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a s c í c u l o 7 Chamado de "Noel Rosa do século XVIII" pelo historiador Teófilo de Andrade e de precursor de uma "sensibilidade brasileira", pelo crítico literário Wilson Martins, Domingos Caldas Barbosa viveu entre o desprezo e a admiração. Desprezo principalmente dos literatos portugueses, que não viam com bons olhos a invasão da modinha e do atrevido lundu brasileiros na metrópole lusitana. Ambos foram levados pelo artista mulato, nascido em 1738, provavelmente no Rio de Janeiro. Por isso, Lereno, nome que adotou ao entrar na Arcádia daquele país, foi chamado pelo poeta português Bocage de "coitado orangotango" e "fusco trovador". A admiração, Lereno conquistou com suas cantigas e letras bem brasileiras: Eu tenho uma nhanhazinha/ A melhor que há nesta rua/ Não há dengo como o seu/ Nem chulice como a sua. Após a morte do artista, em 1800, seu trabalho, reunido no volume "Viola de Lereno", foi mais bem dimensionado. Na opinião do poeta Manuel Bandeira, Lereno foi o primeiro autor em que se encontra "uma poesia de sabor inteiramente nosso" . Guardas no seio/ De amor o encanto/ Mas cobres tanto/ Que não se vê. Teve uma vida agitada. Filho de um português com uma escrava, Lereno foi criado no Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio dos Jesuítas. As letras satíricas que fazia, tendo os padres como alvo, lhe renderam um castigo exemplar. Foi enviado à Colônia do Sacramento, no extremo Sul do país, em 1762, como soldado. No ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde se ordenou padre. Tornou-se o primeiro artista saído do Brasil a fazer sucesso na metrópole, onde apimentou os saraus da Corte. Cantava acompanhado do violão e seus versos, muitas vezes improvisados, eram divulgados rapidamente de boca em boca. Vê, Lereno desgraçado/ O teu destino cruel/ Amar, e morrer de amores/ Por quem não te é fiel. Nessa época de afirmação da cultura brasileira, Lereno, patrono da cadeira n.º 3 da Academia Brasileira de Música, antecipou, conforme ressalta Wilson Martins, o brilho de nossa música popular. Como "Viola de Lereno" foi bem divulgado no Nordeste, acredita-se que seu estilo de improvisação tenha influenciado os repentistas, que até hoje fazem da presença de espírito a matéria-prima de desafios musicais. |