F a s c í c u l o   5
Abolicionismo surgiria dois séculos depois

Por mais de meio século XVII, até 1694, o quilombo dos Palmares foi um pedaço autônomo da África dentro do Brasil. Em seu apogeu, em 1670, teria chegado a abrigar 20 mil pessoas - inclusive índios e brancos marginalizados - numa área de 27 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho do estado de Alagoas. Liderado inicialmente por Ganga Zumba, era formado por um número indefinido de mocambos (agrupamentos menores, como cidades dentro de um estado). Além de plantar, o quilombo se dedicava à cerâmica e ao comércio com vilas próximas. Os quilombolas também saqueavam fazendas e recolhiam escravos.

Na mesma época, surgiram centenas de quilombos, como o de Trombetas, no Pará. Temendo que o fenômeno atingisse um ponto incontrolável, a Coroa decidiu aniquilar o mais famoso deles para que servisse de exemplo: Palmares, é claro. Mas não era tão fácil. Foram mais de 20 expedições à Serra da Barriga. Em 1678, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, conseguiu fazer com Ganga Zumba um acordo de paz, pelo qual Palmares não mais atacaria os engenhos e os portugueses o deixariam livre, mas sem armas. O quilombo se comprometeria ainda a devolver todos os negros raptados.

O acordo desagradou os chefes militares de Palmares, que se sentiram traídos. Assim, segundo a versão mais aceita, Ganga Zumba acabou assassinado e Zumbi assumiu o comando. Alguns estudiosos acham que Ganga Zumba se matou, como aparece no filme "Quilombo", de Cacá Diegues. Há quem aponte radicalismo na posição de Zumbi, mas dificilmente o acordo viria a ser respeitado: o próprio Conselho Ultramarino, responsável pela política colonial, era contra esse tipo de negociação.

Ocupado com lutas contra espanhóis e holandeses, Portugal não teria dado grande importância a Palmares no início, segundo o historiador português Jorge Couto. Mas, depois que a capacidade militar de Zumbi lhes infligiu derrotas humilhantes, os colonizadores contrataram Domingos Jorge Velho, um bandeirante, para arrasar o quilombo. Foram dois anos de lutas até o cumprimento da missão, em 1694. Zumbi fugiu. Delatado, foi morto um ano depois e teve sua cabeça exposta em Recife.

Na briga contra os quilombolas, uma categoria ganhou força: a dos capitães-do-mato. Conhecedores dos sertões, muitos deles ex-escravos, eram contratados com carta branca para cometer atrocidades contra os fugidos. Essa licença fazia parte do acordo. Velho, por exemplo, mandou decapitar 200 índios que se recusaram a atacar Palmares. Mas as recompensas nem sempre eram proporcionais. A Coroa costumava dar o calote e não poupou sequer Velho.

O poder de Zumbi como símbolo de autodeterminação dos negros cresce muito quando se sabe que, no século XVII, a escravidão quase não tinha opositores dentro ou fora do Brasil. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, até 1850 não houve por aqui qualquer corrente de opinião relevante contra o tráfico. Foi quando surgiu o abolicionismo do negro José do Patrocínio e outros, movimento destinado a ver derrotadas todas as suas teses sobre a necessidade de a Abolição vir acompanhada de medidas sociais (texto adiante). Zumbi perdeu a batalha, mas acabou herói dos que, desconfiando da princesa Isabel, a heroína oficial, denunciam o presente de grego que foi o 13 de maio de 1888.


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