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Imprensa, teatro, academias: um flerte com a alta cultura

O traslado da corte portuguesa começou no final de novembro de 1807. Já ao passar pela Bahia, após dois meses de atribulada viagem, o príncipe começou a dar novos rumos à vasta e desatendida colônia. Em 28 de janeiro de 1808, em Salvador, decretou a abertura dos portos do Brasil às nações amigas - um velho sonho da Inglaterra.

Quem muito lutou por essa abertura e redigiu o decreto foi um alto funcionário da Alfândega, o baiano José da Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu. Discípulo de Adam Smith, com estudos especializados em academias européias, Lisboa é considerado o inaugurador dos estudos econômicos brasileiros com a publicação, em 1804, de "Princípios de economia política". Ainda instado por ele, o monarca criou, em 23 de fevereiro, a Escola de Ciência Econômica, que seria dirigida no Rio por seu inspirador. Antes disso, no dia 18, fundara a Escola Médico-Cirúrgica da Bahia. Nasciam as primeiras escolas de ensino superior no Brasil.

A comitiva real desembarcou em 7 de março no Rio de Janeiro, àquela altura bem longe de ser uma cidade maravilhosa. Era uma aglomeração humana acanhada e insalubre de pouco mais de 50 mil habitantes, sem recursos para receber a Corte e seus agregados - um acréscimo de 15 mil pessoas, 30% da população. A mancha urbana se espalhava então das bandas da Tijuca e São Cristóvão (onde se instalaram d. João e família) até a Lapa - Catete e Botafogo eram arrabaldes afastados, onde os abastados tinham casas de campo. Faltavam moradias para os exilados.

Mobilizaram-se os poucos conventos, quartéis, hospitais e outros edifícios públicos para abrigar os recém-chegados, mas não era o bastante. Residências particulares foram requisitadas. Quem encontrasse um "P. R." (Príncipe Regente) em tinta indelével na porta sabia que estava despejado, a troco de uma indenização nem sempre justa. O carioca, já então irreverente, traduzia as tão temidas iniciais por "ponha-se na rua".

Acomodada a comitiva, agora se fazia necessário civilizar, isto é, "europeizar" o Rio a fim de lhe dar a cara daquilo que se tornara de fato: capital de um império. Logo em 1 de abril, d. João assinou alvará que permitia a instalação de quaisquer fábricas no Brasil. A Impressão Régia (origem da Imprensa Nacional de hoje) foi autorizada em maio, mês em que nasceu também a Real Academia dos Guarda-Marinhas (atual Escola Naval).

É de outubro de 1808 o alvará de funcionamento do Banco do Brasil, instituído com a prioridade de conseguir recursos para a monarquia se manter. Depois foram aparecendo a Biblioteca Real, embrião da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; a Escola de Ciências, Artes e Ofícios, nascedouro da Escola Nacional de Belas-Artes; o Jardim Botânico e sua fábrica de pólvora; e a Academia Militar, erguida no Largo de São Francisco. São Paulo ganhou uma fábrica de balas para canhões em São João de Ipanema, perto de Sorocaba. E foram criados mais hospitais, escolas, repartições públicas etc. A maioria dos novos postos de trabalho foi ocupada pelos fidalgos, fidalgotes e agregados que, ao fugir de Portugal, tinham perdido toda e qualquer fonte de renda. Institucionalizavam-se entre nós os primeiros cabides de emprego.

Com a Impressão Régia à disposição - novidade absoluta numa terra em que a tipografia era ilegal até então - logo surgiria o primeiro jornal feito no Brasil: a "Gazeta do Rio de Janeiro", que Frei Tibúrcio José da Rocha pôs pela primeira vez na rua em 10 de setembro de 1808. Era uma espécie de crônica social oficialesca, fútil e insípida da realeza (texto ao lado).

Os bons e maus exemplos frutificaram. Mais tipografias foram abertas no Rio, em Salvador e Recife. Os franceses Paul Martin e Jean Robert Bourgeois montaram duas livrarias na Corte. Mas a imprensa continuava intrepidamente áulica e palaciana. Assim eram, por exemplo, a "Idade de Ouro do Brazil", de Salvador, de 1811, e "O Patriota", do Rio, de 1813. Segundo o historiador da imprensa Nelson Werneck Sodré, o primeiro periódico brasileiro a deixar de lado a aristocracia e defender interesses populares só apareceria em 1821: o "Diário Constitucional", de Salvador.

O responsável pela sacudidela cultural no Brasil, d. João, conhecido por sua figura roliça e bonachona, tinha fama de grande devorador de frangos assados e de pouco dedicado à higiene e às luzes. O historiador pernambucano Oliveira Lima o defende, afirmando que, se não era um portento intelectual, tinha "certo gosto, até pronunciado, pelas coisas espirituais". Apreciava música sacra e sermões. Protegeu pintores e músicos, patrocinou a abertura do primeiro teatro da capital, o São João, depois São Pedro de Alcântara (no local hoje fica o Teatro João Caetano), e trouxe ao Brasil importante missão artística francesa e outra, científica, alemã.

Em 18l5, a colônia subiu de categoria, quando o governante instituiu o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Começava a amadurecer a idéia de independência. Ao contrário da esposa, a princesa Carlota Joaquina, d. João VI - segundo alguns historiadores - teria retornado com pesar a Portugal em 1821, depois de chegar muito perto de proferir um "fico". Acabou deixando o privilégio para o filho Pedro.


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