F a s c í c u l o   6
Glosa, sermão e profecia

Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, quase com certeza em 1633. De família abastada, em 1652 foi para Coimbra, onde se formou em direito. Começou a exercer altos cargos na Justiça real, em Lisboa e outras praças, até voltar para o Brasil em 1679, nomeado para função importante no bispado de Salvador. Durante todo esse tempo, exercitava seu talento como improvisador acompanhando-se na guitarra.

É célebre sua resposta ao desafio de glosar o esquisito mote "a mais formosa que Deus". Em instantes apresentou a solução: Com duas donzelas vim/ Ontem de uma romaria;/ Uma feia parecia,/ Outra era um serafim./ E vendo-as eu assim/ Sós, sem os amantes seus,/ Perguntei-lhes: anjos meus/ Quem vos pôs em tal estado?/ Disse a feia que o pecado!/ A mais formosa, que Deus.

Imoral, mau-caráter, rancoroso, pessimista, desmazelado - são os qualificativos que costumam ser aplicados ao homem Gregório de Matos. Por outro lado, não há quem lhe negue o dom de saber ser espontâneo, gracioso e sutil quando queria, para se tornar o maior poeta em língua portuguesa do século e o primeiro poeta lírico genuinamente brasileiro: Ardor em coração firme nascido!/ Pranto por belos olhos derramado!/ Incêndio em mares de água disfarçado!/ Rio de neve em fogo convertido!

Mas o "Boca do Inferno" podia também ser de uma crueldade feroz ao tratar dos muitos inimigos (em especial autoridades civis e religiosas), aproveitando-lhes inclusive os defeitos físicos - ’Té que a bala, que o braço te levara, / Venha segunda vez levar-te a cara - ou apelando para obscenidades ao ironizar uma autoridade com fama de sodomita, que retratou com "o rabo erguido em cortesias mudas". Especialmente na poesia satírica, Gregório de Matos acabou criando um novo idioma, ao enriquecê-lo com termos de origem indígena e africana que até então ninguém tivera coragem de usar na linguagem culta. Exemplos? Caruru, catinga, caboclo, jerimum, capim, pipoca, taquara, corcunda, cochilar, marimbondo, mocambo, quindim, senzala, xingar...

O desassombro e a irreverência do poeta lhe custaram desavenças e perseguições - por parte da Inquisição, da qual conseguiu se livrar, e por parte do Governo, que o exilou em Angola, o conhecido "armazém de penas", em 1694, por satirizar um ex-governador. Não durou muito o degredo. Um ano depois estava em Recife (a Bahia lhe ficara proibida), onde morreu em 1696, a essa altura em paz com a Igreja: um de seus mais admiráveis sonetos sacros foi escrito pouco antes de morrer (íntegra do poema adiante).

Gregório de Matos Guerra é patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras, a "cadeira da irreverência", atualmente ocupada pela escritora Lygia Fagundes Telles.

Se Gregório de Matos era o poeta das donzelas e mazelas da Bahia, seu contemporâneo Antônio Vieira (há apenas notícias vagas de que os dois se encontraram) circulava num universo mais amplo. Nascido em Portugal, em 1608, veio para o Brasil aos sete anos, entrou no colégio de jesuítas de Salvador e se ordenou em 1634, iniciando uma carreira de pregador que o faria ser comparado ao francês Bossuet, também seu contemporâneo, na excelência da oratória sacra. Voltou para Portugal, mais brasileiro do que português, em 1641, para dar início a uma agitada e dramática vida pública: enquanto cultivava os grandes sermões que iria continuar a proferir existência afora, tornou-se conselheiro do rei d. João IV, confessor da rainha Cristina da Suécia, protegido do Papa Clemente X, político, diplomata, escritor e profeta.

Vieira esteve no Maranhão pela primeira vez em 1652; voltou em 1655 e em 1661 foi expulso pelas autoridades, indignadas com a defesa que ele fazia dos índios. Era o resultado de sua antiga luta em prol das "minorias oprimidas" de Portugal e das colônias - cristãos-novos, judeus, índios e negros, cuja causa patrocinou no "Sermão da Epifania", em 1662, afirmando: "As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol. E pode haver maior inconsideração do entendimento, nem maior erro do juízo entre os homens, que cuidar eu que hei-de ser vosso senhor, porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto?!".

Tais posições francas e audazes, ao lado das extravagâncias proféticas de que era volta e meia acometido - acreditava na ressurreição de d. João IV, por exemplo - valeram-lhe uma passagem pelas masmorras da Inquisição de 1665 a 1667. Esteve a um passo da fogueira, mas foi salvo pelo Papa Clemente X. Voltou à Bahia em 1681, dois anos depois de ter publicado o primeiro volume dos sermões. Lá morreu em 1697.

Antônio Vieira - "o imperador da língua portuguesa", segundo Fernando Pessoa - teve o grande mérito de, apesar dos preciosismos verbais, ordenar e fixar a então confusa sintaxe do idioma. Os sermões, perto de 200, são o seu maior legado. A eles se juntam mais de 500 cartas, obras proféticas - "História do futuro", "Esperanças de Portugal" e "A chave dos profetas" - e alguns opúsculos sobre assuntos variados.

A forma brilhante do português de Vieira fixou normas até hoje válidas de bem falar e escrever, mesmo que parte de seu conteúdo tenha caído em descrédito. Como esse trecho da "História do futuro", que prevê a criação de um Quinto Império mundial, dominado pelos portugueses: "Portugal será o assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e fim destas maravilhas (...)".


p r i n c i p a l