F a s c í c u l o   6
Da condenação da Igreja à censura militar

Os dois maiores nomes da literatura de língua portuguesa no século XVII não passaram incólumes pela Inquisição. Antônio Vieira e Gregório de Matos andaram às voltas com o Santo Ofício, instituição da Igreja que por quase três séculos perseguiu hereges.

Antônio Vieira foi denunciado por suas pregações em favor de judeus e cristãos-novos (judeus convertidos à fé católica), imprescindíveis, segundo ele, ao desenvolvimento econômico do reino e das colônias. Pesaram ainda contra o jesuíta seus escritos messiânicos. A Igreja não engoliu profecias francamente "heréticas" como a da volta do falecido d. João IV à frente de um Quinto Império, revelação que, segundo ele, estaria nas escrituras. Convocado pelo Santo Ofício, Vieira defendeu-se com brilhantismo, mas não evitou a condenação, passando dois anos na prisão, entre 1665 e1667.

Gregório de Matos teve melhor sorte. Poeta de língua ferina que não poupava padres, fidalgos e políticos, delator de colegas e detrator dos cristãos-novos, Gregório era de família nobre e amiga dos poderosos - seu avô colaborara com a Inquisição. Denunciado em 1685 pelo promotor eclesiástico de Salvador por blasfêmia (teria lançado insinuações sexuais envolvendo Jesus) e ateísmo (era "homem solto sem modos de cristão", segundo o acusador), não foi perturbado.

Recentemente, a história se repetiu como farsa. Em 1969, o então governador da Bahia, Luís Viana Filho, que patrocinara a reedição das obras do poeta, foi intimado por um general do regime militar a explicar por que apoiara autor tão subversivo. O tempo passa. As razões da censura, não.


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