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Surge o gênio do barroco mineiro: Aleijadinho

A arquitetura mineira do século do ouro divide-se em duas fases. As igrejas construídas na primeira metade têm o chamado estilo jesuítico, fruto do Renascimento, com superfícies retangulares e ausência de decoração externa - uma versão tardia do maneirismo português. Na segunda metade, o trabalho dos mulatos brasileiros rendeu uma arquitetura de curvas, cheia de ornamentos, menos imponente e mais sensual do que o estilo jesuítico.

A transição ocorreu na construção da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto, iniciada em 1766 pelo pai de Aleijadinho e concluída pelo filho. Era o marco inaugural do barroco mineiro, com soluções técnicas e estéticas originais, que dominaria a cena até o neoclassicismo trazido pela missão francesa de 1816.

Aleijadinho nasceu - em 1730 ou 1738 - em Vila Rica, filho de um português com uma escrava. Manuel Francisco Lisboa, o pai, tinha conhecimentos de arquitetura e ornamentou algumas igrejas mineiras. Foi com ele que o pequeno Antônio despertou para a profissão, antes de estudar com construtores e artífices. Nessa época, não havia muita diferença entre entalhadores, arquitetos, pedreiros e escultores.

Antes da doença, Aleijadinho fora soldado, tivera um filho e já se tornara um artista respeitado, após trabalhar na construção e ornamentação de várias igrejas, como o Templo da Igreja de São Francisco de Assis, em Vila Rica. Sua marca ia se espalhando por Sabará, Mariana e S. José del Rei (hoje Tiradentes). Nessa época, as obras de Aleijadinho se caracterizam por um estilo rococó harmonioso, diferente das obras da segunda fase, quando, já doente, o mestre adotou um tom mais grave e, às vezes, sombrio.

Em 1777, começou a se manifestar a doença que lhe daria o apelido e uma grande amargura pelo resto da vida. Até hoje indefinida, a enfermidade deformante lhe provocou a perda dos dedos das mãos e dos pés, além de dores terríveis. O espanto provocado por sua aparência fazia com que Aleijadinho preferisse sair para o trabalho de madrugada, voltando à noite. Às vezes, a dor era tanta que o próprio Aleijadinho cortava seus dedos. Para se locomover, contava com a ajuda de um escravo.

O auge da produção de Aleijadinho ocorreu com a doença em estado adiantado. Foi quando fez as 66 estátuas em madeira dos passos da Via Sacra e - seu trabalho mais importante - os 12 profetas em pedra-sabão, seu material preferido. Todas essas peças estão no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo.

Valentim da Fonseca e Silva também era filho de um português com uma escrava. Sabe-se que nasceu em Minas Gerais, provavelmente em 1750. Aprendeu seu ofício em Portugal e seguiu para o Rio de Janeiro, onde estão suas principais obras. Embora não fosse um inovador como Aleijadinho, seus trabalhos eram tecnicamente notáveis, como as estátuas do Jardim Botânico e os chafarizes, entre eles o da Pirâmide, na Praça Quinze, sua obra mais complexa.

Valentim foi o primeiro a fundir estátuas no Brasil. Projetou e decorou o belo Passeio Público, no Rio. Várias igrejas receberam o talhe de Valentim na ornamentação, como a de São Francisco de Paula, a da Candelária e o Mosteiro de São Bento. Os dois artistas morreram na pobreza e foram enterrados em covas rasas: Valentim em 1813, no Rio, e Aleijadinho em 1814, em Minas. No epitáfio do gênio de Vila Rica, apenas a inscrição: "Pardo, solteiro".


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