo no Brasil pensando na possibilidade de pagar desse modo as despesas da construção de sua casa em Haia. Aqui, além de ter-se revelado um bom administrador, assumiu ares de mecenas, amigo e protetor de artistas e letrados. Trazendo cientistas e técnicos de diversas áreas, patrocinou a vinda ao país de um espírito renascentista que os portugueses pouco prezavam. A chamada Cidade Maurícia (Recife) chegou a ser a mais importante da costa atlântica das Américas no século XVII, como núcleo comercial e militar. Nassau preocupou-se em urbanizá-la, construindo pontes e fazendo obras de saneamento. Mesmo naquela época conseguiu mostrar que era possível conciliar preocupações econômicas e ecológicas. Foi assim ao tornar obrigatório o cultivo da mandioca nos engenhos, onde reinava a monocultura da cana-de-açúcar, e ao dar o exemplo, fazendo de seu jardim um pomar com centenas de árvores frutíferas de diversos tipos. Além disso, proibiu a derrubada de cajueiros e o lançamento do bagaço de cana nos rios e açudes. Os holandeses se espantavam com a falta de interesse dos luso-brasileiros por objetos de arte e pela decoração de suas casas. Ao contrário destes, os flamengos apreciavam as obras de pintores como Franz Post, um dos convidados de Nassau. São de Post, um artista talentoso, algumas das visões artísticas mais antigas que existem do Brasil. Ele se encantou com o céu tropical, destacado em seus quadros. No governo do conde que gostava de ser chamado de "Príncipe", Recife ganhou jardim botânico, zoológico e museu artístico. Sob seu patrocínio, também foram desenvolvidos estudos de cientistas como Georg Marcgrav - sobre astronomia, topografia e meteorologia- e do médico Willem Piso, que se interessou pelo uso que os índios faziam da flora nativa no tratamento de doenças. Para completar a performance cultural, o invasor mecenas promovia grandes festas, como as cavalhadas, à beira do Rio Capibaribe. Foi exatamente numa dessas que um holandês com inspiração de carnavalesco criou o boi voador, alegoria transformada em lenda. Se Maurício de Nassau era um bom mediador das relações entre luso-brasileiros e holandeses, a situação começou a ficar difícil quando a Companhia das Índias Ocidentais reduziu os recursos destinados à região dominada pelos flamengos, por suspeitar que o conde queria construir um império pessoal no Nordeste do Brasil. Outro fator de conflito era de fundo religioso. Calvinistas, os invasores eram tolerantes com os seguidores de outros credos. Mas isso não durou muito. Embora a liberdade de religião fosse garantida por lei, o governo de Recife aceitou as pressões dos calvinistas e proibiu manifestações de católicos e judeus, sendo ainda mais rigoroso com estes, uma comunidade numerosa em Recife. Limitados em sua prática religiosa e endividados com a Companhia das Índias Ocidentais, senhores de engenho e lavradores descontentes passaram a se organizar contra os invasores. O fim do domínio da Espanha sobre Portugal, em 1640, foi comemorado por Nassau, que saudou o novo rei português, d. João IV. Chegou a ordenar a realização de vários festejos comemorativos. Curiosamente, a paz estabelecida entre os dois países, simbolizada na trégua de dez anos firmada em 1641, marcou o início dos conflitos. Portugal não só aceitava a presença holandesa como se comprometia a reprimir as guerrilhas locais que a ela se opusessem. Mas Nassau rompeu a trégua: atacou o Maranhão e até, atravessando o Atlântico, Angola. Mesmo quem apoiava os flamengos quando isso significava hostilidade aos espanhóis passou a temer o controle da Holanda sobre o Nordeste. Pela primeira vez na História do Brasil surgiu a idéia de nação, defendida por luso-brasileiros, denominados "patriotas". Um dos líderes dos revoltosos era o senhor de terras João Fernandes Vieira, que, desejoso de se livrar das dívidas com a Companhia das Índias Ocidentais, prometeu alforria a seus escravos em troca da participação nos combates contra os holandeses. O conflito teve grandes batalhas, como as duas dos Guararapes (em 1648 e 1649), das quais saíram vencedores os luso-brasileiros e sua crença de que um salvador - imaginado como o rei d. Sebastião, morto aos 24 anos, em 1578, mas para muitos apenas escondido - viria libertar a pátria. A vitória alimentou o mito do sebastianismo, que reapareceria em diversos momentos da nossa História como inspirador de movimentos populares de fundo político-religioso. Henrique Dias, um negro alforriado que capturava negros fugitivos, e Felipe Camarão, índio poti que capturava índios "traidores", foram heróis dessa guerra. No papel de vilão ficou Domingos Fernandes Calabar, o brasileiro que se bandeou para o lado dos holandeses (texto ao lado). Apesar de terem perdido a luta, os holandeses só se renderam em 1654 e apenas em 1661, com o Tratado de Haia, a derrota foi oficializada. Na recuperação do território, os portugueses encontraram mais resistência no litoral do que no interior. Exatamente o contrário do que tinha ocorrido com os invasores. Para debelar os focos rebeldes, Portugal - apesar de estar quebrado, assim como a Holanda - precisou comprometer-se a pagar as dívidas dos luso-brasileiros com a Companhia das Índias Ocidentais. |