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a s c í c u l o 8 Com Debret, vinham na missão francesa Nicolas Taunay, "pintor de gênero e paisagem", o escultor Auguste Taunay, o arquiteto Grandjean de Montigny, o gravador Simon Pradier, o compositor austríaco Sigismund Neukomm, ex-aluno de Haydn, e o engenheiro mecânico François Ovide, além de vários assistentes. O grupo era liderado pelo crítico de arte Joachim Lebreton, ex-diretor da Academia de Belas Artes do Instituto de França, do qual fora demitido na qualidade de bonapartista em desgraça. Este núcleo daria forma a uma futura academia. Dali a meses, um decreto instituía a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, que no entanto só sairia do papel dez anos depois, e com outro nome: Academia e Escola Real de Belas Artes. No entanto, entre a intenção e o fato consumado estendeu-se uma rede de intrigas que envolveu até o anti-republicano cônsul francês no Rio. Os portugueses, depois de três invasões napoleônicas, andavam ressabiados com a França. Resultado: Lebreton não chegou a dirigir a Academia. Morreu em 1819, e para o seu lugar foi nomeado um obscuro pintor português, Henrique José da Silva, cujo nome só é lembrado hoje por ter tentado, a todo custo, desmerecer o grupo francês. A polêmica sobre a missão francesa não se restringiu à época. Houve quem a acusasse, mais tarde, de sufocar qualidades artísticas genuinamente brasileiras, como o barroco. Alguns tentaram provar que havia vida plástica inteligente no Brasil antes de 1816. No entanto, se tinha havido grandes artistas isolados, como o genial escultor Aleijadinho e o desenhista e arquiteto João Cândido Guillobel, é impossível falar de um movimento sistemático: do único curso regular existente até então, a Aula Régia de Desenho e Figura, criado em 1800, quase não ficaram registros. De qualquer maneira, os detratores são poucos diante dos que atestam a importância da iniciativa de d. João, "verdadeiro sonho de Renascença", segundo Oliveira Lima, autor do estudo "D. João VI no Brasil". Para o crítico Antônio Carlos Villaça, a vinda do grupo de artistas franceses teve o mérito de tirar o país do obscurantismo. "A tarefa da missão foi libertar-nos da influência artística lusitana", diz. Outro crítico de arte, Wilson Coutinho, atribui a ela a criação do sistema moderno da arte brasileira, com escolas, teóricos e salões. E Mario Baratta, um dos maiores críticos brasileiros, diz que a missão contribuiu para "interromper outros planos arcaicos e retrógrados do sistema luso-colonial". Debret, como o maior expoente da missão, teve um papel fundamental nessa tarefa. Filho de um estudioso de história natural e de arte, formado na escola neoclássica e graduado no exercício da pintura da epopéia napoleônica, Debret revelou-se, no Brasil, "um quase intimista", nas palavras de Baratta. Cumpriu bem o papel de registrar a História - são famosos trabalhos como "Aclamação de d. Pedro I" - mas as ruas do Rio tiraram-no dos salões e de seu ateliê do Catumbi. Chegou aqui aos 48 anos de idade para ficar seis anos. Estendeu-os para 15. Ao voltar a Paris, publicou o valioso material iconográfico que produzira com o título "Viagem pitoresca e histórica ao Brasil". O olhar estrangeiro sobre o país rendeu outros registros tão belos quanto importantes. Existia então uma nova concepção científica da paisagem, fruto dos estudos do naturalista alemão Alexander von Humboldt, o que estimulou grande número de viajantes a estudar a vida nos trópicos. As missões científicas se multiplicaram, todas com seus artistas encarregados de registrar plantas e animais. Numa delas, a do Barão Langsdorff, veio outro artista de peso: o alemão Johann Moritz Rugendas. Rugendas tinha 19 anos e acabara de sair da Academia de Belas Artes de Munique quando desembarcou no Rio, em 1821. Desentendeu-se logo com Langsdorff e decidiu seguir carreira solo no país. Como fruto de seus pouco mais de quatro anos de andanças, publicou um livro, "Viagem pitoresca ao Brasil" (1835), editado em fascículos na Alemanha. Teve a oportunidade de se encontrar com Debret no Rio, em 1824, quando trocou com o colega francês impressões do país e opiniões sobre os respectivos trabalhos. O artista era uma figura fundamental, e a expedição Langsdorff não poderia prescindir dela. Dois jovens franceses, Adrien Taunay, de 19 anos, filho do Nicolas Taunay que viera com a missão francesa, e Hercule Florence, de 20 anos, substituíram Rugendas, rabiscando plantas, animais e insetos em centenas de pranchas. O Brasil era um paraíso de descobertas aguardando biólogos, zoólogos, naturalistas e estudiosos em geral. Uma das missões científicas mais importantes foi a austríaca, de 1817. Organizada para celebrar as núpcias da arquiduquesa Leopoldina, da Áustria, com o príncipe d. Pedro, gerou enorme volume de informações. Como a "Flora brasiliensis", obra que teve a colaboração de 65 botânicos. Para não fugir à regra, um artista talentoso, Thomas Ender, deixou mais de mil desenhos de temas brasileiros. Muitos outros passariam por aqui, produzindo, só na primeira metade do século XIX, mais de cem diários de viagens e milhares de desenhos - documentos inestimáveis para a cultura e a História do país. |