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a s c í c u l o 7 Diferentemente da revolta de 1720 - que se opunha à obrigatoriedade de apresentação do ouro lavrado às Casas de Fundição - o movimento que a Coroa chamou de Inconfidência Mineira, denunciado em 1789, surgiu numa sociedade sofisticada, influenciada pela cultura histórica ocidental e pelos ideais iluministas. Em comum, essas revoltas mineiras tiveram o sentido nativista e o fato de seus respectivos cabeças (ou bodes expiatórios), Filipe dos Santos e Tiradentes, terem tido o mesmo fim: foram enforcados e esquartejados. A Conjuração era um movimento de oligarcas. Os dissidentes de Vila Rica não questionavam o fundamento jurídico da propriedade; desejavam apenas evitar a derrama. No caso de muitos inconfidentes, os motivos da participação eram bem pouco nobres: queriam se libertar de suas dívidas. Foi o caso de Joaquim Silvério dos Reis, que acabou entregando os companheiros em troca de anistia financeira. Um dos principais líderes do movimento, o cônego Luís Vieira da Silva, possuía uma das maiores bibliotecas do Brasil, com 800 volumes - 570 foram apreendidos depois de sua prisão -, incluindo obras dos "perigosos" franceses, como Voltaire e Montesquieu. Nesse grupo de elite, Tiradentes custou a obter espaço, mas acabou tornando-se pregador do movimento. Quando a rainha louca Maria I quis ver sangue, foi o escolhido (texto ao lado). Se nossos poetas árcades criticavam os excessos da nobreza e do clero, estavam longe de ser contrários à existência deles. As irônicas "Cartas chilenas", de crítica política, mostram também o reacionarismo de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) na defesa de privilégios e da intocabilidade das leis régias: Os sábios generais reprimir devem/ Do atrevido vassalo as insolências;/ Tu metes homens livres no teu tronco,/ Tu mandas castigá-lo como negros (...). Nas liras a Marília, nome poético que deu a sua prometida Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão, de 16 anos, com quem a prisão o impediria de se casar, Gonzaga (ou Dirceu) adotou um tom bem mais pastoral, de acordo com os mandamentos de sua escola: Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro,/ Fui honrado pastor da tua aldeia... E ainda: Eu sou, gentil Marília, eu sou cativo;/ Porém não me venceu a mão armada/ De ferro e de furor:/ Uma alma sobre todas elevada/ Não cede a outra força que não seja/ À tenra mão de Amor. Apesar da supremacia poética de Tomás Antônio Gonzaga sobre seu mestre, Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), este é considerado pelo crítico literário Afredo Bosi o mais acabado poeta neoclássico do Brasil. Dono de sólida cultura humanística, foi quem recebeu diploma da Arcádia Romana para fundar em Vila Rica, em 1764, a Arcádia Ultramarina, na qual adotou o nome de Glauceste Satúrnio. Homem de estado, chegou a ser secretário do governo da província, o que não o impediu de fazer em versos contundente denúncia da política colonial: O vasto empório das douradas Minas/ Por mim o falará; quanto mais finas/ Se derramam as lágrimas no imposto/ De uma capitação, clama o desgosto/ De um país decadente... Os poemas dos nossos árcades desprezam o exagero e o rebuscamento do barroco em benefício de um vocabulário simples e frases na ordem direta, sob a inspiração de clássicos como Petrarca e Virgílio. Almeida Garret, o maior nome do romantismo português, lamentou que lhes faltasse um maior sentido local, escrevendo sobre Gonzaga: "Quisera eu que, em vez de nos debuxar no Brasil cenas da Arcádia, quadros inteiramente europeus, pintasse os seus painéis com as cores do país onde os situou!". De fato, o nativismo não tem nos poetas da Inconfidência o sentido de espetáculo para estrangeiros. Vive a tensão entre a terra natal do poeta e a pátria idealizada do pastor arcádico. Mas a condição brasileira, se ainda não estava resolvida, era problematizada com clareza: Competir não pretendo/ Contigo, ó cristalino/ Tejo (...), cantava Cláudio Manuel. Santa Rita Durão, Basílio da Gama e Silva Alvarenga, todos da chamada Escola de Minas, foram outros autores que expressaram no período os traços peculiares do arcadismo brasileiro - que em muitos aspectos tinha resquícios de barroquismo, ao mesmo tempo que antecipava caminhos românticos. Os dois primeiros se consagraram com os épicos "Caramuru" e "Uraguai", respectivamente, e o último com os rondós e madrigais de "Glaura". Cláudio Manuel da Costa apareceu enforcado na prisão, num suposto suicídio, dois dias depois do primeiro interrogatório. Gonzaga e Alvarenga aguardaram o julgamento por três anos e foram condenados ao degredo na África. A desgraça política contribuiria para imortalizá-los na forma de mitos. |