|
|
|
F
a s c í c u l o 5 Em geral homens rudes, de pouca instrução, os façanhudos chefes de bandeiras e entradas que vararam o Brasil de norte a sul nos séculos XVII e XVIII não estavam em condições de ser agentes irradiadores de cultura, se a conceituarmos, num nível elevado, como atuação e aperfeiçoamento intelectuais. Mas se aceitarmos uma das acepções do "Aurélio" para "cultura", que pode significar "o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores materiais e espirituais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade", então os bandeirantes foram também importantes no aspecto cultural. A coragem, a brutalidade e a pertinácia dos bandeirantes povoaram a imaginação do povo e, de quebra, de alguns literatos brasileiros. O furor antijesuítico de Basílio da Gama no poema épico "Uraguai", publicado em 1769, é considerado pelo historiador Vianna Moog uma exaltação aos bandeirantes. No poema, que relata a guerra de extermínio que Portugal e Espanha travaram contra os Sete Povos das Missões, para fazer valer o Tratado de Madri, os bandeirantes são tratados como heróis; os padres, como vilões. O que não quer dizer, como oberva o crítico Wilson Martins, que Basílio da Gama tenha louvado o massacre dos índios. "Antes o deplora", diz, "sem por isso lhe contestar nem por um momento a necessidade militar." Outro poeta, Cláudio Manuel da Costa, um dos envolvidos na Inconfidência Mineira, também trataria do tema no poema épico "Vila Rica": Ó grandes sempre, ó imortais Paulistas! No século XIX, a tendência se firmou. Em vários trabalhos de Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias, por exemplo, há referências aos desbravadores dos sertões brasileiros. Em "As minas de prata", que é considerado o melhor romance histórico de José de Alencar, aventureiros buscam jazidas do metal em terras nordestinas no início do século XVIII, envolvendo-se com índios, jesuítas e autoridades. É Fernão Dias Pais, no entanto, a grande figura inspiradora do período. Em um de seus mais belos e famosos poemas, "O caçador de esmeraldas", o parnasiano Olavo Bilac narra a morte do bandeirante paulista (a cujo nome acrescentou, por questões de métrica, o sobrenome Leme, que Fernão não usava) ao fim de uma longa expedição pelo sertão mineiro: Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento/ Chora longo, a rolar na longa voz do vento./ Mugem soturnamente as águas. O céu arde./ Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,/ Na mesma solidão e na mesma hora triste,/ À agonia do herói e à agonia da tarde./(...) Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!/ Fernão Dias Pais Leme espera a morte... Adeus! |